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01-matthew Henry - Pentatuco

01-Matthew Henry - Pentatuco

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HENRY C B íblico A n t ig o T estam ento o m en tá rio G ên esis a D e u te r o n ô m io E D I Ç Ã O C O M P L E T A Matthew Henry Ia Edição Tradução Degmar Ribas Júnior C O M E N T Á R I O B í BL ICO A n t ig o T estam ento G ênesis a D e u t e r o n ô m io E D i t : Ã o C o m p I. I-: t a CP/D Rio de Janeiro 2010 Todos os direitos reservados. Copyright © 2008 para a língua portuguesa da Casa Publicadora das Assembléias de Deus. Aprovado pelo Conselho de Doutrina. Matthew Henry’s Commentary on the whole Bible - Volume I - Genesis to Deuteronomy. Domínio público. Tradução deste volume: Degmar Ribas Júnior Preparação de originais e revisão: Anderson Grangeão da Costa, Miriam Anna Liborio, Paulo José Beníc-io, Tatiana da Costa, Esdras Costa Bentho Capa: Rafael Paixão Projeto gráfico: Joede Bezerra Editoração: Alexandre Soares CDD: 220 - Comentário bíblico ISBN: 978-85-263-1014-8 Para maiores informações sobre livros, revistas, periódicos e os últimos lançamentos da CPAD, visite nosso site: http://www.cpad.com.br Casa Publicadora das Assembléias de Deus Caixa Postal 331 20001-970, Rio de Janeiro, RJ, Brasil Impresso no Brasil Ia edição/2010 EDIÇÃO BRASILEIRA Direção-Geral Ronaldo Rodrigues de Souza Diretor-Executivo da CPAD Supervisão editorial Claudionor de Andrade Gerente de Publicações Coordenação editorial Isael de Araujo Chefe do Setor de Bíblias e Obras Especiais P r e fá c io A e d iç ã o co m p le ta d o c o m e n tá rio b íb lico de MATTHEW HENRY A Casa Publicadora das Assembléias de Deus vem a público consagrar ao Senhor Jesus e dedicar aos estudiosos da Bíblia a edição completa do Comentário Bíblico de Matthew Henry. Sem dúvida, um dos maiores clássicos das letras evangélicas. Inicialmente, lançamos uma edição compacta da referida obra, que logo se esgotou. Tendo em vista o interesse de nossos leitores, vimo-nos constrangidos a editar a obra completa; primeiro, os volumes referentes ao Novo Testa­ mento; em seguida, os referentes ao Antigo. Como levar adiante uma obra tão vultosa? A tradução de Matthew Henry representou um de nossos maiores desafios, não somente pela copiosidade do texto como também pela linguagem utilizada pelo autor - um inglês clas­ sicamente shakespeareano. Até mesmo um inglês ver-se-ia em dificuldades para ler uma linguagem que, posto que bela, já não é utilizada. Nossa equipe, contudo, porfiou por apresentar uma linguagem clara e facilmente assimilável para os falantes do português, sendo sempre fiel ao pensamento e ao estilo do autor. Afinal, como ressaltava Buffon, o estilo é o homem; se não preservarmos o estilo do autor, como este será admirado por seus leitores. Em seu monumental comentário das Sagradas Escrituras, mostra o irmão Henry uma erudição singular; apro­ fundando-se no texto bíblico, logra trazer à tona os mais preciosos tesouros dos profetas e apóstolos cle Nosso Se­ nhor. Longe dele, porém, a erudição pela erudição; nele, a erudição revela-se na piedade de uma vida integralmente santificada ao serviço do Mestre. Matthew Henry nasceu na Inglaterra, em IS de outubro de 1662. Sendo seu pai um ministro do evangelho, inferese haja Matthew entrado em contato com as Sagradas Escrituras ainda bastante tenro. Não precisamos discorrer acerca da austeridade do lar em que ele foi educado, nem sobre as regras que os meninos britânicos eram constran­ gidos a observar. Isso, porém, não o traumatizou; induziu-o a uma vida de disciplina, correção e zelo. Já separado para o ministério pastoral, o irmão Henry jamais descurou de suas obrigações. Insuspeitos depoi­ mentos descrevem-no como um obreiro zeloso, santo, irrepreensível. É lembrado pelos contemporâneos como um pastor extremamente afetuoso. Em 1704, põe-se a escrever o seu comentário das Sagradas Escrituras. Nesta tarefa, consagra os últimos dez anos de sua vida. Ainda não vira a sua obra publicada quando, em 1714, aprouve a Deus recolher o seu servo às mansões celestes. Desde então, Matthew Henry tornou-se uma referência obrigatória no campo do comentário bíblico. Muitos são os eruditos que se debruçam sobre o exaustivo trabalho de Matthew Henry. Esta obra, porém, não se destina apenas ao especialista nas Sagradas Escrituras. Matthew Henry destina-se a todo o povo de Deus. Nossa sincera oração é que Deus faça surgir, através desta obra, um compromisso maior com a sua Palavra. Os editores V id a e o b r a s d e m a t t h e w h en r y Matthew Henry foi o segundo filho de Philip Henry, nascido prematuramente em 18 de outubro de 1662, em Bro­ ad Oak, na região da capela de Iscoyd, Flintshire, no País de Gales. Reino Unido. Quando criança, Henry era muito doente, porém um tanto precoce na aprendizagem. Seu primeiro tutor foi William Turner, mas muito de sua educação na infância ele recebeu de seu pai Philip. Este havia sido banido pela Lei Britânica da Igualdade, em 1662. Como a maioria de seus colegas de sofrimento, Philip possuía poucos recursos, mas o suficiente para dar ao seu filho Henry uma boa educação. Em 21 de julho de 1680. o jovem Henrv ingressou na academia de Thomas Doolittle, na época em Islington, e permaneceu ali até 1682. Em -30 de outubro de 168-3, logo após atingir a maioridade, Henry se mudou para a propriedade rural em Bronington, Flintshire, herdada de Daniel Matthews, seu avô materno. Aconselhado por Rowland Hunt, de Boreatton, Shropshire, começou a estudar Direito e foi aprovado na Gray's Inn, em 6 de maio de 168-5. Logo desistiu dos estudos das leis, para se dedicar à Teologia, como integrante dos não-conformistas*. Em junho de 1686, começou a pregar para os moradores da região em que seu pai vivia. Por causa de algumas questões de negócios, Henry foi para Chester, em janeiro de 1687. Enquanto permaneceu ali, pregou em casas par­ ticulares e solicitaram que ele se tornasse o pastor dos fiéis daquela região. Henry concordou por algum tempo e depois voltou para Gray’s Inn. Em 9 de maio de 1687, Henry foi reservadamente ordenado ministro presbiteriano em Londres por seis pastores, na casa de Richard Steel. Começou seu ministério em Chester, no dia 2 de junho de 1687. Em poucos anos, a quanti­ dade de seus ouvintes chegou a 250. Em setembro de 1687, o rei Tiago II visitou Chester, quando os não-conformistas fizeram um discurso de agradecimento “pela tranqüilidade e liberdade que eles gozavam sob sua proteção”. Uma nova constituição foi garantida à cidade (a antiga havia sido anulada em 1684 ), dando poder à coroa para substituir e nomear magistrados. Por volta de agosto de 1688, emissários do rei solicitaram-no que nomeasse magistrados. Ele não concordou com isso. A nova constituição foi substituída por outra, na qual os nomes de todos os não-conformistas de renome foram impostos à administração da cidade. Estes, no entanto, se recusaram a trabalhar e exigiram o re­ torno da constituição anterior, cujo restabelecimento demorou bastante. Um templo foi erguido por Henry em Crook Lane (atual Crook Street). A construção foi iniciada em setembro de 1699, e a inauguração aconteceu em 8 de agosto de 1700. Em 1706, foi construída uma galeria para acomodar uma outra congregação que se havia unido a Henry. Sua audiência agora aumentara para 350 pessoas. Além das ativida­ des congregacionais (incluindo uma palestra semanal), ele realizava cultos mensais em cinco vilas nas redondezas da cidade, e regularmente pregava aos prisioneiros num castelo. Henry foi um membro ativo da união de ministros de Cheshire, fundada em Macclesfeld, em março de 1691, sob as bases da “happy union” de Londres. Achou tempo tam­ bém para labutar como comentarista da Bíblia, o que deu origem ao seu sistema de pregação expositiva. Estudava num quiosque de dois andares nos fundos de sua residência em Bolland Court, White Friars, Chester. Henry recusou as propostas para pastorear igrejas em Hackney e Salters’ Hall, em 1699 e 1702 respectivamente; também, não aceitou as de Manchester (1705) e Silver Street e Old Jewry, Londres (1708). Em 1710, foi novamente convidado pela igreja de Hackney, e concordou em se mudar, embora não imediatamente. Em -3 de junho de 1711, estava ele em Londres e era a primeira ceia em que ficara ausente de Chester em 24 anos. Daniel Williams, D.D., cuja escolha é datada de 26 de junho de 1711, nomeou-o como um dos primeiros administradores de suas instituições educacionais, mas Henry morreu antes de assumir o cargo. O último sermão de Henry foi pregado em Chester, no dia 11 de maio de 1712. Seu ministério em Mare Street, Hackney, começou em 18 de maio de 1712. Em maio de 1714, ele visitou novamente Cheshire. Henry se casou primeiro, em 19 de julho de 1687, com Katherine, filha única de Samuel Hardware, de Bromborough, Cheshire; ela morreu em 14 de fevereiro de 1689, aos 25 anos, durante o parto de sua filha Katherine. Depois, Henry contraiu segundo casamento, em S de julho de 1690, com Mary, filha de Robert Warburton, de Hefferstone Grange. Com Mary, ele teve um filho, Philip (nascido em 1700, que tomou o sobrenome Warburton, foi membro do Parlamento representando Chester, a partir de 1742, e morreu solteiro, em 16 de agosto de 1760). Nasceram-lhe ainda oito filhas, três das quais morreram na infância. Sua filha, Esther (nascida em 1694), foi a mãe de Charles Bulkley. Em novembro de 1704, Henry começou a escrever a Exposição do Antigo e Novo Testamentos, que corresponde a este famoso comentário em seis volumes, o qual não tem sido superado até hoje. O primeiro volume foi publicado em 1708; este e quatro outros volumes trouxeram o seu comentário até o fim dos Evangelhos, publicados numa edição uniforme em 1710. Antes de sua morte, ele concluiu o comentário de Atos para o sexto volume, não publicado. Após sua morte, trinta pastores não-conformistas prepararam os comentários das Epístolas e de Apocalipse. Os nomes desses não-conformistas foram citados por John Evans (1767-1827) na Protestant Dissenters’ Magazine, em 1797, p. 472, extraídos de um memorando de Isaac Watts. A edição completa de 1811, com quatro tomos, seis volumes, edita­ dos por George Burder e John Hughes, tem assuntos adicionais extraídos de manuscritos de Henry. O comentário de Henry é prático e devocional, mais que uma obra de crítica textual, mantendo um correto bom senso, apresentando um pensamento incomum, alto tom moral, simplicidade e aplicação prática, combinados com VIDA E OBRAS DE MATTHEW HENRY X uma sólida fluência do estilo inglês. Seus comentários são fundamentalmente exegéticos, tratando o texto bíblico como ele está apresentado. O primeiro objetivo de Henry era a explicação, e não a tradução ou a pesquisa textual. Tudo isto fez de seu comentário uma obra monumental. Até hoje, é consultado por estudantes e pregadores, e é citado em centenas de outros comentários bíblicos. Suas outras obras, excluindo sermões, são: 1. A Brief Inquiry into... Schism (1689); 2. Memoirs of... Philip Henry (1696); 3. A Scripture Catechism (1702); 4. Family Hymns (1702); 5. A Plain Catechism (1702); 6. The Communicant’s Companion (1704); 7. Four Discourses (1705); S. A Method for Prayer (1710); 9. Directions for Daily Communion (1712); 10. A Short Account of the Life... of Lieutenant Illidge (1714). Em 1726, foi publicada uma coletânea sob o título Works, e, em 1809, surgiu a Miscellaneous Writings, editada por Samuel Palmer, e reeditada em 1830 por Sir J. B. Williams, contendo sermões adicionais extraídos dos manus­ critos de Henry. Henry morreu de apoplexia, em Nantwich, na casa do pastor não-conformista Joseph Mottershead, em 22 de junho de 1714, durante uma viagem de Chester para Londres. Foi sepultado na capela da Trinity Church, em Ches­ ter. Seu funeral teve a assistência de oito pastores da cidade. Os sermões da cerimônia fúnebre foram pregados, em Chester, por Peter Withington e John Gardner; em Londres, por Daniel Williams, William Tong, Isaac Bates e John Reynolds; os últimos quatro foram publicados. Após a sua morte, a igreja em Hackney se dividiu em duas. Seu retrato está na biblioteca do Dr. William, em Gordon Square, Londres, e foi pintado por J. Jenkins (1828); a es­ tampa de Vertue é de um croqui desenhado a bico de pena e feito numa época em que Henry estava muito corpulento. Acima de tudo, Matthew Henry é lembrado como um pastor afetuoso, amante apaixonado da Palavra de Deus e homem de grande integridade pessoal que tem deixado a sua marca nos corações de inúmeros cristãos que anelam compreender mais profundamente as riquezas das Escrituras. P r e f á c io Embora seja a minha maior preocupação ser capaz de causar uma impressão favorável a Deus e à minha própria consciência, talvez se espere que eu também dê ao mundo alguma explicação sobre esta tarefa ousada que tentarei desempenhar com toda a simplicidade. E o farei como alguém que crê que, se os homens devem prestar contas no grande dia por cada palavra vã e ociosa que pronunciam, muito mais por cada linha que escrevem. E assim, pode ser útil, em primeiro lugar, estabelecer aqueles princípios grandes e sagrados sobre os quais eu me fir­ mo, e pelos quais sou governado, nesta tentativa de explicar e desenvolver estas porções das Sagradas Escrituras. Desejo oferecer este esforço, com humildade, ao serviço daqueles que concordam comigo nestes seis princípios (e só espero que sejam aceitáveis a eles): Que a religião é a única coisa útil. E em conhecer, amar e temei' a Deus, o nosso Criador, e em todos os casos de Ihomem. afeição devota e de boa conversa guardar os seus mandamentos (Ec 12.13), reside, sem dúvida, o bem estar do E que isto é o mais importante para cada um de nós. Isto o mais sábio dos homens, após uma análise íntima e abundante em seu Eclesiastes, estabelece como a conclusão de toda a sua matéria (o Quocl erat demonstrandum de todo o seu discurso). Portanto, entendo que posso estabelecer isto como um postulatuni, e como o fundamento de todo este assunto. E necessário para toda a humanidade, em geral, que haja religião no mundo, pois ela é absoluta­ mente necessária para a preservação da honra da natureza humana, e, não menos que isto, para a preservação da ordem das sociedades humanas. E necessário que cada um de nós em particular seja religioso. De outra forma, não poderemos corresponder à finalidade de nossa criação, obter o favor do nosso Criador, tranqüilizarmo-nos agora, ou sermos felizes para sempre. Um homem que recebe os poderes da razão, pelos quais ele é capaz de conhecer, servir, glorificar e desfrutar o seu Criador, mas que vive sem Deus no mundo, é certamente o mais desprezível e o mais miserável animal debaixo do sol. n Que a revelação divina é necessária para a verdadeira religião, para a sua existência e apoio. Que a fé, sem a qual é impossível agradar a Deus, não pode chegar a nenhuma perfeição vendo as obras de Deus, mas deve vir através de se ouvir a Palavra de Deus, Romanos 10.17. A alma racional, uma vez que recebeu o choque fa pela queda, não pode ter ou manter apenas o olhar no grande autor de sua existência, observá-lo, esperar por E algo que é tanto o seu dever como felicidade, sem alguma descoberta sobrenatural feita por si mesmo a respe de si mesmo, e de seu pensamento e vontade. A luz natural, sem dúvida, é de excelente utilidade, até certo ponto. Mas é necessário que haja uma revelação divina, para corrigir os seus erros e compensar as suas deficiências, para nos ajudar onde a luz da natureza nos deixa na incerteza, especialmente na maneira e método da recuperação do homem de seu estado caído e na sua restauração ao favor do seu Criador. Do qual ele só pode ter a sua própria consciência da perda, descobrindo, por triste experiência, o seu próprio estado presente de pecado e miséria. A nossa própria razão nos mostra a ferida, mas nada menos que a revelação divina pode descobrir para nós um re­ médio em que possamos confiar. A situação e o caráter das nações da terra, as quais não possuíam outro guia em suas devoções além da luz natural, com alguns resquícios da instituição divina de sacrifícios recebidos pela tradição de seus pais, mostram claramente o quanto a revelação divina é necessária para a subsistência da religião. Porque aqueles que não tinham a Palavra de Deus, logo perderam o próprio Deus, tornaram-se vãos em suas imaginações a respeito dele, e grandemente vis e absurdos em suas adorações e em seus prognósticos. É verdade que os judeus, que tiveram o benefício da revelação divina, se perderam às vezes na idolatria e admitiram corrupções muito gros­ seiras. No entanto, com a ajuda da lei e dos profetas, eles se recuperaram e se corrigiram. Ao passo que a melhor e mais admirada filosofia dos pagãos jamais pôde fazer qualquer coisa em benefício da cura da idolatria vulgar, ou, tanto quanto é oferecida, remover quaisquer daqueles ritos bárbaros e ridículos de sua religião, que eram os escândalos e reprovações da natureza humana. Que os homens, portanto, finjam o que desejarem fingir que são, quer deístas, quer ateus, ou qualquer outra coisa que desejem sei'. E aqueles que, sob o pretexto de admirar os oráculos da razão, colocam de lado como inúteis os oráculos de Deus, diminuem os fundamentos de toda a religião, e fazem o que podem para cortar toda a comunicação entre o homem e o seu Criador, considerando este ser tão nobre como se estivesse no mesmo nível dos animais que perecem. m Que a revelação divina agora não deve ser encontrada nem esperada em nenhum lugar além das Escrituras do Antigo e do Novo Testamento. E ali ela está. É verdade, houve religião e revelação divina antes que houvesse qualquer palavra escrita. Mas argumentar, a partir daí, que as Escrituras não são mais necessárias, absurdo quanto seria argumentar que o mundo poderia muito bem passar sem o sol, porque na criação o mundo três dias de luz antes de o sol ser criado. As revelações divinas, quando dadas primeiro, foram confirmadas por v milagres e profecias. Mas deveriam ser transmitidas para regiões distantes e gerações futuras, com suas provas e evidências, através da escrita, o modo mais seguro de transmissão, e através da qual o conhecimento das outras coi­ sas memoráveis é preservado e propagado. Temos motivos para pensar que até mesmo os dez mandamentos, embora PREFÁCIO XII pronunciados com tanta solenidade no Monte Sinai, teriam sido, muito antes disso, perdidos e esquecidos, se tivessem sido entregues somente pela tradição, e nunca tivessem sido registrados pela escrita. Aquilo que está escrito é que permanece. A Escritura certamente não está compilada como um sistema ou corpo metódico da Teologia, secundam arfem - de acordo com as regras da cvrfe, mas através de diversas formas de escrita (histórias, leis, profecias, can­ ções, epístolas, e até mesmo provérbios), várias vezes, e por várias mãos, conforme a Infinita Sabedoria julgou que seria adequado. O fim é efetivamente obtido. Estas coisas são claramente esperadas e dadas como certas, e tudo isto é expressamente revelado e tornado conhecido quando, sendo tudo reunido, somos suficientemente informados de todas as verdades e das leis da santa religião em que devemos crer, e assim podemos ser governados por elas. Pode­ mos ter a certeza de que toda a Escritura é dada por inspiração de Deus (2 Tm 3.16), e que homens santos falaram e escreveram ao serem movidos pelo Espírito Santo (2 Pe 1.21). Mas quem ousa fingir descrever esta inspiração? Ninguém conhece o caminho do Espírito, nem como os pensamentos foram formados no coração daquele que foi inspirado, assim como também não conhecemos o caminho da alma dentro do corpo, ou como os ossos são forma­ dos no ventre daquela que está grávida, Eclesiastes 11.5. Mas podemos estar certos de que o bendito Espírito não só preparou e qualificou habitualmente os escritores das Escrituras para este serviço, e colocou em seus corações o que escrever, mas igualmente ajudou os seus entendimentos e as suas memórias para registrarem as coisas de que eles mesmos tinham conhecimento, e que eficazmente impediu erros e enganos. E aquilo que eles não poderiam saber exceto pela revelação (como, por exemplo, Gênesis 1 e João 1), o mesmo bendito Espírito lhes informou de forma clara e satisfatória. E, sem dúvida, tanto quanto era necessário para o fim pretendido, eles foram guiados pelo Espírito, tanto na linguagem como na expressão. Porque houve palavras que o Espírito Santo lhes ensinou (1 Co 2.13). E, assim, o Senhor Deus disse ao profeta: Dize-lhe as minhas palavras, Ezequiel 3.4. No entanto, não é pertinente para nós, que elaboramos o estatuto, ter a liberdade que Ele tomou ao usar as suas próprias palavras. Quando ela é ratificada, torna-se o ato do legislador, e obriga o sujeito a observar a sua verdadeira intenção e o seu verdadeiro significado. A Escritura prova a sua autoridade e origem divinas tanto para os sábios como para os ignorantes. Mesmo para os ignorantes e para a parte menos pensante da humani­ dade, a Escritura é abundantemente comprovada pelos muitos milagres incontestáveis operados por Moisés e pelos profetas, pelo Senhor Jesus Cristo e seus apóstolos, para a confirmação de suas verdades e leis. Seria uma reprovação intolerável para a Verdade eterna, supor que este selo divino afixado seja uma mentira. Além disso, para os mais sábios e pensadores, para os mais atenciosos e contemplativos, a Escritura é recomendável através daquelas excelências inatas que são características auto-evidentes de sua origem divina. Se olharmos cuidadosamente, logo estaremos cientes da imagem e da inscrição de Deus sobre ela. Uma mente corretamente disposta por uma sujeição humilde e sincera ao seu Criador, irá descobrir facilmente a imagem da sabedoria de Deus nas admiráveis profundezas de seus mistérios. A imagem de sua soberania na majestade superior de seu estilo. A imagem de sua unidade na maravilhosa harmonia e simetria de todas as suas partes. A imagem de sua santidade na pureza imaculada de seus preceitos. E a imagem de sua bondade na tendência manifestada do todo para o bem-estar e felicidade da humanidade em ambos os mundos. Em resumo, é uma obra de autoria divina. E tanto ateus como deístas, apesar de suas pretensões vangloriosas de raciocinarem como se a sabedoria de­ vesse morrer com eles, se expõem aos absurdos mais gritantes e desprezíveis que se pode imaginar. Porque, se as Escrituras não forem a Palavra de Deus, então não há nenhuma revelação divina agora no mundo, nenhuma descoberta do pensamento de Deus com relação ao nosso dever e felicidade. De forma que, se um homem estiver desejoso e solícito para fazer a vontade do seu Criador, ele deve, por falta de recursos, perecer na sua ignorân­ cia, uma vez que não há livro além desse que se comprometa a dizer-lhe o que fazer - uma conseqüência que de modo algum pode ser conciliada com a idéia que temos da bondade divina. E (o que não é menos absurdo), se as Escrituras não forem realmente revelação divina, elas são certamente uma grande fraude que foi colocada no mundo. Mas não temos motivos para pensar nelas dessa forma. Porque homens maus jamais poderiam escrever um livro tão bom, nem Satanás teria tamanha astúcia ao ajudar a expulsar a si mesmo. Ao mesmo tempo, os homens bons jamais fariam uma coisa tão perversa quanto falsificar o claro selo do céu e afixá-lo para a sua própria incriminação, por mais justo que isto pudesse parecer. Não, os homens não seriam capazes disto, e as Escrituras jamais trariam palavras de homens iníquos e maus. T T T Que as Escrituras do Antigo e do Novo Testamento foram intencionalmente criadas para o nosso aprendiJi V zado. Elas devem ter sido uma revelação divina para aqueles em cujas mãos foram colocadas primeiro. No entanto, nós, a esta distância, não nos preocupamos com elas. Mas é certo que elas tinham o propósito de serem de uso e obrigação universal, e perpétuas para todas as pessoas, em todos os lugares e em todas as eras, para todos aqueles que tenham o conhecimento delas, até mesmo sobre nós, a quem estas preciosas Escrituras chegaram, sim, a nós que estávamos nos confins da terra. Veja Romanos 15.4. Embora não estejamos sob a lei como em uma aliança de inocência (porque então, sendo culpados, deveríamos inevitavelmente perecer sob a sua maldição), este não é um estatuto antiquado, mas uma firme declaração da vontade de Deus a respeito do bem e do mal, do pecado e do dever, e a sua reivindicação de obediência está em sua força e virtude totais. E a nós é anunciado o Evangelho da lei cerimonial, assim como àqueles a quem ele foi primeiramente entregue, e muito mais claramente, Hebreus 4.2. As histórias do Antigo Testamento foram escritas para a nossa admoestação e direção (1 Co 10.11), e não para a informação e diversão dos curiosos. Os profetas, embora tenham morrido há muito tempo, profetizam novamente através de seus escritos, diante de povos e nações (Ap 10.11), e as exortações de Salomão nos falam como a filhos. XIII PREFÁCIO O assunto da Sagrada Escritura é universal e perpétuo, e, portanto, do interesse de todas as pessoas, em todas as partes do mundo. Seus objetivos são: 1. Revitalizar a lei universal e perpétua da natureza, cujos próprios resquícios (ou reminiscências) em consciência natural nos dão pistas de que deveremos receber uma revelação ainda mais clara (a saber, o Evangelho). 2. Revelar a lei universal e perpétua da graça, que traz a maravilhosa beneficência de Deus aos filhos dos homens, colocando-os, assim, em uma condição melhor do que a dos demônios, trazendo fortes razões para que tenhamos esperança. A autoridade divina que neste livro ordena a nossa crença e obediência é, da mesma forma, universal e perpétua, e não conhece limites, seja de tempo ou de lugar. Segue-se, portanto, que toda nação e toda época para as quais estes escritos sagrados são transmitidos estão destinados a recebê-los com a mesma vene­ ração e consideração piedosa que eles ordenaram em sua primeira entrada. Embora Deus, nestes últimos dias, nos tenha falado pelo Filho, não devemos pensar que aquilo que Ele falou muitas vezes e de muitas maneiras aos pais (Hb 1.1) não sirva para nós, ou que o Antigo Testamento seja um almanaque obsoleto. Não, nós somos edificados sobre 0 fundamento dos profetas, assim como dos apóstolos sendo o próprio Cristo a pedra de esquina (Ef 2.20), em quem ambos os lados deste edifício abençoado se encontram e são unidos. Eles eram os antigos registros da igreja judaica, aos quais Cristo e os seus apóstolos, com muita freqüência se referiram, recorreram e nos ordenaram a buscar e a dar atenção. Os pregadores do Evangelho, como os juizes de Josafá, onde quer que fossem, tinham este livro da lei consigo, e consideravam grande vantagem para si mesmos falar com aqueles que conheciam a lei, Romanos 7.1. Esta célebre tradução do Antigo Testamento na língua grega pelos Setenta, entre 200 e 300 anos antes do nascimento de Cristo, foi para as nações um feliz preparativo para melhor proveito do Evangelho, divulgando o conhecimento da lei. Porque, assim como o Novo Testamento expressa e completa o Antigo, e assim o torna mais útil a nós agora do que foi para a igreja judaica, também o Antigo Testamento confirma e ilustra o Novo, e nos mostra Jesus Cristo como Aquele que é o mesmo ontem, hoje, e o será para sempre. as Sagradas Escrituras não foram criadas apenas para o nosso aprendizado, mas são a firme norma esta­ V Que belecida para a nossa fé e prática, pela qual devemos ser governados agora e julgados em breve. Não é apenas um livro de uso genérico (assim como podem ser os escritos de homens bons e sábios), mas é de autoridade soberana e dominante, o livro do estatuto do Reino de Deus. Nosso juramento de lealdade ao Senhor, como o nosso Senhor supremo, nos liga à observância a este precioso livro. Quer estejamos dispostos a ouvi-lo ou a evitá-lo, devemos nos considerar informados de que este é o oráculo que devemos consultar e pelo qual tudo em nossa vida deve ser deter­ minado, a pedra de toque à qual devemos recorrer e pela qual devemos testar as doutrinas. A Palavra do Senhor é a regra que devemos ter sempre em vista, pela qual devemos, em todas as coisas, ordenar os nossos sentimentos e con­ versas. E nelas que devemos buscar os padrões e medidas que aplicaremos à nossa vida. Este é o testemunho e esta é a lei que está atada e selada entre os discípulos. E se não falarmos ou agirmos de acordo com esta palavra, significa que não há luz em nós, Isaías 8.16,20. A criação da luz dentro das nossas regras e procedimentos (que, por natureza, consiste apenas de trevas) é, pela graça, apenas uma cópia da obra escrita que dá forma à nossa vida. Por esta razão, não podemos agir como se estivéssemos colocando o juiz acima da lei. A criação das tradições da igreja que rivalizam com as Escrituras também é altamente prejudicial. É como criar um relógio, que pode ser adiantado ou atrasado de acordo com os interesses daqueles que o vêm. Como se algum mortal fosse capaz de corrigir o sol, aquele medidor fiel de horas e dias. Estes são absurdos que, uma vez admitidos, passam a ser seguidos por milhares de pessoas, trazendo os resultados mais desastrosos que temos visto. Experiências absolutamente tristes. 1 T T Que, portanto, é dever de todo cristão buscar diligentemente as Escrituras, e o ofício dos ministros é guiá-lo V X e ajudá-lo neste assunto. Por mais que este livro dos livros em si seja útil, ele não será de nenhuma utilidade para nós se não nos familiarizarmos com ele, lendo-o diariamente, e meditando nele, para que possamos entender o pensamento de Deus que está expresso nele, e possamos aplicar o que entendemos a nós mesmos para a nossa direção, censura e consolação, quando houver ocasião. O caráter do homem santo e feliz faz com que o seu prazer esteja na lei do Senhor. E, como uma evidência disso, ele conversa com a lei como com seu companheiro constante, e se aconselha com ela como faria com o seu conselheiro mais sábio e confiável, porque nesta lei ele medita de dia e de noite, Salmos 1.2. Cabe a nós estarmos preparados nas Escrituras, e alcançarmos isto pela leitura constante e pela observação cuidadosa, especialmente pela oração fervorosa a Deus pelo dom prometido do Espírito Santo, cujo oficio é trazer à nossa lembrança aquilo que Cristo nos disse (Jo 14.26), para que possamos ter uma ou outra boa palavra à mão para o nosso uso quando nos dirigirmos a Deus e em nossas conversas com os homens, na nossa resistência a Satanás e na nossa comunhão com os nossos próprios corações. E também para que possamos ser capazes, como bons chefes de família, de tirar deste tesouro coisas novas e antigas, para a consideração e edificação tanto de nós mesmos como dos outros. Isto tornará o homem de Deus perfeito neste mundo, completando-o tanto como cristão quanto como ministro, preparando-o completamente para toda boa obra, 2 Timóteo 3.17. Cabe a nós também sermos poderosos nas Escrituras, como Apoio foi (At 18.24). Isto é, estarmos completamente familiarizados com o verdadeiro propósito e significado delas, para que possamos entender o que lemos, e para que possamos não interpretar mal ou aplicar mal a Escritura, mas, pelo bendito Espírito, ser guiados em toda a verdade (Jo 16.13). Que também possamos ser firmes e perseverantes na fé e no amor, dedicando cada parte da Escritura ao uso que lhe foi destinado. A letra, seja da lei ou do Evangelho, tem pouco proveito sem o Espírito. Os ministros de Cristo são aqui ministros do Espírito para o bem da igreja. A sua tarefa é abrir e aplicar as Escrituras. Então, eles devem alcançar o seu conhecimento, depois suas doutrinas, devoções, direções e admoestações, e, por conseguinte, a sua própria linguagem e expressão. PREFÁCIO XIV Explicar as Escrituras era o modo mais usual de pregar nos primeiros e mais puros séculos da igreja. O que os levitas têm a fazer além de ensinar a lei a Jacó (Dt 83.10)? Eles não devem apenas ler a lei, mas dar o sentido, e fazê-los en­ tender a leitura, Neemias 8.8. Como é que farão isto exceto se alguns homens os guiarem? Atos 8.31. Assim como os ministros dificilmente receberiam algum crédito sem o apoio da Bíblia, a Bíblia dificilmente seria entendida sem que os ministros a explicassem. Mas aqueles que, tendo a ambos, perecerem na ignorância e na incredulidade, levarão o seu sangue sobre a sua própria cabeça. Sendo, portanto, totalmente persuadidos destas coisas, concluo que qualquer que seja a ajuda oferecida a bons cristãos ao buscarem as Escrituras, este é um serviço real feito para a glória de Deus, e em benefício dos interesses de seu reino entre os homens. E é isto que me levou a esta tarefa, da qual tenho me ocupado em fraqueza, em temor, e em grande tremor (1 Co 2.3), para que não seja achado me exercitando em coisas que me exaltem, para que uma tarefa tão louvável não venha a sofrer o prejuízo de um tratamento pouco hábil. Se alguém desejar saber como uma pessoa tão insignificante e obscura como eu - que no aprendizado, juízo, felicidade de expressão, e em todas as van­ tagens para tal serviço, sou menor que o menor de todos os servos do meu Mestre - veio a se aventurar em uma obra tão grande, não posso dar nenhuma outra explicação além dessa: Há muito tempo, tem sido a minha prática poupar qualquer tempo em meu estudo, a partir das constantes preparações para o púlpito, para gastar o tempo redigindo exposições sobre algumas partes do Novo Testamento, nem tanto para o meu próprio uso, mas puramente para o meu entretenimento, porque eu já não sabia como empregar os meus pensamentos e o meu tempo para a minha própria satisfação. Trahit sua quemque voluptas - todo homem que estuda tem algum estudo preferido, o qual é o seu deleite acima de- qualquer outro. E este é o meu. Este aprendizado foi a minha felicidade desde criança. Sei1in­ struído por meu sempre honrado pai, cuja memória deve ser muito querida e preciosa para mim. Ele freqüentemente me lembrava de que um bom texto é um dom divino. E do que eu deveria ler outros livros tendo isto em vista, e as­ sim poderia ser capaz de entender melhor e aplicar melhor a Sagrada Escritura. Enquanto eu estava agindo assim, surgiu a Exposição do Sr. Burkitt, do primeiro dos Evangelhos, e mais tarde dos Atos e das Epístolas, uma obra que encontrou uma aceitação muito boa entre pessoas sérias, e, sem dúvida, pela bênção de Deus continuará a prestar um grande serviço à igreja. Pouco tempo depois de terminar aquela obra, agradou a Deus chamá-lo ao seu descanso, e naquela ocasião fui solicitado, por alguns dos meus amigos - e também me senti inclinado - a tentar fazer um trabalho semelhante sobre o Antigo Testamento, na força da graça de Cristo. Assim, este trabalho é humildemente oferecido como um espécime baseado no Pentateuco. O meu propósito é que ele agrade aos leitores, e seja considerado útil, de algum modo. E, na dependência do auxílio divino, estou disposto a prosseguir, desde que Deus continue a me dar vida e saúde, e enquanto o meu outro trabalho permitir. Sei que temos muitos recursos como este em nosso próprio idi­ oma, e temos muitas razões para valorizá-los, sendo gratos a Deus por eles. Mas a Escritura é um assunto que nunca se esgota. Semper habet aliquid relegentibus - Não importa- com que freqüência a leiamos, sempre encontraremos coisas uovas. Mesmo tendo reunido um imenso tesouro para a edificação do tempo, Davi disse a Salomão: E tu supre o que faltar, 1 Crônicas 22.14. O conhecimento da Escritura é um grande tesouro. E ele ainda é capaz de aumentar, até que todos nós cheguemos à perfeição. A Escritura é um campo ou vinha que oferece trabalho para várias mãos, e na qual pode ser empregada uma grande variedade de dons e operações, mas tudo deve vir do mesmo Espírito (1 Co 12.4,6), e precisa ser dedicado à glória do mesmo Senhor. Aqueles que são doutos em idiomas e em costumes antigos têm sido muito úteis para a igreja (o bendito ocupante deste campo), através de suas buscas curiosas e elaboradas que têm trazido vários resultados, como, por exemplo, a anatomia das plantas, e as palestras tão interessantes que eles têm proferido a esse respeito. Em várias situações, e de diversas formas, a filologia dos críticos tem sido muito mais vantajosa para a religião, e emprestado mais luz para a verdade sagrada, do que a filosofia das várias escolas teológicas. Aqueles que são doutos nas artes de guerra também têm prestado um grande serviço ao defenderem este jardim do Senhor contra os ataques violentos dos poderes das trevas, defendendo com sucesso a causa dos escritos sagrados contra os desprezíveis ateus, deístas e escarnecedores profanos dos nossos dias. Várias pessoas, como estas, estão em posição de honra, e o seu louvor está em todas as igrejas. No entanto, os trabalhos dos vinhateiros e lavradores (2 Rs 25.12), embora estes sejam os pobres da terra, aqueles que cultivam esta terra, e recolhem os seus frutos, não são menos necessários em suas funções, e são benéficos para toda a família de Deus. Pois é imprescindível que cada um tenha a sua parte destes preciosos frutos em sua alimentação, na devida estação. Estes são os trabalhos em que, de acordo com a minha habilidade, tenho procurado colocar a minha mão. E como os expositores simples e práticos jamais diriam, por coisa alguma, sobre os críticos doutos: Não há necessidade deles, assim se espera que aqueles olhos e cabeças jamais digam às suas mãos e pés: Não tenho necessidade de vós, 1 Coríntios 12.21. Os doutos têm recebido vantagens muito grandes em suas buscas nesta parte da Sagrada Escritura, e dos livros que se seguem (e ainda esperam por mais), pelos trabalhos excelentes e mais valiosos daquele grande e bom homem, o bispo Patrick, que, por uma grande leitura, julgamento sólido, uma aplicação muito feliz destes melhores estu­ dos, mesmo em sua idade e honra avançadas, por vários séculos sem dúvida se posicionará entre os três primeiros comentadores, e bendito seja Deus por ele. As anotações em inglês do Sr. Pool (que, tendo tido tantas impressões, podemos supor, chegou a muitas mãos) são de utilidade admirável, especialmente para a explicação das frases da Escritura, para desvendar o sentido, referindo-se a Escrituras paralelas, e o esclarecimento das dificuldades que ocorrem. Tenho, portanto, desde o princípio, sido breve no que é mais amplamente discutido e, diligentemente, recu­ sei o quanto pude o que se acha ali. Porque eu não actum agere -faria o que está feito. Tampouco (se me permitem tomar emprestado as palavras do apóstolo) me gloriaria no que estava já preparado, 2 Coríntios 10.16. Estas e outras anotações que se referem às palavras e orações específicas que elas se propõem a explicar, são as mais fáceis de XV PREFÁCIO serem consultadas quando houver ocasião. Mas a exposição que (como esta) é colocada em um discurso contínuo, condensada em um título apropriado, é muito mais fácil e pronta para ser lida inteiramente pela instrução própria ou de outro. E penso que a observação da ligação de cada capítulo (se houver ocasião) com aquele que o precede, e o alcance geral dele, com o fio da história ou do discurso, e a escolha de várias partes dele, para ser visto em uma só aná­ lise, contribuirá muito para a sua compreensão, e dará à mente uma satisfação abundante na intenção geral, embora possa haver aqui e ali uma palavra ou expressão difícil que os melhores críticos não podem explicar facilmente. Isto, portanto, tentei aqui. Mas cabe a nós não só entender o que lemos, mas desenvolvê-lo até algum bom propósito. E, com a finalidade de sermos impactados e mudados por aquilo que lemos, é necessário recebermos as suas impressões. A palavra de Deus tem o propósito não só de ser uma luz para os nossos olhos, o objeto da nossa contemplação, mas lâmpada para os nossos pés e luz para o nosso caminho (SI 119.105), para nos guiar no caminho da nossa obediência, e para nos impedir de tomar algum desvio. Devemos, portanto, ao buscar as Escrituras, indagar não só: O que é isto?, mas: O que é isto para nós? Que proveito podemos fazer disto? Como podemos acomodá-lo com alguns dos propósi­ tos da vida divina e celestial que, pela graça de Deus, resolvemos viver? Perguntas deste tipo tenho aqui procurado responder. Quando a pedra é removida da boca do poço por uma explicação crítica do texto, ainda há aqueles que querem beber e dar de beber ao seu rebanho? Sim, mas reclamam que o poço é fundo, e não têm nada com que a tirar. Como, então, se aproximarão desta água viva? Alguns assim poderão, talvez, encontrar uma balde aqui, ou tirar a água com as suas mãos. E ficarei satisfeito com este ofício dos gibeonitas, de tirar água para a congregação do Senhor destes maravilhosos poços de salvação. O meu objetivo na exposição é dar o que pensei ser o sentido autêntico, e fazer isso da maneira mais simples pos­ sível para as capacidades comuns, não perturbando os meus leitores com os diferentes sentimentos dos expositores, o que teria sido transcrever a Sinopse Latina do Sr. Pool, onde isto é feito abundantemente para a nossa satisfação e proveito. Quanto às observações práticas, não me obriguei a levantar doutrinas de cada versículo ou parágrafo, mas apenas tentei misturar com a exposição as pistas e observações que achei proveitosas para a doutrina, para re­ provação, para correção, para instrução em justiça, procurando em tudo promover a piedade prática, e evitando cui­ dadosamente assuntos de disputa duvidosa e antagonismo de palavras. E apenas o predomínio do poder da religião nos corações e vidas dos cristãos que irá corrigir as nossas injustiças, e transformar o nosso deserto em um campo frutífero. E uma vez que o nosso Senhor Jesus Cristo é o nosso verdadeiro tesouro escondido no campo do Antigo Testamento, e foi o Cordeiro morto desde a fundação do mundo, fui cuidadoso em observar que Moisés escreveu a re­ speito dele, ao que o próprio Senhor Jesus, com freqüência, recorreu. Nos escritos dos profetas, nos deparamos com mais das promessas simples e expressas do Messias, e com a graça do Evangelho. Mas aqui, nos livros de Moisés, encontramos mais dos tipos, figuras reais e pessoais dele, que eram sombras da qual a essência é Cristo, Romanos 5.14. Aqueles para quem o viver é Cristo encontrarão nestes escritos aquilo que é muito instrutivo e influente, e que dará grande assistência para a sua fé, e amor, e santa alegria. Isto, de modo particular, busca-se nas Escrituras para encontrar o que elas testificam a respeito de Cristo e da vida eterna, João 5.39. Nem há qualquer objeção contra a aplicação das instituições cerimoniais a Cristo e à sua graça, de forma que aqueles a quem foram dadas não poderiam discernir este sentido ou uso delas. Mas esta é, antes, uma razão pela qual devemos ser muito gratos: o fato de o véu que estava sobre as suas mentes na leitura do Antigo Testamento estar abolido em Cristo, 2 Coríntios -3.13,14,18. Em­ bora eles, então, não pudessem olhar firmemente para o fim daquilo que está abolido, isto não significa, portanto, que nós que somos felizmente supridos com uma chave para estes mistérios não possamos, neles, como em um espelho, vislumbrar a glória do Senhor Jesus. No entanto, é possível que os judeus piedosos tenham visto mais do Evangelho em seu ritual do que pensamos que eles viram. Eles tinham pelo menos uma expectativa geral das coisas boas por vir, pela fé nas promessas feitas aos pais, como temos da felicidade do céu, embora não pudessem formar qualquer idéia distinta ou certa daquele mundo por vir, como muitas vezes não somos capazes de fazer em relação a este mundo. Talvez as nossas concepções do estado futuro sejam tão obscuras e confusas, tão desprovidas da verdade e estejam tão longe dela, quanto as deles eram, então, do reino do Messias. Mas Deus requer a fé apenas de acordo com a revelação que Ele dá. Eles, então, só eram responsáveis pela luz que possuíam. E nós agora somos responsáveis pela maior luz que possuímos: o Evangelho. E pela ajuda do Evangelho podemos encontrar muito mais de Cristo no An­ tigo Testamento do que eles podiam. Se alguém pensar que as nossas observações às vezes surgem a partir daquilo que, para eles, parece diminuto demais, que se lembrem da máxima do Rabino: Non est in lege vel una litera à quâc nonpendent -magni m ontes-A lei contém não uma letra, mas aquilo que é capaz de suportar o peso de montanhas. Estamos certos de que não há nenhuma palavra ociosa na Bíblia Sagrada. Gostaria que o leitor não só lesse todo o texto, antes de ler a exposição, mas, quando os vários versículos forem referidos na exposição, o leitor coloque a sua atenção sobre eles outra vez, e então entenderá melhor aquilo que ler. E, se ele tiver tempo disponível, certamente achará proveitoso voltar se para as Escrituras que são, às vezes, referidas apenas brevemente, comparando as coisas espirituais com as espirituais. E o propósito declarado da Mente Eterna, em todas as operações tanto da providência como da graça, glorificar a lei e torná-la honrosa (Is 42.21), e glorificar a sua palavra acima de todo o seu nome (SI 138.2). Para que, quando orarmos, dizendo: Pai, glorifique o teu nome, queiramos realmente dizer isto, entre outras coisas: Pai, glorifique as santas Escrituras. Através desta oração, feita com fé, podemos estar certos da resposta que foi dada ao nosso ben­ dito Salvador quando Ele orou assim, particularmente no que diz respeito ao cumprimento das Escrituras em seus próprios sofrimentos: Já o tenho glorificado e outra vez o glorificarei, João 12.28. Para este grande propósito, desejo, humildemente, ser de algum modo útil. E espero que isto ocorra na força da graça pela qual sou o que sou, esperando PREFÁCIO XVI que possa ajudar a tornar a leitura da Escritura mais fácil, agradável, e proveitosa. Desejo que isto seja misericor­ diosamente aceito por Aquele que sorriu quando a viúva lançou as duas moedas no tesouro, com a intenção de glorifi­ car e honrar. E se eu tão somente puder alcançar este ponto, em qualquer medida, beneficiando ao menos algumas pessoas, reconhecerei que os meus esforços terão sido abundantemente recompensados. Porém, também estou certo de que alguns considerarão tanto a mim como o meu desempenho vis, dedicando-me, apenas, o desprezo. Não tenho agora mais nada a acrescentar além de me entregar às orações dos meus amigos, encomendando-os à graça do nosso Senhor Jesus. E assim, posso descansar como alguém que depende desta graça mesmo sendo indigno dela. E, através desta graça maravilhosa, prossigo na expectativa da glória que será revelada. M. H. Chester, 2 de outubro de 1706 G ên esis U m a e x p o s iç ã o com o b s e r v a ç õ e s p r á t ic a s emos agora diante de nós a Bíblia Sagrada, ou livro, porque bíblia significa isto. Nós a chamamos o livro por causa de sua eminência, porque ela é, incomparavelmente, o maior livro que já foi escri­ to, o livro dos livros, brilhante como o sol no firmamento da aprendizagem. Tal qual a lua, outros livros valiosos e úteis refletem a sua luz. Nós a chamamos de livro santo, porque foi escrita por homens santos, e inspirada pelo Espírito Santo. Ela é perfeitamente isenta de qualquer falsidade e propósitos deturpados. E, sua inclinação manifesta é promover a santidade entre os homens. Os grandes princípios da lei de Deus, e o Evangelho, estão aqui escritos para nós, para que pudessem transmitir maior segurança, pudessem expandir-se o mais longe possível, por mais tempo, e ser transmitidos a lugares e épocas distantes com mais pureza e inteireza do que possivelmente seriam através de relatos e tradições. Teremos muito que responder, se estes princípios, os quais são a base de nossa paz, estando, assim, entregues a nós por escrito, forem negligenciados como um princípio estranho e desconhecido, Oséias 8.12. As escrituras, ou o produto de vários escritores inspirados, de Moisés até o apóstolo João, nas quais a luz divina, como a luz da manhã, brilhou gradualmente (estando o cânon sagrado agora completo), estão todas reunidas nesta Bíblia bendita, que, graças a Deus, temos em nossas mãos. E elas tornam os dias tão perfeitos quanto devemos esperar que sejam neste lado do céu. Cada parte da Bíblia Sagrada é, sem dúvida, muito boa. Porém todas estas partes juntas formam algo extraordinário. Esta é a “luz que brilha em um lugar escuro” (2 Pe 1.19). E um lugar escuro, sem dúvida, seria o mundo sem a Bíblia. Temos diante de nós esta parte da Bíblia que denominamos o Antigo Testamento, contendo os atos e obras notáveis da vida religiosa desde a criação até quase à vinda de Cristo em carne. Há cerca de quatro mil anos estas verdades foram reveladas, as leis então promulgadas, as devoções então pagas, as profecias então entregues falando sobre os eventos a respeito deste corpo distinto. O Senhor Deus considerou adequado preservar para nós todo este conhecimento. Isto é chamado de testamento, ou aliança (.Diatheke), porque foi uma determinada declaração da vontade de Deus a respeito do homem de modo geral, e teve sua força obtida a partir da morte planejada do grande testador, “o Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo” (Ap 13.8). E chamado de Antigo Testamento, em relação ao Novo, o qual não o anula nem o substitui, mas o coroa e o aperfeiçoa, fazendo surgir a melhor esperança que foi tipificada e predita nele. O Antigo Testa­ mento ainda permanece maravilhoso, embora o Novo muito o exceda em excelência (2 Co 3.9). Temos diante de nós aquela parte do Antigo Testamento que chamamos de Pentateuco, ou os cinco livros de Moisés, o servo do Senhor, que excedeu todos os outros profetas e que tipificou o grande profeta. Na distribuição que nosso Salvador fez dos livros do Antigo Testamento entre a lei, os profetas, e os salmos, ou Hagiógrafa, estes são a lei, porque eles contêm não só as leis dadas a Israel, nos últimos quatro, mas as leis dadas a Adão, a Noé, e a Abraão, no primeiro. Pelo que sabemos, estes cinco livros foram os primeiros a serem escritos, pois não temos a menor men­ ção de qualquer escrito em todo o livro de Gênesis, até que Deus ordenou que Moisés escrevesse (Êx 17.14), e alguns acham que o próprio Moisés nunca aprendeu a escrever até que Deus lhe incumbiu de sua cópia na escrita dos Dez Mandamentos sobre as tábuas de pedra. No entanto, temos a certeza de que estes livros são os escritos mais antigos agora existentes, e, portanto, os mais adequados para nos dar um relato satisfatório das coisas mais antigas. Temos diante de nós o primeiro e mais longo dos cinco livros, denominado Gênesis. Escrito, alguns pensam, quando Moisés estava em Midiã para a instrução e consolação de seus irmãos que sofriam no Egito. Prefiro pensar que ele o escreveu no deserto, depois que esteve no monte com Deus, onde, provavelmente, recebeu instruções completas e especí­ ficas para a sua escrita. E, assim como ele estruturou o Tabernáculo, fez o tecido mais excelente e durável para este livro, exatamente de acordo com o padrão que lhe fora mostrado no monte. E melhor entender a certeza das coisas aqui contidas, do que qualquer tradição que, possivelmente, pudesse ser entregue desde Adão até Matusalém, desde este até Sem, dele até Abraão, e assim até à família de Jacó. Gênesis é um nome emprestado do grego. Significa origem, ou geração. E, assim, adequadamente nomeado, porque é uma história das origens da criação do mundo, da entrada do pecado e da morte nele, da invenção da arte, do surgimento das nações, e especialmente da implantação da igreja, e da condição dela nos dias an­ tigos. Também é uma história das gerações de Adão, Noé, Abraão etc., não infindáveis, mas que são genealogias úteis. O início do Novo Testamento também é chamado de Gênesis (Mt 1.1), Biblos geneseos, o livro do gênesis, ou da geração de Jesus Cristo. Bendito seja Deus por este livro que nos mostra o remédio, ao abrir as nossas feridas. Senhor, abre nossos olhos, para que possamos enxergar as coisas maravilhosas tanto da tua lei como do teu evangelho! n w. 1,2 GÊNESIS 1 2 mundo é uma grande casa, consistindo de histórias su­ C a p ít u l o 1 periores e inferiores, a estrutura imponente e magnífica, uniforme e conveniente, e cada cômodo é bem mobiliado, Sendo o fundamento de toda religião baseado em com toda a sabedoria. Esta é a parte visível da criação que nossa relação com Deus como o nosso Criador, é Moisés aqui procura explicar. Portanto, ele não mencio­ justo que o livro das revelações divinas, que tinha o na a criação dos anjos. Mas como a terra não só possui a propósito de ser o guia, apoio, e regra da religião do sua superfície enfeitada com ervas e flores, mas também mundo, começasse - como de fato começa - com um as suas entranhas são enriquecidas com metais e pedras relato simples e completo da criação do mundo em preciosas (que participam de sua natureza sólida e mais resposta à primeira indagação de uma boa consciên­ valiosa, embora a criação delas não seja mencionada aqui), cia: “Onde está Deus que me fez?” (Jó 35.10). A esse assim os céus não só são embelezados aos nossos olhos respeito, os filósofos pagãos infelizmente comete­ com luminares gloriosos que enfeitam o seu exterior, de ram um grave erro e, tornando-se presunçosos em cuja criação lemos aqui, mas por dentro estão repletos de seus conceitos, alguns defendem a auto-existência e seres gloriosos, fora da nossa vista. Estes são seres celes­ perpetuidade do mundo, enquanto outros atribuem tiais que superam em excelência os astros, assim como o tudo isto ao encontro fortuito de átomos. Assim, “o ouro ou as safiras excedem os lírios do campo. No mundo mundo pela sua própria sabedoria não conheceu visível é fácil observar: [1] Grande variedade, diversos ti­ a Deus”, mas sofreu muito ao perdê-lo. A sagra­ pos de seres imensamente diferentes uns dos outros em da escritura, entretanto, planejando pela religião sua natureza e constituição. Senhor, quão múltiplas são revelada manter e desenvolver a religião natural, as tuas obras, e todas são muito boas! [2] Grande beleza. reparando a sua decadência e suprindo os seus de­ O céu azul e a terra verdejante são charmosos ao olhar feitos, desde a queda, para a vivificação dos precei­ de espectadores curiosos. Quanto mais os ornamentos tos da lei da natureza, estabelece, a princípio, este de ambos. Quão transcendente então deve ser a beleza princípio da luz clara da natureza. Que este mundo do Criador! [3] Grande exatidão e precisão. Para aqueles foi, no princípio do tempo, criado por um Sei' de sa­ que, com a ajuda de microscópios, olham estritamente bedoria e poder infinitos, que existia antes de todo para as obras da natureza, elas parecem muito mais re­ tempo e de todos os mundos. O acesso à Palavra de finadas do que qualquer obra de arte. [4] Grande poder. Deus oferece esta luz, Salmos 119.130. O primeiro Este não é um monte de matéria morta e inativa, mas há versículo da Bíblia nos dá um conhecimento mais virtude, em diferentes níveis, em cada criatura. A terra seguro e melhor, mais satisfatório e útil, da origem em si possui uma força magnética. [5] Grande ordem, uma do universo, do que todos os livros dos filósofos. A dependência mútua de seres, uma harmonia exata de mo­ fé viva de cristãos humildes entende esta questão vimentos, e uma admirável cadeia e conexão de causas. melhor do que a concepção mais elevada das maio­ [6] Grande mistério. Há fenômenos na natureza que não res inteligências, Hebreus 11.3. podem ser resolvidos, segredos que não podem ser com­ Temos três coisas neste capítulo: I. Uma idéia ge­ preendidos nem explicados. Mas a partir do que vemos do ral que nos é dada sobre a obra da criação, w. 1,2. céu e da terra podemos facilmente deduzir o poder eterno II. Um relato específico da obra de vários dias, e a divindade do grande Criador, e podemos nos suprir registrados, como em um diário, distintamente e com motivos abundantes para os seus louvores. E que a em ordem. A criação da luz, no primeiro dia, w. nossa condição e posição, como homens, nos faça lembrar 3-5. Do firmamento, no segundo dia, w. 6-8. Do da nossa obrigação como cristãos, que é sempre manter o mar, da terra, e dos seus frutos, no terceiro dia, céu em nossa vista e a terra debaixo de nossos pés. w. 9-13. Dos luminares do céu, no quarto dia, w. (2) O autor e a causa desta grande obra: DEUS. A 14-19. Dos peixes e aves, no quinto dia, w. 20-23. palavra hebraica é Elohim, o que indica: [1] O poder de Dos animais, w. 24,25. Do homem, w. 26-28. E do Deus, o Criador. El significa o Deus forte. E o que, menos alimento para ambos, no sexto dia, w. 29,30. III. A do que uma força poderosa, poderia fazer surgir todas as revisão e a aprovação de toda a obra, v. 31. coisas do nada? [2] A pluralidade das pessoas da Divinda­ de, Pai, Filho e Espírito Santo. Este nome plural de Deus, em hebraico, que fala dele no plural, embora ele seja um, talvez fosse para os gentios um sabor de morte para a A Criação morte, endurecendo-os em sua idolatria. Mas isto é para w. 1,2 nós um sabor de vida para vida, confirmando a nossa fé Nestes versículos temos a obra da criação em seu na doutrina da Trindade, a qual, embora seja apenas se­ cretamente sugerida no Antigo Testamento, é claramente epítome e em seu embrião. revelada no Novo Testamento. O Filho de Deus, a eterna Em seu epítome, v. 1, onde encontramos, para o nos­ Palavra e Sabedoria de Deus estavam com Ele quando fez so conforto, o primeiro artigo do nosso credo, que o mundo (Pv 8.30). Freqüentemente ouvimos que o mundo Deus Pai, o Todo-poderoso, é o Criador do céu e da terra, foi feito por Ele, e sem Ele nada do que foi feito se fez, João 1.3,10; Efésios 3.9; Colossenses 1.16; Hebreus 1.2. e cremos nele como tal. O, que pensamentos elevados isto deve formar em nossas 1. Observe, neste versículo, quatro coisas: (1) O efeito que produziu o céu e a terra, isto é, o mun­mentes a respeito deste grande Deus, de quem nos apro­ do, incluindo toda a estrutura e os elementos do universo, ximamos em adoração religiosa, e deste grande Mediador o mundo e todas as coisas a esse respeito, Atos 17.24. O em cujo nome chegamos mais perto! I 3 GÊNESIS 1 w. 1,2 (3) 0 modo pelo qual esta obra foi realizada: Deus depois separadas da terra, estavam agora misturadas criou, isto é, fez do nada. Não havia nenhuma matéria com ela. A partir desta imensa massa de matéria, todos pré-existente a partir da qual o mundo foi produzido. Os os corpos e até mesmo o firmamento e os céus risíveis, peixes e as aves foram certamente produzidos a partir foram depois produzidos pelo poder da Palavra Eterna. das águas, e os animais e o homem da terra. Mas esta O Criador poderia ter feito a sua obra perfeita a prin­ terra e estas águas foram feitas do nada. Pelo poder cípio, mas por este processo gradual Ele pode mostrar comum da natureza, é impossível que algo seja feito qual é, ordenadamente, o método de sua providência e de do nada. Nenhum artífice pode trabalhar, a menos que sua graça. Observe a descrição deste caos. (1) Não havia ele tenha com que trabalhar. Mas pelo poder infinito de nele nada desejável de ser visto, porque era sem forma Deus, não só é possível que algo seja feito do nada (o e vazio. Tohu e Bohu, confusão e vazio. Assim estas pa­ Deus da natureza não está sujeito às leis da natureza), lavras são traduzidas, Isaías 34.11. Ela era sem forma, mas na criação é impossível que ocorra o contrário, por­ era inútil, não tinha habitantes, não tinha ornamentos, a que nada é mais desrespeitoso para a honra da Mente sombra ou aridez severa das coisas por vir, e não a ima­ Eterna do que duvidar de sua onipotência. Assim, a ex­ gem das coisas, Hebreus 10.1. A terra é quase reduzida celência do poder pertence a Deus, como também toda a à mesma condição outra vez pelo pecado do homem, sob honra e toda a glória. o qual a criação geme. Veja Jeremias 4.23: Observei a (4) Quando esta obra foi produzida: No princípio, isto terra, e eis que estava assolada e vazia. Para aqueles é, no início do tempo, quando este relógio foi colocado que têm os seus corações no céu, este mundo inferior, para funcionar pela primeira vez. O tempo começou com em comparação com o superior, ainda parece ser nada a produção destes seres que são medidos pelo tempo. além de confusão e vazio. Não há nenhuma beleza ver­ Antes do início do tempo não havia nada além daquele dadeira para ser vista, nenhuma plenitude satisfatória Ser Infinito que habita a eternidade. Se perguntássemos para ser desfrutada, nesta terra, mas somente em Deus. por que Deus não fez o mundo antes, apenas escurecerí­ (2) Mesmo se houvesse qualquer coisa desejável para amos o conselho com palavras sem conhecimento. Pois ser vista, não havia luz para vê-la. Porque as trevas, tre­ como poderia haver cedo ou tarde na eternidade? E ele o vas espessas, estavam sobre a face do abismo. Deus não fez no início do tempo, de acordo com os seus conselhos criou estas trevas (como é dito que Ele criou as trevas eternos antes de todo o tempo. Os rabinos judeus têm da aflição, Isaías 45.7), porque foi só a falta de luz, a qual um ditado que diz que houve sete coisas que Deus criou não se poderia dizer que faltava até que algo fosse criado antes do mundo, que têm apenas o propósito de expres­ para ser visto através da luz. Nem se precisava reclamar sar a excelência delas: A lei, o arrependimento, o para­ da falta dela, pois não havia nada para ser visto além da íso, o inferno, o trono da glória, a casa do santuário, e o confusão e do vazio. Se a obra da graça na alma é uma nome do Messias. Mas para nós, é suficiente dizer: No nova criação, este caos representa o estado de uma alma princípio era o Verbo, João 1.1. desgraçada e pecadora. Há desordem, confusão, e toda 2. Aprendamos com isso: (1) Que o ateísmo é loucura, obra má. Está vazia de todas as coisas, por que não tem e os ateus são os maiores loucos na natureza. Porque eles a Deus; é escura, é a própria escuridão. Esta é a nossa vêem que há um mundo que não poderia se fazei' sozi­ condição por natureza, até que a graça poderosa efetue nho, e, no entanto, não reconhecem que há um Deus que uma mudança bendita. o fez. Sem dúvida alguma, eles não têm desculpa, mas o 2.0 Espírito de Deus foi o primeiro a se mover: Ele se deus deste mundo cegou as suas mentes. (2) Que Deus é movia sobre a face das águas. Quando consideramos a ter­ o Senhor soberano de todos por um direito incontestável. ra sem forma e vazia, parece-me que ela é como o vale re­ Se Ele é o Criador, sem dúvida Ele é o dono, o proprietá­ pleto de cadáveres e ossos secos. Eles podem viver? Esta rio dos céus e da terra. (3) Que com Deus todas as coisas massa confusa de matéria pode ser formada em um mun­ são possíveis. Portanto, feliz é o povo que o tem por seu do belo? Sim, se um espírito de vida procedente de Deus Deus, e cuja ajuda e esperança esperam de seu nome, entrar nele, Ezequiel 37.9. Agora há esperança a respeito Salmos 121.2; 124.8. (4) Que o Deus a quem servimos é disso. Porque o Espírito cle Deus começa a operar, e, se digno de glória e louvor, e é exaltado acima de tudo e de ele operai’, quem ou o que impedirá? E dito que Deus fez o todos, Neemias 9.5,6. Se Ele fez o mundo, não precisa mundo pelo seu Espírito, Salmos 33.6; Jó 26.13. E a nova dos nossos serviços, nem pode ser beneficiado por eles criação é realizada pelo mesmo trabalhador poderoso. Ele (At 17.24,25). Mesmo assim Ele os requer, e merece o se moveu sobre a face do abismo, como Elias se esten­ nosso louvor, Apocalipse 4.11. Se todas as coisas são dele, deu sobre a criança morta, assim como a galinha junta os tudo deve ser para Ele. seus pintainhos debaixo de suas asas, e paira sobre eles, para aquecê-los e alimentá-los, Mateus 23.37. Assim como Aqui está a obra da criação em seu embrião, v. 2, a águia agita o seu ninho, e bate as asas sobre os seus fi­ onde temos um relato da primeira matéria e do lhotes (a mesma palavra que é usada aqui), Deuteronômio primeiro movimento. 32.11. Aprendemos, conseqüentemente, que Deus não só 1. Um caos foi a primeira matéria. Ela é aqui chama­é o autor de todos os seres, mas a fonte de vida e de mo­ da de terra (embora a terra propriamente dita não tenha vimento. A matéria morta estaria para sempre morta, se sido feita até o terceiro dia, v. 10), porque ela se parecia Ele não a tivesse estimulado. E torna-se digno de crédito muito com o que depois foi chamado de terra, mera terra, para nós que Deus ressuscitasse os mortos. Um poder que destituída de seus ornamentos, e era como uma massa tirou este mundo da confusão, do vazio, e das trevas, no pesada e desordenada. Também é chamado de o abismo, início do tempo, pode, no fim do tempo, tirar os nossos tanto por sua vastidão como porque as águas, que foram corpos maus da sepultura, embora ela seja uma terra de n w. 3-5 GÉNESIS 1 trevas como as próprias trevas, e sem qualquer ordem (Jó 10.22), e pode torná-los corpos gloriosos. A Criação w. -3-5 4 bios 15.30. Deus aprovará e misericordiosamente aceitará aquilo que Ele mesmo ordenar. Ele ficará satisfeito com as obras das suas próprias mãos. Aquilo que é realmente bom, é o que for bom aos olhos de Deus, porque Ele não vê como o homem vê. Se a luz é boa, é porque Ele é a fonte da luz, de quem nós a recebemos, e a quem devemos todo o louvor por ela e por todos os serviços que fazemos através dela! 4. Que Deus separou a luz das trevas, colocando-as de forma a não se juntarem, ou serem conciliadas. Porque, que comunhão há da luz com as trevas?, 2 Coríntios 6.14. Contudo, Ele di­ vidiu o tempo entre elas, o dia para a luz e a noite para as trevas, em uma sucessão constante e regular de cada uma delas. Embora as trevas estivessem agora dissipadas pela luz, elas não foram condenadas a um banimento peipétuo, mas se revezam com a luz, e têm o seu lugar, porque têm a sua utilidade. Porque, assim como a luz da manhã trata das coisas do dia, as sombras do anoitecer tratam do repouso da noite, e puxam as cortinas sobre nós, para que possamos dormir melhor. Veja Jó 7.2. Deus desse modo dividiu o tem­ po entre a luz e as trevas, porque Ele diariamente nos faria lembrar que este é um mundo de misturas, alternâncias e mudanças. No céu há luz perfeita e perpétua, e não há tre­ vas. Porém, no inferno, existe uma escuridão absoluta. Ali não há sequer um raio de luz. Naquele mundo, entre o céu e o inferno há um grande abismo fixado. Mas, neste mun­ do, eles se alternam, e passamos diariamente de um para o outro, para que possamos aprender a esperar igualmente as vicissitudes na providência de Deus. Paz e transtorno, alegria e tristeza, e para que possamos colocar um contra o outro, nos acomodando às nossas atitudes tanto na luz como nas trevas, dando boas-vindas a ambas, e tirando o máximo proveito de ambas. 5. Que Deus as dividiu uma da outra por nomes distintos: A luz Ele chamou dia, e as trevas, chamou noite. Ele lhes deu nomes, como Senhor de ambas. Porque o dia lhe pertence, e a noite também, Salmos 74.16. Ele é o Senhor do tempo, e assim será, até que o dia e a noite cheguem a um fim, e o rio do tempo seja tragado pelo oceano da eternidade. Reconheçamos a Deus na sucessão constante de dia e noite, e consagremos ambos para a sua honra, trabalhando para Ele todos os dias e descansando nele todas as noites, e meditando em sua lei de dia e de noite. 6. Que esta foi a obra do primei­ ro dia, e foi um bom dia de trabalho. A tarde e a manhã foram o primeiro dia. A escuridão da noite veio antes da luz da manhã, para realçá-la, e enfeitá-la, e fazê-la brilhar com maior intensidade. Este não só foi o primeiro dia do mundo, mas o primeiro dia da semana, Eu observo isto para a honra deste dia, porque o novo mundo começou também no primeiro dia da semana, na ressurreição de Cristo, como a luz do mundo, de manhã cedo. Nele, o dia que veio do alto visitou o mundo. E seremos felizes, feli­ zes para sempre, se aquela estrela da manhã nascer nos nossos corações. Temos aqui um outro relato da obra do primeiro dia, no qual observe: 1. Que o primeiro de todos os seres visí­ veis que Deus criou foi a luz. Não que por ela Ele pudes­ se cuidar da obra (porque tanto as trevas como a luz são semelhantes para Ele), mas que por ela nós pudéssemos ver as suas obras e a sua glória nelas, e pudéssemos fazer o nosso trabalho enquanto é dia. As obras de Satanás e de seus servos são obras de trevas. Mas aquele que pratica a verdade, e faz o bem, vem para a luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, João 3.21. A luz é a grande beleza e bênção do universo. Como o primogênito de todas as coisas visíveis, ela é o que mais lembra o seu grande Pai em pureza e poder, brilho e beneficência; é de grande afinidade com um espírito, e está próxima a ele. Embora por ela vejamos outras coisas, e estejamos certos de que ela é, não conhe­ cemos a sua natureza, nem podemos descrever o que ela é, ou por qual caminho a luz é repartida, Jó 38.19,24. Pela visão dela sejamos guiados, e ajudados, para alcançarmos a contemplação de fé Naquele que é luz, a luz infinita e eter­ na (1 Jo 1.5), e o Pai das luzes (Tg 1.17), e que habita em luz inacessível, 1 Timóteo 6.16. Na nova criação, a primeira coisa operada na alma é a luz. O Espírito bendito cativa a vontade e os sentimentos iluminando o entendimento, as­ sim entrando no coração pela porta, como o bom pastor que é conhecido pelas ovelhas, enquanto que o pecado e Satanás, como ladrões e assaltantes, procuram pulai' por outro caminho. Aqueles que pelo pecado são trevas, pela graça se tornam luz no mundo. 2. Que a luz foi feita pela palavra de poder de Deus. Ele disse, Haja luz. Ele desejou e ordenou, e a sua vontade foi feita imediatamente. Houve luz, uma cópia exata respondeu à idéia original na Mente Eterna. OH! O poder da Palavra de Deus! Ele falou e foi feito. Feito realmente, efetivamente, e para a perpetuida­ de, não apenas em aparência, e para servil’ a um momento presente, porque Ele ordenou, e ela não cedeu. Com Ele era um dito, uma palavra memorial, e um mundo. A palavra de Deus (isto é, a sua vontade e o seu bom prazer) é rápida e poderosa. Cristo é o Verbo, o Verbo essencial e eterno, e por Ele a luz foi produzida, porque nele estava a luz, e Ele é a luz verdadeira, a luz do mundo, João 1.9; 9.5. A luz divina que brilha nas almas santificadas é operada pelo poder de Deus, pelo poder de sua palavra e do Espírito de sabedoria e revelação, abrindo o entendimento, dissipando a névoa da ignorância e do engano, e dando o conhecimento da glória de Deus na face de Cristo, como a princípio, quando Deus ordenou que a luz brilhasse nas trevas, 2 Coríntios 4.6. As trevas estariam perpetuamente sobre a face do homem ca­ ído, se o Filho de Deus não tivesse vindo, e nos dado um entendimento, 1 João 5.20.3.0 Senhor Deus aprovou a luz A Criação que desejou, quando foi produzida. Deus viu que a luz era w. 6-8 boa. Foi exatamente como ele planejou, e era adequada para responder à finalidade para a qual ela foi criada. Era útil e Temos aqui um relato da obra do segundo dia, a proveitosa. O mundo, que agora é um palácio, teria sido um criação do firmamento, no qual observe: 1. A ordem calabouço sem ela. Era agradável e prazerosa. Verdadeira­ de Deus a esse respeito: Haja um firmamento, uma ex­ mente suave é a luz (Ec 11.7). Ela alegra o coração, Provér­ tensão. Este é o significado da palavra grega, como um o GÊNESIS 1 w. 9-13 lençol esticado, ou uma cortina puxada. Isto inclui tudo A Criação o que é visível acima da terra, entre ela e o terceiro w. 9-13 céu: o ar, as regiões superiores, do meio, e inferiores do globo celeste, e todas as esferas e órbitas da luz aci­ A obra do terceiro dia é narrada nestes versículos ma. O alcance é tão alto quanto o lugar onde as estrelas sobre a formação do mar e da terra seca, e da formação estão fixadas, porque aqui é chamado de firmamento da terra frutífera. Até este ponto o poder do Criador foi do céu (w. 14,15), e tão baixo quando o lugar onde as exercido e empregado na parte superior do mundo vi­ aves voam, porque também é chamado de firmamento sível. A luz do céu foi acesa, e o firmamento do céu foi do céu, v. 20. Quando Deus fez a luz, designou o ar para fixado. Mas agora Ele desce para o seu mundo inferior, ser o receptáculo e veículo de seus raios, e para ser um a terra, que foi criada para os filhos dos homens, criado meio de comunicação entre o mundo invisível e o visível. tanto para a sua habitação como para a sua manutenção. Porque, embora entre o céu e a terra haja uma distância E aqui temos um relato da preparação dela para ambos inconcebível, não há um abismo intransponível, como os propósitos, e da edificação de sua casa e da colocação há entre o céu e o inferno. Este firmamento não é uma de sua mesa. Observe: parede de divisão, mas um meio de comunicação. Veja Jó 26.7; 37.18; Salmos 104.3 e Amós 9.6. 2. A sua cria­ Como a terra foi preparada para ser uma habita­ ção. Para que não parecesse que Deus tivesse apenas ção para o homem, juntando as águas, e fazendo ordenado que fosse feito, e que outra pessoa a fizesse, surgir a terra seca. Desse modo, em vez da confusão ele acrescenta: E Deus fez o firmamento. O que Deus que havia (v. 2) quando a terra e a água estavam mis­ exige de nós, Ele mesmo opera em nós. Caso contrário, turadas em uma única grande massa, eis, agora, que nada é feito. Aquele que ordena a fé, a santidade e o há ordem, tornando-as úteis por esta separação. Deus amor, cria-os pelo poder da sua graça que acompanha a disse: Que assim seja. E assim foi. Dito e feito. 1. As sua palavra, de forma que Ele possa ter todo o louvor. águas que haviam coberto a terra receberam a ordem Senhor, dá-nos aquilo que tu ordenaste, e então ordene de recuar, e se juntar em um único lugar, ou seja, na­ o que te agrade. E dito que o firmamento é a obra dos queles espaços que eram adequados e foram designa­ dedos de Deus, Salmos 8.3. Embora a vastidão de sua dos para sua recepção e repouso. As águas então afas­ extensão declare que é a obra do seu braço estendido, tadas, então recolhidas, e então alojadas em seu lugar a admirável excelência de sua constituição mostra que próprio, Ele chamou mares. Embora eles sejam mui­ ela é uma curiosa obra de arte, a obra de seus dedos. 3. tos, em regiões distantes, e banhando várias praias, O uso e projeto de se dividir as águas das águas, isto é, seja na superfície ou no subterrâneo, há uma comu­ distinguir entre as águas que ficam envoltas nas nuvens nicação entre uns e outros, e assim são um só, e o re­ e aquelas que cobrem o mar, as águas no ar e aquelas na ceptáculo comum das águas, para o qual todos os rios terra. Veja a diferença entre estas duas águas que são fluem, Eclesiastes 1.7. As águas e os mares freqüente­ cuidadosamente observadas, Deuteronômio 11.10,11, mente, na escritura, significam dificuldades e aflições, onde Canaã é relatada aqui em preferência ao Egito. O Salmos 42.7; 69.2,14,15. O próprio povo de Deus não Egito foi umedecido e tornado frutífero com as águas está isento destas coisas neste mundo. Mas o seu con­ que estão debaixo do firmamento, sim, o orvalho do forto é que elas são apenas águas que estão debaixo do céu, que não espera pelos filhos dos homens, Miquéias céu (não há estas coisas no céu), e que todas elas estão 5.7. Deus tem, no firmamento do seu poder, câmaras no lugar que Deus designou. E assim, elas devem ficar ou depósitos de onde Ele molha a terra, Salmos 104.13; dentro dos limites que o Senhor estabeleceu para elas. 65.9,10. Ele também possui tesouros, ou depósitos de Como as águas foram reunidas no princípio, e como elas neve e granizo, os quais Ele tem reservado para os dias ainda permanecem limitadas pelo mesmo Poder que as de batalhas e guerras, Jó 38.22,23. OH! Que grande confinou em primeiro lugar, elas são descritas de um Deus é aquele que assim tem suprido para o conforto modo elegante, Salmos 104.6-9, e são ali mencionadas de todos aqueles que o servem, e para a confusão de como um motivo de louvor. Aqueles que descem ao mar todos aqueles que o odeiam! E bom tê-lo como amigo, em navios deveriam reconhecer diariamente a sabedo­ porém e terrível tê-lo como inimigo. 4. A atribuição de ria, o poder e a bondade do Criador, ao fazer as grandes nomes. Ele chamou o firmamento de céu. Este é o céu águas úteis para o homem para o comércio. E aqueles visível, o pavimento da cidade santa; é dito que Deus que permanecem em casa devem se considerar devedo­ tem o seu trono acima do firmamento (Ez 1.26), porque res Àquele que mantém o mar com bloqueios, e portas Ele o preparou nos céus. Por esta razão foi dito que os no lugar decretado. E segura as suas ondas orgulhosas, céus dominam, Daniel 4.26. Não está Deus nas alturas Jó 38.10,11. 2. A terra seca surgiu e emergiu das águas, do céu?, Jó 22.12. Sim, Ele está, e devemos ser levados e foi chamada terra, e entregue aos filhos dos homens. pela contemplação dos céus que estão à nossa vista para Alguns entendem que parece que a terra já existia an­ que consideremos o Pai que está no céu. A altura dos tes, mas não tinha utilidade, porque estava submersa. céus deve nos fazer lembrar da supremacia de Deus e Assim, muitos dos dons de Deus são recebidos em vão, da distância infinita que há entre nós e Ele. O brilho porque estão enterrados. Faça-os aparecer, e eles se dos céus e a sua pureza devem nos fazer lembrar de sua tornarão úteis. Nós que, até hoje, desfrutamos o bene­ glória, majestade, e perfeita santidade. A vastidão dos fício da terra seca (embora, desde que foi inundada uma céus, a abrangência da terra, e a influência que eles têm vez e então seca outra vez) devemos nos considerar in­ sobre ela, devem nos fazer lembrar de sua imensidão e quilinos e dependentes de Deus, pois as Suas mãos for­ providência universal. maram a terra seca, Salmos 95.5; Jonas 1.9. I w. 14-19 GÊNESIS 1 6 Como a terra foi suprida e adequada para a manu­ O livro de Jó menciona isto como um exemplo do glorioso tenção e sustento do homem, w. 11,12. Uma provi­ poder de Deus, que pelo seu precioso Espírito adornou são presente foi feita agora pelos produtos imediatos da os céus (Jó 26.13). E aqui temos um relato deste orna­ terra que, em obediência à ordem de Deus, foram feitos mento que não é somente a beleza do mundo exterior, no mesmo instante em que se tornou frutífera, e gerou mas da bênção deste mundo inferior. Porque embora o erva para o gado e para servir ao homem. Uma provisão céu seja elevado, ele tem respeito por esta terra. E, por­ foi feita igualmente para o tempo futuro, pela perpetuação tanto, deve receber respeito dela. Da criação dos lumina­ de diversos tipos de vegetais, que são numerosos, varia­ res do céu temos um relato: dos, e todos curiosos, e cada um tendo a sua semente em si conforme o seu tipo. Durante a continuidade do homem Geral, w. 14,15, onde temos: 1. A ordem dada com re­ sobre a terra, os alimentos devem ser tirados da terra lação a eles: Haja luminares no firmamento do céu. para o seu uso e benefício. Senhor, o que é o homem, para Deus havia dito, Haja luz (v. 3), e houve luz. Mas esta era que seja assim visitado e considerado com tal cuidado, e um caos de luz, pois era dispersa e confusa. Mas agora feita tal provisão para o sustento e a preservação daquelas estava reunida e modelada, e transformada em vários lu­ vidas culpadas e ofensivas que sem dúvida perderam os minares, e assim passou a ser mais gloriosa e útil. Deus seus direitos! Observe aqui: 1. Que não é só a terra que é o Deus de ordem, e não de confusão. E, como Ele é luz, é do Senhor, mas também a sua plenitude, e que Ele é o então Ele é o Pai e o formador dos luminares. Estes lumi­ proprietário de direito e o distribuidor soberano, não só nares deveriam estar no firmamento do céu, aquela vasta disto, mas de tudo o que a compõe. A terra era vazia (v. expansão que engloba a terra, e é visível a todos. Porque 2), mas, agora, pelo poder da Palavra, tornou-se repleta nenhum homem, quando acende uma candeia, a coloca de­ das riquezas de Deus e elas são suas. Seu grão e seu mos­ baixo da cama, mas no velador (Lc S.16). E o firmamento to, sua lã e seu linho, Oséias 2.9. Embora o uso de tudo do céu é um majestoso velador de ouro, a partir do qual isto nos seja permitido, a propriedade permanece sendo estas candeias dão luz a todos os que estão na casa. Faladele, e tudo deve ser usado para o seu serviço e honra. se do firmamento em si como tendo um brilho próprio (Dn 2. Que a providência comum é uma criação continua, e 12.3), mas isto não era suficiente para dar luz à terra. E nela o nosso Pai trabalha até agora. A terra ainda per­ talvez por esta razão não se fale expressamente da obra manece sob a eficácia de sua ordem, para gerar a erva do do segundo dia, no qual o firmamento foi feito, e que foi campo e os seus produtos anuais. E embora - de acordo bom, porque, até ser adornado com estes luminares no com o curso comum da natureza - estes não sejam mi­ quarto dia, este não tinha se tornado útil para o homem. lagres regulares, são, porém, casos constantes do poder 2. A utilidade que lhes fora designada para esta terra. (1) incansável e da bondade incessante do grande Criador Eles devem ser para a distinção dos tempos, de dia e noite, e Senhor do mundo. 3. Que embora Deus regularmente verão e inverno, que são intercambiáveis pelo movimento faça uso da instrumentalidade de causas secundárias, de do sol que ao nascer faz o dia e, ao se pôr, faz a noite, cuja acordo com a natureza delas, Ele não precisa delas nem aproximação em direção ao nosso trópico faz o verão, e o está preso a elas. Porque, embora os frutos preciosos da seu recuo faz o inverno. E assim, há tempo para todo o terra sejam geralmente produzidos pela influência do sol propósito debaixo do sol, Eclesiastes 3.1. (2) Eles devem e da lua (Dt 33.14), aqui encontramos a terra possuindo ser para a orientação das ações. Eles são para os sinais da uma grande abundância de frutos, provavelmente frutos mudança do tempo, para que o lavrador possa ordenar os maduros, antes que o sol e a lua fossem criados. 4. Que é seus assuntos com discernimento, prevendo, pela face do bom provermos as coisas necessárias antes de termos a céu, quando as causas secundárias começam a trabalhar, oportunidade de usá-las. Antes que os animais e o homem se o tempo será bom ou ruim, Mateus 16.2,3. Eles também fossem feitos, havia aqui a erva do campo preparada para dão luz sobre a terra, para que possamos andar (Jo 11.9) e eles. Deus assim lidou com o homem de forma sábia e bon­ trabalhar (Jo 9.4), de acordo com o dever que cada dia exi­ dosa. Que o homem não seja, portanto, tolo e insensato ge. Os luminares do céu não brilham para si mesmos, nem consigo mesmo. 5. Que Deus deve ter a glória de todo o para o mundo dos espíritos acima, que não precisam deles. beneficio que recebemos dos produtos da terra, seja como Mas eles brilham para nós, para o nosso prazer e benefí­ alimento ou remédio. E Ele que ouve os céus quando eles cio. Senhor, o que é o homem, para que seja assim conside­ ouvem a terra, Oséias 2.21,22. E se tivermos, através da rado! Salmos 8.3,4. Como somos ingratos e inescusáveis, graça, um interesse Naquele que é a fonte, poderemos nos sabendo que Deus colocou estes luminares para que por alegrar nele quando as correntes se secarem e a figueira meio deles pudéssemos trabalhar, dormíssemos, brincás­ não florescer. semos, ou desperdiçássemos o tempo em que poderíamos estar desenvolvendo alguma atividade, e até mesmo negli­ genciássemos a grande obra para a qual fomos enviados A Criação ao mundo! Os luminares do céu são feitos para nos servir, w. 14-19 e eles o fazem fielmente, e brilham em sua estação, sem falhar. Mas nós somos colocados como luminares neste Esta é a história da obra do quarto dia, a criação do mundo para servir a Deus. Mas será que correspondemos sol, da lua e das estrelas, que são aqui explicados, não da mesma maneira à finalidade para a qual fomos criados? como eles são em si mesmos e em sua própria natureza, Não, não o fazemos, a nossa luz não brilha diante de Deus para satisfazer os curiosos, mas como são em relação a como seus luminares brilham diante de nós, Mateus 5.14. esta terra, ao qual servem como luminares. E isto é sufi­ Queimamos as candeias do nosso Mestre, mas não nos im­ ciente para nos dar motivos de louvor e ações de graças. portamos com a obra do nosso Mestre. n I 7 GÊNESIS 1 w. 20-23 Particular, w. 16-18. versículos nos dão um relato. A obra da criação não só 1. Observe que os luminares do céu são o sol, a prosseguiu lua gradualmente de uma coisa para outra, mas e as estrelas. E todos eles são obra das mãos de Deus. surgiu e avançou gradualmente daquilo que era menos (1) O sol é o maior de todos os luminares, mais de um excelente para aquilo que era mais excelente, nos en­ milhão de vezes maior do que a terra, e o mais glorioso sinando a avançar na direção da perfeição e do esforço e útil de todos os luminares do céu, um exemplo extra­ para que as nossas últimas obras possam ser as melho­ ordinário da sabedoria, poder e bondade do Criador, e res obras. Foi no quinto dia que os peixes e as aves foram uma bênção valiosa para as criaturas deste mundo in­ criadas, e ambos a partir das águas. Embora haja um ferior. Aprendamos com o Salmo 19.1-6 como devemos só tipo de carne dos peixes, e um outro das aves, elas dar a Deus a glória devida ao seu precioso nome, como foram feitas juntas, e ambas a partir das águas. Porque o Criador do sol. (2) A lua é um luminar menor, contudo o poder da primeira causa pode produzir efeitos muito é aqui considerado um dos maiores luminares, porque diferentes das mesmas causas secundárias. Observe: 1. embora em relação à sua magnitude e luz emprestada A formação dos peixes e das aves, no princípio, w. 20,21. seja inferior a muitas das estrelas, pela virtude de sua Deus ordenou que eles fossem produzidos. O Senhor dis­ função, como governante da noite, e em respeito à sua se: Que as águas produzam em abundância. Não como utilidade para a terra, ela é mais excelente que as estre­ se as águas tivessem qualquer poder produtivo em si, las. Estas são muito valiosas por serem muito úteis. E mas: “Que as águas produzam seres, peixes nas águas são os maiores luminares. Não que tenham os melhores e aves fora delas”. Esta ordem Ele mesmo executou: dons, mas porque humildemente fazem o melhor com Deus criou grandes baleias, etc. Insetos, que talvez se­ eles. Todo aquele que quiser, entre vós, fazer-se grande, jam tão variados e numerosos quanto qualquer espécie que seja vosso serviçal, Mateus 20.26. (3) Ele também de animais, e a estrutura deles, curiosamente, fizeram fez as estrelas, que são aqui mencionadas como parecem parte da obra deste dia, alguns deles sendo associados aos olhos vulgares, sem distinguir entre os planetas e aos peixes e outros às aves. O Sr. Boyle (eu me lembro) as estrelas fixas, ou explicar o seu número, natureza, diz que ele admira a sabedoria e o pode do Criador tan­ lugar, magnitude, movimentos, ou influências. Porque to em uma formiga como em um elefante. Nota-se aqui as escrituras foram escritas, não para satisfazer a nossa vários tipos de peixes e aves, cada um com a sua espécie, curiosidade e tornar-nos astrônomos, mas para nos levar e o grande número de ambos que foram produzidos, por­ a Deus, e nos tornar santos. Agora é dito que estes lu­ que as águas produziram em abundância. E se menciona minares governam (w. 16,18). Não que elas tenham um particularmente as grandes baleias, o maior dos seres domínio supremo, como tem Deus, mas elas governam aquáticos, cuja corpulência e força, que excedem a de sujeitas ao Senhor. Aqui se diz que o luminar menor, a qualquer outro animal, são provas notáveis do poder e lua, governa a noite. Mas no Salmo 136.9 as estrelas são da grandeza do Criador. A expressa observação que se mencionadas como participantes deste governo. A lua e faz da baleia, acima de todos os demais, parece suficien­ as estrelas para presidirem a noite. Nenhum outro pro­ te para determinar de que animal se trata o Leviatã, Jó pósito é apresentado além de dar luz, Jeremias 31.35. O 41.1. A formação curiosa dos corpos dos animais, seus ta­ modo melhor e mais honrado de governar é dando luz e manhos, formas e naturezas diferentes, com os poderes fazendo o bem. Estes astros merecem respeito por vive­ admiráveis da rida sensível com a qual eles são revesti­ rem uma vida útil, brilhando como luminares. dos, quando devidamente considerados, servem, não só 2. Aprendemos com tudo isto: (1) O pecado e a lou­para calar e envergonhar as objeções dos ateus e infiéis, cura da antiga idolatria, a adoração ao sol, à lua e às es­ mas para elevar os pensamentos e louvores de Deus nas trelas, que, alguns pensam, surgiu, ou pelo menos parece almas piedosas e devotas, Salmos 104.25ss. 2. A bênção que surgiu, de algumas tradições rompidas na era pa­ deles, em benefício de sua continuidade. A vida pode ser triarcal a respeito do governo e domínio dos luminares mal utilizada, desperdiçada e até mesmo perdida. A sua do céu. Mas o relato dado aqui a respeito deles mostra força não é a mesma força das pedras. Ela é como uma claramente que são tanto criaturas de Deus quanto ser­ vela que se acabará, se não for primeiramente apagada. vos do homem. Portanto, é uma grande afronta a Deus Portanto, o sábio Criador não só fez os indivíduos, mas e uma atividade grandemente reprovável fazer deles di­ supriu tudo o que era necessário para a propagação de vindades e dar-lhes honras divinas. Veja Deuteronômio várias espécies. Deus os abençoou, dizendo, Frutificai, e 4.19. (2) O dever e a sabedoria de adorar diariamente aomultiplicai-vos, v. 22. Deus abençoará as suas próprias Senhor Deus que fez todas estas coisas, e as fez para que obras, e não as abandonará. E aquilo que Ele faz dura­ sejam para nós aquilo que elas são. As rotações do dia rá perpetuamente, Eclesiastes 3.14. O poder da provi­ e da noite nos obrigam a oferecer sacrifícios solenes de dência de Deus preserva todas as coisas, assim como o oração e louvor a cada manhã e a cada anoitecer. seu poder criador as produziu no início. A fertilidade é o efeito da bênção de Deus e deve ser atribuída a ela. A multiplicação dos peixes e das aves, de ano a ano, ainda é A Criação fruto desta bênção. Bem, vamos dar a Deus a glória que w. 20-23 lhe é devida pela continuidade destas criaturas até hoje, pois ela visa o benefício do homem. Veja Jó 12.7,9. E uma A cada dia, até agora, foram produzidos seres muito pena que recreações de pesca e caça, inocentes em si, preciosos e excelentes, os quais nunca podemos admi­ sejam abusadas fazendo com que as pessoas se afastem rar suficientemente. Mas não lemos sobre a criação de de Deus e de suas obrigações. Mas é possível aperfeiçoáqualquer criatura vivente até o quinto dia, do qual estes las de forma que sejamos levados à contemplação da sa­ w. 24,25 GÊNESIS 1 bedoria, do poder, e da bondade Daquele que fez todas X Que a criação do homem foi mais extraordinária estas coisas, levando-nos a temer ao Senhor, assim como A e um ato mais imediato da sabedoria e do poder os peixes e as aves se sentem em relação a nós. divino do que a criação das outras criaturas. A narra­ tiva deste fato é apresentada com solenidade, trazendo uma distinção visível dos demais. Até este momento, havia sido dito: “Haja luz”, e: “Haja uma expansão”, e: A Criação “Produza a terra, ou as águas” tais coisas. Mas agora a w. 24,25 palavra de ordem se transforma em uma palavra de con­ Temos aqui a primeira parte da obra do sexto dia. O selho: “Façamos o homem, por causa de quem todas as mar foi, no dia anterior, cheio com os seus peixes, e o ar criaturas foram feitas. Esta é uma obra que devemos to­ com as suas aves. E neste dia foram feitas as bestas-feras mar em nossas próprias mãos”. No início, o Senhor fala da terra, o gado, e os répteis que pertencem à terra. Aqui, como alguém que tem autoridade. Neste ponto, Ele fala como antes: 1. O Senhor proferiu a sua Palavra. Ele dis­ como alguém que tem afeição. Porque as suas delícias se, Produza a terra, não como se a terra tivesse alguma estavam com os filhos dos homens, Provérbios 8.31. Tudo virtude prolífica para produzir estes animais, ou como se indica que esta era a obra que Ele mais almejava. Era Deus entregasse o seu poder criador a ela. Mas: “Produza como se o Senhor tivesse dito: “Tendo finalmente esta­ a terra alma vivente conforme a sua espécie, de acordo belecido as preliminares, vamos nos ocupar agora com o com o projeto que foi estabelecido nos conselhos divinos fundamental. Façamos o homem”. 0 homem deveria ser a respeito de sua criação.” 2. Ele também fez a obra. E uma criatura diferente de todas aquelas que haviam sido os fez a todos conforme a sua espécie, não só de diversas feitas até aquele momento. Carne e espírito, céu e terra, formas, mas de diversas naturezas, maneiras, alimenta­ devem ser reunidos nele, e ele deve associar-se a ambos ção e aspectos. Alguns para serem domesticados ao redor os mundos. Portanto, o próprio Deus não só se incum­ da casa, outros para serem selvagens nos campos. Alguns biu de fazê-lo, mas teve prazer em se expressar como se vivendo da erva do campo, outros da carne. Alguns ino­ convocasse um conselho para considerar a formação do fensivos, outros venenosos. Alguns corajosos, e outros homem: Façamos o homem. As três pessoas da Trinda­ tímidos. Alguns para o serviço do homem, e não para o de, Pai, Filho e Espírito Santo, deliberam sobre isso e seu sustento, como o cavalo. Outros para o seu sustento, concordam com isso, porque o homem, quando foi feito, e não para o seu serviço, como as ovelhas. Outros para as deveria ser dedicado e consagrado ao Pai, ao Filho e ao duas coisas, como o boi, e outros para nenhuma das duas, Espírito Santo. Neste grandioso nome somos, com bom como os animais selvagens. Em tudo isto se manifesta a motivo, batizados, pois a este grandioso nome devemos multiforme sabedoria do Criador. a nossa existência. Que o homem seja sempre governado por aquele que disse: Façamos o homem. I A Criação w. 26-28 Temos aqui a segunda parte da obra do sexto dia, a criação do homem, o que somos, de um modo especial, interessados em observar, para que possamos conhecer a nós mesmos. Observe: o homem foi a última de todas as criaturas a ser IalgumaQue feita, para que não pudesse sei' suspeito de ter, de forma, ajudado Deus na criação do mundo. Há uma pergunta que deve ser sempre humilhante e mor­ tificante para o homem: Onde estavas tu - ou qualquer da tua espécie - quando eu fundava a terra?, Jó 88.4. No entanto, foi tanto uma honra como um favor ao homem ter sido feito por último. Uma honra, porque o método da criação era avançar a partir daquilo que era o menos perfeito para aquilo que era o mais perfeito. E um favor, porque não seria adequado que o homem fosse alojado no palácio criado para ele, até que tudo estivesse com­ pletamente preparado para a sua recepção. O homem, tão logo foi feito, teve toda a criação visível diante de si, tanto para contemplar como para ter o conforto. O ho­ mem foi feito no mesmo dia que os animais foram feitos, porque o seu corpo foi feito da mesma terra que o deles. E enquanto ele estiver no corpo, habitará na mesma ter­ ra com eles. Que Deus nos guarde de que na busca da satisfação da carne e das suas concupiscências venhamos a nos tornar como os animais que perecem! T T T Que o homem foi feito à imagem e semelhanL 1 ça de Deus, duas palavras para expressar a mesma coisa, tornando-as mais expressivas. Imagem e semelhança denotam a imagem mais parecida, a se­ melhança mais próxima de qualquer das criaturas visí­ veis. 0 homem não foi feito à semelhança de nenhuma criatura que veio antes dele, mas à semelhança de seu Criador. Ainda que entre Deus e o homem haja uma dis­ tância infinita. Cristo é a imagem expressa da pessoa de Deus Pai, como o Filho de seu Pai, tendo a mesma natureza, E apenas um pouco da honra de Deus que é colocada sobre o homem, que é a imagem de Deus apenas como a sombra no vidro, ou a estampa do rei sobre uma moeda. A imagem de Deus sobre o homem consiste nestas três coisas: 1. Em sua natureza e cons­ tituição, que não se referem ao seu corpo (porque Deus não possui um corpo), mas à sua alma. Há uma honra que Deus certamente colocou sobre o corpo do homem, o fato do Verbo ter se feito carne, o Filho de Deus ter se vestido com um corpo igual ao nosso, e em breve nos dará um corpo que terá uma glória semelhante à dele. E isto podemos seguramente dizer: Que aquele por quem Deus fez os mundos, não só o grande mundo, mas o homem que é o pequeno mundo, formou o corpo hu­ mano, no princípio, de acordo com o projeto que criou para si mesmo na plenitude dos tempos. Mas é a alma, a grande alma do homem, que traz em si, de uma forma especial, a imagem de Deus. A alma é um ser espiritual, um ser inteligente e imortal, um ser influente e ativo, 9 GÊNESIS 1 w. 29,30 que lembra Deus, o Pai dos espíritos, e a Alma do mun­ cho e fêmea, porque não deveriam propagar a sua espécie do. O espírito do homem é a candeia do Senhor. A alma (Lc 20.34-36). Mas o homem foi feito assim, para que a do homem, considerada em suas três nobres faculdades natureza pudesse ser propagada e a raça humana tivesse - entendimento, vontade e poder ativo -, talvez seja o a sua continuidade. Fogos e candeias, os luminares deste espelho mais brilhante e mais claro em termos de natu­ mundo inferior, muitas vezes têm o poder de causar a igni­ reza, através do qual possamos ver a Deus. 2. Em seu ção uns dos outros porque eles se enfraquecem e acabam. lugar e autoridade: Façamos o homem à nossa imagem, Mas não é assim com os luminares do céu: as estrelas e que ele domine. Como ele tem o governo das criatu­ não acendem outras estrelas. Deus fez apenas um macho ras inferiores, ele é, por assim dizer, o representante e uma fêmea, para que todas as nações dos homens pu­ de Deus, ou o vice-rei, sobre a terra. Como as demais dessem saber que eles mesmos foram feitos de um único criaturas não são capazes de temer e servil’ a Deus, sangue, descendentes de uma origem comum, e pudessem portanto, Deus fez com que temessem e servissem ao assim ser levados a amar uns aos outros. Deus, tendo-os homem. No entanto, o governo que o homem tem sobre feito capazes de transmitir a natureza que haviam rece­ si mesmo, através da liberdade de sua vontade, tem em bido, lhes disse, Frutificai, e multiplicai-vos, e povoai a si mais da imagem de Deus do que o governo que de­ terra. Aqui, o bondoso Senhor lhes deu: 1. Uma grande sempenha sobre as outras criaturas. 3. Em sua pureza herança: Povoai a terra; é isto que é outorgado aos filhos e retidão. A imagem de Deus sobre o homem consiste dos homens. Eles foram feitos para habitar sobre a face no conhecimento, na justiça e na verdadeira santidade, de toda a terra, Atos 17.26. Este é o lugar em que Deus Efésios 4.24; Colossenses 3.10. Ele era reto, Eclesias- estabeleceu o homem para sei' o servo da sua providência tes 7.29. Ele tinha uma conformidade habitual de todos no governo das criaturas inferiores, e, por assim dizer, a os seus poderes naturais com toda a vontade de Deus. inteligência deste mundo. Ser o destinatário da abundân­ Seu entendimento viu as coisas divinas claramente e cia de Deus, da qual outras criaturas vivem dependentes, verdadeiramente, e não havia erros nem enganos em mas não sabem disso. Ser igualmente o coletor de seus seu conhecimento. A sua vontade agiu prontamente louvores neste mundo inferior, e pagá-los ao tesouro de e universalmente de acordo com a vontade de Deus, cima (SI 145.10). E, finalmente, ser um noviço para um sem relutância ou resistência. Seus sentimentos eram estado melhor. 2. Uma família numerosa e permanente, todos regulares, e não tinha apetites ou paixões desor­ para desfrutar desta herança, pronunciando uma bênção denadas. Seus pensamentos eram facilmente trazidos sobre eles, em virtude do que a sua posteridade deve se e fixados nos melhores assuntos, e não havia vaidade estender aos cantos extremos da terra e continuar até o nem falta de controle neles. Todos os poderes inferiores período extremo de tempo. A fertilidade e o crescimento estavam sujeitos aos preceitos e orientações dos pode­ dependem da bênção de Deus: Obede-Edom tinha oito fi­ res superiores, sem qualquer motim ou rebelião. Assim lhos, porque Deus o abençoou, 1 Crônicas 26.5. É devido santos, e assim felizes eram os nossos primeiros pais, a esta bênção, que Deus ordenou no princípio, que a raça que traziam em si mesmos a imagem do precioso Deus. humana ainda existe. E assim, uma geração passa e outra E esta honra, colocada sobre o homem no princípio, é vem a seguir. um bom motivo da razão pela qual não devemos falar mal uns dos outros (Tg 3.9), nem fazer mal uns aos ou­ Que Deus deu ao homem, quando o fez, um domínio tros (cap. 9.6), e um bom motivo da razão pela qual não sobre as criaturas inferiores, sobre os peixes do mar devemos nos rebaixar a serviço do pecado, e também e sobre as aves do céu. Embora o homem não supra as ne­ da razão pela qual devemos nos dedicar ao serviço de cessidades de nenhum deles, ele tem poder sobre ambos, Deus. Mas, como estás caído, ó filho da alva! Como esta quanto mais sobre todo ser vivente que se move sobre a imagem de Deus sobre o homem está deformada! Quão terra. Estes estão sob os seus cuidados, e dentro de seu pouco é o que resta dela, e quão grande é a sua ruína! alcance. Deus planejou, com isso, colocar honra sobre o Porém o Senhor a renova sobre as nossas almas através homem, para que ele pudesse se achar o mais fortemente da sua graça santificadora! obrigado a trazer honra ao seu Criador. Este domínio está muito diminuído, e perdido, em virtude da queda. Porém, a Que o ser humano foi feito macho e fêmea, e providência de Deus continua para aos filhos dos homens abençoado com a bênção da fertilidade e do tanto quanto é necessário para a segurança e sustento de crescimento. Deus disse, Façamos o homem, e imediata­ suas vidas, e a graça de Deus tem dado aos santos um tí­ mente se segue, E criou Deus o homem. Ele executou o tulo novo e melhor para a criatura do que aquele que foi que havia decidido. Conosco, dizer e fazer são duas coi­ penalizado pelo pecado. Porque tudo será nosso se formos sas diferentes. Mas não é assim com Deus. Ele os criou, de Cristo, 1 Coríntios 3.22. macho e fêmea, Adão e Eva, Adão primeiro, e Eva de sua costela, cap. 2. Parece que das demais criaturas Deus fez muitos casais, mas do homem Ele não fez um? (Ml 2.15). A Criação O Senhor tinha o seu precioso Espírito em ação e, dele, w. 29,30 Cristo traz um argumento contra o divórcio, Mateus 19.4,5. Nosso primeiro pai, Adão, estava limitado a uma Temos aqui a terceira parte da obra do sexto dia, o mulher. E, se a tivesse despedido, não haveria outra com que não foi nenhuma criação nova, mas uma provisão quem pudesse se casar, o que claramente sugere que os misericordiosa de mantimento a toda a carne, Salmos laços do casamento não deveriam sei' dissolvidos pelo 136.2-5. Aquele que fez o homem e os animais assim cui­ bei prazer dos cônjuges. Os anjos não foram feitos ma­ dou de preservar a ambos, Salmos 36.6. Aqui temos: V v. 31 GÊNESIS 1 10 0 alimento dado ao homem, v. 29. A erva e os frutos começa, também trará um fim, em providência e graça, devem ser o seu mantimento, incluindo o grão e todos como aqui na criação. Observe: os produtos da terra. Estas coisas lhe foram concedidas, mas (parece) não a carne, até depois do dilúvio, cap. 9.3. A revisão que Deus fez de sua obra: Ele viu todas as E antes da terra ser inundada pelo dilúvio, muito antes coisas que havia feito. Ele ainda faz assim. Todas as de ser amaldiçoada por causa do homem, seus frutos, obras de suas mãos estão sob o seu olhar. Aquele que fez sem dúvida, eram mais agradáveis ao paladar e mais fortudo, vê tudo. Aquele que nos fez, nos vê, Salmos 139.1tificadores e nutritivos para o coi-po do que o tutano e a 16. A onisciência não pode ser separada da onipotência. gordura, e toda porção da comida do rei, são agora. Veja Conhecidas de Deus são todas as suas obras, Atos 15.18. aqui: 1. Aquilo que deve tornar-nos humildes. Assim como Mas este era o reflexo solene da Mente Eterna sobre as fomos feitos da terra, somos sustentados por ela. Uma cópias da sua própria sabedoria e dos produtos de seu vez certamente os homens comeram da comida dos an­ próprio poder. Deus aqui nos deu um exemplo para que jos, pão do céu. Mas eles morreram (Jo 6.49). Aquele era possamos revisar os nossos trabalhos. Tendo nos dado para eles apenas o alimento da terra, Salmos 104.14. Há um poder de reflexão, Ele espera que usemos este po­ alimento que dura para a vida eterna. E o Senhor sempre der, vejamos o nosso caminho (Jr 2.23), e pensemos nisto, no-lo concede. 2. Aquilo que deve nos tornar agradecidos. Salmos 119.59. Quando terminamos um dia de trabalho, O Senhor é para o corpo. Dele recebemos todo o susten­ e estamos entrando no descanso da noite, devemos ter to e os confortos desta vida, e a Ele devemos dar graças, uma comunhão com os nossos próprios corações pensan­ constantemente. Ele nos dá todas as coisas para que delas do sobre o que fizemos naquele dia. Assim, da mesma possamos desfrutar ricamente, não só para suprir as ne­ forma, quando terminamos um trabalho de uma sema­ cessidades, mas fartura de guloseimas e de variedades, na, e estamos entrando no descanso do sábado, devemos para ornamento e deleite. Como estamos em dívida para então nos preparar para nos encontrarmos com o nosso com o Senhor! Como devemos ser cuidadosos - à medida Deus. E quando estivermos terminando o trabalho da que vivemos da generosidade de Deus - para vivermos nossa vida, e entrarmos no nosso descanso na sepultura, para a sua glória! 3. Aquilo que deve nos tornar modera­ este é um tempo para trazer tudo à lembrança, para que dos e satisfeitos com a nossa porção. Embora Adão tenha possamos morrer em meio ao arrependimento, partindo recebido o domínio sobre os peixes e as aves, Deus o limi­ da terra para o céu. tou, em seu alimento, às ervas e aos frutos. E ele nunca reclamou disso. Embora ele tenha depois cobiçado o fruto A satisfação que Deus teve em relação à sua obra. proibido, por causa da sabedoria e do conhecimento que Quando chegamos a revisar os nossos trabalhos desejou para si, nunca lemos que ele tenha cobiçado a car­ descobrimos, para a nossa vergonha, que boa parte fo ne proibida. Tendo consciência de que Deus dá o alimento feita muito mal. Mas, quando Deus revisou a sua obr para a nossa vida, não façamos como os murmuradores de tudo foi muito bom. Ele não disse que estava bom at Israel, que pediram o alimento para a sua própria concu­ que a visse assim, para nos ensinar a não respondermos piscência, Salmos 78.18. Veja Daniel 1.15. a respeito de algo antes de ouvirmos. A obra da criação foi uma obra muito boa. Tudo o que Deus fez foi bem Alimento dado aos animais, v. 30. Deus cuida dos feito, e não houve nenhuma imperfeição nem defeito. bois? Sim, certamente, Ele dá o alimento conve­ 1. Era bom. Bom, porque tudo estava de acordo com o niente para eles, e não só para os bois, que eram usadospensamento do Criador, exatamente como Ele queria em seus sacrifícios e a serviço do homem, mas até mesmo que fosse. Quando a transcrição veio a ser comparada os jovens leões e corvos são cuidados pela sua providên­ com o grande original, achou-se exata, sem errata nela, cia. Eles pedem e recebem cle Deus o seu alimento. Vamos nenhum traço fora do lugar. Bom, porque correspondia à dar a Deus a glória que lhe é devida por sua generosidade finalidade de sua criação, e é adequado para o propósito para com as criaturas inferiores, pois todos são alimenta­ para o qual foi criado. Bom, porque era útil ao homem, dos, como sempre foram, em sua mesa, todos os dias. Ele a quem Deus havia designado senhor da criação visível. é um grande pai de família, muito rico e generoso, que Bom, porque tudo é para a glória de Deus. Esta avalia­ satisfaz o desejo de cada ser vivente. Que isto encoraje ção está presente em toda a criação visível, a qual é uma o povo de Deus a lançar o seu cuidado sobre Ele, e que demonstração da existência e da perfeição de Deus, e que nenhum seja solícito a respeito do que comerá e beberá. tende a gerar, na alma do homem, um respeito religioso Aquele que supriu as necessidades de Adão sem que ele pelo Senhor, e uma veneração a Ele. 2. Era muito bom. Da se desse conta, e ainda supre as necessidades de todas as obra de cada dia (exceto o segundo) é dito que era bom. criaturas sem que elas se dêem conta, não deixará que Mas agora, era muito bom. Porque: (1) Agora o homem aqueles que confiam nele tenham falta de alguma coisa estava feito, aquele que era o principal dos meios de Deus, boa, Mateus 6.26. Aquele que alimenta as suas aves, não que foi designado para ser a imagem visível da glória do deixará que os seus filhotes morram de fome. Criador e a boca da criação em seus louvores. (2) Agora tudo estava feito. Todas as partes eram boas, mas tudo reunido era muito bom. A glória e a bondade, a beleza e a A Criação harmonia das obras de Deus, tanto da providência como v. 31 da graça, como estas da criação, se manifestarão melhor quando forem aperfeiçoadas. Quando a primeira pedra Temos aqui a aprovação e a conclusão de toda a obra for trazida com aclamações: Graça, graça a ela, Zacarias da criação. Para Deus, a sua obra é perfeita. E se Ele a 4.7. Portanto, não julgue nada antes do tempo. 1 I n n 11 GÊNESIS 2 w. 1-3 O tempo em que esta obra foi concluída: Foi a inimigos. Pois Ele é o Senhor dos exércitos, de todos es­ tarde e a manhã o dia sexto. Assim então em seis tes exércitos. Daniel 4.35. 2. Os céus e a terra são obras dias Deus fez o mundo. Não podemos deixar de pensar acabadas, e também o são todas as criaturas que neles que Deus poderia ter feito o mundo em um instante. Ele estão. Tão perfeita é a obra de Deus, que “nada se lhe disse: Haja luz, e houve luz. Ele poderia ter dito: “Haja um deve acrescentar e nada se lhe deve tirar”, Eclesiastes mundo”, e teria havido um mundo, em um instante, em um 3.14. Deus, que começou a construir, mostrou-se capaz piscar de olhos, como na ressurreição, 1 Coríntios 15.52. de concluir. 3. Terminados os primeiros seis dias, Deus Mas o Senhor o fez em seis dias, para que pudesse se reve­ concluiu toda a obra da criação. Ele tinha concluído a lar como um agente livre, fazendo a sua própria obra tanto sua obra de tal maneira, que embora, na sua providên­ do seu próprio modo com em seu próprio tempo, para que cia, Ele trabalhe até agora (Jo 5.17), preservando e go­ a sua sabedoria, o seu poder e a sua bondade pudessem vernando todas as criaturas, e, em particular, forman­ ser revelados a nós, e serem meditados por nós, o mais do o espírito do homem nele, ainda assim Ele não cria distintamente, e também para que Ele pudesse nos dar nenhuma nova espécie de criaturas. Nos milagres, Ele um exemplo de trabalhar seis dias e descansar no sétimo. controlava e dominava a natureza, mas nunca modificou Portanto, assim temos o motivo do quarto mandamento. o seu curso determinado, nem recusou ou acrescentou O dia de repouso contribuiria tanto para manter a religião nada ao que tinha sido estabelecido. 4. O Deus eterno, no mundo, que Deus lhe deu atenção no momento de sua embora infinitamente feliz no usufruto de si mesmo, criação. E agora, assim como Deus revisou sua obra, revi­ ainda ficou satisfeito com a obra das suas próprias semos nossas meditações a respeito dela, e descobriremos mãos. Ele não descansou como alguém cansado, mas que são muito imperfeitas e defeituosas, e que nossos lou­ como alguém satisfeito com os exemplos da sua própria vores são frágeis e insípidos. Movamo-nos, portanto, com bondade e as manifestações da sua própria glória. tudo o que está dentro de nós, para adorar aquele que fez o céu, a terra, o mar, e as fontes de águas, de acordo com O início do reino da graça, na santificação do o teor do Evangelho eterno, que é anunciado a todas as sábado, v. 3. Deus descansou neste dia, e teve nações, Apocalipse 14.6,7. Todas as suas obras, em todos complacência nas suas criaturas, e então o santi os lugares de seu domínio, o bendigam. Portanto, bendize cou, e nos indicou, naquele dia, que descansássem ao Senhor, ó minha alma! e tivéssemos uma complacência no Criador. E o s descanso, no quarto mandamento, se torna uma razão para o nosso, depois de seis dias de trabalho. Observe que: 1. A solene observância de um dia, em sete, como C a p ít u l o 2 sendo um dia de descanso sagrado e trabalho sagrado, para a honra de Deus, é o dever indispensável de todos Este capítulo é um apêndice à história da criação, aqueles a quem Deus revelou o seu santo dia de repou­ explicando e detalhando mais particularmente so. 2. O caminho da santificação pelo sábado é o bom aquela parte da história que está mais intima­ caminho antigo, Jeremias 6.16. Os sábados são tão an­ mente relacionada com o homem, o favorito des­ tigos quanto o mundo. E eu não vejo motivo para du­ te mundo inferior. Nele, temos: I. A instituição vidar que o sábado, tendo sido instituído na inocência, e santificação do dia de repouso, que foi criado fosse religiosamente observado pelo povo de Deus, para o homem, para promover a sua santidade durante toda a época dos patriarcas. 3. O sábado do e o seu conforto, w. 1-3. II. Uma narrativa mais Senhor é verdadeiramente honorável, e temos razão particular da criação do homem, como o centro para honrá-lo, honrá-lo por causa da sua antigüidade, e a síntese de toda a obra, w. 1-7. III. Uma des­ o seu grande Autor, a santificação do primeiro sábado crição do jardim do Éden, e a colocação do ho­ pelo próprio santo Deus, e pelos nossos primeiros pais mem nele, sob as obrigações de uma lei e de um em inocência, em obediência a Ele. 4. O dia de repouso é um dia abençoado, pois Deus o abençoou, e aquilo concerto, w. 8-17. IV A criação da mulher, o seu casamento com o homem e a instituição da orde­ que Ele abençoa é verdadeiramente abençoado. Deus nança do casamento, v. 18ss. colocou honra sobre ele, e nos recomendou que desfru­ tássemos este dia, e prometeu, neste dia, encontrarnos e abençoar-nos. -5. O dia de repouso é um dia santo, pois Deus o santificou. Ele o separou e distinguiu dos A Criação demais dias da semana, e o consagrou e o separou para w. 1-3 si mesmo, para o seu serviço e para a sua honra. Em­ bora normalmente se aceite que o sábado cristão que Aqui temos: nós observamos, considerado desde a criação, não é o 1" O estabelecimento' do reino da natureza, com Deus sétimo, mas o primeiro dia da semana, ainda assim, Á descansando da obra da criação, w. 1,2. Observe sendo um sétimo dia, nele celebramos o descanso de aqui: 1. As criaturas feitas tanto no céu quanto na terra Deus Filho, e a conclusão da obra da nossa redenção. são os seus exércitos, o que denota que são numero­ Podemos e devemos crer nesta instituição original do sas, porém organizadas, disciplinadas e subordinadas. sábado, e comemorar a obra da criação, para a honra Como é grande a sua soma! E todas conhecem o seu do grande Criador, que, portanto, é digno de receber, lugar, e permanecem nele. Deus as usa como seus exér­ em tal dia, adoração, e honra, e louvor, de todas as as­ citos para a defesa do seu povo e a destruição dos seus sembléias religiosas. m n w. 4-7 GÊNESIS 2 A Criação w. 4-7 Nestes versículos: T Há um nome atribuído ao Criador, com que ainda X não nos deparamos, que é Jeová - o SENHOR, em letras maiúsculas, que são constantemente usadas na nossa tradução em português, para indicar que no ori­ ginal está escrito Jeová. Durante todo o primeiro capí­ tulo, Ele foi chamado E bhim - um Deus de poder. Mas agora, Jeová Elohivi - um Deus de poder e perfeição, um Deus que conclui. Da mesma maneira como o vemos conhecido pelo seu nome Jeová, quando apareceu para realizar o que tinha prometido (Êx 6.3), também agora o vemos conhecido por este nome, quando concluía o que tinha iniciado. Jeová é aquele grande e incomunicável nome de Deus, que indica que Ele existe de si mesmo, e Ele dá existência a todas as coisas; é adequado, portanto, que Ele seja chamado por este nome, agora que os céus e a terra estão acabados. Faz-se outra observação acerca da produção de n plantas e ervas, porque elas foram criadas e indi­ cadas para serem o alimento do homem, w. 5,6. Observe aqui: 1. A terra não produziu frutos por ela mesma. Gra­ ças a alguma virtude inata, mas, puramente por causa do poder todo-poderoso de Deus, que formou toda planta e toda erva, antes que crescessem na terra. Assim tam­ bém a graça na alma, esta planta de renome, não cresce por si própria no solo da natureza, mas é obra das mãos de Deus. 2. A chuva também é um dom de Deus. Ela não veio, até que o Senhor Deus fez chover. Se faltar chuva, é Deus que a retém. Se a chuva vem abundantemente na sua estação, é Deus que a envia. Se ela vem de uma maneira diferente, é Deus que faz chover sobre uma cidade e sobre outra cidade não, Arnós 4.7. 3. Embora Deus, normalmente, trabalhe segundo métodos, Ele não está limitado a eles, mas quando deseja, Ele pode fazer o seu próprio trabalho sem eles. Assim como as plantas foram criadas antes que o sol fosse criado, também esta­ vam ali, antes que houvesse chuva para molhar a terra, ou homem para lavrá-la. Portanto, embora não devamos tentar a Deus na negligência dos métodos, devemos con­ fiar em Deus, na falta de métodos. 4. De uma maneira ou de outra, Deus irá cuidar de regar as plantas que são da sua própria plantação. Embora ainda não houvesse chuva, Deus criou um vapor equivalente a uma chuva, e com ele regou toda a face da terra. Assim Ele escolheu cumprir o seu objetivo, pelos métodos mais fracos, para que a excelência do poder pudesse ser de Deus. A graça divina desce como um vapor, ou um orvalho silencioso, e rega a igreja sem ruído, Deuteronômio 32.2. Uma narrativa mais particular da criação do homem, v. 7. O homem é um pequeno mundo, que consiste de céu e terra, alma e corpo. Aqui temos uma narrativa da origem de ambos, e de como foram unidos: devemos considerar isto seriamente, e dizer, para louvor do nosso Criador: De um modo terrível e tão maravilhoso fui formado, Salmos 139.14. Eliú, na época dos patriarcas, se refere a esta história quando diz (Jó 12 33.6): “Do lodo... eu fui formado”, e (v. 4): “A inspiração do Todo-Poderoso me deu vida", e ainda (32.8): “Há um espírito no homem”. Observe, então: 1. A origem humilde, e apesar disto, a curiosa estru­ tura do corpo do homem. (1) A matéria era desprezível. Ele foi criado do pó da terra, uma coisa muito improvável da qual criar um homem. Mas o mesmo poder infinito que criou o mundo do nada, criou o homem, a sua obra prima, a partir de quase nada. Ele foi criado do pó, da po­ ema, como a que há na superfície da terra. Provavelmen­ te, não pó seco, mas pó umedecido com o vapor que su­ bia, v. 6. Ele não foi criado de pó de ouro, de pó de pérola, nem de pó de diamante, mas de pó comum, pó da terra. Aqui está escrito que ele é terreno, choikos - empoei­ rado, 1 Coríntios 15.47. E nós também somos terrenos, pois somos a sua descendência, e temos o mesmo molde. Tão próxima é a afinidade que existe entre a terra e os nossos pais terrenos, que o útero da nossa mãe, de onde nascemos, é chamado de terra (SI 139.15), e a terra, na qual devemos ser sepultados, é chamada de ventre da nossa mãe, Jó 1.21. Nosso fundamento está no pó, Jó 4.19. O material de que somos formados é terreno, e o seu molde é como o de um vaso terreno, Jó 10.9. Nosso alimento procede da terra, Jó 28.5. A nossa familiaridade está com a terra, Jó 17.14. Nossos pais estão na terra, e a nossa própria tendência final é caminhar rumo a ela. E, então, o que temos em nós mesmos de que podería­ mos nos orgulhar? (2) Ainda assim o Criador é grande, e a fabricação, magnífica. O Senhor Deus, a grande fonte de existência e poder, formou o homem. Sobre as outras criaturas, está escrito que foram criadas e feitas. Mas sobre o homem, é dito que foi formado, o que denota um processo gradual na obra, com grande precisão e exati­ dão. Para expressar a criação desta coisa nova, Ele toma uma nova palavra, uma palavra (opinam alguns) tomada emprestada da criação do oleiro do seu vaso, na roda. Pois nós somos o barro, e Deus, o nosso oleiro, Isaías 64.8. O corpo do homem é formado de maneira curiosa, Salmos 139.15,16. Materiam superabat opus - A obra é muito superior ao material. Apresentemos nossos corpos a Deus como sacrifícios vivos (Rm 12.1), como templos vivos (1 Co 6.19), e então estes corpos abatidos serão, em breve, transformados, para serem conforme o corpo glorioso de Cristo, Filipenses 3.21. 2. A origem elevada e a admirável utilidade da alma do homem. (1) Ela surge do sopro de Deus, e por ele é produzida. Ela não foi criada da terra, como o corpo; é uma pena, então, que ela deva apegar-se à terra e pre­ ocupar-se com coisas terrenas. Ela veio diretamente de Deus. Ele a deu, para que fosse colocada no corpo (Ec 12.7), da mesma maneira como Ele posteriormen­ te deu as tábuas de pedra da sua própria escrita para que fossem colocadas na arca, e o Urim da sua própria concepção, para ser colocado no peitoral. Com isto, Deus -não somente é o formador, mas o “Pai dos espíritos”. Que a alma que Deus soprou em nós, viva para Ele. E que esta alma seja para Ele, uma vez que ela é dele. Em suas mãos entreguemos o nosso espírito, pois das suas mãos o recebemos. (2) Ela se hospeda em uma casa de barro, e é a sua vida e o seu sustento. É por causa dela, que o homem é uma alma vivente, isto é, um homem vivo. Pois a alma é o homem. O corpo seria uma carcaça sem 13 GÊNESIS 2 w. 8-15 valor, inútil e abominável, se a alma não o animasse. A piso tão ricamente decorado. A sombra das árvores era o Deus, que nos deu esta alma, deveremos, em pouco tem­ seu refúgio. Debaixo delas, estavam a sua sala de jantar, po, prestar contas dela, como a empregamos, a usamos, os seus quartos, e nunca houve ambientes tão agradavel­ e como dispusemos dela. E se então for descoberto que mente atapetados como estes: os de Salomão, em toda a nós a perdemos, principalmente para ganhar o mundo, sua glória, não tinham a aparência destes. Quanto mais estaremos perdidos para sempre. Uma vez que a origem nós conseguirmos nos adaptar às coisas simples, e quan­ da alma é tão nobre, e a sua natureza e suas faculdades to menos nos permitirmos os prazeres artificiais, que são tão excelentes, não sejamos como aqueles tolos que foram inventados para gratificar o orgulho e a luxúria menosprezam a própria alma, preferindo os seus corpos do homem, mais próximos estaremos de um estado de a elas, Provérbios 15.32. Quando o nosso Senhor Jesus inocência. A natureza se satisfaz com pouco e com o que untou com lodo (ou barro) os olhos do cego, talvez qui­ é mais natural. Já a graça, se satisfaz com menos. Mas a sesse dizer que foi Ele que, no início, formou o homem luxúria não se satisfaz com nada. a partir do barro. E quando Ele soprou nos seus discí­ 2. A idealização e a mobília deste jardim eram o fruto pulos, dizendo, Recebei o Espírito Santo, Ele indicava imediato da obra da sabedoria e do podei' de Deus. O Se­ que tinha sido Ele que primeiro soprou nos narizes dos nhor Deus plantou este jardim, isto é, Ele o tinha plan­ homens o fôlego da rida. Aquele que criou a alma é o tado no terceiro dia, quando foram criados os frutos da único que pode renová-la. terra. Podemos supor que aquele era o lugar mais perfei­ to para o prazer e o deleite que o sol jamais viu, quando o Deus auto-suficiente designou que fosse a felicidade O Jardim do Éden atual da sua amada criatura, o homem em inocência, e w. 8-15 um tipo e uma figura da felicidade dos escolhidos res­ tantes em glória. Nenhum prazer pode ser agradável, ou Como o homem consiste de corpo e alma, um corpo satisfatório para uma alma, exceto aqueles que o próprio criado da terra e uma alma racional e imortal soprada Deus proveu e reservou para ela. Nenhum paraíso ver­ pelo céu, temos, nestes versículos, a provisão que foi fei­ dadeiro, exceto aquele plantado por Deus. A luz do nosso ta para a felicidade de ambos. Aquele que o criou tomou o próprio fogo, e as faíscas dos nossos próprios gravetos, cuidado necessário para fazê-lo feliz. A condição era que em breve nos deixarão no escuro, Isaías 50.11. Toda a o homem tivesse se conservado assim, e sabido o quando terra agora era um paraíso, comparado com aquilo em era próspero. Esta parte do seu ser através da qual ele que ela se tornou depois da queda, e depois do dilúvio. se relaciona com o mundo dos sentidos estava feliz. Pois Os jardins mais finos do mundo são um deserto, compa­ ele foi colocado no paraíso de Deus. A parte através da rados com aquilo que toda a face da terra era, antes de qual ele se relacionava com o mundo dos espíritos estava ser amaldiçoada por causa do homem. Mas isto não era bem provida. Pois ele foi levado a uma aliança com Deus. suficiente. Deus plantou um jardim para Adão. Os esco­ Senhor, o que é o homem, para que possa ser dignificado lhidos de Deus terão para si favores que os distinguirão. desta maneira, o homem que é um verme! Aqui, temos: 3. A condição deste jardim era extremamente doce. Ele estava no Éden, que quer dizer deleite e prazer. O lu­ Uma descrição do jardim do Éden, que pretendia ser gar aqui é particularmente descrito com tais marcas e li­ a mansão e o domínio deste grande Senhor, o palácio mites que seriam suficientes, eu imagino, quando Moisés deste príncipe. O escritor inspirado, nesta história, es­ escreveu, para especificar o lugar àqueles que conheciam crevendo em primeiro lugar para os judeus, e calculando aquela região. Mas agora, aparentemente, os curiosos a sua narrativa para a fase inicial da igreja, descreve as não conseguem contentar-se a este respeito. Deve ser a coisas de acordo com a sua aparência perceptível exte­ nossa preocupação assegurar um lugar no paraíso celes­ rior, e nos leva, por meio de revelações adicionais da luz tial, e então não precisaremos nos desconcertar com a divina, ao entendimento dos mistérios escondidos nelas. procura do lugar do paraíso terrestre. É certo que, onde As coisas espirituais são alimentos fortes, que eles ainda quer que ele estivesse, ele tinha todas as conveniências não podem suportar. Mas ele escreve como a carnais, 1 desejáveis, e (como nunca foi nenhuma casa nem jardim Coríntios 3.1. Por isto ele não insiste muito na felicida­ na terra), sem nenhum inconveniente. Este jardim era de da mente de Adão como na do seu estado exterior. A bonito, a alegria e a glória de toda a terra: sem dúvida, história mosaica, assim como a lei mosaica, prefere as era a terra na sua mais elevada perfeição. figuras das coisas celestiais, às coisas celestiais propria­ 4. As árvores que foram plantadas neste jardim. (1) mente ditas, Hebreus 9.23. Observe: Ele tinha todas as melhores e mais selecionadas árvores, 1. O lugar indicado para a residência de Adão era umem comum com o resto da terra. Era maravilhoso e ador­ jardim. Não uma casa de marfim, nem um palácio reves­ nado com cada árvore que, pela sua altura ou largura, tido com ouro, mas um jardim, mobiliado e enfeitado pela pela sua espécie ou cor, pelas suas folhas ou flores, era natureza, não por arte. Quão pouca razão têm os homens agradável à vista e encantava os olhos. Estava cheio e de se orgulhar de construções pomposas e magníficas, enriquecido com cada árvore que produzia frutos agra­ quando a felicidade do homem em inocência consistia dáveis ao paladar, e úteis ao corpo, desta maneira, boa no fato de que ele não precisava de nada disto! Assim para comida. Deus, sendo um Pai terno, não procurou como as roupas surgiram com o pecado, também as ca­ somente o benefício de Adão, mas também o seu prazer. sas. O céu era o telhado da casa de Adão, e nunca houve Pois existe um prazer coerente com a inocência, ou me­ nenhum telhado tão revestido e pintado de maneira tão lhor, existe um prazer verdadeiro e transcendente na curiosa. A terra era o seu piso, e nunca houve nenhum inocência. Deus se alegra na prosperidade dos seus ser­ I GÊNESIS 2 14 vos, e deseja que eles se sintam tranqüilos. Se estiverem escrito (v. 12): “o ouro dessa terra é bom. Ali há o bdélio e intranqüilos, será devido a eles mesmos. Quando a Pro­ a pedra sardónica” - certamente isto é mencionado para vidência nos coloca em um Éden de abundância e prazer, que a riqueza da qual a terra de Havilá se vangloriava nós devemos servi-lo com alegria e júbilo no coração, na pudesse parecer como folheada, comparada com aquela abundância das boas coisas que Ele nos dá. Mas: (2) Ha­ que era a glória da terra do Éden. Havilá tinha ouro, e via nele duas árvores extraordinárias, e peculiares a ele. especiarias e pedras preciosas. Mas o Éden tinha aquilo Em toda a terra, não havia semelhantes a elas. [1] Havia que era infinitamente melhor, a árvore da vida e a comu­ a árvore da vida, no meio do jardim, que não era tanto nhão com Deus. Da mesma maneira podemos dizer, dos uma recordação, ao homem, da fonte e do autor da sua africanos e indianos: “Eles têm o ouro, mas nós temos o vida, nem, talvez, nenhum meio natural para preservar Evangelho. O ouro da sua terra é bom, mas as riquezas ou prolongar a vida. Mas ela pretendia, principalmente, da nossa são infinitamente melhores”. ser um sinal e um selo a Adão, assegurando-lhe a conti­ nuidade da vida e da felicidade, até mesmo à imortalida­ T A colocação do homem neste paraíso de deleites, de e ao fôlego eterno, por meio da graça e do favor do JL v. 15, onde observe: seu Criador, com a condição da sua perseverança neste 1. Como Deus o colocou de posse deste paraíso: E to­ estado de inocência e obediência. Dela, ele podia comer e mou o Senhor Deus o homem e o pôs no jardim do Éden. vivei’. Cristo agora é, para nós, a árvore da vida (Ap 2.7; Também w. 8,15. Observe aqui: (1) O homem foi criado 22.2), e o pão da vida, João 6.48,53. [2] Havia a árvore da fora do paraíso. Pois, depois que Deus o tinha formado, ciência do bem e do mal, assim chamada, não porque ti­ o colocou no jardim. Ele foi criado de terra comum, não vesse qualquer virtude nela, de conceder ou aumentar al­ de pó do paraíso. Ele viveu fora do Éden antes de viver gum conhecimento útil (certamente, se este fosse o caso, nele, para que pudesse ver que todos os consolos da sua ela não teria sido proibida), mas, em primeiro lugar, por­ condição no paraíso eram devidos à graça livre de Deus. que havia uma revelação expressa e positiva da vontade Ele não podia alegar um direito de arrendatário do jar­ de Deus, a respeito desta árvore, de modo que por ela se dim, pois não tinha nascido segundo as premissas, nem pudesse conhecer o bem e o mal moral. O que é bom? E tinha algo além daquilo que havia recebido. Toda a van­ Bom não comer desta árvore. O que é mal? E mal comer glória estava, conseqüentemente, excluída para sempre. desta árvore. A distinção entre todos os demais bens e (2) Aquele que era o autor da sua existência era o autor males morais estava escrita no coração do homem, pela da sua felicidade. A mesma mão que lhe criou uma alma natureza. Mas esta, que resultava de um mandamento viva, plantou para ele a árvore da vida, e o colocou junto positivo, estava escrita nesta árvore. Em segundo lugar, dela. Aquele que nos criou - e somente Ele - é capaz de porque, no final, ela provou dar a Adão um conhecimento nos fazer felizes. Aquele que é o formador dos nossos experimental do bem, ao perdê-lo, e do mal, ao experi­ corpos, e o Pai dos nossos espíritos, Ele, e ninguém, além mentá-lo. Assim como no concerto da graça temos, não dele, pode, efetivamente, prover o necessário para a feli­ somente: “Quem crer, será salvo”, mas temos também: cidade de ambos. (3) É um grande acréscimo ao consolo “Quem não crer será condenado" (Mc 16.16), também de qualquer condição, se tivermos visto Deus indo clara­ o concerto da inocência traz as suas responsabilidades: mente adiante de nós, e colocando-nos nesta condição. Se “Faça isto e viva”, o que estava selado e confirmado pela não tivermos forçado a providência, mas se a tivermos árvore da vida, mas: “Fracasse, e morra”, algo de que seguido, e aceito as indicações que ela nos tiver dado, po­ Adão teve certeza devido a esta outra árvore: “Toque demos esperar encontrar um paraíso onde, de outra ma­ nela, por sua própria conta”. Deste modo, através destas neira, não poderíamos tê-lo esperado. Veja Salmos 47.4. duas árvores, Deus colocou diante de Adão o bem e o 2. Como Deus lhe deu ocupação e afazeres. Ele o colo­ mal, a bênção e a maldição, Deuteronômio 30.19. Estas cou ah, não como o leviatã nas águas, para folgar ali, mas duas árvores eram como dois sacramentos. para lavrar e guardar o jardim. O próprio paraíso não era 5. Os rios com os quais este jardim era regado, w.um lugar para dispensa do trabalho. Observe aqui: (1) Ne­ 10-14. Estes quatro rios (ou um único rio com quatro nhum de nós foi enviado ao mundo para estar ocioso. Aque­ afluentes) contribuíam muito, tanto para torrar o jardim le que criou a nossa alma e o nosso corpo nos deu alguma agradável como para a sua produtividade. A terra de coisa em que podemos trabalhar. E aquele que nos deu Sodoma é descrita como sendo bem regada, assim como esta terra para nossa morada criou alguma coisa na qual o jardim do Senhor, cap. 13.10. Observe que aquilo que podemos trabalhar. Se uma origem elevada, ou uma gran­ Deus planta, Ele cuidará para que seja regado. As árvo­ de propriedade, ou um grande domínio, ou uma inocência res da justiça estão junto aos rios, Salmos 1.3. No paraí­ perfeita, ou uma capacidade para a pura contemplação, ou so celestial existe um rio infinitamente superior a estes. uma família pequena, pudessem dar a um homem o direito Pois é o rio da água da vida, que não sai do Éden, como de não se esforçai', Adão não teria sido colocado para tra­ estes, mas que procede do trono de Deus e do Cordei­ balhar. Mas aquele que nos deu a existência nos deu uma ro (Ap 22.1), um rio que alegra a cidade do nosso Deus, ou mais ocupações, para que possamos servir tanto a Ele Salmos 46.4. Hidéquel e Eufrates são rios da Babilônia, como à nossa geração, e para que trabalhemos pela nossa coisa que lemos em outras passagens. Junto a estes rios, salvação. Se não nos preocuparmos com os nossos inte­ os judeus cativos se sentaram e choraram, lembrando-se resses, seremos indignos da nossa existência e do nosso de Sião (SI 137.1). Mas eu acredito que eles tinham muito sustento. (2) As atividades seculares podem ser coerentes mais motivo para chorar (e também nós) com a lembran­ com um estado de inocência e uma vida de comunhão com ça do Éden. O paraíso de Adão era a sua prisão. Foi esta Deus. Os filhos e herdeiros do céu, enquanto estão aqui a obra miserável do pecado. Sobre a terra de Havilá está neste mundo, têm alguma coisa para fazer nesta terra, w. 8-15 I 15 GÊNESIS 2 w. 16,17 que deve ocupar parte do seu tempo e dos seus pensa­ sejam governadas por Ele. E nunca permitir que nenhu­ mentos. E, se realizarem as suas tarefas tendo Deus como ma vontade própria nossa entre em contradição ou em objetivo, estarão servindo-o tão verdadeiramente quanto competição com a santa vontade de Deus. quando estão de joelhos. (3) A ocupação de lavrador é uma ocupação antiga e honrosa. E era necessária, mesmo no A declaração particular desta autoridade, ao pres­ paraíso. O jardim do Éden, embora não tivesse a neces­ crever ao homem o que ele deveria fazer, e em que sidade de ter ervas daninhas extirpadas (pois espinhos e termos deveria estar com o seu Criador. Aqui temos: cardos ainda não eram um aborrecimento), ainda assim 1. Uma confirmação da sua atual liberdade, com a precisava ser lavrado e guardado. A natureza, mesmo na concessão. “De toda árvore do jardim comerás livremen­ sua condição primitiva, dava espaço para as melhorias da te”. Isto era não somente uma concessão de liberdade arte e do esforço. Era uma ocupação apropriada para o a ele, de tomar os deliciosos frutos do paraíso como re­ estado de inocência, provendo para a vida, não para a lu­ compensa pelos seus cuidados e esforços para lavrá-lo e xúria, e dando ao homem uma oportunidade de admirar o guardá-lo (1 Co 9.7,10), mas, além disto, uma garantia Criador e de reconhecer a sua providência: enquanto as de vida para ele, vida imortal, desde que houvesse a sua suas mãos estavam às voltas com as Suas árvores, o seu obediência. Pois, estando a árvore da vida colocada no coração poderia estar com o seu Deus. (4) Existe um pra­ meio do jardim (v. 9), como o seu coração e a sua alma, zer verdadeiro na tarefa para a qual Deus nos convoca, e Deus a visava particularmente com esta concessão. E, na qual nos emprega. O trabalho de Adão estava muito por isto, quando, depois da sua rebelião, esta concessão longe de ser pequeno ou insignificante, porém poderia ser é cancelada, não se sabe de nenhuma outra árvore do considerado como parte dos prazeres do paraíso. Ele não jardim sendo proibida a ele, exceto a árvore da vida (cap. poderia ser feliz se tivesse estado ocioso. Há uma lei que 3.22), da qual está escrito que ele poderia ter comido e ainda está em vigor: “Se alguém não quiser trabalhar, não vivido eternamente, isto é, nunca ter morrido, nem per­ coma também”, 2 Tessalonicenses 3.10; Provérbios 27.23. dido jamais a sua felicidade. “Permaneça santo como você é, em conformidade com a vontade do seu Criador, A ordem que Deus deu ao homem em inocência, e permanecerá feliz como é, desfrutando do favor do seu e o concerto ao qual o conduziu. Até aqui, vimos Criador, seja neste paraíso ou em outro melhor”. Assim, Deus como o poderoso Criador do homem, e seu Benfei­ mediante a condição da obediência pessoal perfeita e tor generoso. Agora Ele aparece como seu Governante e perpétua, Adão teria assegurado o paraíso a si mesmo e Legislador. Deus o colocou no jardim do Éden, não para aos seus herdeiros, para sempre. viver ali como pudesse desejar, mas para estar sujeito a 2. Um teste à sua obediência, com a dor da perda de regras. Assim como não temos permissão de estarmos toda a sua felicidade: Mas da outra árvore, que está mui­ ociosos neste mundo, sem fazer nada, também não temos to próxima à árvore da vida (pois está escrito que ambas permissão de ser voluntariosos, e fazer o que desejarmos. estão no meio do jardim), e que é chamada de árvore da Depois de ter dado ao homem o domínio sobre as criatu­ ciência do bem e do mal, dela não comerás. Porque, no ras, Deus daria a conhecer ao homem que, apesar disto, dia em que dela comeres, certamente morrerás. Como se ele mesmo estava sob o governo do seu Criador. Ele tivesse dito: “Saiba, Adão, que agora você depende do seu próprio bom comportamento, você foi colocado no paraíso em teste. Seja submisso, seja obediente, e viverá A Árvore do Conhecimento É Proibida para sempre. Caso contrário, você será tão infeliz como w. 16,17 agora é feliz”. Aqui: (1) Adão é ameaçado com a morte, em caso de deso­ Observe aqui: bediência: “Certamente morrerás” - o que denota uma sentença segura e terrível, da mesma forma como, na T A autoridade de Deus sobre o homem, como uma cria- primeira parte deste concerto, “Comerás” indica uma X tura que tinha razão e liberdade de decisão. O Senhor concessão livre e plena. Observe que: [1] Até mesmo Deus ordenava que o homem, que agora era uma pessoa Adão, em inocência, foi intimidado com uma ameaça. O pública, o pai e representante de toda a humanidade, re­ medo é um dos instrumentos da alma, pelo qual ela é cebesse a lei, assim como tinha recentemente recebido dominada e controlada. Se até ele, então, precisou desta uma natureza, para si mesmo e para todos os seus. Deus barreira, muito mais precisamos nós, agora. [2] A puni­ ordenava a todas as criaturas, de acordo com a sua ca­ ção contida na ameaça é a morte: “Morrerás”, isto é: A pacidade. O curso definido da natureza é uma lei, Salmos árvore da vida lhe será proibida, junto com todo o bem 148.6; 104.9. As feras têm seus respectivos instintos mas que ela representa, junto com toda a felicidade que você o homem foi criado capaz de desempenhar um serviço tem, seja em posses ou em expectativas. E você ficará racional, e portanto recebeu, não somente as ordens de sujeito à morte, e a todas as misérias que a antecipam e um Criador, mas as ordens de um Príncipe e um Mestre. acompanham. [3] Isto foi ameaçado como a conseqüên­ Embora Adão fosse um homem grandioso, um homem cia imediata do pecado: “No dia em que dela comeres, muito bom e um homem muito feliz, ainda assim o Senhor certamente morrerás”, isto é: “Você se tornará mortal, Deus lhe deu ordens. E o mandamento não representou e passível de morrer. A concessão da imortalidade será nenhum menosprezo à sua grandeza, nem reprovação à revogada, e aquela defesa será removida de você. Você sua bondade, nem alguma diminuição - de alguma forma se tornará odioso até à morte, como um malfeitor conde­ - à sua felicidade. Devemos reconhecer o direito que Deus nado que está morto na lei” (Adão só recebeu um indulto tem de nos governar, e de que nossas próprias obrigações porque deveria ser a raiz da humanidade). “Na verdade, n m w. 18-20 GÊNESIS 2 16 os arautos e precursores da morte imediatamente o do­ ele deveria ter sido! A solidão perfeita transforma um minarão, e a sua vida, a partir de então, será uma rida paraíso em um deserto, e um palácio em uma masmorra. agonizante: e isto, certamente; é uma regra definida, Portanto, são tolos aqueles que são egoístas e desejariam pois: A alma que pecar, essa morrerá’”. estar sozinhos na terra. (2) Isto não visa o aumento e a (2) Adão é tentado com um mandamento positivo: continuidade da sua espécie. Deus poderia ter criado um não comer o fruto da árvore da ciência. Agora, era muito mundo de homens no início, para povoar a terra, assim adequado testar a sua obediência com um mandamento como povoou o céu com um mundo de anjos. Mas o lugar como este: [1] Porque a razão deste mandamento se ori­ poderia ter sido pequeno para que o número desejado de ginava puramente na vontade do Legislador. Adão tinha, homens vivesse ali, todos juntos, ao mesmo tempo. Por na sua natureza, uma aversão àquilo que era mau por isto, Deus julgou adequado alcançar este número por si só, e, portanto, ele só é tentado em algo que era mau meio de uma sucessão de gerações, as quais, assim como porque era proibido. E, sendo uma questão pequena, era Deus tinha formado o homem, deveriam vir de duas pes­ mais adequada para testar a sua obediência. [2] Porque soas, homem e mulher. Mas se Adão permanecesse sozi­ esta restrição está colocada sobre os desejos da carne nho, nada disto aconteceria. e da mente, que, na natureza corrupta do homem, são 2. Como Deus graciosamente decidiu providenciar as duas grandes fontes de pecado. Esta proibição con­ uma companhia para Adão. O resultado desta avaliação a trolava tanto o seu apetite aos deleites sensoriais quan­ respeito do homem foi esta generosa resolução: “Far-lheto a sua ambição de conhecimento curioso, para que o ei uma adjutora”. Uma ajudante, como ele (alguns inter­ seu corpo pudesse ser governado pela sua alma, e a sua pretam desta maneira), alguém da mesma natureza e do alma, pelo seu Deus. mesmo nível de existência. Uma ajudante, próxima dele O homem tinha toda esta tranqüilidade e felicidade (segundo outros), alguém que coabite com ele e que esteja no estado de inocência, tendo tudo o que o coração pu­ sempre por perto. Uma ajudante à sua frente (segundo desse desejar para torná-lo tranqüilo e feliz. Como Deus outros), alguém a quem ele olhe com prazer e deleite. Ob­ foi bom para ele! Quantos favores Ele acumulou sobre serve, então, que: (1) Mesmo na nossa melhor condição ele! Como eram fáceis as regras que Ele lhe deu! Como neste mundo, temos necessidade da ajuda uns dos outros. era generoso o concerto que Ele fez com o homem! Ainda Pois somos membros uns dos outros, e assim o olho não assim, o homem, uma criatura com honra, não compre­ pode dizer à mão: Não tenho necessidade de ti, 1 Corintios endeu os seus próprios interesses, mas logo se tornou 12.21. Nós devemos, portanto, ficar satisfeitos de receber como os animais que perecem. ajuda de outros, e dar ajuda a outros, se houver oportuni­ dade. (2) Somente Deus conhece perfeitamente as nossas necessidades, e é perfeitamente capaz de suprir todas Os Domínio de Adão elas, Filipenses 4.19. Somente nele está a nossa ajuda, e w. 18-20 dele são todos aqueles que nos ajudam. (3) Uma esposa apropriada é uma adjutora, e é o Senhor que a concede Aqui, temos: a cada homem. O relacionamento, então, tem uma pro­ babilidade maior de ser confortável quando a adequação Um exemplo do cuidado do Criador pelo homem, e orienta e determina a escolha, quando a ajuda mútua é um a sua preocupação paternal pelo seu conforto, v. 18. interesse constante, e quando todos os esforços possíveis Embora Deus lhe tivesse dado a conhecer que ele era um são dedicados ao relacionamento conjugal, 1 Corintios súdito, dando-lhe um mandamento (w. 16,17), aqui o Se­ 7.33,34. (4) Se a sociedade familiar estiver de acordo com nhor também o faz saber, para seu encorajamento na sua a Palavra de Deus, ela será uma reparação suficiente para obediência, que ele era um amigo, um favorito, e alguém a tristeza da solidão. Aquele que tem o bom Deus, um bom por cuja satisfação o Senhor sentia ternura. Observe: coração, e uma boa esposa com a qual pode conviver, e ain­ 1. Como Deus graciosamente compadeceu-se da suada assim reclama que ainda lhe falta alguém com quem solidão: “Não é bom que o homem - este homem - este­ possa conviver, não teria ficado tranqüilo e satisfeito no ja só”. Embora houvesse um mundo superior de anjos, paraíso. Pois o próprio Adão não teve mais do que todas e um mundo inferior de animais, e o homem estivesse estas grandes bênçãos. Apesar disto, mesmo antes que entre eles, ainda assim, não havendo ninguém da mes­ Eva fosse criada, não lemos que ele tivesse reclamado por ma natureza e nível de existência, ninguém com quem estar sozinho, porque Adão não estava sozinho. O Senhor ele pudesse conviver familiarmente, ele podia ser ver- estava com ele. Aqueles que estão mais satisfeitos com daden-amente considerado só. Mas aquele que o criou Deus e com o seu favor estão no melhor caminho, e na o conhecia, como também aquilo que era bom para ele, melhor condição de receber as boas coisas desta rida, e melhor do que o próprio Adão poderia conhecer, e dis­ as terão asseguradas, enquanto a Infinita Sabedoria vir o se, em outras palavras: “Não é bom que ele continue tão bem em seus corações. sozinho”. (1) Isto não é favorável ao seu conforto. Pois o homem é uma criatura sociável. É um prazer, para ele, Um exemplo da submissão das criaturas ao ho­ trocar conhecimentos e afetos com aqueles semelhantes mem, e o seu domínio sobre elas (w. 19,20): Deus a ele, informar e ser informado, amar e ser amado. Aqui­ trouxe a Adão todo animal do campo e toda ave dos céu lo que Deus diz aqui, sobre o primeiro homem, Salomão - ou por meio do ministério dos anjos, ou por um instinto diz, sobre todos os homens (Ec 4.9ss.): Melhor é serem especial, orientando-os para que viessem ao homem como dois do que um, mas ai do que estiver só. Se houvesse seu senhor, ensinando desde cedo o boi a conhecer o seu somente um homem no mundo, que homem melancólico possuidor. Assim Deus deu ao homem o uniforme e o se­ I n 17 GÊNESIS 2 w. 21-25 nhorio da bela propriedade que lhe tinha concedido, e lhe maneira mais específica. Observe que: 1. Primeiro foi concedeu o domínio sobre as criaturas. Deus as trouxe a formado Adão, depois Eva. (1 Tm 2.13), e ela foi cria­ ele, para que pudesse dar-lhes nomes, e, assim, dar: 1. da do homem, e para o homem (1 Co 11.8,9), coisas que Uma prova do seu conhecimento, como criatura dotada são mencionadas aqui como razões para a humildade, das faculdades da razão e da fala, e, assim, mais douta do modéstia, silêncio e submissão, daquele sexo de maneira que os animais da terra e mais sábia do que as aves dos geral, e particularmente a sujeição e a reverência que as céus, Jó 35.11. E: 2. Uma prova do seu poder. Atribuir esposas devem aos seus próprios esposos. Mas, tendo o nomes é um ato de autoridade (Dn 1.7), e recebê-los é um homem sido criado depois das criaturas, como o melhor ato de submissão. As criaturas inferiores, agora, de certa e mais excelente dentre todas, Eva, tendo sido criada maneira, prestam uma homenagem ao seu príncipe na depois dele, e a partir dele, atribui uma honra ao sexo fe­ sua posse, e juram lealdade e fidelidade a ele. Se Adão ti­ minino, equivalente à glória do homem, 1 Coríntios 11.7. vesse permanecido fiel ao seu Deus, podemos supor que Se o homem é a cabeça, ela é a coroa, uma coroa para o as próprias criaturas teriam conhecido e recordado bem seu esposo, a coroa da criação visível. O homem era o pó os nomes que Adão agora lhes atribuía, a ponto de aten­ refinado, mas a mulher era o pó duplamente refinado, derem ao seu chamado, a qualquer momento, e atende­ alguém ainda mais distante daquilo que poderia ser con­ rem aos seus nomes. Deus deu nomes ao dia e à noite, ao siderado comum. 2. Adão dormiu enquanto sua esposa firmamento, à terra e ao mar. E chamou as estrelas pelos era criada, para que não houvesse oportunidade para seus nomes, para mostrar que Ele é o supremo Senhor imaginar que ele teria dirigido o Espírito do Senhor, ou delas. Mas Ele deu permissão a Adão para que nomeasse sido seu conselheiro, Isaías 40.13. Ele tinha percebido os animais e as aves, como seu senhor subordinado. Pois, a falta que lhe fazia uma adjutora. Mas como Deus as­ tendo-o criado à sua própria imagem, Deus assim conce­ sumiu a responsabilidade por dar-lhe uma, Adão não se deu a Adão um pouco da sua honra. aflige com nenhuma preocupação a este respeito, mas se deita e adormece docemente, como alguém que lan­ Urn exemplo da insuficiência das criaturas, çou todas as suas preocupações a respeito de Deus, com para ser a felicidade do homein: “Mas (entre uma resignação satisfeita em si mesmo e todos os seus todos eles) para o homem não se achava adjutora que assuntos entregues à vontade e à sabedoria do seu Cria­ estivesse como diante dele”. Alguns opinam que estas dor. Jehováh-Jireh, o Senhor proverá, quando e a quem foram as palavras do próprio Adão. Observando todas as Ele assim o desejar. Se descansarmos graciosamente em criaturas comparecendo diante dele, aos pares, para re­ Deus, Deus irá graciosamente trabalhar por nós, e fazer ceberem seus nomes, assim ele indica o seu desejo ao seu tudo para o nosso bem. 3. Deus fez cair um sono sobre Mestre: “Senhor, todos estes têm adjutoras. Mas o que Adão, e este foi um sono pesado, de modo que a abertura farei? Aqui não há nenhuma para mim”. Mas, na verda­ do seu lado não lhe causasse sofrimento. Enquanto ele de, esta é a avaliação que Deus fez daquela revisão. Ele não conhece o pecado, Deus tomará os cuidados para que apresentou todas diante dele, para ver se haveria uma ele não sinta dor. Quando Deus, pela sua providência, faz parceira adequada para Adão em alguma das inúmeras ao seu povo o que causa sofrimento à carne e ao sangue, famílias das criaturas inferiores. Mas não havia nenhu­ Ele não somente procura a sua felicidade neste assunto, ma. Observe aqui: 1. A dignidade e a excelência da natu­ mas, pela sua graça, Ele pode acalmar e compor os seus reza humana. Na terra não havia semelhante a ela, nem espíritos de tal forma a tranqüilizá-los sob as operações se encontrava seu par entre todas as criaturas visíveis. mais aflitivas. 4. A mulher foi criada de uma costela, no Todas foram examinadas, mas o homem não era compa­ lado de Adão. Não da sua cabeça, para dominá-lo, nem tível a nenhuma delas. 2. A inutilidade deste mundo e das dos seus pés, para ser pisada por ele, mas do seu lado, suas coisas. Junte-as todas, e não se consegue produzir para ser igual a ele. De debaixo do seu braço, para ser uma adjutora para o homem. Elas não são adequadas à protegida, e de perto do seu coração, para ser amada. natureza da sua alma, nem suprem as suas necessida­ Adão perdeu uma costela, e sem nenhuma redução da des, nem satisfazem os seus justos desejos, nem acompa­ sua força ou beleza (pois, sem dúvida, a carne foi fechada nham a sua duração eterna. Deus cria uma pessoa nova sem nenhuma cicatriz). Mas no lugar da costela, ele re­ para ser uma adjutora para o homem. E não apenas uma cebeu uma adjutora para si, que compensou abundante­ mulher, mas a semente da mulher. mente a sua perda: aquilo que Deus remove do seu povo, Ele irá, de uma maneira ou de outra, retribuir, com van­ tagens. Nisto (como em muitas outras coisas) Adão era A Formação de Eva. uma figura daquele que haveria de vir. Pois do lado de A Instituição do Casamento Cristo, o segundo Adão, formou-se a sua esposa, a igre­ w. 21-25 ja, quando Ele dormiu o profundo sono da morte sobre a cruz, para que o seu lado fosse aberto, e dali saíssem Aqui temos: água e sangue, sangue para resgatar a sua igreja e água para purificá-la para si. Veja Efésios 5.25,26. A criação da mulher, para ser uma adjutora para Adão. Isto foi feito no sexto dia, como também a co­ O casamento da mulher com Adão. O casamento locação de Adão no paraíso, embora aqui isto seja men­ é honroso, mas este certamente foi o casamento cionado depois de uma explicação do descanso do séti­ mais honroso que já houve, no qual o próprio Deus aju mo dia. Mas aquilo que está escrito de modo geral (cap. dou durante todo o tempo. Os casamentos (segundo d 1.27), que Deus criou macho e fêmea, aqui é relatado de zem) são feitos no céu: temos certeza de que este o fo m I n GÊNESIS 3 18 pois o homem, a mulher, o encontro, tudo foi obra de Deus. bem feito aquilo que é feito para a vida inteira. 4. Veja Ele, pelo seu poder, os criou a ambos, e agora, pela sua como é firme o laço do casamento, que não deve ser di­ ordenança, os fazia um só. Este foi um casamento feito vidido ou enfraquecido, através da atitude de ter muitas em perfeita inocência, e nunca houve nenhum outro casa­ esposas (Ml 2.15), nem deve ser rompido ou arrancado mento como este, desde então, pois: 1. Deus, como o Pai da pelo divórcio, por nenhuma causa, exceto fornicação ou mulher, trouxe-a ao homem, como seu segundo ser, e como abandono voluntário. 5. Veja quão terno deve ser o afeto adjutora para ele. Depois de criá-la, Ele não a deixou à entre marido e mulher, tal como o que temos pelos nos­ sua própria disposição. Não, ela era sua filha, e não devia sos próprios corpos, Efésios 5.28. Estas duas pessoas são casar-se sem o seu consentimento. Têm mais probabilida­ uma só carne. Que sejam então uma só alma. des de se casar, para o seu conforto, aqueles que pela fé e Uma evidência da pureza e da inocência daquele oração, e com uma dependência humilde da providência, estado no qual os nossos primeiros pais foram se colocam sob uma conduta que esteja de acordo com o padrão divino. Esta esposa que é criação de Deus, por criados, v. 25. Ambos estavam nus. Eles não precisavam graça especial, e que foi trazida por Deus, por divina pro­ de roupas para a sua defesa contra o frio nem o calor, vidência, provavelmente provará ser uma adjutora para o pois nenhum deles poderia fazer-lhes mal. Eles não pre­ homem. 2. Como Pai de Adão, o Senhor Deus lhe entregou cisavam de nada como enfeite. Salomão, em toda a sua a mulher, e este a recebeu (v. 23): “Esta é agora osso dos glória, não se vestiu como eles. Eles também não pre­ meus ossos”. Agora eu tenho o que me faltava, e que ne­ cisavam de nada por causa da decência. Eles estavam nhuma entre todas as criaturas pôde fornecer-me, uma nus, e não tinham nenhuma razão para se envergonhar. adjutora para mim. Os dons de Deus para nós devem ser Eles não sabiam o que era a vergonha, diz a versão dos recebidos com um reconhecimento agradecido e humilde caldeus. Enrubescer agora mostra a cor da virtude, mas da sua sabedoria, ao adequá-los a nós, e do seu favor, ao não era, naquela ocasião, a cor da inocência. Aqueles que concedê-los a nós. Provavelmente foi relevado a Adão, em não tinham nenhum pecado em sua consciência estavam uma visão, enquanto dormia, que esta adorável criatura, isentos de ter a vergonha nos seus rostos, mesmo não agora apresentada a ele, era uma parte de si mesmo, e tendo roupas sobre os seus corpos. deveria ser a sua companheira e a esposa da sua alian­ ça. Como conseqüência, alguns obtiveram um argumento C a pít u l o 3 para provar que os santos, no paraíso celestial, reconhe­ cerão uns aos outros. Além disto, como sinal da sua aceita­ A história deste capítulo talvez seja uma história ção a ela, Adão lhe deu um nome, não peculiar a ela, mas tão triste (considerando o seu contexto e os seus comum ao seu sexo: Esta será chamada varoa, / s /m , um detalhes) quanto qualquer outra história triste ser humano do sexo feminino, diferente do homem em que tenhamos em toda a Bíblia Sagrada. Nos ca­ termos físicos e psicológicos, porém não em natureza. Ela pítulos anteriores, tivemos a visão agradável da foi feita do homem e deve estar unida ao homem. santidade e da felicidade dos nossos primeiros pais, a graça e o favor de Deus, e a paz e beleza de A instituição da ordenança do casamento, e o toda a criação. Tudo bom, muito bom. Mas aqui a estabelecimento da sua lei, v. 24. 0 dia de re­ cena se altera. Aqui temos a narrativa do pecado pouso e o casamento foram duas ordenanças instituídas e da infelicidade dos nossos primeiros pais, a ira na fase da inocência. A primeira visava a preservação e a maldição de Deus sobre eles, a paz da criação da igreja. A segunda visava a preservação do mundo da perturbada, e a sua beleza manchada, tudo ruim, humanidade. Aparentemente (segundo Mt 19.4,5) foi o muito ruim. Como se escureceu o ouro! Como se próprio Deus quem disse aqui: “Deixará o homem pai e mudou o ouro fino e bom! Nossos corações devem mãe e se unirá à sua mulher”. Mas não se sabe ao cer­ ser profundamente afetados por este registro! to se Ele disse isto por intermédio de Moisés, que foi Pois todos nós estamos intimamente interessados o escritor, ou de Adão (v. 23). Aparentemente, estas são nele. Que não seja para nós simplesmente como palavras de Adão, em nome de Deus, estabelecendo uma fábula que nos é contada. O resumo geral esta lei para toda a sua posteridade. 1. Veja aqui como é deste capítulo é (Rm 5.12): Como por um homem grande o poder de uma ordenança divina. Seus laços são entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, ainda mais fortes do que os da natureza. A quem esta­ assim também a morte passou a todos os homens, remos unidos mais firmemente, do que aos pais que nos por isso que todos pecaram. Mais detalhadamen­ geraram, e às mães que nos deram à luz? Ainda assim, te, temos aqui: I. A inocência é tentada, w. 1-5. II. o filho deve deixá-los, para unir-se à sua esposa, e a fi­ Os tentados violam a lei, w. 6-8. III. Os transgres­ lha deve esquecê-los, para se unir ao seu esposo, Salmos sores são levados a juízo, w. 9,10. IV Com o juízo, 45.10,11. 2. Veja como é necessário que os filhos tenham condenados, w. 11-13. V Com a condenação, vem consigo o consentimento dos pais no seu casamento, e a sentença, w. 14-19. VI. Depois da sentença, o in­ como são injustos com seus pais, além de irreverentes, dulto, w. 20,21. VII. Apesar do indulto, a execução aqueles que se casam sem tal consentimento. Pois estes se faz, parcialmente, w. 22-24. E, se não fosse pe­ filhos lhes roubam o seu direito e o seu interesse neles, e las graciosas indicações aqui dadas de redenção, o transferindo-os a outra pessoa de um modo fraudulen­ pela semente prometida, eles, e toda a sua raça to e não natural. 3. Veja a necessidade que existe, tanto degenerada e culpada, teriam sido abandonados de prudência quanto de oração na escolha deste relacio­ em um desespero interminável. namento, que é tão próximo e tão duradouro. Deve ser w. 21-25 19 GÊNESIS 3 A Sutileza do Tentador. A Insistência do Tentador w. 1-5 Aqui temos um relato da tentação com a qual Sata­ nás atacou os nossos primeiros pais, para atraí-los ao pe­ cado e que provou ser fatal a eles. Observe aqui: que era o diabo, sob a forma e semelhan­ I Oça1. tentador, de uma serpente. É certo que foi o diabo que enganou Eva. O diabo é Satanás, a antiga serpente (Ap 12.9), um espírito malig­ no, por criação um anjo de luz e um ajudante próximo ao trono de Deus, que pelo pecado tornou-se um apóstata desde esta sua primeira condição, e um rebelde, contra a coroa e a dignidade de Deus. Multidões de anjos caí­ ram. Mas este que atacou os nossos primeiros pais era certamente o príncipe dos demônios, o líder da rebelião: ele era Satanás, e um pecador, um traidor e um tentador, alguém furioso contra Cristo e a sua glória, e invejoso do homem e da sua felicidade. Ele sabia que não poderia destruir o homem, a não ser corrompendo-o. Balaão não pôde amaldiçoar Israel, mas pôde tentar Israel, Apoca­ lipse 2.14. O jogo, portanto, que Satanás tinha que jogar, era atrair os nossos primeiros pais ao pecado, desta ma­ neira separando-os do seu Deus. Assim o diabo foi, desde o princípio, um assassino, e o grande enganador. Toda a raça da humanidade aqui tinha, de certa maneira, um único pescoço, que foi golpeado por Satanás. O adversá­ rio e inimigo é o iníquo. 2. Foi o diabo na semelhança de uma serpente. Se era somente a forma e aparência visível de uma serpente (como alguns interpretam que eram as serpentes men­ cionadas em Êxodo 7.12), ou se era uma serpente viva e verdadeira, possuída pelo diabo, não se sabe: com a per­ missão de Deus, poderia ser qualquer uma das duas coi­ sas. O diabo decidiu agir em uma serpente: (1) Porque a serpente é uma criatura enganadora, com pele manchada e colorida, e sempre ereta. Talvez fosse uma serpente vo­ adora, que parecia vir das alturas como um mensageiro do mundo superior, como um serafim. Pois as serpentes ardentes eram voadoras, Isaías 14.29. Muitas tentações perigosas nos aparecem sob aparências alegres e colori­ das que são apenas superficiais, e parecem vir do alto. Pois Satanás pode se disfarçar até mesmo de anjo de luz. E: (2) Porque é uma criatura sutil. Isto está mencionado aqui. Muitos exemplos são dados da sutileza da serpente, tanto para fazer o mal quanto para proteger-se enquan­ to ele é feito. Nós somos orientados a sermos prudentes como as serpentes. Mas esta serpente, como atuava su­ jeita ao diabo, sem dúvida era mais sutil que qualquer outra. Pois o diabo, embora tenha perdido a santidade, conserva a sagacidade de um anjo, e é prudente para fa­ zer o mal. Ele conhecia mais vantagens ao fazer o uso da serpente do que nós nos damos conta. Observe que não há nada com que o diabo mais sirva a si mesmo e aos seus próprios interesses do que a sutileza não santifica­ da. Não saberemos dizer aquilo que Eva pensou desta serpente que falava com ela, mas eu creio que ela mesma não sabia o que pensar disto. A princípio, talvez, ela su­ pôs que pudesse ser um anjo bom, e, mais tarde, pôde suspeitar que houvesse algo errado. É notável que mui­ w. 1-5 tos dos idólatras gentios realmente adorassem o diabo sob a forma e aparência de uma serpente, confessando, desta forma, a sua adesão a este espírito apóstata, e to­ mando o seu partido. n A pessoa tentada foi a mulher, agora sozinha, e a alguma distância do seu esposo, mas perto da árvore proibida. Esta era a sutileza do diabo: 1. Ataca o vaso mais fraco com as suas tentações. Embora per feita na sua espécie, ainda assim podemos supor que mulher fosse inferior a Adão em conhecimento, força, e presença de espírito. Alguns pensam que Eva recebeu o mandamento, não diretamente de Deus, mas de se­ gunda mão, pelo seu esposo, e, portanto, pôde ser mais facilmente persuadida a não confiar nele. 2. A astúcia do diabo consistia em conversar com a mulher quando ela estava sozinha. Se a mulher tivesse ficado junto com o seu marido, ao lado do qual tinha sido recentemente ti­ rada, ela não teria estado tão exposta. Existem muitas tentações, às quais a solidão oferece grande vantagem. Mas a comunhão dos santos contribui muito para a força e a segurança daqueles que buscam ao Senhor. 3.0 diabo aproveitou a vantagem de encontrá-la perto da árvore proibida, e provavelmente olhando para os seus frutos, somente para satisfazer a sua curiosidade. Aqueles que não devem comer o fruto proibido não devem aproximarse da árvore proibida. Evita-o. Não passes por ele, Pro­ vérbios 4.15.4. Satanás tentou Eva para que ela pudesse tentar Adão. Da mesma maneira, ele tentou Jó por in­ termédio da sua esposa, e a Cristo, por meio de Pedro. A estratégia do diabo consiste em trazer as tentações por mãos das quais jamais suspeitaríamos, aquelas que têm mais interesse em nós, e que mais nos influenciam. A tentação propriamente dita, e a maneira ar­ tificial como foi conduzida. Freqüentemente, nas Escrituras, lemos sobre o perigo que corremos pelas tentações de Satanás, seus ardis (2 Co 2.11), suas profun­ dezas (Ap 2.24), suas ciladas, Efésios 6.11. Os maiores exemplos que temos estão nas tentações que ele fez aos dois Adãos. Aqui, e em Mateus 4. Nesta o inimigo foi vi­ torioso, mas quando quis enfrentar o Senhor Jesus, ele saiu frustrado. Aquilo que o inimigo disse àqueles que ele não podia controlar, mesmo por alguma corrupção que neles houvesse, ele diz a nós, pelos nossos próprios corações enganadores e pelos nossos raciocínios carnais. Isto torna os seus ataques contra nós menos discerníveis, mas não menos perigosos. O que o diabo deseja­ va era persuadir Eva a comer o fruto proibido. E, para fazer isto, ele usou o mesmo método que ainda utiliza. Ele questionou se isto seria ou não um pecado, v. 1. Ele negou que havia qualquer perigo nisto, v. 4. Ele sugeriu que haveria muitas vantagens ao fazê-lo, v. 5. E estes são os seus argumentos comuns. 1. Ele questionou se seria ou não um pecado comer desta árvore, e se o seu fruto era realmente proibido. Observe: (1) Ele disse à mulher, É assim que Deus disse: Não comereis? As primeiras palavras indicavam alguma coi­ sa dita anteriormente, introduzindo estas, e com as quais estão conectadas, talvez alguma conversa que Eva tinha tido consigo mesma, da qual Satanás se aproveitou e na w. 1-5 GÊNESIS qual injetou esta pergunta. Na cadeia de pensamentos, uma coisa leva a outra de maneiras estranhas, e talvez, no final, a alguma coisa má. Observe aqui: [1] Ele não reve­ la, a princípio, o seu desígnio, mas propõe uma pergunta que parecia inocente: Eu ouvi uma novidade, diga-me se é verdade, que Deus proibiu você de comer desta árvo­ re. Assim ele começou a conversa, e a atraiu ao diálogo. Aqueles que desejam estar seguros têm a necessidade de suspeitar, e se acautelar ao falar com o tentador. [2] O diabo cita o mandamento de modo fraudulento, como se fosse uma proibição, não somente daquela árvore, mas de todas. Deus tinha dito, De toda árvore do jardim comerás livremente, exceto uma. Ao agravar a exceção, o inimigo desejava invalidar a permissão: Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim? A lei divina não pode ser reprovada, a menos que seja, antes disto, mal apresentada. [-3] Ele parece falar de forma zombeteira, censurando a mulher pela sua timidez em aproximar-se daquela árvore; é como se tivesse dito: “Você é tão meti­ culosa e cautelosa, e tão precisa, por Deus ter dito: ‘Não comereis”’. O diabo é tanto um mentiroso como também um zombador, desde o princípio: e os escarnecedores dos últimos dias são seus filhos. [4] Aquilo que o diabo desejava, desde o início, era remover o senso de obriga­ ção que ela tinha para com o mandamento. “Certamente você está enganada, não pode ser verdade que Deus lhe proibisse esta árvore. Ele não faria uma coisa tão pouco razoável”. Observe que a sutileza de Satanás é manchar a reputação da lei divina como algo incerto ou pouco ra­ zoável, desta forma atraindo as pessoas ao pecado. Por­ tanto, é nossa sabedoria conservar uma crença firme e um elevado respeito pelo mandamento de Deus. Deus disse: “Não mentirás, não tomarás o meu nome em vão, não te embriagarás” etc.? “Sim, tenho certeza de que Ele disse isto, e disse-o bem. E, pela sua graça, eu agirei de acordo com a sua ordem, seja qual for o tentador que sugira o contrário.” (2) Em resposta a esta pergunta, a mulher fornece uma explicação clara e completa da lei à qual estavam su­ jeitos, w. 2,3. Observe aqui: [1] Foi a sua fraqueza entrar em conversação com a serpente. A mulher poderia ter percebido, pela pergunta, que a serpente não tinha boas intenções, e por isto deveria ter desencadeado um “Para trás de mim, Satanás, que me serves de escândalo”. Mas a sua curiosidade, e talvez a sua surpresa por ouvir uma serpente falando, levaram-na a continuar conversando. Observe que é perigoso lidar com uma tentação que de­ veria ser, logo de início, rejeitada com desdém e repul­ sa. O exército que parece conversar com o inimigo, não está longe de ter que se render. Aqueles que desejam ser protegidos do mal, devem se manter fora do caminho do mal. Veja Provérbios 14.7; 19.27. [2] Foi a sua sabedo­ ria registrar a liberdade que Deus lhes tinha concedido, em resposta à insinuação dissimulada da serpente, como se Deus os tivesse colocado no paraíso somente para atormentá-los com a visão de frutos apetitosos, porém proibidos. “Sim”, diz ela, “nós podemos comer dos frutos destas árvores, graças ao nosso Criador, nós temos abun­ dância e variedade suficientes que nos são permitidas”. Observe que para evitar uma situação de desconforto com as restrições da religião, é bom que freqüentemente examinemos as suas liberdades e os seus confortos. [3] 20 Foi um exemplo da sua decisão o fato de ter aderido ao mandamento, e de repeti-lo fielmente, com uma certeza inquestionável: “Deus disse, eu tenho certeza de que Ele disse, Não comereis do fruto desta árvore”. E o fato dela ter acrescentado, Nem nele tocareis, parece ter se origi­ nado de uma boa intenção (como pensam alguns), e não tacitamente para insinuar que o mandamento era rígido demais (Não toquem, não provem e não manuseiem), mas como se estivesse colocando uma cerca em torno da árvore: “Não devemos comer, portanto não iremos tocar. É completamente proibido, e a autoridade da proibição é sagrada para nós”. [4] Ela parece hesitar um pouco sobre a ameaça, e não foi tão enfática e fiel na repetição dela quanto foi em relação ao preceito. Deus disse, No dia em que dela comeres, certamente morrerás. Mas o que ela diz é somente, Para que não morrais. Observe que a fé vacilante e as decisões hesitantes oferecem grandes van­ tagens ao tentador. 2. Satanás negou que houvesse qualquer perigo nis­ to, insistindo que, embora isto pudesse ser uma trans­ gressão ao preceito, ainda assim não estaria sujeito a uma penalidade: Certamente não morrereis, v. 4. “Vocês não morrerão agonizantes”, é o significado, em uma con­ tradição direta com o que Deus tinha dito. Ou: (1) “Não é garantido que vocês morrerão”, segundo alguns. “Não é tão garantido como vocês foram levados a crer”. Desta maneira, Satanás se esforça para abalar aquilo que ele não pode destruir, e procura invalidar a força das amea­ ças divinas, questionando a veracidade delas. E, uma vez que se suponha ser possível que exista alguma falsidade ou falácia, em qualquer palavra da parte de Deus, uma porta então é aberta à completa infidelidade. Satanás em primeiro lugar ensina os homens a duvidar, e, depois, a negar. Ele os torna céticos a princípio, e depois, gradativamente, os transforma em ateus. Ou: (2) Segundo outros, o inimigo estava dizendo: “É garantido que vocês não morrerão”. Ele tenta comprovar a sua contradição com a mesma expressão de garantia que Deus tinha usa­ do ao ratificar a ameaça. Ele começou a questionar o pre­ ceito (v. 1), mas, vendo cjue a mulher o seguia, deixou este ataque de lado, e fez o segundo ataque, desta vez sobre a ameaça, exatamente onde percebeu que ela vacilava. Pois ele é rápido em descobrir todas as vantagens, e em ata­ car onde a muralha estiver mais fraca: Certamente não morrereis. Isto era uma mentira, uma mentira completa. Pois: [1] Era contrária à palavra de Deus, que nós sabe­ mos, com certeza, que é verdadeira. Veja 1 João 2.21,27. Era uma mentira que tentava desmentir o próprio Deus. [2] Era contrário ao seu próprio entendimento. Quando o inimigo lhes disse que não havia perigo na desobediência e na rebelião, estava dizendo algo que ele sabia, por dolo­ rosa experiência, que era falso. Ele tinha infringido a lei da sua criação, e tinha descoberto, para seu próprio pre­ juízo, que não podia prosperar daquela maneira. E ain­ da assim ele diz, aos nossos primeiros pais, que eles não morrerão. O diabo ocultou a sua própria desgraça, para poder atraí-los a algo semelhante: desta maneira, ele ain­ da engana os pecadores, para a sua própria destruição. Ele lhes diz que, embora pequem, não morrerão. E ainda deseja ter mais credibilidade do que Deus, que lhes diz: O salário do pecado é a morte. Observe que a esperança da impunidade é um grande apoio a toda iniqüidade, e 3 21 GÊNESIS 3 w. 6-8 impenitência. Terei paz, ainda que ande conforme o bom Deus sabe o quanto isto lhes melhoraria. Portanto, com parecer do meu coração, Deuteronômio 29.19. inveja e má vontade com relação a vocês, Ele o proibiu”. 3. Ele lhes promete vantagens com isto. v. 5. Aqui Como o se o Senhor não permitisse que eles comessem da­ diabo continua com o seu ataque, e foi um golpe na raiz, quela árvore porque, então, conheceriam a sua própria um golpe fatal à árvore da qual somos galhos. Ele não força, e não permaneceriam em uma condição inferior, somente se responsabilizava dizendo que eles não perde­ mas seriam capazes de fazer frente ao Todo-Poderoso. riam com isto, desta forma comprometendo-se a salvá- Ou como se Ele relutasse em lhes dar a honra e a felici­ los do mal. Mas (se eles fossem suficientemente tolos dade às quais seriam promovidos se comessem daquela para se aventurarem com base em uma suposta segu­ árvore. Veja: [1] Esta era uma grande afronta a Deus, rança de alguém que tinha, ele mesmo, falido), queria se e a maior indignidade que poderia ser feita a Ele, uma responsabilizar por saírem ganhadores, de uma maneira censura ao seu poder, como se Ele temesse as Suas cria­ indescritível. Ele não poderia tê-los persuadido a correr turas, e muito mais uma censura à sua bondade, como o risco de se arruinarem, se não lhes tivesse sugerido se Ele odiasse a obra das Suas próprias mãos, e não de­ uma grande probabilidade de se aprimorarem. sejasse que aqueles que criou fossem felizes. Será que o (1) Ele lhes insinua os grandes aprimoramentos que melhor dos homens julgará estranho ser descrito erro­ eles fariam, se comessem este fruto. E adapta a tentação neamente, e ter coisas más ditas a seu respeito, quando ao estado puro em que agora se encontram, propondo- isto acontece com o próprio Deus? Satanás, que é quem lhes, não prazeres ou satisfações carnais, mas deleites e acusa os irmãos diante de Deus, também acusa a Deus, satisfações intelectuais. Estas foram as iscas que o inimi­ diante dos irmãos. Assim o diabo semeia a discórdia, e go colocou no seu anzol. [1] “Seus olhos se abrirão. Vocês é o pai daqueles que fazem a mesma coisa. [2] Esta era terão muito mais poder e prazer de contemplação do que uma armadilha aos nossos pais, e das mais perigosas, têm agora. Vocês terão um domínio mais amplo nas suas pois tencionava afastar o seu afeto de Deus, removen­ visões intelectuais, e compreenderão mais as coisas do que do, desta maneira, a lealdade que tinham a Ele. Desta compreendem agora”. O inimigo fala como se agora eles maneira o diabo ainda atrai as pessoas aos seus próprios fossem míopes e tivessem uma visão turva, em compara­ interesses, sugerindo-lhes maus pensamentos a respeito ção ao que teriam, depois. [2] “Sereis como Deus, como de Deus, e falsas esperanças de benefícios e vantagens Elohim, deuses poderosos. Não somente oniscientes, mas vindos do pecado. Portanto, em oposição a ele, sempre também onipotentes”. Ou: “Vocês serão como o próprio devemos pensar bem a respeito de Deus, como o bem Deus, iguais a Ele, rivais dele. Vocês serão soberanos, e supremo, e pensar mal do pecado, como o pior dos males: não mais súditos, auto-suficientes, e não mais dependen­ resistamos desta maneira ao diabo, e ele fugirá de nós. tes”. Uma sugestão completamente absurda! Como se fosse possível que as criaturas que surgiram ontem fos­ sem como o seu Criador, que existia desde a eternidade. A Queda do Homem [3] “Vocês conhecerão o bem e o mal, isto é, tudo o que w. 6-8 se saiba que é desejável”. Para apoiar esta parte da ten­ tação, ele utiliza, com más intenções, o nome atribuído a Aqui vemos a conclusão da conversa de Eva com esta árvore: ela pretendia ensinar o conhecimento prático o tentador. Satanás, no final, consegue o seu objetivo, do bem e do mal, isto é, do dever e da desobediência. E e a fortaleza é tomada pelas suas ciladas. Deus testou ela provaria o conhecimento experimental do bem e do a obediência dos nossos primeiros pais, proibindo que mal, isto é, da felicidade e da desgraça. Neste sentido, participassem dos frutos da árvore do conhecimento. o nome da árvore era um aviso para que não comessem E Satanás, de certa maneira, entra em uma controvér­ dela. Mas ele distorce o seu significado, e o perverte, para sia com Deus, e usando a mesma árvore se empenha a destruição deles, como se esta árvore pudesse lhes dar em levá-los a uma transgressão. E aqui vemos como o um conhecimento fictício e especulativo das naturezas, diabo foi vitorioso, tendo Deus permitido isto, com fins das espécies, e das origens do bem e do mal. E: [4] Tudo sábios e santos. isto ocorreria imediatamente: “No dia em que comerem desta árvore, vocês sentirão uma mudança repentina e Aqui temos as persuasões que os levaram a trans­ imediata para melhor”. Agora, em todas estas insinua­ gredir a lei. Tendo sido enganada pelas manobras ções, o inimigo pretende gerar neles, em primeiro lugar, ardilosas do tentador, a mulher foi a líder na trans­ um descontentamento com a sua condição atual, como se gressão, 1 Timóteo 2.14. Ela foi a primeira a fracassar. ela não fosse tão boa como poderia ser, e como deveria ser. E isto aconteceu como resultado da sua consideração, Observe que nenhuma condição, por si só, trará conten­ ou melhor, da sua falta de consideração. 1. Ela não viu tamento, a menos que a mente seja levada a isto. Adão mal nesta árvore, não mais do que em qualquer outra não estava tranqüilo, não, nem mesmo no paraíso. Nem os das demais. Estava escrito que todas as demais árvores anjos na sua condição inicial, Judas 6. Em segundo lugar, frutíferas que haviam sido plantadas no jardim do Éden a ambição da primazia, como se eles fossem adequados eram agradáveis à vista e boas para comida, João 2.9. para serem deuses. Satanás tinha se destruído, ao desejar Agora, aos seus olhos, esta era como todas as demais. ser semelhante ao Altíssimo (Is 14.14), e por isto procurou Parecia ser tão boa para comida como qualquer uma de­ infectar os nossos primeiros pais com o mesmo desejo, las, e ela não viu nada na aparência dos seus frutos que para poder arruiná-los também. ameaçasse de morte ou perigo. Era tão agradável à vista (2) O inimigo lhes insinua que Deus não tinha bons como qualquer uma delas, e, portanto, “que mal” poderia desígnios para eles, ao proibir-lhes este fruto: “Pois fazer-lhes? Por que esta deveria ser-lhes proibida, e não I 22 GÊNESIS 3 qualquer uma das demais? Observe que quando se julga abaixo, Mateus 4.6. O fato de Eva tomar o fruto consti­ não haver maior mal no fruto proibido do que em qual­ tuía um roubo, como quando Acã tomou do anátema, se quer outro fruto, o pecado está à porta, e Satanás logo apropriando daquilo a que não tinha direito. Certamente ganha o dia. Ou melhor, talvez esta árvore parecesse a ela o tomou com mãos trêmulas. 3. Ela o comeu. Talvez ela melhor para comida, mais agradável à vista, e mais ela não tivesse a intenção, quando o olhou, de tomá-lo, nutritiva para o corpo, do que qualquer uma das demais, nem, quando o tomou, de comê-lo. Mas este foi o resul­ e aos seus olhos era mais agradável do que qualquer ou­ tado. Observe que o caminho do pecado é descendente. tra. Somos freqüentemente atraídos a armadilhas atra­ O homem não será capaz de parar, quando desejar. O co­ vés de um desejo desordenado de ter os nossos sentidos meço do pecado é como o jorrar da água, à qual é difícil satisfeitos. Ou, se nada nela fosse mais convidativo que dizer: Até aqui virás, e não mais adiante. Portanto, é nos­ nas outras, ainda assim ela era mais cobiçada, porque sa sabedoria reprimir as primeiras emoções do pecado, e era proibida. Pensasse Eva isto ou não, nós descobrimos deixá-lo de lado antes de nos envolvermos com ele. Obsta que em nós (isto é, na nossa carne, na nossa natureza principiis Nip - Devemos deter o mal no início. 4. Ela corrompida) reside um estranho espírito de contradição. também o deu ao seu marido. É provável que ele não es­ Nitim ur in vetitum - Nós desejamos aquilo que é proi­ tivesse com ela quando foi tentada (certamente, se tives­ bido. 2. Ela imaginava que havia mais poder nesta árvore se estado com ela, teria interferido para evitar o pecado). do que em qualquer uma das demais. Que não houvesse Mas o marido veio para junto dela quando ela já o tinha nada a temer nela, mas que devesse, antes, ser deseja­ comido, e foi convencido, por ela, a comer da mesma ma­ da, porque dava sabedoria, e, com isto, era superior a neira. Pois é mais fácil aprender o que é ruim, do que todas as outras árvores. Isto ela viu, ou seja, percebeu ensinar o que é bom. Ela o deu a ele, persuadindo-o com e compreendeu pelo que o diabo lhe havia dito. Alguns os mesmos argumentos que a serpente tinha usado com pensam que ela viu a serpente comendo daquela árvo­ ela, acrescentando este, que ela mesma tinha comido, e o re, e que esta lhe disse que, fazendo isto, tinha obtido as tinha julgado tão longe de ser mortal, que era extrema­ faculdades da fala e da razão. Conseqüentemente, Eva mente agradável e satisfatório. As águas roubadas são teria deduzido o poder que a árvore tinha de tornar al­ doces. Ela o deu ao marido, sob o pretexto de gentileza. guém sábio, e pode ter sido persuadida a pensar: “Se ela Ela não poderia comer estes bocados deliciosos sozinha. fez de uma criatura bruta um ser racional, por que não Mas na verdade esta foi a maior crueldade que ela po­ poderia tornar divina uma criatura racional?” Observe deria ter feito a ele. Uma outra possibilidade é que ela o como o desejo de um conhecimento desnecessário, sob tivesse dado a ele, para que, se resultasse prejudicial, ele uma noção equivocada de sabedoria, prova ser danoso pudesse compartilhar da sua desgraça, o que realmente e destrutivo a muitas pessoas. Nossos primeiros pais - parece ser algo estranhamente cruel. Porém é possível, que sabiam tantas coisas - não sabiam que, de fato, já sem dificuldade, supor que uma atitude como esta pudes­ sabiam o suficiente. Cristo é uma árvore que se deve de­ se surgir no coração de alguém que tinha comido o fruto sejar para ser sábio, Colossenses 2.3; 1 Coríntios 1.30. proibido. Observe que aqueles que ocasionam o mal a si Pela fé devemos nos alimentar dele, para que possamos mesmos, normalmente desejam atrair outros para que nos tornar sábios para a salvação. No paraíso celestial, a façam a mesma coisa. Assim como o diabo, Eva também árvore do conhecimento não será uma árvore proibida. pode ter agido como pecador e, simultaneamente, como Pois ali nós conheceremos tanto quanto somos conheci­ tentador. 5. Ele comeu, derrotado pela importunação da dos. Portanto, devemos desejar ansiosamente estar ali. esposa. É desnecessário dizer: “Qual teria sido a conse­ E, neste ínterim, não devemos nos exercitar com coisas qüência se somente Eva tivesse violado a lei?” Podemos excessivamente elevadas ou excessivamente profundas ter a certeza de que a sabedoria de Deus teria soluciona­ para nós, nem ambicionai' ser mais sábios do que aquilo do este problema, de acordo com a justiça. Mas, ai! Não era este o caso. Adão também comeu. “E que grande mal que está escrito. é aceitar o raciocínio corrupto e carnal de uma mente Os passos da transgressão não são ascendentes, fútil. Que dano!” Ora, este ato envolveu a descrença na mas descendentes, e conduzem ao abismo que Palavra de Deus, juntamente com a confiança na palavra do diabo. O descontentamento com a sua situação atual, está ligado ao inferno. 1. Ela viu. Ela poderia ter desvia­ do os olhos para não contemplar futilidades. Mas ela ecaio orgulho pelos seus próprios méritos. A ambição pela honra que não vem de Deus. A inveja da perfeição de em tentação, ao olhar com prazer para o fruto proibido. Observe que uma grande quantidade de pecado tem iní­ Deus, e a indulgência para com os apetites do corpo. Ao cio nos olhos. Nestas janelas Satanás atira os seus dar­ negligenciar a árvore da rida - da qual tinha permissão dos ardentes que perfuram e envenenam o coração. Os para comer - e comer da árvore da ciência, que lhe era olhos afetam o coração com culpa e tristeza. Portanto, proibida, Adão mostrou claramente um desprezo pelos façamos, como o santo -Jó, um concerto com os nossos favores que Deus lhe tinha concedido, e uma preferência olhos, para não olharmos nada que corramos o risco de por aquilo que Deus não julgou adequado para ele. Ele cobiçar depois, Provérbios 23.31; Mateus 5.28. Que o te­ desejou ser, ao mesmo tempo, seu próprio escultor e seu mor a Deus sirva sempre como um véu para os nossos próprio senhor. Quis ter o que desejava e fazer o que de­ olhos, cap. 20.16. 2. Ela tomou o fruto. Foi um ato volun­ sejasse: o seu pecado foi, em uma só palavra, desobedi­ tário. O diabo não o tomou e o colocou na sua boca, quer ência (Rm 5.19), desobediência a um mandamento claro, ela o desejasse ou não. Ela mesma o tomou. Satanás pode fácil e expresso, que provavelmente ele sabia que era um tentar, mas não pode forçar. Ele pode persuadir alguém mandamento de teste. Ele pecou contra o grande conhe­ a se lançar daqui abaixo, mas não pode atirar a pessoa cimento, contra as muitas graças, contra a luz e o amor, w. 6-8 n 23 GÊNESIS 3 w. 6-8 a luz mais clara e o maior amor contra os quais nenhum infelicidades que poderiam, com razão, ser esperadas de pecador jamais havia pecado. Ele não tinha em si uma um Deus irado. Eles estavam desarmados. A sua defesa natureza corrupta que o traísse. Mas tinha livre arbítrio, os tinha abandonado. [2] Que estavam envergonhados, não era escravizado, e este agia plenamente, não sendo envergonhados para sempre, diante de Deus e dos anjos. enfraquecido nem debilitado. Adão se desviou rapida­ Eles se viram despidos de todos os seus ornamentos e mente. Alguns pensam que ele caiu no mesmo dia em insígnias de honra, reduzidos na sua dignidade e desgra­ que foi criado. Mas eu não vejo como conciliar isto com çados ao máximo, expostos ao desprezo e à censura do o fato de Deus ter dito que tudo era muito bom, no final céu, e da terra, e das suas próprias consciências. Veja do dia. Outros supõem que ele caiu no sábado: no melhor aqui, em primeiro lugar, Que desonra e inquietação é o dia, a pior obra. No entanto, é certo que ele conservou a pecado. Ele traz danos onde quer que seja aceito, colo­ sua integridade, embora por muito pouco tempo: criado ca os homens contra si mesmos, perturba a sua paz e em honra, não permaneceu nela. Mas o grande agravo do destrói todos os seus consolos. Mais cedo ou mais tarde, seu pecado é o fato de que, por causa dele, toda a sua pos­ ele trará vergonha, seja a vergonha do verdadeiro arre­ teridade foi envolvida no pecado e na ruína. Tendo Deus pendimento, que resulta em glória, seja aquela vergonha lhe dito que a sua raça povoaria a terra, certamente ele e desprezo eterno para o qual os ímpios ressuscitarão não poderia deixar de saber que era uma pessoa pública, no grande dia. O pecado é uma reprovação a qualquer e que esta desobediência seria fatal a toda a sua descen­ pessoa. Em segundo lugar, Que enganador é Satanás. dência. E, neste caso, a atitude de Adão foi certamente Ele disse aos nossos primeiros pais, quando os tentou, a maior traição e a maior crueldade que jamais houve. que os seus olhos seriam abertos. E realmente o foram, Como a natureza humana estava inteiramente alojada mas não como eles o entenderam. Eles foram abertos à nos nossos primemos pais, ela não poderia ser transmiti­ sua vergonha e tristeza, e não à sua honra nem benefício. da a partir deles sem uma mancha de culpa, uma mácula Portanto, mesmo que o diabo fale de uma forma polida, de desonra e uma doença hereditária de corrupção e pe­ não creia nele. A desculpa dos mentirosos mais maldosos cado. Então será que algiiém poderia dizer que o pecado e prejudiciais freqüentemente é a seguinte: que eles ape­ de Adão provocou somente um pequeno mal? nas se expressam de uma maneira ambígua. Mas Deus não os perdoará. As conseqüências derradeiras da transgres­ (2) A triste mudança que fizeram, para minimizar são. Vergonha e medo dominaram os crimino­ estas convicções e se armarem contra elas: coseram sos, ipso facto - pelo fato em si. Estes dois sentimentos ou entrelaçaram - folhas de figueira. E para cobrir pelo vieram ao mundo juntamente com o pecado, e ainda menoso parte da vergonha um do outro, fizeram para si acompanham. aventais. Veja aqui qual é, normalmente, a tolice daque­ 1. A vergonha os dominou, despercebida, v. 7, ondeles que pecaram. [1] Que eles são mais preocupados em observe: salvar a sua credibilidade perante os homens do que em (D As fortes convicções que sentiram, no seu ínti­ obter o perdão de Deus. Eles são vacilantes em confes­ mo: foram abertos os olhos de ambos. Isto não se refere sar o seu pecado, e muito desejosos de ocultá-lo, tanto aos olhos do corpo. Eles estavam abertos antes, como quanto possível. Eu pequei, mas ainda assim, honre-me. está claro, porque o pecado se apresentou diante deles. [2] Que as desculpas que o homem apresenta, para enco­ Os olhos de Jônatas foram aclarados ao comer o fruto brir e atenuar os seus pecados, são vãs e frívolas. Como proibido (1 Sm 14.27), isto é, ele se revigorou e reviveu, os aventais de folhas de figueira, eles não melhoram a graças a isto. Mas com os olhos deles não aconteceu as­ questão, mas somente a pioram. A vergonha, oculta sim. Nem isto se refere a algum progresso conseguido desta maneira, tornar-se ainda mais vergonhosa. Ainda através de um conhecimento verdadeiro. Mas os olhos assim, todos nós encobrimos as nossas transgressões, das suas consciências foram abertos, os seus corações os como Adão, Jó 31.33. feriram pelo que tinham feito. Agora, quando era tarde 2. O medo os dominou imediatamente depois que co demais, eles viram a tolice que é comer o fruto proibido. meram o fruto proibido, v. 8. Observe aqui: (1) Qual foi Eles viram a felicidade da qual tinham caído, e a infelici­ a causa e a oportunidade do seu medo: ouviram a voz dade em que tinham caído. Eles viram um Deus amoroso do Senhor Deus, que passeava no jardim pela viração do provocado, sua graça e os seus favores perdidos, a sua dia. Foi a aproximação do Juiz que os amedrontou. E, imagem e semelhança perdidas. O domínio completo que ainda assim, Ele se apresentou de uma maneira que só o homem tinha sobre as criaturas havia acabado. Eles vi­ atemorizou as consciências culpadas. Supõe-se que Ele ram as suas naturezas corrompidas e depravadas, e sen­ tenha vindo sob forma humana, e aquele que julgava o tiram uma desordem nos seus próprios espíritos da qual mundo agora era o mesmo que irá julgar o mundo no nunca tinham tido consciência antes. Eles viram uma último dia. Ele se manifestava a eles agora (aparente­ lei dos seus membros combatendo contra uma lei das mente) sem nenhuma diferença em relação à maneira suas mentes, e deixando-os cativos do pecado e também como o tinham visto, quando Ele os colocou no paraíso. da ira. Eles viram, como Balaão, quando seus olhos se Pois Ele vinha para convencê-los, e não para humilháabriram (Nm 22.31), o Anjo do Senhor, que estava no ca­ los, nem para assombrá-los ou aterrorizá-los. Ele veio minho, e a sua espada desembainhada na mão. E talvez ao jardim, não descendo imediatamente do céu, diante vissem a serpente que os tinha enganado insultando-os. dos seus olhos, como o fez mais tarde, no monte Sinai O texto nos diz que eles viram que estavam nus, isto é: (fazendo da escuridão espessa a sua tenda, ou do fogo ar­ [1] Que estavam despidos, privados de todas as honras e dente o seu carro), mas entrou no jardim, como alguém alegrias da sua condição no paraíso, e expostos a todas as que ainda desejava ter familiaridade com eles. Deus veio m GÊNESIS 3 24 andando, não correndo, não cavalgando sobre as asas do no pecado, compartilhavam a vergonha e o medo que o vento, mas andando deliberadamente, como alguém que acompanhavam. E embora estivessem de mãos dadas (as é tardio em irar-se. Isto nos ensina uma lição: quando mãos tão recentemente unidas em matrimônio), eles não formos provocados, não devemos ser acalorados nem conseguiam se animar nem se fortalecer: tinham se tor­ apressados, mas falar e agir de maneira ponderada, e nado infelizes consoladores um para o outro! não precipitadamente. Ele veio na virada do dia, não à noite, quando todos os temores são duplamente amenA Queda do Homem drontadores. Não no calor do dia, pois Ele não veio no ca­ w. 9,10 lor da sua ira. Não há indignação nele, Isaías 27.4. O Se­ nhor também não veio repentinamente sobre eles. Mas Aqui temos a acusação destes desertores diante do eles ouviram a sua voz a alguma distância, avisando-os da sua chegada, e provavelmente era uma voz tranqüila e justo Juiz do céu e da terra que, embora não se limite baixa, como aquela com a qual Ele veio fazer perguntas a a observar formalidades, ainda assim procede no caso Elias (1 Rs 19.13). Alguns pensam que eles o ouviram fa­ deles com toda a justiça possível, para que possa ser jus­ lando consigo mesmo, a respeito do pecado de Adão, e do tificado quando falar. Observe aqui: julgamento que lhe devia ser feito, talvez como foi feito a respeito de Israel, Oséias 11.8,9. Como te entregaria? T A assustadora pergunta com que Deus perseguiu Ou, talvez, tenham-no ouvido chamando por eles, e vindo X Adão e o prendeu: Onde estás? Não como se Deus em sua direção. (2) Qual foi o resultado e a evidência do não soubesse onde ele estava. Mas desta maneira Ele seu medo: Eles se esconderam da presença do Senhor iniciava o processo contra Adão. “Vamos, onde está este Deus. Que triste mudança! Antes que pecassem, se ti­ homem tolo?” Alguns a interpretam como uma pergunta vessem ouvido a voz do Senhor Deus vindo em sua dire­ que expressa desgosto: “Pobre Adão, o que aconteceu ção, teriam feito tudo para encontrá-lo, e com humilde contigo? Ai de ti!” (segundo a interpretação de alguns). alegria teriam acolhido as Suas graciosas visitas. Mas, Como caíste do céu, ó Lúcifer, estrela da manhã! “Você, agora que a situação era outra, Deus tinha se tornado que era meu amigo e favorito, pelo qual Eu tanto fiz, e um terror para eles, e então não é de admirar que eles teria feito muito mais. Agora você me abandonou, e se tivessem se tornado um terror para si mesmos, e esti­ arruinou? As coisas chegaram a este ponto?” Esta é mais vessem cheios de confusão. Suas próprias consciências uma pergunta de censura, para a sua condenação e humi­ os acusavam, e apresentavam o seu pecado diante deles, lhação: Onde estás? A pergunta não foi: Em que lugar? com os seus verdadeiros matizes. As folhas de figueira mas: Em que condição? Isto é tudo o que você conse­ não lhes serviram para nada. Deus tinha vindo contra guiu, ao comer o fruto proibido? Você, que queria com­ eles, como um inimigo, e toda a criação estava em guerra petir comigo, agora foge de mim. Observe: 1. Aqueles contra eles. E como não sabiam de nenhum mediador en­ que, pelo pecado, se afastam de Deus, devem considerar tre eles e um Deus irado, nada restava, exceto uma espe­ seriamente onde estão. Eles estão afastados de todo o ra temerosa pelo julgamento, que era garantido. No seu bem, em meio aos seus inimigos, escravizados a Satanás temor, esconderam-se entre as árvores. Tendo pecado, e a caminho da destruição completa. Esta procura por fugiram para elas. Sabendo que eram culpados, eles não Adão pode ser considerada como uma busca graciosa, suportaram um julgamento, mas se esconderam, e fugi­ por gentileza a ele, e procurando a sua recuperação. Se ram da justiça. Veja aqui: [1] A falsidade do tentador, e as Deus não o tivesse chamado, para reivindicá-lo, a condi­ fraudes e falácias das suas tentações. Ele lhes tinha pro­ ção de Adão teria sido tão desesperadora quanto a dos metido que estariam a salvo, mas agora não se julgavam anjos caídos. Esta ovelha perdida teria vagado incessan­ mais a salvo. Ele lhes tinha dito que eles não morreriam, temente, se o bom Pastor não a tivesse procurado, para e agora eram forçados a fugir para se salvarem. Ele lhes trazê-la de volta. Para isto, era necessário lembrá-la de tinha prometido que teriam aprimoramento, mas eles se onde ela estava, de onde não deveria estar, e de onde não viam tão inferiores como nunca tinham se sentido até poderia estar nem feliz nem tranqüila. Observe: 2. Se os agora. Ele lhes tinha prometido que eles teriam conhe­ pecadores apenas considerassem onde estão, eles não cimento, mas eles se viam confusos, e mal sabiam onde descansariam enquanto não retornassem a Deus. poderiam se esconder. Ele lhes tinha prometido que se­ A resposta trêmula que Adão deu a esta pergun­ riam como deuses, grandiosos, e corajosos, e ousados, ta: Ouvi a tua voz soar no jardim, e temi, v. 10. Ele mas eles se tornaram como criminosos descobertos, trê­ mulos, pálidos e ansiosos por escapar. Eles não quiseram não reconhece a sua culpa, mas na verdade a confessa, ser súditos, e por isto se tornaram prisioneiros. [2] A to­ reconhecendo a sua vergonha e o seu medo. Mas há uma lice dos pecadores, em pensar que é possível ou desejável falha e uma tolice comuns àqueles que fazem algo erra­ esconder-se de Deus: podem eles se esconder do Pai das do: quando são questionados a este respeito, não reco­ luzes? Salmos 139.7ss.; Jeremias 23.24. Eles se retirarão nhecem nada além daquilo que é tão evidente a ponto de da fonte da vida, sendo que somente ela pode dar aju­ não poderem negá-lo. Adão teve medo, porque estava nu. da e felicidade? Jonas 2.8. [3] O medo que acompanha Não somente desarmado, e, portanto, temeroso de con­ o pecado. Todo aquele medo assombroso da aparição de tender com Deus, mas despido, e por isto temeroso de Deus, as acusações de consciência, as aproximações dos aparecer diante dele. Nós temos motivos para ter medo problemas, os ataques de criaturas inferiores, e as sen­ de nos aproximar de Deus, se não estivermos revestidos tenças de morte, que são comuns entre os homens, são e cercados com a justiça de Cristo. Pois nada, exceto a o resultado do pecado. Adão e Eva, que eram parceiros justiça do Salvador, será a armadura resistente capaz w. 9,10 25 GÊNESIS S w. 11-13 de cobrir a vergonha da nossa nudez. Portanto, devemos mos dominados pela insistência, para agir contra as nos­ nos vestir do nosso Senhor Jesus Cristo, e então podere­ sas consciências, nem jamais desagrademos a Deus, nem mos nos aproximar com uma humilde ousadia. mesmo para satisfazer ao melhor amigo que tivermos no mundo. Mas isto não é o pior. Ele não somente coloca a culpa sobre a sua esposa, mas também a expressa tão A Queda do Homem tacitamente, que ela chega a se refletir no próprio Deus: w. 11-13 Foi a mulher que me deste por companheira e amiga. Ela me deu da árvore - caso contrário, eu não o teria comi­ Aqui temos os criminosos julgados culpados, pela do. Desta maneira, ele insinua que Deus foi cúmplice do sua própria confissão, e ainda assim esforçando-se para seu pecado: Ele lhe deu a mulher, e ela lhe deu o fruto. desculpar e atenuar o seu pecado. Eles não podiam con­ De modo que ele parecia tê-lo tomado da própria mão de fessar e justificar o que tinham feito, mas confessam-no Deus. Observe que existe uma estranha inclinação na­ e tentam atenuá-lo. Observe: queles que são tentados, de dizer que são tentados por Deus, como se os nossos maus usos dos dons de Deus Como a confissão foi “arrancada” deles. Deus per­ pudessem desculpar a nossa violação às leis de Deus. guntou ao homem: Quem te mostrou que estavas Deus nos dá riquezas, honras e relacionamentos, para nu?, v. 11. “Como você veio a perceber a sua nudez como que possamos servi-lo alegremente desfrutando tudo sendo a sua vergonha?” Comeste tu da árvore proibi­ isto. Mas, se nos aproveitarmos de todos estes recursos da? Observe que embora Deus conheça todos os nossos para pecar contra Ele, em vez de culpar a Providência pecados, ainda assim Ele deseja conhecê-los por nosso por nos colocar em tal situação, devemos culpar a nós intermédio, e exige de nós uma sincera confissão. Não mesmos, por pervertermos os graciosos desígnios que a para que Ele possa ser informado, mas para que nós Providência tinha em relação a eles. 2. Eva coloca toda possamos ser humilhados. Neste interrogatório, Deus o a culpa sobre a serpente: A serpente me enganou. O lembra do mandamento que lhe tinha dado: Eu te orde­ pecado é como uma criança problemática que ninguém nei que não comesses, Eu, o teu Criador. Eu, o teu Se­ deseja reconhecer, e este é um sinal de que é uma coisa nhor. Eu, o teu benfeitor. Eu te ordenei o contrário. O escandalosa. Aqueles que estão suficientemente dispos­ pecado parece mais claro, e mais pecaminoso sob a lente tos a receber o prazer e o lucro do pecado são suficien­ do mandamento, portanto Deus aqui a coloca diante de temente tardios para assumir a culpa e a vergonha dele. Adão. E, nela, nós deveríamos ver os nossos rostos. A A serpente, aquela criatura sutil, da tua criação, que tu pergunta feita à mulher foi: Que é isso que fizeste?, v. permites que venha ao paraíso até nós, me enganou, ou 13 (versão RA). Você também reconhece a sua falta, e fez-me errar. Pois os nossos pecados são os nossos erros. a confessa? E você também reconhece que coisa má ela Aprendamos, então: (1) Que as tentações de Satanás são é? Observe que interessa àqueles que comeram o fruto todas enganos, os seus argumentos são todos falácias, e proibido - e especialmente àqueles que levaram outros os seus atrativos são todos trapaças. Quando ele falar po­ a comer da mesma maneira - considerar seriamente o lidamente, não creia nele. 0 pecado nos engana, e, enga­ que fizeram. Ao comer o fruto proibido, nós ofendemos nando-nos, nos ludibria. E pela falsidade do pecado que o um Deus grandioso e gracioso, infringimos uma lei justa, coração se endurece. Veja Romanos 7.11; Hebreus 3.13. violamos um concerto sagrado e extremamente solene, e (2) Que, embora a sutileza de Satanás nos atraia ao peca­ fizemos mal às nossas preciosas almas, perdendo o favor do, ainda assim não nos justifica no pecado: embora ele de Deus, expondo-nos à sua ira e maldição. Ao levar os seja o tentador, nós somos os pecadores. E, na verdade, outros a comê-lo, nós fazemos a obra do diabo, tornamo- é a nossa própria concupiscência que nos atrai e engoda, nos culpados dos pecados de outros homens, contribuin­ Tiago 1.14. Portanto, que a nossa tristeza e humilhação do para a sua destruição. Que é isso que fizemos? pelo pecado não diminuam porque fomos enganados para cometê-lo. Mas, em vez disto, que aumente a nossa Como o seu crime foi atenuado por eles, na sua indignação o fato de que permitimos ser enganados por confissão. Era inútil declarar-se inocente. A apa­ um trapaceiro conhecido, e um inimigo declarado. Bem, rência das suas fisionomias testificava contra eles. Por isto é tudo o que os prisioneiros no tribunal têm a dizer isto eles se tornaram seus próprios acusadores: “Eu em sua defesa, tentando fazer com que a sentença não comi”, diz o homem, “E eu também comi”, diz a mulher. seja proferida, e a execução levada a cabo, segundo a lei. Pois quando Deus julgar, Ele irá dominar. Mas estas não Porém esta tentativa é igual a nada, e, em alguns aspec­ parecem confissões penitentes. Pois em vez de agravar o tos, pior do que nada. pecado, e assumir a vergonha, eles procuram desculpar o pecado, tentando lançar a vergonha e a culpa sobre ou­ tros. 1. Adão coloca toda a culpa sobre a sua esposa. Ela A Serpente É Condenada. me deu da árvore e forçou-me a comê-lo, e comi somente A Indicação do Messias para. agradá-la. Uma desculpa frívola. Ele deveria tê-la w. 14,15 ensinado, e não ter sido ensinado por ela. E não é difícil determinar por quem ele deveria ter sido governado, Como os prisioneiros foram considerados culpados, pelo seu Deus, ou pela sua esposa. Aprendam, portanto, pela sua própria confissão, além do conhecimento pesso­ a nunca serem levados ao pecado por aqueles que não os al e infalível do Juiz, e nada relevante foi oferecido para livrarão do julgamento. Não cumpramos uma ordem que a suspensão do julgamento, Deus imediatamente passa à não nos isentará do julgamento. Portanto, nunca seja­ sentença: e, nestes versículos, Ele começa (onde começou I n vv. 14,15 GÉNESIS 26 o pecado) com a serpente. Deus não interrogou a serpen­ sua condenação. (2) Ela será, para sempre, considerada te, nem lhe perguntou o que ela tinha feito, nem por que uma criatura venenosa e nociva, merecedora de ódio e o tinha feito. Mas imediatamente a condenou: 1. Porque abominação: porei inimizade entre ti e a mulher. Sendo ela já estava condenada pela rebelião contra Deus, e sua as criaturas inferiores criadas para o homem, era uma maldade e perversidade eram notórias, não descobertas maldição que qualquer uma delas fosse voltada contra por alguma investigação secreta, mas abertamente con­ o homem, e o homem se voltasse contra elas. E isto faz fessadas e declaradas, como as de Sodoma. 2. Porque ela parte da maldição da serpente. A serpente é nociva ao deveria ser, para sempre, excluída de qualquer esperan­ homem, e freqüentemente fere o seu calcanhar, porque ça de perdão. E por que qualquer coisa deveria ser dita não consegue alcançar nenhum ponto mais alto. Na ver­ para convencer e humilhar aquele que não encontraria dade, está registrado que ela morde os calcanhares dos lugar para arrependimento? A sua ferida não era pro­ cavalos, cap. 49.17. Mas o homem é vitorioso sobre a curada, porque não deveria ser curada. Alguns pensam serpente, e fere a sua cabeça, isto é, dá-lhe uma ferida que a condição dos anjos caídos não havia sido declarada mortal, visando destruir toda a geração de víboras. O re­ desesperadora e impotente até o momento em que eles sultado desta maldição sobre a serpente é que, embora atraíram o homem à rebelião. esta criatura seja sutil e muito perigosa, ainda assim ela não é vitoriosa (como seria, se Deus lhe desse permissão) A sentença proferida contra o tentador pode ser con­ em se tratando da destruição da humanidade. Esta sen­ siderada como um raio sobre a serpente. O animal tença proferida sobre a serpente é muito fortalecida por que Satanás usou foi - como todos os demais - criadoaquela promessa de Deus ao seu povo: Pisarás o leão e para servir ao homem, mas agora era mal utilizado, paraa áspide (SI 91.13), e a de Cristo aos seus discípulos: Pe­ feri-lo. Portanto, para testificar sobre o desprazer pelo garão nas serpentes (Mc 16.18). O apóstolo Paulo é tes­ pecado, e o ciúme pela honra ferida de Adão e Eva, Deus temunha da fidelidade de Deus e da absoluta veracidade lança uma maldição e uma repreensão sobre a serpente, de sua promessa, pois não foi mortalmente ferido pela e a faz gemer, sobrecarregada. Veja Romanos 9.20. Os víbora que lhe acometeu a mão. Observe que a serpente instrumentos do diabo devem compartilhar a punição do e a mulher acabavam de ficar muito amigas e familia­ diabo. Assim os corpos dos ímpios, embora não passem rizadas na conversa sobre o fruto proibido, e havia um de instrumentos de injustiça, deverão compartilhar os entendimento “maravilhoso” entre elas. Mas aqui elas tormentos eternos com a alma, o agente principal. Até são irreconciliavelmente colocadas em discórdia. Note mesmo o boi que matar um homem deverá ser apedreja­ que as amizades pecaminosas terminam, com razão, em do, Êxodo 21.28,29. Veja aqui como Deus odeia o pecado, contendas mortais: aqueles que se unem na iniqüidade e especialmente o quanto Ele se desagrada com aqueles não permanecem unidos por muito tempo. que levam outros ao pecado. O fato de Jeroboão levar Israel a pecar é uma mácula perpétua sobre o seu nome. Esta sentença pode ser considerada como igual à Bem: 1. A serpente aqui recebe a maldição de Deus: do diabo, que somente fez uso da serpente como maldita serás mais que todos os animais do campo. Até seu instrumento nesta manifestação, mas foi ele mesm mesmo as criaturas rastejantes, quando Deus as criou, o agente principal. Aquele que falou por meio da boc foram abençoadas por Ele (cap. 1.22), mas o pecado da serpente aqui é golpeado, como se fosse golpeado n transformou a benção em uma maldição. A serpente era parte lateral da serpente. E o objetivo principal desta mais sutil do que todas as alimárias cio campo (v. 1), e sentença é ser semelhante à coluna de fogo e nuvem que aqui, é amaldiçoada, mais do que toda besta do campo. A tem um lado escuro, voltado para o diabo, e um claro, vol­ sutileza não santificada freqüentemente prova ser uma tado para os nossos primeiros pais e a sua descendência. grande maldição ao homem. E quanto mais astutos os Grandes coisas estão contidas nestas palavras. homens forem para fazer o mal, mais danos causarão, 1. Uma censura perpétua aqui é atribuída àquele e, conseqüentemente, receberão maior condenação. Os grande inimigo, tanto de Deus quanto do homem. Sob tentadores sutis são as criaturas mais amaldiçoadas sob o disfarce de serpente, aqui ele é condenado a ser: (1) o sol. 2. Aqui a serpente é colocada sob a reprovação e Desprezado e amaldiçoado por Deus. Supõe-se que o pe­ a inimizade do homem. (1) Ela será sempre considera­ cado que converteu anjos em demônios foi o orgulho, que da como uma criatura vil e desprezível, merecedora de aqui é devidamente punido com uma grande variedade escárnio e desprezo: Sobre o teu ventre andarás, arras­ de mortificações, veladas sob as circunstâncias inferio­ tando-te durante todo o tempo, o ventre agarrando-se res de uma serpente rastejando sobre o seu ventre, e à terra, uma expressão de condição miserável e abjeta. lambendo o pó. Como caíste do céu, ó Lúcifer! Aquele Salmos 44.25. E não poderás evitar comer pó com o teu que desejava estar acima de Deus, e liderou uma rebe­ alimento. Seu crime foi tentar Eva a comer o que ela não lião contra Ele, é aqui devidamente exposto ao desprezo, deveria ter comido. Seu castigo era que necessitaria co­ e deverá ser pisoteado. O orgulho de um homem o fará mer o que não desejaria comer: “e pó comerás”. Isto in­ cair, e Deus humilhará aqueles que não se humilharem. dica não somente uma condição vil e desprezível, mas um (2) Detestado e odiado por toda a humanidade. Mesmo espírito inferior e merecedor de piedade. Sobre aqueles aqueles que são realmente seduzidos aos interesses cuja coragem os deixou, está escrito que lamberão o pó do diabo, professam sentir ódio e abominação por ele. como serpentes, Miquéias 7.17. Como é triste que a mal­ E todo aquele que é nascido de Deus, conserva-se a si dição da serpente seja a escolha dos mundanos cobiço­ mesmo, e o maligno não lhe toca, 1 João 5.18. Aqui ele é sos, cujo caráter é suspirar pelo pó da terra! Amós 2.7. condenado a um estado de guerra e inimizade irrecon­ Estes escolhem as suas próprias ilusões, e assim será a ciliável. (3) Destruído e arruinado, por fim, pelo grande 3 I n 27 GÊNESIS 3 v. 16 Redentor, o que é representado pelo ferimento da sua ca­ da nossa natureza. O Senhor Jesus foi enviado, nascido beça. A sua política sutil será completamente frustrada, de mulher (G14.4), para que esta promessa pudesse ser o seu poder usurpado será completamente esmagado, e cumprida. É um grande encorajamento para os pecado­ ele será, para sempre, cativo da honra injuriada da sobe­ res que o seu Salvador seja a semente da mulher, osso rania divina. Sabendo disto desde agora, o diabo já está dos nossos ossos, Hebreus 2.11,14. O homem é, portan­ sendo atormentado antes da hora. to, pecador e impuro porque nasce da mulher (Jó 2-5.4), 2. Uma disputa eterna aqui tem início, entre o reino e, portanto, os seus dias são repletos de inquietação, de Deus, e o reino do diabo entre os homens. Uma guer­ Jó 14.1. Mas a semente da mulher se fez pecado e uma ra é proclamada entre a semente da mulher e a semen­ maldição por nós, salvando-nos, desta maneira, tanto te da serpente. Aquela batalha no céu, entre Miguel e do pecado quanto da maldição. (2) Seus sofrimentos e o dragão, teve início agora, Apocalipse 12.7. Observe os a sua morte, indicados pelo fato de que Satanás fere o frutos desta inimizade: (1) O fato de que exista um con­ seu calcanhar, isto é, a sua natureza humana. Satanás flito contínuo entre a graça e a corrupção, nos corações tentou a Cristo no deserto, para atrai-lo ao pecado. E do povo de Deus. Satanás, por meio da sua corrupção, os alguns pensam que foi Satanás que aterrorizou a Cristo ataca, os golpeia, os testa e tenta devorá-los. Eles, pelo na sua agonia, para levá-lo ao desespero. Foi o diabo que exercício das suas graças, resistem a ele, lutam com ele, colocou no coração de Judas o desejo de trair a Cristo. extinguem seus dardos inflamados, e o forçam a fugir No de Pedro, o de negá-lo. No dos principais dos sacer­ deles. O céu e o inferno nunca poderão se reconciliar, dotes, o de levá-lo a juízo. No das falsas testemunhas, nem a luz e as trevas. Muito menos Satanás e uma alma o de acusá-lo. E no de Pilatos, o de condená-lo, e tudo santificada, pois um é absolutamente contrário ao outro. isto, com o objetivo de, destruindo o Salvador, destruir (2) Que exista, da mesma maneira, uma luta contínua e arruinar a salvação. Mas, ao contrário, foi através da entre os ímpios e os crentes fiéis neste mundo. Aqueles morte que Cristo destruiu aquele que tinha o império que amam a Deus consideram seus inimigos aqueles que da morte, Hebreus 2.14. O calcanhar de Cristo foi fe­ odeiam o precioso Senhor, Salmos 139.21,22. E toda a fú­ rido quando os seus pés foram perfurados e pregados ria e maldade dos perseguidores contra o povo de Deus à cruz, e os sofrimentos de Cristo continuam nos sofri­ são frutos desta inimizade, que irá continuar enquanto mentos dos santos que sofrem por causa do seu nome. houver um homem fiel ao Senhor lutando pelos interes­ O diabo os tenta, os lança na prisão, os persegue e os ses do céu, e um homem ímpio lutando pelos interesses assassina, ferindo, desta maneira, o calcanhar de Cris­ do inferno. Não vos maravilheis, se o mundo vos aborre­ to, que se aflige com as aflições dos seus servos amados. ce, 1 João 3.13. Mas, enquanto o calcanhar é ferido na terra, temos um 3. Aqui é feita uma promessa graciosa a respeito conforto: a cabeça está a salvo, no céu. (3) Sua vitória de Cristo, aquele que irá libertar os homens caídos do sobre Satanás, conseqüentemente. Satanás tinha agora poder de Satanás. Embora o que foi dito fora dirigido à maltratado a mulher, e a tinha insultado. Mas a semen­ serpente, foi dito para ser ouvido pelos nossos primeiros te da mulher se ergueria, na plenitude do tempo, para pais que, sem dúvida, receberam as indicações da graça vingar a contenda pela mulher, e para pisotear a ser­ que aqui lhes foi dada, e viram uma porta de espei-ança pente, para despojá-la, aprisioná-la e triunfar sobre ela, que se abria para eles. Caso contrário, a sentença se­ Colossenses 2.15. Ele ferirá a sua cabeça, isto é, Ele guinte, proferida contra eles, os teria esmagado. Aqui destruirá toda a sua política, e todos os seus poderes, e está o amanhecer do dia do Evangelho. Antes que a fe­ destruirá completamente o seu reino e os seus interes­ rida fosse feita, o remédio foi providenciado e revelado. ses. Cristo frustrou as tentações de Satanás, resgatou Aqui, no princípio do livro, como está escrito (Hb 10.7), as almas das suas mãos, expulsou-o dos corpos das pes­ no princípio da Bíblia, está escrito a respeito de Cris­ soas, despojou os fortes homens armados, e dividiu os to, e de sua disposição para fazer a vontade de Deus seus despojos. Através da sua morte, Ele desferiu um Pai. Pela fé nesta promessa, temos razão para pensar golpe fatal e incurável contra o reino do diabo, fazendo que os nossos primeiros pais, e os patriarcas, antes do uma ferida na cabeça desta fera, que nunca poderá ser dilúvio, foram justificados e salvos. Também podemos curada. A medida que o seu Evangelho ganha terreno, ter a certeza de que esperaram ansiosamente por esta Satanás cai (Lc 10.18), e é amarrado, Apocalipse 20.2. promessa, e pelos seus benefícios, servindo a Deus de Pela sua graça, Ele esmaga Satanás debaixo dos pés do dia e de noite. Aqui três coisas lhes são ditas, a respeito seu povo (Rm 16.20), e em breve irá lançá-lo no lago de de Cristo: (1) Sua encarnação, que Ele seria a semente fogo e enxofre, Apocalipse 20.10. E a derrota perpétua da mulher, a semente daquela mulher. Portanto, a sua do diabo será a completa e eterna alegria e glória do genealogia (Lc 3) vai tão alto, a ponto de mostrar que remanescente escolhido. Ele era filho de Adão, mas Deus dá à mulher a honra de chamá-lo de semente dela, porque foi ela a quem o dia­ bo enganou, e nela Adão tinha lançado a culpa. Assim, A Sentença de Eva E Proferida Deus engrandece a sua graça pelo fato de que, embora v. 16 a mulher tivesse sido a primeira na transgressão, ainda assim ela seria salva dando à luz filhos (assim alguns Aqui temos a sentença proferida à mulher, pelo seu interpretam), isto é, pela semente prometida que des­ pecado. Ela é condenada a duas coisas: uma condição de cenderia dela, 1 Timóteo 2.15. Da mesma maneira, Ele sofrimento, e um estado de submissão, punições adequa­ deveria ser a semente de uma mulher singular, de uma das para um pecado pelo qual ela tinha satisfeito o seu virgem, para que não fosse manchado pela corrupção prazer e o seu orgulho. w. 17-19 GÊNESIS 3 28 Aqui ela é colocada em um estado de sofrimento, do nosso jugo. Se Eva não tivesse comido o fruto proibido, e qual somente um detalhe é especificado, o de ter fi­ não tivesse tentado o seu marido para comê-lo também, lhos. Mas ele inclui todas aquelas impressões de tristeza ela nunca teria reclamado da sua submissão. Portanto, e medo que a mente do sexo mais frágil é mais capaz ela não deve ser objeto de reclamação, por mais difícil de absorver, e todas as calamidades comuns às quais que seja. Mas sim o pecado, que a tornou assim. As es­ elas estão sujeitas. Observe que o pecado trouxe o sofri­ posas que não somente desprezam e desobedecem aos mento ao mundo. Foi isto que fez do mundo um vale de seus esposos, mas os dominam, não consideram que não lágrimas, trouxe chuvas de problemas sobre as nossas somente estão violando uma lei divina, mas também im­ cabeças, e abriu fontes de tristezas nos nossos corações, pedindo a execução de uma sentença divina. desta maneira alagando o mundo: se não tivéssemos co­ nhecido a culpa, não teríamos conhecido a tristeza e o Observe aqui como a misericórdia se mescla sofrimento. As dores do parto, que são grandes para um com a ira, nesta sentença. A mulher sente provérbio, um provérbio das Escrituras, são o resultado tristeza, quando está para dar à luz. Mas, a tristeza será do pecado. Cada dor e cada gemido da mulher que dá à esquecida pelo prazer de haver nascido um homem no luz expressam as conseqüências fatais do pecado: este é mundo, João 16.21. Ela será submissa, mas será ao seu o resultado de comer o fruto proibido. Observe: 1. Aqui próprio marido, que a ama, e não a um estranho ou inimi­ está escrito que os sofrimentos são multiplicados, mul­ go: a sentença não era uma maldição, para trazê-la à ru­ tiplicados grandemente. Todas as tristezas desta época ína, mas uma punição, para trazê-la ao arrependimento. atual assim o são. Muitas são as calamidades às quais Foi bom que não foi posta uma inimizade entre o homem está sujeita a vida humana, de vários tipos, e freqüente­ e a mulher, como aconteceu entre a serpente e a mulher. mente repetidas. Elas são como as nuvens que retornam depois da chuva, e não é de admirar que os nossos sofri­ mentos sejam multiplicados, quando os nossos pecados A Sentença de Adão É Proferida. também o são: ambos são males incontáveis. As dores da As Conseqüências da Queda concepção são multiplicadas. Pois incluem não somente w. 17-19 os espasmos do parto, mas as indisposições anteriores (esta é a tristeza da concepção), e o trabalho de amamen­ Aqui temos a sentença proferida a Adão, que é in­ tação e as aflições, depois. E depois de tudo, se os filhos troduzida por uma narração do seu crime: “Porquanto se tornarem ímpios e tolos, serão, mais do que nunca, deste ouvidos à voz de tua mulher”, v. 17. Ele justificou a um peso para aquela que os gerou. Desta maneira são sua falta, atribuindo-a à sua esposa: “Ela me deu” (v. 12). multiplicadas as dores. Quando termina uma dor, outra Mas Deus não aceita a justificativa. Ela podia somente a sucede, neste mundo. 2. É Deus que multiplica as nos­ tentá-lo, mas não podia forçá-lo. Embora fosse uma falta sas dores: “Eu o farei”. Deus, sendo um Juiz justo, o faz, dela persuadi-lo a comer, foi uma falta dele dar ouvidos a e isto deveria nos silenciar sob todas as nossas dores. ela. Desta maneira, as alegações frívolas dos homens, no Por mais numerosas que elas sejam, nós as merecemos dia do julgamento de Deus, não somente serão rejeita­ todas, e ainda mais. Na verdade, Deus como um Pai amo­ das, mas se voltarão contra eles, e formarão as bases da roso, o faz para a nossa necessária correção, para que sua sentença. “Pela tua boca te julgarei”. Observe: possamos ser humilhados pelo pecado, e desacostuma­ dos do mundo, através de todos os nossos sofrimentos. E Deus coloca as marcas do seu desagrado com Adão o bem que conseguimos com eles, e o consolo que temos em três aspectos: por eles, irão abundantemente equilibrar as nossas tris­ 1. Seu lugar de residência é, com esta sentença, tezas, não importando o quão grandemente elas sejam amaldiçoado: “Maldita é a terra por causa de ti”. E o re­ multiplicadas. sultado desta maldição é: “Espinhos e cardos também [a terra] te produzirá”. Aqui está indicado que a sua Aqui a mulher é colocada em uma condição de residência seria mudada. Ele não mais moraria em um submissão. O sexo feminino que, pela criação, era paraíso distinto e abençoado, mas seria removido à terra igual ao sexo masculino, agora, pelo pecado, se tornou comum, e amaldiçoada. O solo, ou a terra, aqui significa inferior, e proibido de usurpar autoridade, 1 Timóteo toda a criação visível, que, devido ao pecado do homem, 2.11,12. A esposa, particularmente, aqui é colocada sob está sujeita à futilidade ou à vaidade. Suas diversas par­ o domínio do seu esposo, e não está sui juris - à sua tes se tornaram menos úteis ao conforto e à felicidade própria disposição, e sobre isto veja um exemplo naque­ do homem do que tinham sido designadas a ser quando la lei, Números 30.6-8, em que o esposo tem o poder, se criadas, e do que teriam sido, se ele não tivesse pecado. assim o desejar, de anular os votos feitos pela sua esposa. Deus deu a terra aos filhos do homem, designando que Esta sentença só se equipara àquele mandamento: “Vós, fosse uma habitação agradável para eles. Mas o pecado mulheres, sede sujeitas ao vosso próprio marido”. Mas a alterou as suas propriedades. Agora ela está amaldiçoa­ aparição do pecado fez daquele dever uma punição, que, da, devido ao pecado do homem. Isto é, é uma moradia não fosse por isto, não teria existido. Se o homem não ti­ desonrosa, e indica que o homem é pobre, pois a sua mo­ vesse pecado, ele teria sempre governado com sabedoria rada está na terra; é uma morada seca e estéril, os seus e amor. E, se a mulher não tivesse pecado, ela sempre produtos espontâneos agora são ervas daninhas e espi­ teria obedecido com humildade e mansidão. E o domínio, nhos, coisas ruins ou asquerosas. Qualquer bom fruto então, não representaria nenhum descontentamento: que ela produza terá que ser extraído pelo esforço e pelo mas o nosso próprio pecado e tolice tornaram pesado o trabalho do homem. A fertilidade era a sua bênção, para I I n 29 GÊNESIS 3 w. 17-19 servir ao homem (cap. 1.11,29), e agora a esterilidade era com as guloseimas do jardim do Éden. Tendo, pelo peca­ a sua maldição, para a punição do homem. Ela não é mais do, se tornado como os animais que perecem, com razão o que era no dia em que foi criada. O pecado transformou ele se converte em um plebeu como eles, e deverá comer uma terra frutífera em estéril. E o homem, tendo se tor­ erva como os bois, até que saiba que os céus governam. nado como o jumento bravo, tem a mesma sorte, o ermo [2] Existe uma mudança da maneira como ele come: com por casa, e a terra salgada por morada, Jó 39.6; Salmos dor e fatiga (v. 17), e no suor do seu rosto (v. 19), ele deverá 68.6. Se esta maldição não tivesse sido parcialmente re­ comer dela. Durante todos os dias da sua vida Adão não movida, pelo que eu sei, a terra teria sido estéril para podia deixar de comer com dor e fatiga, lembrando-se do sempre e nunca teria produzido nada além de espinhos e fruto proibido que tinha comido, e da culpa e da vergo­ cardos. A terra é maldita, isto é, condenada à destruição nha que ele tinha adquirido por causa disto. Observe, em no final dos tempos, quando a terra e todas as obras que primeiro lugar, que a vida humana está exposta a muitas nela estão serão queimadas, por causa do pecado, pois a desgraças e calamidades, que amargam muito as miga­ medida desta iniqüidade será, então, completa, 2 Pedro lhas dos seus prazeres e delícias. Alguns nunca comem 3.7,10. Mas observe uma mistura de misericórdia nesta com prazer (Jó 21.25), mas com amargura ou melancolia. sentença. (1) O próprio Adão não é amaldiçoado, como Todos, até mesmo os melhores, têm motivos para comer foi a serpente (v. 14), mas somente a terra, por sua cau­ com dor, por causa do pecado. E todos, até mesmo os sa. Deus tinha bênçãos nele, inclusive a santa semente: mais felizes neste mundo, têm algo que ameniza a sua “Não o desperdices, pois há bênção nele”, Isaías 65.8. E o alegria: exércitos de doenças, desastres, e mortes, em Senhor tem bênçãos reservadas para Adão. Por isto, ele várias formas, vieram ao mundo com o pecado, e ainda o não é amaldiçoado diretamente e imediatamente, mas, assolam. Em segundo lugar, que a justiça de Deus deve poderíamos dizer, indiretamente. (2) Ele ainda está aci­ ser reconhecida em todas as tristes conseqüências do pe­ ma da terra. A terra não se abre e o traga. Somente as cado. Por que, então, deveria um homem vivo reclamar? coisas não são mais como eram: da mesma maneira como Ainda assim, nesta parte da sentença, há também uma ele continua vivo, apesar de ter degenerado da sua pure­ mistura de misericórdia. Ele irá suar, mas o seu trabalho za e retidão primitivas, também a terra continua sendo fará o seu descanso mais bem-vindo quando ele retor­ a sua morada, apesar de ter degenerado da sua beleza e nar a esta terra, como ao seu leito. Ele sofrerá, mas não fertilidade primitivas. (3) Esta maldição sobre a terra, passará fome. Ele terá dor, mas nesta dor, ele comerá que destrói todas as expectativas de uma felicidade nas pão, o que fortalecerá o seu coração sob esta dor. Ele não coisas de baixo, ou seja, nas coisas deste mundo, pode está condenado a comer pó, como a serpente, somente a orientá-lo e motivá-lo a procurar bênçãos e satisfação comei’ a erva do campo. somente nas coisas do alto. 3. A sua vida também será curta. Considerando quão 2. As tarefas e os prazeres do homem se tornaramrepletos de problemas serão os seus dias, é em seu favor amargos para ele. que estes serão poucos. Ainda assim, a morte, sendo ter­ (1) Seu trabalho, a partir de agora, se tornará duro rível por natureza (sim, mesmo que a vida seja desagra­ para ele, e ele o continuará com o suor do seu rosto, v. dável), conclui a sentença. “Tornarás à terra. Porque dela 19. Seu trabalho, antes do pecado, era um prazer cons­ foste tomado”. O teu corpo, esta parte que foi tomada tante para ele, o jardim era, então, lavrado sem nenhum da terra, a ela tornará. Porquanto és pó. Isto aponta, ou trabalho desconfortável, e guardado sem nenhuma pre­ para a primeira origem do seu corpo. Ele foi feito do pó, ocupação desconfortável. Mas agora o seu trabalho será na verdade, ele foi feito pó, e ainda o era. De modo que cansativo, e desgastará o seu corpo. Suas preocupações somente era necessário cancelar a concessão da imorta­ serão um tormento e afetarão a sua mente. A maldição lidade, e retirar o podei’ que foi oferecido para apoiá-la, sobre a terra, que a tornou estéril, e produziu espinhos e e então, ele retornaria, naturalmente, ao pó. Ou, à atual cardos, tornou o seu trabalho muito mais difícil e árduo. corrupção e degeneração da sua mente: “És pó” - isto é, Se Adão não tivesse pecado, não teria suado por coisas a sua preciosa alma agora está perdida e enterrada no pó que lhe seriam tão facilmente concedidas. Observe aqui do corpo, e na lama da carne. Ela foi criada espiritual e que: [1] O trabalho é o nosso dever, e devemos realizá- celestial, mas tornou-se carnal e terrena. Desta maneira, lo fielmente. Nós somos obrigados a trabalhar, não so­ o seu destino é lido: “Em pó te tornarás”. Seu corpo será mente como criaturas, mas como criminosos. Esta é uma abandonado pela sua alma, e se tornará um monte de pó. parte da nossa sentença, que a ociosidade desafia com E então ele será colocado no sepulcro, o lugar adequado ousadia. [2] Este desconforto e cansaço com o trabalho para ele, e se misturará com o pó da terra, o próprio pó, são a nossa justa punição, à qual devemos pacientemente Salmos 104.29. Terra à terra, pó ao pó. Observe aqui: (1) nos submeter, e da qual não devemos reclamar, uma vez Que o homem é uma criatura inferior e frágil, como o pó, que são menos do que merece a nossa iniqüidade. Não o menor grão de pó da balança, leve como o pó, mais leve tornemos, com preocupações e trabalhos desordenados, que a futilidade; é frágil como o pó, e sem nenhuma con­ a nossa punição mais pesada do que Deus a fez. Mas, em sistência. A nossa força não é a força das pedras. Aquele vez disto, tentemos diminuir a nossa carga, e enxugar o que nos fez considera isto, e lembra-se de que somos pó, nosso suor, vendo em tudo a Providência, e esperando o Salmos 103.14. O homem é, na verdade, o princípio do pó descanso em breve. do mundo (Pv 8.26), mas ainda é pó. (2) Que ele é uma (2) Seu alimento, a partir de então, se tornará (em criatura mortal e que se apressa em direção ao túmulo. comparação com o que tinha sido) desagradável para ele. O pó pode erguer-se, durante algum tempo, em uma pe­ [1] A substância do seu alimento foi alterada. Agora ele quena nuvem, e poderá parecer considerável, enquanto deve comer a erva do campo, e não mais se banqueteará é sustentado pelo vento que o ergueu. Mas, quando esta v. 20 GÊNESIS 3 força se acaba, ele cai novamente, e retorna à terra da qual se ergueu. Assim é o homem. Um grande homem é apenas uma grande massa de pó e deve retornar à sua terra. (3) Que o pecado trouxe a morte ao mundo. Se Adão não tivesse pecado, não teria morrido, Romanos 5.12. Deus confiou a Adão uma faísca de imortalidade, que ele, por meio de uma paciente perseverança no ca­ minho do bem, poderia ter expandido e convertido em uma chama eterna. Mas, tolamente, ele a apagou, pelo pecado voluntário: e agora a morte é o salário do pecado, e o pecado é o aguilhão da morte. n 30 o pecado? Cristo se fez maldição por nós, e sofreu uma morte maldita, Gálatas 3.13. (4) Os espinhos surgiram com o pecado? Ele foi coroado com espinhos, por nós. (5) O suor surgiu com o pecado? Por nós, Ele suou grandes gotas de sangue. (6) A tristeza surgiu com o pecado? Ele foi um homem de tristeza, a sua alma, na sua agonia, es­ tava extremamente entristecida. (7) A morte surgiu com o pecado? Ele foi obediente até à morte. Assim, o curati­ vo é tão grande quanto a ferida. Bendito seja Deus, por Jesus Cristo! Nós não podemos escapar desta sentença que foi v. 20 infligida sobre os nossos primeiros pais, com a qual, até hoje, estamos todos tão intimamente envolvi­ Como Deus tinha dado nome ao homem, e o tinha dos, e que sentimos de uma maneira tão forte, até que chamado Adão, que significa terra vermelha, Adão, como tenhamos considerado duas coisas: sinal de domínio, deu nome à mulher, e a chamou Eva, 1. Quão adequadamente as tristes conseqüências isto é, vida. Adão traz o nome do corpo que morre, e Eva, do pecado sobre a alma de Adão, e a sua raça pecadora, o da alma vivente. A razão do nome é aqui fornecida (al­ foram representadas e calculadas por esta sentença - e guns acreditam que por Moisés, o historiador, e outros, talvez houvesse nela mais objetivos do que nos damos pelo próprio Adão): Porque ela era (isto é, viria a ser) conta. Embora somente seja mencionada a desgraça que a mãe de todos os viventes. Ele a tinha chamado antes afetava o corpo, este era um padrão de desgraças espi­ Ishah - mulher, como uma esposa. Aqui ele a chama de rituais, a maldição que caía sobre a alma. (1) As dores Eva - vida, como mãe. Bem: 1. Se isto foi feito por orien­ de uma mulher ao dar à luz representam os terrores e tação divina, foi um exemplo do favor de Deus, e, como os sofrimentos de uma consciência culpada, desperta a um novos nomes de Abraão e Sara, foi um selo do concerto, sentimento de pecado. A partir da concepção da luxúria, e uma garantia a eles de que, apesar do seu pecado e do estas dores são grandemente multiplicadas, e, mais cedo desprazer de Deus com eles por causa de tamanha trans­ ou mais tarde, cairão sobre o pecador, como a dor que gressão, Ele não tinha revertido aquela bênção que lhes vem sobre uma mulher ao dar à luz, e que não pode ser tinha dado: “Frutificai, e multiplicai-vos”. Da mesma ma­ evitada. (2) O estado de submissão ao qual a mulher foi neira, era uma confirmação da promessa feita agora, de reduzida representa a perda da liberdade espiritual e do que a semente da mulher, desta mulher, feriria a cabeça livre arbítrio. Este é o resultado do pecado. O domínio do da serpente. 2. Se Adão o fez por si só, foi um exemplo da pecado sobre a alma é comparado ao de um esposo (Rm sua fé na palavra de Deus. Sem dúvida isto não foi feito, 7.1-5). O desejo do pecado é dirigido ao pecador, pois ele como alguns suspeitam, em desprezo ou desafio à mal­ aprecia a escravidão. E assim o pecado o governa. (3) A dição, mas como uma humilde confiança na bênção. (1) maldição de esterilidade que caiu sobre a terra, e a sua A bênção do adiamento temporário de uma condenação produção de espinhos e cardos, são uma representação nos traz uma grande admiração pela paciência de Deus. adequada da esterilidade de uma alma corrupta e pe­ É impressionante que o Senhor tenha poupado tais peca­ caminosa que deveria ser boa, mas que dá frutos maus. dores para que fossem os pais de todos os viventes, e que Ela está toda cheia de cardos, e a sua superfície, cober­ não fechasse imediatamente aquelas fontes de vida hu­ ta de urtigas. Portanto, é praticamente uma maldição, mana e natureza, por não poderem produzir nada além Hebreus 6.8. (4) O trabalho árduo e o suor traduzem a de correntes poluídas e envenenadas. (2) A bênção de um dificuldade sob a qual, por causa da fraqueza da carne, o Redentor, a semente prometida, que era esperada por homem trabalha a serviço de Deus e da obra da religião, Adão, que por esta razão chamou a sua esposa de Eva pois agora ficou muito difícil entrar no reino do céu. Ben­ vida. Pois este precioso Redentor seria a vida de todos os dito seja Deus, por isto não ser impossível. (5) O fato de viventes, e nele todas as famílias da terra seriam abenço­ que o seu alimento lhe seja amargo traduz a necessidade adas. E é com esta esperança que Adão triunfa. que a alma tem do consolo do favor de Deus, que é vida, e o pão da vida. (6) Se não fosse o Senhor, a alma, como v. 21 o corpo, iria ao pó deste mundo. Esta seria a sua ten­ dência. O corpo retorna ao pó porque tem uma mancha terrena, João 3.31. Aqui temos um exemplo adicional da preocupação de 2. A compensação que o nosso Senhor Jesus fez, por Deus com os nossos primeiros pais, apesar do seu peca­ meio de sua morte e de seus sofrimentos, respondeu de do. Embora Ele corrija os seus filhos desobedientes, e os um modo admirável à sentença aqui proferida contra os coloque sob as marcas do seu desprazer, ainda assim Ele nossos primeiros pais. (1) As dores do parto surgiram não os deserda, mas, como um pai amoroso, provê a erva com o pecado? Nós lemos sobre o trabalho da alma de do campo como seu alimento, e túnicas de peles como Cristo (Is 53.11). E as dores da morte que o retinham são suas vestes. Desta maneira o Pai satisfez as necessida­ chamadas odinai (At 2.24), as dores de uma mulher no des do filho pródigo, Lucas 15.22,23. Se o Senhor Deus parto. (2) A submissão surgiu com o pecado? Cristo nas­ tivesse ficado satisfeito em matá-los, Ele não teria feito ceu sujeito à lei, Gálatas 4.4. (3) A maldição surgiu com isto por eles. Observe que: 1. As roupas surgiram com 31 GÊNESIS 3 w. 22-24 0 pecado. Nós não precisaríamos delas, fosse por defe­ comer o fruto proibido!” Isto foi dito para despertá-los e sa ou por decência, se o pecado não nos tivesse deixado humilhá-los, e para fazê-los perceber o seu pecado e a sua nus, para nossa vergonha. Pouca razão, portanto, temos tolice, e fazer com que se arrependessem, para que, ao de nos orgulhar das nossas roupas, que são apenas os verem-se tão miseravelmente enganados, por seguirem sinais da nossa pobreza e infâmia. 2. Quando Deus fez o conselho do diabo, eles pudessem, a partir de então, roupas para os nossos primeiros pais, Ele as fez quen­ procurar a felicidade que Deus ofereceria, no caminho tes e resistentes, mas grosseiras, e muito simples: não que Ele iria prescrever. Desta maneira, Deus enche de foram vestes de púrpura, mas túnicas de peles. Suas vergonha as suas faces, para que busquem o seu nome, roupas foram feitas, não de seda e cetim, mas de sim­ Salmos 83.16. Ele os coloca nesta confusão, para que se ples peles. Não adornadas, nem bordadas, não tinham convertam. Os verdadeiros penitentes irão recriminar a nenhum dos ornamentos que as filhas de Sião inventa­ si mesmos: “Que fruto eu tenho agora, através do pe­ ram posteriormente, e dos quais se orgulhavam. Que os cado? (Rm 6.21) Eu consegui o que tolamente prometi pobres, que meramente se cobrem, aprendam, aqui, a a mim mesmo, de uma maneira pecaminosa? Não, não, não reclamar: tendo sustento e com que se cobrirem, es­ isto nunca provou ser o que fingia ser, mas exatamente tejam satisfeitos. Eles estão tão bem quanto Adão e Eva o contrário”. estavam. E que os ricos, que se cobrem com elegância, aprendam aqui a não fazer da vestimenta o seu adorno, Como eles foram descartados e rejeitados, com 1 Pedro 3.3. 3. Que Deus deve ser reconhecido com gra­ razão, e expulsos do paraíso, o que era uma parte tidão, não somente por nos dar alimento, mas também da sentença, implícita na expressão: “Comerás a erva vestes, cap. 28.20. A lã e o linho são seus, assim como campo”. Aqui, temos: o grão e o mosto, Oséias 2.9. 4. Estas túnicas de peles 1. A razão que Deus apresentou, pela qual Ele ex­ tinham um significado. Os animais que forneceriam es­ pulsava o homem do paraíso. Deus não só o expulsou por tas peles deveriam ser mortos, mortos diante deles, para ter estendido a sua mão, e tomado da árvore da ciência mostrar-lhes o que é a morte. E, além disto, como está (o que foi o seu pecado), mas para que não estendesse escrito em Eclesiastes 3.18, para que pudessem ver que a sua mão, e tomasse também da árvore da vida (agora eram em si mesmos como os animais - mortais e que a proibida a ele, pela sentença divina, assim como antes cada dia se aproximavam da morte. Supõe-se que aque­ a árvore da ciência lhe era proibida pela lei), e ousasse les animais tenham sido mortos não para servirem como comer daquela árvore, profanando, desta maneira, um alimento, mas para o sacrifício, para tipificarem o grande sacramento divino, e desafiando uma sentença divina, sacrifício que, no fim do mundo, seria oferecido de uma adulando a si mesmo com o convencimento de que com vez por todas. Desta forma, a primeira morte foi um sa­ isto viveria para sempre. Observe que: (1) Existe uma crifício, ou Cristo, que estava sendo tipificado ali, do qual tendência tola naqueles que se fizeram indignos da es­ se diz que é o Cordeiro que foi morto desde a fundação sência dos privilégios cristãos, de tentar captar os seus do mundo. Estes sacrifícios foram divididos entre Deus e sinais e sombras. Muitos que não gostam dos termos o homem, como um sinal da reconciliação: a carne foi ofe­ do concerto, apesar disto, por causa da sua reputação, recida a Deus, um holocausto completo. As peles foram gostam dos selos dele. (2) Não é somente justiça, mas dadas ao homem, para fazer as vestes, significando que, também bondade, o fato de tais privilégios lhes serem tendo Jesus Cristo se oferecido a Deus como um sacri­ negados. Pois, ao usurpar aquilo a que não têm direito, fício em cheiro suave, nós devemos nos vestir com a sua eles afrontam a Deus e tornam o seu pecado ainda mais justiça, como uma veste, para que a vergonha da nossa odioso, e ao construir as suas esperanças sobre um fun­ nudez não apareça. Adão e Eva fizeram para si aventais damento errado, eles fazem a sua conversão mais difícil, de folhas de figueira, um cobertor muito estreito para e a sua destruição, mais deplorável. que pudessem se cobrir com ele, Isaías 28.20. Assim são 2. O método que Deus adotou, ao entregar-lhe esta todos os trapos da nossa própria justiça. Mas Deus lhes carta de divórcio, e ao expulsá-lo e excluí-lo deste jardim fez túnicas de peles. Grandes, e resistentes, e duráveis, e de prazer. Ele o expulsou, e o manteve do lado de fora. adequadas para eles. Assim é a justiça de Cristo. Portan­ (1)0 Senhor o lançou fora do jardim, para a terra co­ to, vista-se do Senhor Jesus Cristo. mum. Isto é mencionado duas vezes: Ele “o lançou fora” (v. 23), e “havendo lançado fora”, v. 24. Deus lhe disse que saísse, disse-lhe que ali não havia lugar para ele, Adão e Eva São expulsos do Éden que ele não iria mais ocupar este jardim, nem desfrutar w. 22-24 dele. Mas Adão gostava demais do lugar, para sair dele voluntariamente, e por isto Deus o expulsou, o fez sair, Tendo sido proferida a sentença aos transgressores, quer quisesse ou não. Isto significava a sua exclusão, e aqui temos a execução, em parte, levada a cabo imedia­ de toda a sua raça culpada, daquela comunhão com Deus, tamente. Observe aqui: que era a bênção e glória do paraíso. Os sinais do favor de Deus a ele, e do seu deleite nos filhos dos homens, Como eles foram, com razão, desgraçados e envergo­ que ele tinha no seu estado inocente, agora estavam sus­ nhados diante de Deus e dos santos anjos, pela irô­ pensos. As comunicações da sua graça estavam retidas, nica censura feita a eles, com o resultado do que tinham e Adão ficou fraco, e como os outros homens, como Sanfeito: “Eis que o homem é como um de nós, sabendo o são, quando o Espírito do Senhor se tinha retirado dele. bem e o mal”. Ele é um deus considerável! Não é mesmo? A sua intimidade com Deus havia diminuído e tinha se Veja o que ele conseguiu, as primazias, as vantagens, ao perdido, e aquela correspondência que tinha sido esta­ n I w. 1,2 GÊNESIS 4 32 belecida entre o homem e o seu Criador tinha sido in­ a felicidade na semente prometida, por quem a espada terrompida. Ele foi expulso, como alguém indigno desta inflamada é removida. Deus e os seus anjos se reconcilia­ honra, e incapaz deste serviço. Desta maneira, ele e toda ram conosco, e um novo e vivo caminho ao Santuário está a humanidade, devido ao pecado, perderam a comunhão consagrado e aberto para nós. com Deus. Mas para onde Deus o enviou, quando o ex­ pulsou do Éden? Ele poderia, com razão, tê-lo afugen­ tado do mundo (Jó 18.18), mas somente o afugentou do Capítulo jardim. Ele poderia, com razão, tê-lo lançado ao inferno, como fez com os anjos que pecaram, quando os expulsou do paraíso celestial, 2 Pedro 2.4. Mas o homem somente Neste capítulo nós temos o mundo e a igreja em foi enviado para lavrar a terra, de que fora tomado. Ele uma família, em uma pequena família, na família foi enviado a um lugar de trabalho, não a um lugar de de Adão, e um exemplo do caráter e da condição tormento. Ele foi enviado à terra, não ao sepulcro. Ao rede ambos em seu tempo, ou melhor, em todos os formatório, não à masmorra, não à prisão. Para tomar o tempos, até o fim dos tempos. Toda a humanida­ arado, e não arrastar a corrente. Seu trabalho de lavrar de estava representada em Adão, de forma que a a terra seria recompensado por comer dos seus frutos. grande distinção da raça humana entre os santos e E a sua convivência com a terra da qual foi tomado ti­ pecadores, religiosos e ímpios, os filhos de Deus e nha bons propósitos: conservá-lo humilde e lembrá-lo do os filhos do maligno, estavam aqui representados seu fim. Observe, então, que embora os nossos primeiros através de Caim e Abel. Também é dado um exem­ pais tenham sido excluídos do privilégio do seu estado de plo inicial da inimizade que mais tarde foi posta inocência, ainda assim não foram abandonados ao deses­ entre a semente da mulher e a semente da ser­ pero, os pensamentos de Deus os designaram para um pente. Aqui temos: I. O nascimento, os nomes, e as segundo estado de experiência, sob novos termos. profissões de Caim e Abel, w. 1,2. II. A religião de (2) Ele o expulsou, e o proibiu de qualquer esperan­ cada um deles, e a diferença de êxito nela, w. 3,4, ça de voltar a entrar. Pois colocou, ao oriente do jardim e parte do v. 5. III. A ira de Caim contra Deus e a do Eden, um destacamento de querubins, exércitos de repreensão que recebeu devido a ela, w. 5-7. IV O Deus, armados com um poder mortal e irresistível. Este assassinato de Abel, por parte de seu irmão Caim, poder foi representado por uma espada inflamada que e o processo contra ele por aquele homicídio. O as­ andava ao redor, naquele lado do jardim que ficava pró­ sassinato cometido, v. 8. Os procedimentos contra ximo ao lugar do qual Adão saiu, para guardar o caminho ele. 1. Sua acusação formal, v. 9, primeira parte. da árvore da vida, de modo que ele não pudesse roubar, 2. Sua alegação, v. 9, parte posterior. 3. Sua con­ nem forçar uma entrada. Pois quem pode atacar um anjo denação, v. 10. 4. A sentença lavrada, w. 11,12. 5. defensor, ou conseguir passar através da força? Isto in­ Sua reclamação contra a sentença, w. 13,14. 6. A dicou a Adão: [1] Que Deus estava descontente com ele. confirmação da sentença, v. 15. 7. A execução da Embora o Senhor tivesse misericórdia reservada para sentença, w. 15,16. V A família e os descendentes ele, ainda assim, agora Ele estava irado com ele. Tinha de Caim, w. 17-24. VI. O nascimento de outro filho passado a ser seu inimigo, e lutar contra ele, pois aqui e de um neto de Adão, w. 25,26. havia uma espada desembainhada (Nm 22.23). Ê Ele era para ele como um fogo consumidor, pois era uma espada Caim e Abel inflamada. [2] Que os anjos estavam em guerra contra w. 1,2 ele. Não haveria paz com os exércitos celestiais, enquan­ to Adão estivesse em rebelião contra o Senhor deles, e Adão e Eva tiveram muitos filhos e filhas, cap. 5.4. nosso. [3] Que o caminho para a árvore da vida estava fechado, ou seja, aquele caminho no qual, no princípio, Mas Caim e Abel parecem ter sido os dois primogêni­ ele tinha sido colocado, o caminho da inocência imacu­ tos. Alguns acham que eles eram gêmeos, e, como Esaú lada. Não está escrito que os querubins estivessem co­ e Jacó, o mais velho odiava e o mais jovem amava. Em­ locados ali para mantê-lo e aos seus afastados da árvore bora Deus tivesse expulsado nossos primeiros pais do da vida para sempre (graças a Deus, existe um paraíso paraíso, Ele não os puniu privando-os de filhos. Mas, diante de nós, e uma árvore da vida no meio dele, em para mostrar que tinha outras bênçãos reservadas para cujas esperanças nós nos alegramos). Mas foram coloca­ eles, o Senhor guardou para eles os benefícios daquela dos para guardar o caminho da árvore da vida, no qual primeira bênção de multiplicação. Embora eles fossem eles tinham estado até agora. Isto é, a partir de agora, pecadores, e sentissem a humilhação e a tristeza dos era inútil que ele e os seus esperassem justiça, vida e fe­ penitentes, não se consideravam como desconsolados, licidade, em virtude do primeiro concerto, pois ele estava tendo a promessa de um Salvador na qual poderiam se irremediavelmente rompido, e nunca poderia ser pleite­ apoiar. Aqui nós temos: ado, nem nenhum benefício ser obtido, por ele. Tendo sido infringido o mandamento daquele concerto, a sua T Os nomes de seus dois filhos. 1. Caim significa posmaldição está em plena força: ela não deixa espaço para X sessão. Pois Eva, quando deu a luz a ele, disse com arrependimento, mas nós estaríamos completamente alegria, e gratidão, e grande expectativa: “Alcancei do destruídos se fôssemos julgados por aquele concerto. Senhor um varão”. Observe que os filhos são dádivas Deus revelou isto a Adão, não para levá-lo ao desespe­ de Deus, e Ele deve ser reconhecido na construção de ro, mas para obrigá-lo e motivá-lo a procurar a vida e nossas famílias. Isso duplica e santifica nossa satisfação 4 33 GÊNESIS 4 w. 3-5 nelas quando as recebemos da mão de Deus, que não Caim. 5. Abel escolheu aquele trabalho que mais favo­ abandonará as obras e dádivas de sua própria mão. Em­ recia a meditação e a devoção, pois a vida pastoral era bora desse à luz a Caim com os sofrimentos que eram considerada particularmente favorável a estas. Moisés e uma conseqüência do pecado, ainda assim ela não perdeu Davi cuidaram de rebanhos, e em seus retiros conversa­ o senso de misericórdia em meio às suas dores. Consolos, vam com Deus. Note que esta ocupação ou condição de mesmo reduzidos, são mais do que merecemos. E, conse­ vida é a melhor para nós. E devemos sempre escolher qüentemente, as nossas queixas não devem suprimir os aquela que for a melhor para a nossa alma, aquela que nossos agradecimentos. Muitos presumem que Eva ti­ menos nos expuser ao pecado e que nos proporcionar as nha a presunção de que esse seu filho era a semente pro­ melhores oportunidades de servir e de desfrutar a pre­ metida, e que, por isso, ela entendia que havia triunfado sença e a comunhão com Deus. nele, como podem ser interpretadas as suas palavras: Al­ cancei um varão, o Senhor, Homem-Deus. Sendo assim, ela estava miseravelmente equivocada, como Samuel, Caim e Abel quando disse: “Certamente, está perante o Senhor o w. 3-5 seu ungido”, 1 Samuel 16.6. Quando as crianças nascem, quem pode prever o que virão a ser? Aquele de quem se Aqui temos: cria que fosse um homem, o Senhor, ou ao menos um ho­ mem de Deus, e a serviço dele como sacerdote da família, A devoção de Caim e Abel. Com o passar do tempo, tornou-se um inimigo do Senhor. Quanto menos esperar­ quando eles haviam feito algum progresso em suas mos das criaturas, mais suportáveis serão as decepções. respectivas ocupações (no idioma hebraico, temos: Ao 2. Abel significa vaidade. Quando pensou que havia final de dias, ou ao final do ano, quando eles realizavam conseguido a semente prometida em Caim, ela ficou tão seu banquete de reunião ou talvez um jejum anual em empolgada com essa posse que o outro filho era uma vai­ memória ao outono, ou ao término dos dias da semana, dade para ela. Para aqueles que têm um interesse em o sétimo dia, que era o sábado), em algum momento Cristo, e fazem dele tudo o que têm, as outras coisas são determinado, Caim e Abel traziam a Adão - como o sa­ como nada. Isso implica igualmente em que, quanto mais cerdote cla família - uma oferta para o Senhor. Assim, tempo vivermos neste mundo, mais poderemos ver a sua temos razões para pensar que havia uma a ordem divina vaidade. A principio, nós gostamos muito desta vaidade, dada a Adão, como um símbolo da generosidade de Deus como uma possessão. Porém, depois, a vemos como algo para com ele e de seus pensamentos de afeição a ele e para o que estamos mortos, como uma ninharia. O nome aos seus, apesar da sua apostasia. Desse modo Deus tes­ dado a esse filho é posto sobre toda a raça, Salmos 39.5. taria a fé de Adão na promessa e a sua obediência à lei Todo homem que está em sua melhor condição é como que tinha a finalidade de remediar a situação. Ele assim Abel - vaidade. Que nós trabalhemos para ver tanto a estabeleceria novamente uma semelhança entre o céu e nós mesmos quanto aos outros assim. Tanto a infância a terra, e mostraria as sombras das coisas boas que es­ como a juventude são vaidade. tavam por vil-. Observe aqui: 1. Que a adoração religiosa a Deus não é nenhuma invenção nova, mas uma institui­ As ocupações de Caim e Abel. Observe que: 1. ção antiga. É o que era desde o princípio (1 Jo 1.1); é o Ambos tinham uma ocupação. Embora eles fos­ bom e velho caminho, Jeremias 6.16. A cidade do nosso sem herdeiros legítimos do mundo, tendo um nobre nas­ Deus é realmente aquela cidade alegre cuja antiguida­ cimento e grandes posses, mesmo assim eles não foram de vem c!e dias remotos, Isaías 23.7. A verdade recebeu criados na ociosidade. Deus deu a seu pai uma ocupação, uma grande vantagem sobre o erro, e a piedade sobre mesmo na inocência, e seu pai também lhes deu uma. a heresia. 2. Que é uma coisa boa para os filhos serem Note que é da vontade de Deus que cada um de nós deva bem ensinados quando são jovens, e educados cedo em ter alguma coisa para fazer neste mundo. Os pais devem serviços religiosos, para que quando vierem a ser capa­ criar seus filhos para trabalhar. “Dê a eles uma bíblia zes de agir por si mesmos possam, por iniciativa própria, e uma ocupação (disse o bom Sr. Docl), e que Deus es­ levar as suas ofertas a Deus. Nesta criação do Senhor teja com eles”. 2. Suas ocupações eram diferentes para os pais devem educar os seus filhos, cap. 18.19; Efésios que eles pudessem negociar e fazer permutas um com 6.4. 3. Que cada um de nós deveria honrar a Deus com o outro, na medida em que houvesse oportunidade. Os o que tem, conforme a prosperidade que Ele tem nos membros do estado têm necessidade uns dos outros, e concedido. Eles trouxeram as suas ofertas conforme as o amor mútuo é ajudado pelo relacionamento mutuo. 3. suas ocupações e posses, veja 1 Coríntios 16.1,2. Nosso Suas ocupações diziam respeito ao trabalho de lavrador, negócio e nosso pagamento, sejam quais forem, devem a profissão de seu pai. Esta é uma ocupação necessária, ser consagrados ao Senhor, Isaías 23.18. Ele deve ter a pois o próprio rei é servido do campo. Mas era um traba­ sua parte em obras de devoção e caridade, o esteio da lho laborioso, que requeria cuidado constante e atenção. religião e o alívio do pobre. Portanto, nós devemos tra­ Isto é visto agora como um trabalho ruim. Os pobres da zei' a nossa oferta, agora, com um coração puro. E Deus terra trabalhavam como vinhateiros e lavradores, Jere­ fica satisfeito com tais sacrifícios. 4. Aqueles hipócritas e mias 52.16. Mas o trabalho estava longe de ser uma de­ praticantes do mal podem ser encontrados progredindo sonra para eles. Eles certamente o honravam. 4. Deveria tanto quanto os melhores do povo de Deus nos serviços parecer, pela seqüência da história, que Abel, embora externos da religião. Caim trouxe uma oferta com Abel. fosse o irmão mais novo, ainda assim entrou primeiro Mas, a oferta de Caim é mencionada primeiro como se em sua ocupação, e provavelmente seu exemplo atraiu ele fosse o mais entusiasmado dos dois. Um hipócrita I n GÊNESIS 4 34 3. A grande diferença era esta, que Abel ofereceu possivelmente pode ouvir tantos sermões, fazer tantas orações, e dar tantas esmolas, quanto um bom cristão. com fé, e Caim não. Havia uma diferença no princípio E, mesmo assim, por falta de sinceridade, ter pouca acei­ sob o qual eles agiam. Abel ofertou visando a vontade tação junto a Deus. O fariseu e o publicano subiram ao de Deus como sua regra, e a glória de Deus como sua finalidade, e na dependência da promessa de um reden­ templo para orar, Lucas 18.10. tor. Mas Caim fez o que fez apenas por companheirismo, A diferença no êxito das suas devoções. O que ou para resgatar seu crédito, não com fé, então isso se deve ser visado em todos os atos da religião é a transformou em pecado para ele. Abel era um crente penitente como o publicano que foi embora justificado: aceitação por parte de Deus: nós seremos bem sucedidos se a conquistarmos, mas adoraremos em vão se não aCaim al­ não era humilde. A sua confiança estava em si mes­ mo. Ele era como o fariseu que glorificava a si mesmo, cançarmos, 2 Coríntios 5.9. Talvez, para um observador, os sacrifícios de Caim e Abel tivessem parecido ambos mas não estava justificado diante de Deus. igualmente bons. Adão aceitou a ambos, mas Deus, que não vê como o homem vê, não. Deus tinha respeito por T T T A insatisfação de Caim devido à distinção Abel e por sua oferta, e mostrou sua aceitação desta, JL JL JL que Deus fez entre o seu sacrifício e o de provavelmente através de um fogo do céu. Mas por Caim Abel. Caim estava muito enfurecido, o que na mesma e sua oferta ele não tinha respeito. Nós estamos certos hora tornou-se muito perceptível em sua aparência, de que havia uma boa razão para essa diferença. O Re­ pois o seu semblante se abateu, o que evidencia tan­ gente do mundo, embora seja um soberano absoluto, não to a sua mágoa como o seu descontentamento, como age arbitrariamente na distribuição de seus sorrisos e de também a sua maldade e a sua raiva. Seu semblante taciturno, e um olhar abatido traíram seus sentimen­ seus olhares de desagrado. 1. Havia uma diferença no caráter das ofertas das tos enraivecidos: Caim transmitia os sentimentos de duas pessoas. Caim era um homem ímpio, levava uma uma má índole em sua face, e a aparência de seu sem­ vida ruim, sob o poder dominante do mundo e da car­ blante testemunhava contra ele. Esta ira evidencia: 1. ne. Consequentemente, o seu sacrifício era uma abomi­ A sua inimizade para com Deus, e a indignação que nação para o Senhor (Pv 15.8). Um sacrifício em vão, havia concebido contra o Senhor por fazer uma dis­ Isaías 1.13. Deus não tinha respeito pelo próprio Caim, tinção entre a sua oferta e a de seu irmão. Ele deveria e, portanto, nenhum respeito por sua oferta, como foi ficar irritado consigo mesmo por sua própria desleal­ sugerido pela sua expressão. Mas Abel era um homem dade e hipocrisia, devido às quais ele não havia conse­ justo. Ele é chamado Abel, o justo (Mt 23.35). Seu co­ guido a aceitação da parte de Deus. E seu semblante ração era integro e a sua vida era devota. Ele era um deveria ter se abatido de arrependimento e vergonha daqueles para quem o semblante de Deus está voltado santa, como aconteceu com o publicano, que sequer (SI 11.7) e cuja oração é, por essa razão, o seu conten­ levantava os olhos ao céu, Lucas 18.13. Mas, em vez tamento, Provérbios 15.8. Deus tinha respeito por ele disso, ele se enfureceu contra Deus, como se o Senhor como a um homem santo, e, por conseguinte, por sua fosse parcial e injusto ao distribuir os seus sorrisos oferta como uma oferta santa. A árvore dever ser boa, e os seus olhares de reprovação, e como se o Senhor de outro modo o fruto não poderá ser agradável para o tivesse procedido para com ele de forma injusta. Note que um dos indícios de que a pessoa tem um coração Deus que esquadrinha o coração. 2. Havia uma diferença entre as ofertas que eles soberbo são as objeções que ela faz contra aquelas trouxeram, e ela é claramente mencionada (Hb 11.4). reprovações que recebe, por causa de seus próprios O sacrifício de Abel era mais extraordinário que o de pecados, cujas conseqüências são trazidas contra ela Caim, ou: (1) Em sua natureza. O de Caim era apenas mesma. A estultícia do homem perverterá o seu cami­ um sacrifício de reconhecimento oferecido ao Criador. As nho, e então, para piorar, o seu coração se irará contra ofertas dos frutos da terra não eram mais oferecidas, e, o Senhor, Provérbios 19.3. 2. A inveja que Caim tinha ao que me consta, só deveriam ser oferecidas no período de seu irmão, que recebeu a honra de ser publicamen­ da inocência. Mas Abel trouxe um sacrifício de expiação, te reconhecido. Embora seu irmão não tivesse qual­ do qual o sangue era derramado para a remissão dos pe­ quer intenção de colocar qualquer mancha sobre ele, cados. Através deste sacrifício, ele estava confessando nem o tenha insultado para provocá-lo, ainda assim ele que era um pecador, diminuindo assim a ira de Deus, e concebeu odiá-lo como a um inimigo, ou como a alguém implorando o seu favor através de um Mediador. Ou: (2) que é equivalente a um rival. Note que: (1) É comum Nas características da oferta. Caim trouxe do fruto do para aqueles que - devido a seus pecados presunçosos solo, qualquer coisa que veio facilmente à mão, algo que - se tornaram indignos dos favores de Deus, revolta­ ele não desejava para si mesmo ou que não fosse nego­ rem-se contra aqueles que são dignificados e diferen­ ciável. Mas Abel foi cuidadoso na escolha de sua oferta: ciados por Ele. Os fariseus agiram do mesmo modo não o defeituoso, nem o improdutivo, nem o refugo, mas que Caim, quando eles próprios nem entraram no rei­ os primogênitos do rebanho, do melhor que ele tinha, e no de Deus nem permitiram que aqueles que estavam da sua gordura. O melhor dos melhores. Consequente­ entrando prosseguissem, Lucas 11.52. Os olhos deste mente, os doutores hebreus apresentam isto como uma tipo de pessoa são maus e iníquos, porque os olhos de regra geral: que tudo o que for para o nome do Deus bom seu mestre e de seus conservos são bons. (2) A inveja e precioso deve ser o maior e o melhor. É adequado que é um pecado que geralmente traz consigo tanto a sua aquele que é o primeiro e o melhor deva ter o primeiro e própria revelação, na palidez dos olhares, como a sua própria punição, na podridão dos ossos. o melhor do nosso tempo, energia, e trabalho. w. 3-5 n 35 GÊNESIS 4 w. 6,7 será rapidamente calada diante deste fato. Ou: [2] “Se Caim e Abel agora fizeres o bem, se te arrependeres de teus pecados, w. 6,7 se corrigires o teu coração e a tua vida, e trouxeres o Deus está aqui argumentando com Caim, para con- teu sacrifício sob uma condição melhor do que esta, se vencê-lo do pecado e da tolice de sua raiva e desconten­ tu não apenas fizeres o que é bom, mas o fizeres bem, tu tamento, e para trazê-lo novamente a um bom estado também serás aceito, teus pecados serão perdoados, teu de espírito, para que futuras iniqüidades pudessem ser conforto e tua honra te serão restituídos, e tudo estará evitadas. Este é um exemplo da paciência e da bondade bem”. Veja aqui a conseqüência da intervenção de um condescendente de Deus. O fato do Senhor proceder de Mediador entre Deus e o homem. Nós não permanece­ uma forma tão terna com um homem tão mau, em uma mos no fundamento do primeiro concerto, que não tinha situação tão ruim. O Senhor não deseja que ninguém pe­ lugar para arrependimento, mas Deus estabeleceu uma reça, mas que todos cheguem ao arrependimento. Desse nova aliança conosco. Embora nós tenhamos pecado, se modo, o pai do pródigo discutiu o caso com o filho mais nos arrependermos e voltarmos atrás, encontraremos velho (Lc 15.28ss.), e Deus fez o mesmo com aqueles is­ misericórdia. Veja quão cedo o Evangelho foi pregado, raelitas que disseram: O caminho do Senhor não é direi­ e o beneficio dele sendo aqui oferecido até mesmo a um dos principais pecadores. to, Ezequiel 18.25. (2) O Senhor coloca diante de Caim a morte e uma Deus insta o próprio Caim a investigar a causa de maldição: E, se não fizeres bem, isto é: “Considerando seu descontentamento, e a considerar se esta era que não fizeste o bem, não fizeste a tua oferta com fé realmente uma causa justa: Por que descaiu o teu sem­ e de maneira correta, o pecado jaz à porta”, quer dizer, blante? Observe: 1. Que Deus observa todas as nossas “o pecado te foi imputado, e, como pecador, tu foste re­ paixões pecaminosas e descontentamentos. Não existe provado e rejeitado. Uma acusação tão grave não teria um olhar irado, um olhar maldoso, nem um olhar impa­ sido posta à tua porta, se não a tivesses lançado contra ti ciente, que escape à sua visão atenta. 2. Que a maioria mesmo, ao não fazer o bem”. Ou como isso é geralmente de nossas paixões pecaminosas e ansiedades logo desva­ entendido: “Se não fizeres o bem agora, se persistires neceriam diante de uma investigação rígida e imparcial nessa indignação, e, em vez de te humilhares diante de sobre a sua causa. “Porque estou irado? Existe um moti­ Deus, te endureces contra Ele, o pecado jaz à porta”, ou vo verdadeiro, uma razão justa, uma causa proporcional seja: [1] Mais pecado. “Agora que aquela ira está em teu para isso? Porque estou irado tão rapidamente? Porque coração, o assassinato está à porta”. O caminho do pe­ cado é descendente, e os homens que estão no pecado estou tão enfurecido e tão insensível?” vão de mal a pior. Aqueles que não sacrificam de forma Para fazer com que Caim retornasse à razão, aqui o correta, mas são descuidados e preguiçosos em sua de­ Senhor fez com que se tornasse evidente para ele: voção a Deus, se expõem às piores tentações. E talvez 1. Que ele não tinha nenhuma razão para estar iradoos pecados mais escandalosos estejam à porta. Aqueles com Deus, e que deveria ter procedido de acordo com que não guardam os mandamentos de Deus correm o as imutáveis regras de autoridade estabelecidas e apro­ risco de cometer todos os tipos de abominações, Levítico priadas a uma condição de provação. O Senhor coloca 18.30. Ou: [2] A punição do pecado. O pecado e a punição diante dos homens a vida e a morte, a bênção e a maldi­ estão tão relacionados que a mesma palavra em hebraico ção, e então retribui a cada um deles de acordo com as significa ambas as coisas. Se o pecado se abrigar na casa, obras que praticaram, e os diferencia de acordo com a a maldição esperará na porta, como um meirinho, pronto maneira como eles se diferenciam. Assim, a condenação para prender o pecador na hora que ele olhar para fora. é responsabilidade de cada condenado. As regras são Ele jaz como se dormisse, mas jaz à porta onde será logo justas. Por esta razão, a conduta de cada pessoa deve despertado, e então parecerá que a condenação não dor­ estar de acordo com essas regras, para que cada uma miu. O pecado vos achará, Números 32.23. Mesmo assim seja justificada quando falar. alguns decidem entender isso como uma indicação de (1) Deus colocou diante de Caim a vida e uma bên­misericórdia. “E, se não fizeres bem, o pecado (isto é, ção: “Se bem fizeres, não haverá aceitação para ti? Sem a oferta do pecado), jaz à porta. Então deves aproveitar dúvida serás aceito, ademais, tu sabes que serás”, ou: [1] a boa oportunidade que tens para te santificar”. A mes­ “Se bem tivesses feito, como teu irmão fez, terias sido ma palavra significa pecado e um sacrifício pelo pecado. aceito, como ele foi”. Deus não considera as pessoas pela “Embora tu não tenhas feito o bem, ainda assim não te sua condição social, não odeia nada que Ele mesmo te­ desesperes. O remédio está à mão. A reconciliação não nha feito, não nega seus favores para ninguém exceto está longe e pode ser buscada. Agarra-a, pois assim a para aqueles que renunciaram a eles, e não é inimigo iniqüidade de tuas coisas sagradas te serão perdoadas”. de ninguém exceto daqueles que através do pecado se Foi dito que Cristo, a grande oferta pelo pecado, está à tornaram seus inimigos. Assim sendo, se não tivermos porta, Apocalipse 3.20. E há alguns que bem merecem aceitação junto a Ele nós devemos agradecer a nós mes­ perecer em seus pecados. Aqueles que não estão dispos­ mos, pois o erro será inteiramente nosso. Se tivéssemos tos a ir até à porta por causa da oferta pelo pecado. Con­ cumprido os nossos deveres, não teríamos perdido a sua siderando tudo isso, Caim não tinha nenhuma razão para misericórdia. Isso justificará Deus na condenação dos estar irado com Deus, mas apenas consigo mesmo. 2. Que ele não tinha nenhuma razão para estar zan­ pecadores, e agravará a ruína deles. Não há um pecador amaldiçoado no inferno, que tenha feito o bem, como po­ gado com o seu irmão: “A vontade dele será subordina­ deria ter feito, e sido um santo glorioso no céu. Toda boca da à tua, ele continuará a te respeitar como a um irmão I n 36 GÉNESIS 4 mais velho, e tu, como o primogênito, sobre ele domina­ deixá-lo por si mesmo, ele nada mais desejará do que uma rás mais do que nunca”. O fato de Deus aceitar a oferta oportunidade para se tornar mais um assassinato neste de Abel não lhe transferiu o direito de primogenitura (o mundo. Muitos eram os agravantes do pecado de Caim. motivo pelo qual Caim estava enciumado), nem colocou (1) Foi seu irmão, seu próprio irmão, que ele matou. O sobre ele o titulo de dignidade e poder que pertence à filho de sua própria mãe (SI 50.20) a quem ele deveria primogenitura, cap. 49.3. Deus não pretendia que fosse ter amado, seu irmão mais novo, a quem ele deveria ter desse modo. Abel não interpretou isso dessa forma. Não protegido. (2) Abel era um bom irmão, alguém que nunca havia nenhum risco disso ser aproveitado em prejuízo de tinha cometido qualquer injustiça contra Caim, nem fei­ Caim. Porque, então, ele deveria estar tão exasperado? to a menor provocação através de palavra ou ação, mas Observe aqui: (1) Que a diferenciação que a graça de alguém que sempre gostou de Caim, e que havia sido em Deus faz não altera aquelas que a providência de Deus todos os sentidos obediente e respeitoso para com ele. cria, mas as preserva, e nos obriga a cumprir os deveres (3) Caim recebeu uma justa advertência sobre isso, com que delas resultam: servos crentes devem ser obedien­ antecedência. O próprio Deus lhe havia dito o que adviria tes a senhores descrentes. A autoridade não é baseada da atitude de seu coração. Ainda assim ele persistiu em na graça, nem a religião permite deslealdade ou desres­ seu propósito bárbaro. (4) Pareceria que ele ocultava isso peito em qualquer relacionamento. (2) Que as suspeitas sob uma aparência de amizade e carinho: Ele conversava com que os poderes civis olham algumas vezes para os com Abel seu irmão, franca e amigavelmente, para que verdadeiros adoradores de Deus como sendo perigosos Abel não suspeitasse do perigo e se mantivesse fora do para sua autoridade, inimigos de César e prejudiciais seu alcance. Assim Joabe beijou Abner, e então o matou. aos reis e províncias (suspeitas sob as quais os perse­ Assim Absalão festejou com seu irmão Amnon e então o guidores têm fundamentado o seu ódio contra aqueles assassinou. De acordo com a Septuaginta [uma versão que buscam ao Senhor), são muito injustas e irracionais. grega do Antigo testamento, que se supõe ter sido tra­ Qualquer que possa ser o caso para alguns que chamam duzida por setenta e dois judeus, a pedido de Ptolomeu a si mesmos de cristãos, é certo que os cristãos são ver­ Philadelphus, cerca de 200 anos antes de Cristo], Caim dadeiramente os melhores súditos e os mais mansos na disse a Abel: Vamos ao campo. Se é assim, nós estamos terra. Eles são leais e obedientes aos seus governantes, certos de que Abel não interpretou isso (de acordo com o senso moderno) como um desafio, de outra maneira ele e estes governarão sobre eles. não o teria aceitado, mas sim como um convite fraterno para irem juntos para o trabalho. O parafrasta caldeu acrescenta que Caim, quando eles estavam conversando v. 8 no campo, afirmou que não havia nenhum julgamento Temos aqui a progressão da ira de Caim, e a libe­ por vil', nenhuma condição futura, nenhuma recompensa ração dela através do assassinato de Abel, um fato que e castigos no outro mundo, e que quando Abel falou em defesa da verdade, Caim aproveitou aquela ocasião para pode ser considerado sob dois pontos de vista: atacá-lo. De qualquer forma: (5) Aquilo que a escritura Como o pecado de Caim. Este era como a escarlata, nos conta que foi a razão pela qual Caim matou Abel re­ um pecado vermelho, um pecado de primeira mag­ presentou um grande agravo deste assassinato. A razão nitude, um crime contra a luz e a lei da natureza, e que foi que as suas próprias obras eram más e as de seu ir­ surpreendeu até mesmo as consciências dos homens mão, justas. Deste modo, Caim mostrou ser do maligno maus. Veja nisso: 1. As tristes conseqüências e efeitos da (1 Jo 3.12), um filho do diabo, um inimigo para toda a entrada do pecado no mundo e nos corações dos homens. retidão, até mesmo em se tratando de seu próprio irmão. Perceba que corrupção da natureza é a raiz da amargu­ E, nesta condição, Caim foi imediatamente usado pelo ra, que produz esse fel e esse absinto. O fato de Adão destruidor. Além disso: (6) Ao matar seu irmão, Caim comer o fruto proibido pareceu apenas um pecado pe­ atacou diretamente ao próprio Deus. Pois a aceitação de queno, mas este abriu as portas para o maior de todos os Abel por Deus fora a provocação aparente, e por essa pecados. 2. O fruto da inimizade que está na semente da mesma razão Caim odiava Abel, porque Deus o amava. serpente contra a semente da mulher. Assim como Abel (7) O assassinato de Abel foi mais desumano porque ha­ lidera a linha de frente do nobre exército de mártires (Mt via nesse momento tão poucos homens no mundo para 23.35), Caim permanece à frente do ignóbil exército de repovoá-lo. A vida de um homem é preciosa em qualquer perseguidores, Judas 11. Desde muito cedo aquele que tempo. Mas era preciosa agora, de uma maneira espe­ era gerado segundo a carne perseguia aquele que era cial, e dificilmente poderia ser dispensada. gerado segundo o Espírito. E a situação é praticamente Como o sofrimento de Abel. A morte reinou desde a mesma em nossos dias (G14.29). E esta será a situação que Adão pecou, mas nós não lemos sobre alguém até que a guerra termine na salvação eterna de todos os ter sido feito prisioneiro por ele até agora. Assim sendo: santos, e na condenação eterna de todos aqueles que os odeiam. 3. Veja também o que advém da inveja, do ódio, O primeiro que morre é um santo, alguém que era aceito da maldade, e de toda a falta de caridade. Se estas trans­ e amado por Deus, para mostrar que, embora a semen­ gressões forem toleradas e acariciadas na alma, correm o te prometida estivesse muito longe para destruir aquele risco de envolver os homens na própria culpa horrível de que tinha o poder da morte assim como para salvar os assassinato. A ira irrefletida pode levar à morte, Mateus crentes de seu aguilhão, ainda hoje eles estão expostos 5.21,22. A malícia é ainda mais assim. Aquele que odeia aos seus ataques. O primeiro que foi para a sepultura foi seu irmão já é um assassino diante de Deus. E, se Deus para o céu. Deus reservaria para si os primeiros frutos, n w. 9-12 37 GÊNESIS 4 o primogênito dos mortos, aquele que primeiro chegou que cometeram. 2. Ele imprudentemente acusa seu Juiz ao outro mundo. Que isso elimine o terror da morte, pois de estupidez e injustiça, por colocar essa questão para este logo seria o destino dos escolhidos de Deus, que alte­ ele: Sou eu guardador do meu irmão? Ele deveria ter se ra as características da morte. Mais ainda: 2. O primeiro humilhado e dito: Não sou eu o assassino de meu irmão? que morreu foi um mártir, e morreu por sua religião. E, Mas ele tenta se impor diante do próprio Deus, como nesta circunstância, pode-se verdadeiramente dizer que se este lhe tivesse feito uma pergunta impertinente, à estes morreram em um leito de honra muito superior qual ele não estava, de modo algum, obrigado a dar uma ao dos soldados que morrem em seus leitos de honra. A resposta: '“Sou eu guardador do meu irmão? Certamente morte de Abel não apenas não tem nenhuma maldição ele tem idade suficiente para cuidar de si mesmo, nem em si, mas tem uma coroa. Assim é tão admiravelmente eu jamais me encarreguei dele”. Alguns entendem que bem alterada uma característica da morte: ela passa a Caim estivesse censurando tanto a Deus como a sua pro­ ser apresentada como inócua e inofensiva para aqueles vidência, como se ele tivesse dito: “Não és tu o guarda­ que morrem em Cristo, além de honrosa e gloriosa para dor dele? Se ele desaparecer, sobre Ti recaia a culpa, e aqueles que morrem por Ele. E assim, não estranhemos não sobre mim, que nunca me responsabilizei por tomai' se nos sobrevier alguma prova ardente, nem recuemos conta dele”. Note que: Uma preocupação caridosa por se formos chamados para resistir até o sangue. Porque nossos irmãos, como seus protetores, é um grande dever, nós sabemos que existe uma coroa de vida para aqueles que é estritamente requerido de nós, mas que é geral­ que são fiéis até à morte. mente negligenciado. Aqueles que são desinteressados quanto aos assuntos de seus irmãos, e não tomam cuida­ do quando têm a oportunidade de impedir danos a seus A Punição de Caim corpos, bens, ou bons nomes, especialmente os danos às w. 9-12 suas almas, falam, de fato, a língua de Caim. Veja Levítico 19.17; Filipenses 2.4. Nós temos neste ponto um relato completo do julga­ mento e da condenação do primeiro assassino. Não sendo A condenação de Caim, v. 10. Deus não deu ainda as cortes civis de magistratura instituídas para esse uma resposta direta para a sua pergunta, mas propósito como o foram mais tarde (cap. 9.6), o próprio rejeitou o seu argumento como falso e frívolo: “Que fizes­ Deus ocupa o cargo de Juiz. Pois Ele é o Deus a quem a te? Fazes disto algo sem importância. Mas consideraste vingança pertence, e quem de fato fará a inquisição pelo o quanto isto é mau, quão profunda é a mancha, e quão sangue, especialmente o sangue dos santos. Observe: pesado é o fardo dessa culpa? Tu pensas em ocultar isso, mas é em vão. A evidência contra ti é clara e incontestá­ A acusação contra Caim: O Senhor disse para Caim: vel: A voz do sangue do teu irmão clama”. Ele fala como Onde está Abel teu irmão? Alguns acham que Caim se o próprio sangue fosse ao mesmo tempo testemunha foi interrogado desse modo no sábado seguinte depoise acusador, porque o próprio conhecimento de Deus que o assassinato foi cometido, quando os filhos de Deustestifica contra Caim, e a própria justiça de Deus exige vieram, como de costume, para se apresentar diante de uma satisfação. Observe aqui: 1. O assassinato é um pe­ Deus, em uma reunião religiosa, e estava ausente Abel, cado vergonhoso, mais do que qualquer outro. Sangue cujo lugar não costumava estar vazio. Pois o Deus do clama por sangue, o sangue do assassinado pelo sangue céu observa quem está presente e quem está ausente do assassino. Assim ocorre com as últimas palavras de nos rituais públicos. Caim é inquirido não apenas por­ Zacarias antes de morrer (2 Cr 24.22): O Senhor o verá que existe um motivo justo para se suspeitar dele, tendo e o requererá. Ou naquelas das almas sob o altar (Ap ele manifestado uma má intenção contra Abel e tendo 6.10): Até quando, ó verdadeiro e santo Dominador? Os sido o último a estar com ele, mas porque Deus sabia ser sofredores pacientes clamavam por perdão (Pai, perdo­ ele o culpado. Mesmo assim o Senhor o questiona, para ai-os), mas o seu sangue clama por vingança. Embora que possa extrair dele uma confissão de seu crime, pois eles se mantenham calmos, o seu sangue mantém um aqueles que seriam justificados diante de Deus deveriam clamor alto e constante, para o qual os ouvidos do Deus acusar a si mesmos, e os penitentes assim farão. justo estão sempre abertos. 2. E dito que o sangue clama desde o solo, a terra, da qual é dito que abre a sua boca O apelo de Caim: ele se declara inocente, e acres­ para receber da mão dele o sangue do irmão, v. 11. A centa rebeldia ao seu pecado. Pois: 1. Ele se es­ terra, como deveria, ruboriza ao ver a sua própria face força para encobrir um assassinato deliberado com uma manchada com tal sangue, e então abriu a sua boca para mentira deliberada: Não sei. Ela sabia bem o suficiente escondei' aquilo que ela não pode impedir. Quando o céu o que havia acontecido com Abel, e ainda assim teverevelou o a iniqüidade de Caim, a terra também se levan­ descaramento de negar isso. Dessa forma, em Caim, o tou contra ele (Jó 20.27), e gemeu ao ficar assim sujeita à diabo era tanto um assassino quanto um mentiroso des­ vaidade, Romanos 8.20,22. Caim, é provável, enterrou o de o principio. Veja como as mentes dos pecadores são corpo e o sangue, para ocultar o seu crime. Mas “a verda­ cegas, e seus corações endurecidos pela falsidade do de será descoberta”. Ele não os enterrou tão profunda­ pecado: são estranhamente cegos aqueles que pensam mente, pois o clamor deles alcançou o céu. 3. No original ser possível ocultar os seus pecados de um Deus que a a palavra está no plural, o sangue de teus irmãos, não tudo vê, e são estranhamente inflexíveis aqueles que apenas o sangue dele, mas o sangue de todos aqueles que pensam que vale a pena escondê-los de um Deus que pudessem ter descendido dele. Ou o sangue de todas as perdoa apenas aqueles que confessam as transgressões sementes da mulher, que, de certo modo, selariam a ver­ I n GÊNESIS 4 38 dade com seu sangue. Cristo coloca tudo em uma única do e abandonado por toda humanidade, e que havia se conta (Mt 2-3.35). Ou porque foi mantida uma contagem tornado infame. [2] Para angústia perpétua e horror em de cada pingo de sangue derramado. Como é bom para sua própria mente. Sua própria consciência culpada o as­ nós que o sangue de Cristo fale melhor que o de Abel! sombraria onde quer que ele fosse, e o tornaria MagorHebreus 12.24. O sangue de Abel clamou por vingança. missabib, um terror por toda pmie. Que descanso, que paz, podem encontrar aqueles que levam em seu peito O sangue de Cristo clama por perdão. a sua própria perturbação onde quer que vão? Aqueles A sentença proferida contra Caim: E agora mal­ que têm tal sorte, devem, necessariamente, ser fugiti­ vos. Não existe na terra fugitivo mais impaciente do que dito és tu desde a terra, v 11. Observe aqui: 1. Ele é amaldiçoado, abandonado a todo o mal, sub­ aquele que é incessantemente perseguido por sua pró­ metido à ira de Deus, como é manifestada do céu contra pria culpa, nem um errante mais vil do que aquele que toda a impiedade e injustiça dos homens, Romanos 1.18. está sob o comando de suas próprias luxúrias. Essa foi a sentença proferida contra Caim. E mesmo Quem conhece a extensão e o peso de uma maldição divi­ na, o quão longe ela alcança, quão profundo ela penetra? nisso havia uma mistura de misericórdia, na medida em Quando Deus amaldiçoa um homem, este se torna mal­ que ele não foi imediatamente isolado, mas lhe foi dado dito. Pois aqueles a quem Ele amaldiçoa estão realmente tempo para se arrepender. Pois Deus é paciente para co­ amaldiçoados. A maldição pela desobediência de Adão nosco, não desejando que ninguém pereça. terminou na terra: Maldita é a terra por tua causa. Mas a maldição relacionada è revolta de Caim, recaiu imedia­ A Queixa de Caim tamente sobre o próprio Caim: Maldito és tu. Pois Deus w. 13-15 tinha piedade reservada para Adão, mas nenhuma para Caim. Nós todos merecemos essa maldição, e é apenas Temos aqui um relato adicional dos procedimentos em Cristo que os homens são salvos dela, e herdam a contra Caim. bênção, Gálatas 3.10,13. 2. Ele é amaldiçoado desde a terra. Dali o clamor Aqui está a queixa de Caim sobre a sentença lavra­ chegou a Deus, dali a maldição chegou a Caim. Deus po­ da contra ele, como sendo dura e severa. Alguns o dia ter se vingado através de um golpe imediato enviado do céu, pela espada de um anjo, ou através de um raio. fazem falar a língua do desespero, e a interpretam: É Mas o Senhor optou por fazer da terra o vingador do maior a minha maldade do que aquela que possa ser per­ sangue, para fazê-lo permanecer na terra, e não removê- doada. Portanto o que ele diz é uma reprovação e uma lo imediatamente, e ainda assim fazer até mesmo disso afronta à misericórdia de Deus, e apenas aqueles que a sua maldição. A terra está sempre próxima de nós, e nela esperam terão o seu benefício. Existe perdão com o não podemos fugir dela. De forma que, se esta é feita Deus dos perdões para os maiores pecados e pecadores. a executora da ira divina, o nosso castigo é inevitável: Porém aqueles que perdem a esperança de alcançá-lo o pecado, ou seja, a punição pelo pecado, jaz à porta. são privados dele. Caim acabara de tratar o seu pecado Caim encontrou o seu castigo onde ele escolheu o seu com menosprezo, mas agora ele está no outro extremo: dote e fixou o seu coração. Duas coisas nós esperamos Satanás conduz os seus vassalos da presunção ao deses­ da terra, e por causa dessa maldição ambas são negadas pero. Nós não poderemos considerar o pecado tão mau, a Caim e tiradas dele: alimento (o sustento) e fixação (a a não ser que o consideremos imperdoável. Mas Caim nossa moradia). (1) O alimento (ou sustento) extraído da parece preferir falar o idioma da indignação: O meu terra é aqui retirado dele. É uma maldição contra ele, castigo é maior do que posso suportar. E assim o que em seus prazeres, e particularmente em sua ocupação: ele diz é uma reprovação e uma afronta contra a justiça Quando lavrares a terra, não te dará mais a sua força. de Deus, e uma queixa, não da grandeza do seu pecado, Note que cada criatura é para nós o que Deus a torna, mas do extremismo do seu castigo, como se isso fosse um conforto ou uma cruz, uma bênção ou uma maldição. desproporcional àquilo que ele merecia. Em vez de justi­ Se a terra não nos der mais a sua força, nós deveremos ficar a Deus na sentença, Caim o censura, não aceitando reconhecer a justiça de Deus nisso. Pois nós não demos a a punição de sua iniqüidade, mas discutindo-a. Note que nossa força a Ele. A terra foi amaldiçoada anteriormente os corações impenitentes sem humildade não são, por para Adão, mas foi agora duplamente amaldiçoada para essa razão, reformados pelas repreensões de Deus, pois Caim. A parte dela que lhe cabia, e a qual ele ocupara, foi eles se consideram ofendidos por elas. E é uma prova de tornada infrutífera e desconfortável para ele por causa grande insensibilidade estarmos mais interessados em do sangue de Abel. Note que a maldade dos maus traz nossos sofrimentos do que em nossos pecados. A preo­ uma maldição sobre tudo o que eles fazem e sobre tudo o cupação de Faraó era relativa apenas a essa morte, não que eles têm (Dt 28.15ss.). E essa maldição amarga tudo a esse pecado (Êx 10.17). Foi assim que Caim agiu aqui. o que eles têm, e os desaponta em tudo o que fazem. (2) Ele é um homem vivente, e ainda se queixa da punição A fixação na terra é, aqui, negada a Caim: Um fugitivo de seu pecado, Lamentações 3.39. Ele se julga tratado e vagabundo serás na terra. Por isso ele estava conde­ com muito rigor, quando, na realidade, está sendo tra­ nado: [1] A desgraça eterna e à repreensão entre os ho­ tado com gentileza. E ele clama alegando que deve ter mens. Sempre seria considerado como uma coisa vergo­ havido algum engano, quando tem mais razões para se nhosa abrigá-lo, conversar com ele, ou demonstrar-lhe admirar de que esteja fora do inferno. Ai daquele que qualquer tipo de ajuda. Ele agora era, justamente, um assim luta com o seu Criador, e que tenta entrar em ju­ homem que estava despojado de toda bondade, detesta­ ízo com o seu Juiz. Agora, para justificar essa queixa, w. 13-15 I 39 GÊNESIS 4 Caim faz comentários a respeito da sentença. 1. Ele se vê excluído por ela da generosidade do seu Deus, e conclui que, sendo amaldiçoado, ele é escondido da face de Deus, o que é realmente a verdadeira natureza da maldição de Deus. Os pecadores condenados e amaldiçoados desco­ brem que assim é, aqueles a quem é dito: Apartai-vos de mim, maldito. São amaldiçoados aqueles que são, de fato, excluídos para sempre do amor e dos cuidados de Deus, e de todas as esperanças de sua graça. 2. Ele se vê expulso de todos os consolos desta vida, e conclui que, ao ser um fugitivo, ele é, de fato, nesse dia forçado a aban­ donar a superfície da terra. Assim como os bons não têm lugar na terra, também ele não tem um lugar para ficar. Melhor descansar na sepultura do que não descansar de forma alguma. 3. Ele se vê excomungado por ela, desli­ gado da igreja, e proibido de estar presente em rituais públicos. Estando suas mãos cheias de sangue, Caim não deve trazer mais ofertas vãs, Isaías 1.13,15. Talvez ele quisesse dizer isso quando se queixou de que foi expulso da face da terra. Por ter sido excluído da igreja, a qual ninguém havia ainda abandonado, ele foi escondido da face de Deus, não lhe sendo permitido vir se apresentar diante do Senhor com os filhos de Deus. 4. Ele se vê, através disso, exposto ao ódio e à hostilidade de toda es­ pécie humana: e será que todo aquele que me achar me matará. Por onde quer que Caim perambule, ele corre perigo de vida. Ao menos ele pensa assim. E, como um homem endividado, ele considera cada um que encontra como se fosse um meirinho. Não havia ninguém vivo a não ser os seus parentes próximos. Até mesmo deles, ele, que havia sido tão brutal para com o seu irmão, tem um medo legítimo. Alguns interpretam isso como: Tudo aquilo que me achai' me matará. Não apenas: “Quem en­ tre os homens”, mas: “Tudo aquilo entre todas as criatu­ ras”. Vendo-se expulso da proteção de Deus, Caim en­ xerga toda a criação armada contra si mesmo. Note que as culpas imperdoáveis enchem os homens com terrores constantes, Provérbios 28.1; Jó 1-5.20,21; Salmos 53.5. É melhor temer e não pecar do que pecar e então temer. O Dr. Lightfoot acha que essa frase de Caim deveria ser interpretada como um desejo: Agora, então, que qual­ quer um que me achar possa me matar. Estando com a alma amargurada, ele espera pela morte e ela não vem (Jó 3.20-22), como no caso daqueles que estão sob fortes tormentos espirituais, Apocalipse 9.5,6. w. 16-18 bediência contra uma proclamação expressa da vontade de Deus e, por isso, seria vingada sete vezes. Note que Deus tem sabedoria e desígnios sagrados ao proteger e prolongar até mesmo a vida dos homens mais perversos. Deus trata a alguns de acordo com aquela oração: Não os mates, para que o meu povo se não esqueça. Espalha-os pelo teu poder e abate-os, Salmos 59.11. Se Caim tives­ se sido morto de imediato, ele teria sido esquecido (Ec 8.10). Porém agora ele vive, enrolado em correntes até o pescoço, como se fosse um monumento eterno e mais atemorizante da justiça de Deus. 2. Como ele é marca­ do pela vingança: O Senhor pôs um sinal em Caim para distingui-lo do resto da humanidade, e para avisar que ele era o homem que havia matado o próprio irmão. Nin­ guém deveria feri-lo, mas todos deveriam estar atentos. Deus o estigmatizou (assim como alguns criminosos que são queimados na face), e pôs sobre ele uma marca tão visível e indelével de infâmia e desonra, que faz com que todos os sábios se afastem dele, de forma que ele não poderia ser mais do que um fugitivo e vagabundo, e a escória de tudo e de todos. A Família de Caim w. 16-18 Temos aqui um relato mais detalhado de Caim, e do que aconteceu com ele depois que foi rejeitado por Deus. Ele mansamente se submeteu àquela parte do seu Ide Deus. julgamento pela qual ele ficaria escondido da face Pois (v. 16) ele saiu da presença do Senhor, ou seja, ele voluntariamente renunciou a Deus e à religião, e estava feliz em abrir mão de seus privilégios, para que não ficasse sujeito aos seus preceitos. Caim abandonou a família e o altar de Adão e jogou fora todos os pretextos para temer a Deus e nunca se aproximou de boas pessoas, nem se preocupou com as leis de Deus, nunca mais. Note que os adeptos hipócritas, que dissimularam e tentam brincar com o Deus Todo-Poderoso são, de forma justa, abandonados a si mesmos para fazerem alguma coisa que é excessivamente escandalosa. E assim eles se desfazem daquela forma de devoção para a qual foram reprováveis, e sob cuja aparência negaram o próprio poder que ela pos­ sui. Neste momento Caim saiu da presença do Senhor, e Aqui está a confirmação que o Senhor Deus ex­ jamais lemos que ele tenha retornado em busca de conso­ pressa em relação à sentença. Pois quando o lo. Estar banido da face do Senhor é uma condenação que Senhor julga, Ele julga com justiça, e as sentenças que faz parte do inferno, 2 Tessalonicenses 1.9. Isto é o mesmo profere são cumpridas, v. 15. Observe: 1. Como Caimqueé ser perpetuamente banido da origem de todo o bem. protegido da ira por esta declaração que, podemos supor, Esta é a escolha dos pecadores. E assim será a sua conde­ serve como um aviso a todo aquele mundo inicial que ha­ nação, para sua eterna vergonha e confusão. via sido recém-criado: Qualquer que matar a Caim, sete vezes será castigado, pois isso anularia o castigo sob o Ele tentou confrontar a parte do julgamento pela qual ele se encontrava (que ele seria um fugitivo e va­ qual se tornou um fugitivo e vagabundo. Pois: gabundo). Prisioneiros condenados estão sob a proteção 1. Caim escolheu a sua terra. Ele partiu e habitou a especial da lei. Aqueles que são designados ao sacrifício oeste do Éden, em algum lugar distante do lugar onde da justiça pública, não devem sei' sacrificados à vingança Adão e sua devota família moravam, separando a si pró­ pessoal. Considerando que Deus tenha dito no caso de prio e a sua amaldiçoada geração da semente sagrada. Caim: “Minha é a vingança, eu retribuirei”, teria sido Aqui houve a separação de seu acampamento do arraial uma ousada usurpação por parte de qualquer homem dos santos e da cidade amada, Apocalipse 20.9. A leste tomar a espada da mão de Deus. Esta seria uma deso­ do Éden ficaram os querubins com a espada inflamada, n n w. 19-22 GÊNESIS 4 cap. 3.24. Caim decidiu permanecer ali, como se pudesse desafiar os terrores do Senhor. Mas a sua tentativa de se estabelecer foi vã. Pois a terra em que ele habitou, era para ele a terra de Node (que quer dizer, a terra do tremor ou do estremecimento), por causa da contínua inquietação e desconforto de seu próprio espírito. Note que aqueles que se afastam de Deus, não conseguem en­ contrar paz em nenhum outro lugar. Depois que Caim se retirou da presença de Deus, nunca mais teve paz. Aque­ les que excluem a si mesmos do paraíso, abandonam a si mesmos a um tremor perpétuo. “Retorna, pois, ao teu descanso, ó minha alma”, ao teu descanso em Deus. Caso contrário, ficarás para sempre sem descanso. 2. Ele edificou uma cidade para que ela fosse o seu lar, v. 17. Caim estava construindo uma cidade - assim interpretam alguns - sempre construindo, mas estan­ do ele e suas obras sob uma maldição, não conseguia terminá-la. Ou, como nós entendemos, ele edificou uma cidade, em sinal da sua permanente separação da igreja de Deus, à qual ele jamais pensaria em retornar. Esta cidade estava destinada a ser o quartel general da apos­ tasia. Observe aqui: (1) O desafio de Caim ao julgamento divino. Deus disse que ele seria um fugitivo e vagabun­ do. Se Caim tivesse se arrependido e se humilhado, essa maldição poderia ter-se transformado em uma bênção, como foi a da tribo de Levi, para que eles fossem dividi­ dos em Jacó e espalhados em Israel. Mas devido ao seu coração impenitente e arrogante, que caminhou em con­ tradição a Deus e decidido a se estabelecer em oposição ao céu, aquilo que podia ter sido uma bênção se tornou uma maldição. (2) Veja qual foi a escolha de Caim, de­ pois que ele havia abandonado a Deus. Ele escolheu um assentamento neste mundo, como seu descanso eterno. Aqueles que procuravam pela cidade celeste escolhiam, enquanto estavam na terra, habitar em tabernáculos. Mas Caim, com alguém que não tinha essa cidade como objetivo, construiu uma para si na terra. Aqueles que são amaldiçoados por Deus tendem a procurar a sua porção e satisfação aqui na terra, Salmos 17.14. (3) Veja qual foi o método que Caim adotou para se defender contra os te­ mores que o perseguiam permanentemente. Ele empre­ endeu aquela construção para desviar seus pensamentos da consideração da sua própria dor, e para sufocar os clamores de uma consciência culpada, com o alarido dos machados e martelos. Dessa maneira, muitos frustram as suas convicções, lançando-se em confusão nos negó­ cios do mundo. (4) Veja como os perversos, muitas vezes, superam o povo de Deus e o ultrapassam em termos de prosperidade material. Caim e sua raça amaldiçoada ha­ bitam em uma cidade, enquanto Adão e sua família aben­ çoada habitam em tendas. Não somos capazes de julgar o amor ou o ódio com base em tudo aquilo que está diante de nós, Eclesiastes 9.1,2. 3. Sua família também foi constituída. Aqui está um relato de sua posteridade, pelo menos dos herdeiros de sua família, por sete gerações, seu filho foi Enoque, al­ guém que teve o mesmo nome, mas não o mesmo caráter daquele santo homem que caminhou com Deus, cap. 5.22. Homens bons e ruins podem ser portadores do mesmo nome: mas Deus consegue distinguir entre o Judas Iscariotes e o Judas que não era o Iscariotes, João 14.22. Os nomes de outros de sua posteridade são mencionados e 40 nada além de mencionados. Não como aqueles da sagra­ da descendência (cap. 5), onde temos três versículos re­ ferentes a cada um, enquanto aqui temos três ou quatro homens mencionados em um único versículo. Eles são contados apressadamente, como se não fossem valiosos ou festejados, em comparação aos escolhidos de Deus. A Família de Lameque w. 19-22 Temos aqui alguns detalhes relativos a Lameque, o sétimo a partir de Adão, na linhagem de Caim. Observe: casamento com duas mulheres. Foi um membro IgrediuSeu da degenerada estirpe de Caim que primeiro trans­ a lei original do casamento de que dois se torna­ riam uma só carne. Até agora, um homem tinha apenas uma esposa por vez. Porém Lameque tomou duas. Desde o princípio, não fora assim. Malaquias 2.15; Mateus 19.5. Veja aqui: 1. Aqueles que abandonam a igreja e as leis de Deus abrem-se a todas as formas de tentação. 2. Quando um hábito ruim é iniciado por homens ruins, às vezes os homens bons são, pela imprudência, arrastados a seguilos. Jacó, Davi e muitos outros, que eram por outro lado homens bons, foram posteriormente dominados por este pecado, iniciado por Lameque. n A alegria que tinha em seus filhos, apesar disso. Embora ele pecasse ao se casar com duas mulhe­ res, ainda assim, ele foi abençoado com filhos de ambas, eles, como tais, se tornaram famosos em sua geração, nã por sua devoção, pois nada se menciona a esse respei (seja como for, eles eram os pagãos daquela época), mas por sua engenhosidade. Eles próprios não eram apenas homens de negócio, mas homens úteis ao mundo, e emi­ nentes pelas invenções, ou pelo menos pelos aperfeiçoa­ mentos de algumas habilidades proveitosas. 1. Jabal foi um famoso pastor. Ele tinha muito prazer em cuidar, ele próprio, do gado e ficava muito contente em inventar mé­ todos de fazer isso da maneira mais vantajosa, e instruir outros neles, a ponto dos pastores daqueles tempos - e além deles os pastores dos tempos que se seguiram - o chamarem de pai. Também é possível que seus filhos o te­ nham seguido, sendo criados para a mesma ocupação, e assim a família se tornou uma família de pastores. 2. Jubal foi um músico famoso e, em especial, um organista, e o pri­ meiro a estabelecer regras para a nobre arte ou ciência da música. Enquanto Jabal os iniciou em um caminho para enriquecerem, Jubal os colocou no caminho da alegria. Aqueles que passam seus dias na riqueza não ficarão sem o tamboril e a haipa, Jó 21.12,13. De seu nome, Jubal, vem provavelmente a expressão “trombeta de jubileu”. Pois a melhor música era aquela que proclamava a liberdade e a redenção. Jabal foi para eles o Pan, e Jubal, o seu Apolo. 3. Tubalcaim foi um ferreiro famoso que aperfeiçoou grandemente a arte de trabalhar o bronze e o ferro, para as atividades tanto de guerra como de agricultura. Ele era o Vulcano deles. Observe aqui: (1) Que as coisas deste mundo são as únicas nas quais as pessoas carnais ruins colocam os seus corações, e são mais engenhosas, e às quais mais se dedicam. Assim foi com esta impiedosa des­ 41 GÊNESIS 4 w. 23,24 cendência do amaldiçoado Caim. Aqui estavam um pai de que pudesse ser temida. Oderint, dum metuant - Que pastores e um pai de músicos, mas não um pai de crentes odeiem, contanto que temam. 3. Com que impiedade fiéis. Aqui estava um que instrui no bronze e no ferro, mas ele abusa até mesmo da proteção de Deus, em seu estilo nenhum que ensine o bom conhecimento do Senhor. Aqui perverso, v. 24. Ele ouvira que Caim seria vingado sete havia planos sobre como enriquecer e como se tornar po­ vezes (v. 15), quer dizer, que se um homem ousasse matar deroso, e como se alegrar, mas nada entre eles relativo Caim, teria que enfrentar uma severa punição por assim a Deus, nem de temor ou serviço ao glorioso Senhor de o fazer, embora Caim merecesse morrer mil mortes pelo tudo e de todos. As coisas do momento preenchem o pen­ assassinato de seu irmão. E disso ele conclui que se al­ samento da maioria das pessoas. (2) Que mesmo aqueles guém o matasse pelos assassinatos que cometera, Deus que são destituídos do conhecimento e da graça de Deus, vingaria a sua morte de uma forma exemplar. Como se o podem ser dotados de muitas habilidades extraordinárias cuidado especial que Deus tomara para prolongar e de­ e úteis, as quais podem torná-los famosos e prestativos fender a vida de Caim, por motivos especiais peculiares em sua geração. Dons de uso geral são dados a homens ao caso deste (e, sem dúvida, para que o seu castigo fosse maus, enquanto Deus escolhe para si aqueles que, para o ainda mais doloroso, como a existência dos amaldiçoados mundo, são desprezíveis. que são estendidas) fosse planejado como uma proteção para todos os assassinos. Dessa forma, Lameque per­ w. 23,24 versamente argumenta: “Se Deus garantiu a proteção de Caim, muito mais o fará por mim, que, embora haja Por este discurso de Lameque que é registrado aqui, exterminado a muitos, mesmo assim, nunca assassinei e que provavelmente foi muito mais comentado naqueles meu próprio irmão sem qualquer provocação, como ele tempos, ele parece, ainda mais, ter sido um homem mau, o fez”. Note que o adiamento da sentença de alguns pe­ como a amaldiçoada estirpe de Caim geralmente era. cadores e a paciência que Deus tem para com eles, são, Observe: 1. com que arrogância e altivez, ele fala com muitas vezes, mal utilizados para o endurecimento de suas esposas, como alguém que esperava uma enorme outros que insistem em andar por caminhos igualmente consideração e obediência: Ouvi a minha voz, vós mulhe­ pecaminosos, Eclesiastes 8.11. Porém, embora a justiça res de Lameque. Não é de se admirar que aquele que atinja mais lentamente a alguns, os outros não podem tenha violado uma das leis do casamento, ao se casar com ter outra certeza, a não ser a de que podem ser levados duas mulheres, violasse outra que o obrigava a ser gentil embora em uma rápida destruição. Outro fato é que, se e carinhoso com aquelas com quem se casara, e honrar a Deus tolerar por muito tempo aqueles que assim conjeesposa como o vaso mais frágil. Aqueles que nem sempre turam sobre a sua paciência, eles apenas entesourarão são os mais cuidadosos para cumprir as suas próprias para si a ira que está preparada para o dia da ira. obrigações, são os que mais exigem respeito dos outros, Nestas circunstâncias, isto é tudo o que temos na e são mais freqüentes na intimação a seus parentes para forma de relato nas Escrituras, relativo à família e pos­ que conheçam o seu lugar e cumpram as suas obriga­ teridade do amaldiçoado Caim, até os encontrarmos to­ ções. 2. Como Lameque era cruel e bárbaro com todos dos extirpados e perecendo no dilúvio universal. aqueles que estavam ao seu redor: Eu matei, ou (como está na anotação de margem) eu matei um varão por me ferir, e um mancebo por me pisar. Ele se reconhece como O Nascimento de Sete um homem de disposição raivosa e violenta, que distri­ w. 25,26 buía, sem piedade, socos e pontapés a esmo, e matava a todos aqueles que ficassem em seu caminho. Não impor­ Esta é a primeira vez que Adão é mencionado neste tava que fosse um homem, ou um jovem, desde que ele capítulo. Sem dúvida, o assassinato de Abel, e a impenipróprio estivesse em perigo de ser machucado e ferido tência e apostasia de Caim eram um grande sofrimento no conflito. Alguns pensam que, pelo fato (v. 24) de se para ele e Eva, e ainda mais porque a sua própria malda­ comparar a Caim, que ele houvesse matado alguém da de os castigava agora, e a sua reincidência os repreendia. semente sagrada, dos verdadeiros adoradores de Deus, Seu desatino permitira ao pecado e à morte entrarem no e que ele reconhecia isto como sendo a ferida de sua mundo. E agora, Adão e Eva sofriam uma dor lancinante consciência e a mágoa de sua alma. E também que, como por causa disso, pois foram privados de ambos os filhos Caim, ele continuava impenitente, tremendo, porém em um único dia, cap. 27.45. Quando os pais são afligidos ainda assim arrogante. Ou suas esposas, sabendo como pela iniqüidade de seus filhos, eles deveriam aproveitar ele era, como tendia tanto a oferecer como a devolver a ocasião para se lamentar pela corrupção da natureza, a as provocações, temessem que alguém ou alguma coisa qual se originou deles e que é a raiz da amargura. Mas, causasse a sua morte. “Não temais”, diz ele: “Eu desa­ aqui, temos aquilo que foi um alívio para os nossos pri­ fio qualquer um a me atacar. Quem quer que o faça, eu meiros pais, em sua aflição. sozinho acertarei as contas com ele. Eu o exterminarei, seja ele um homem ou um jovem”. Note que é comum os T Deus lhes permitiu ver a reconstrução da sua fahomens cruéis e sanguinários se gloriarem naquilo que é JL mília, que fora muito abalada e enfraquecida por motivo de escândalo para si mesmos (Fp 3.19). Ele falava aquele triste evento. Pois: 1. Eles viram a sua semente, como se fosse tanto a sua segurança como a sua glória uma outra semente que substituiu a semente de Abel, v. que elas não se preocupassem com quantas vidas pudes­ 25. Observe a bondade e a ternura de Deus para com o sem ser sacrificadas aos seus ressentimentos iracundos, seu povo, em seu relacionamento providencial com eles. nem o quanto a sua família viesse a ser odiada, desde Quando o Senhor permite que seja tirado um consolo, w. 1-5 GÊNESIS 5 Ele lhes dá outro em seu lugar, e que pode se tornar uma bênção ainda maior do que aquele que consideravam que estivesse associado à sua vida. Esta outra semente era aquela na qual a igreja deveria ser edificada e perpe­ tuada, e ela vem no lugar de Abel, pois a sucessão de homens e mulheres que confessam ao Senhor é o reavivamento dos mártires, como se fosse a ressurreição da testemunha de Deus que foi assassinada. É dessa forma que alguns entendem o batismo pelos mortos (1 Co 15.29), ou seja, nós somos, pelo batismo, aceitos na igreja no lugar daqueles que pela morte, especialmente pelo martírio, são afastados dela. E assim nós ocupamos o seu lugar. Aqueles que assassinam os servos de Deus esperam, através disso, destruir os santos do Altíssimo. Porém, tais iníquos ficarão desapontados. Cristo ainda verá a sua semente. Deus pode gerar, para Cristo, fi­ lhos a partir de pedras e fazer do sangue dos mártires a semente da igreja, cujas terras, temos certeza, nunca serão perdidas por falta de herdeiros. A este filho, por uma inspiração profética, eles chamaram de Sete (ou seja, posto, estabelecido ou colocado), pois, em sua se­ mente, a humanidade continuaria até o fim dos tempos. E dele descenderia o Messias. Enquanto Caim, o líder da apostasia, se torna um andarilho, Sete, de quem a verda­ deira igreja surgiria, é alguém estabelecido. Em Cristo e na sua igreja está o único e verdadeiro estabelecimento. 2. Eles viram a semente da sua semente, v. 26. A Sete, nasceu um filho chamado Enos, o nome comum de to­ dos os homens que evidencia a fraqueza, a fragilidade e a aflição da condição do homem. Os melhores homens são mais conscientes destas, tanto em si mesmos quanto em seus filhos. Por mais estabelecidos e seguros que nos sintamos, devemos nos lembrar de que somos frágeis. 42 truído uma cidade, e começaram a se declarar a favor da irreverência e da incredulidade, e chamavam a si mesmos de filhos dos homens, aqueles que se juntaram a Deus começaram a se declarar a favor dele e da sua adoração, e se chamavam de filhos de Deus. Nestas cir­ cunstâncias, iniciou-se a distinção entre aqueles que bus­ cavam a Deus, e os profanos. Esta distinção se mantém desde então, e continuará enquanto o mundo existir. C a p ít u l o 5 Este capítulo é a única históiia autêntica sobre­ vivente da primeira geração do mundo da criação até o dilúvio, englobando (de acordo com a vera­ cidade do texto hebraico) 1.656 anos, como pode ser facilmente calculado pelas idades dos patriar­ cas, antes que eles gerassem aquele filho através de quem a linhagem chegou até Noé. Esta é uma daquelas a que o apóstolo chama de “genealogias intermináveis” (1 Tm 1.4), pois Cristo, que foi o fim da lei do Antigo Testamento, também era o fim das genealogias do Antigo Testamento. Era Ele que elas tinham em vista, e nele elas estavam centradas. A genealogia aqui relatada é resumida­ mente inserida na linhagem de nosso Salvador (Lc 3.36-38), e é muito útil para mostrar que Cristo era a “semente da mulher” que for a prometido. Temos aqui um relato: I. Relativo a Adão, w. 1-5. II. Sete, w. 6-8. III. Enos, w. 9-11. IV Cainã, w. 12-14. V Maalalel, w. 15-17. VI. Jarede, w. 18-20. VII. Enoque, w. 21-24. VIII. Metusalém (ou Matusalém), w. 25-27. IX. Lameque e seu filho Noé, Deus permite que Adão e Eva observem o reaviw. 28-32. Toda escritura, sendo dada pela inspi­ vamento da religião em sua família: Então, se co­ ração de Deus, é proveitosa, embora nem todas meçou a invocar o nome do Senhor, v. 26. É pouco consolosejam proveitosas da mesma maneira. para um homem justo ver os filhos de seus filhos, se ele, além disso, não contemplar a paz sobre Israel, e aqueles que vêm dele caminharem na verdade. Sem dúvida, o As Genealogias nome de Deus fora invocado anteriormente. Porém ago­ w. 1-5 ra: 1. Os adoradores de Deus começaram a se levantar para fazer mais na religião do que haviam feito. Talvez, As primeiras palavras do capítulo são o título, ou o não mais do que haviam feito no início, porém mais do conteúdo de todo o capítulo: é o livro das gerações de que haviam feito nos últimos tempos, desde a apostasia Adão; é a lista ou catálogo da posteridade de Adão, não de Caim. Agora, os homens começaram a adorar a Deus, de toda, mas apenas da santa semente que era a sua es­ não apenas em seus aposentos particulares e com as suas sência (Is 6.13), e de quem, conforme a carne, Cristo veio famílias, mas em público e em reuniões solenes. Também (Rm 9.5). Elas mencionam os nomes, idades e o tempo pode ter havido, agora, uma reforma tão grande na reli­ de vida daqueles que foram os primeiros sucessores do gião, que era como se fosse um novo começo dela. A pa­ primeiro Adão na custódia da promessa, e os ancestrais lavra, então, pode se referir não ao nascimento de Enos, do segundo Adão. A genealogia começa com o próprio mas a toda história anterior: então, quando os homens Adão. Aqui temos: viram, através da ação da consciência natural, os pés­ simos efeitos do pecado de Caim e Lameque, ao verem Sua criação, w. 1,2, onde temos uma breve repetição a condenação de Deus sobre o pecado e os pecadores, do que existia antes, de forma geral, em relação à se tornaram ainda mais vigorosos e firmes na religião. criação do homem. E isto que precisamos ouvir freqüen­ Quanto piores forem os outros, melhores e mais zelosos temente e com o que devemos cuidadosamente nos fa­ devemos ser. 2. Os adoradores de Deus começaram a se miliarizar. Observe aqui: 1. Que Deus criou o homem. O diferenciar. Na anotação de margem da nossa Bíblia está homem não é o seu próprio criador, por isso, ele não pode escrito: Eles começaram a ser chamados pelo nome do ser o seu próprio senhor. Mas o Autor de sua existência Senhor, ou a se chamarem por ele. Agora que Caim e deve ser o guia de seus movimentos e o centro deles. 2. aqueles que haviam abandonado a religião tinham cons­ Que houve um dia em que Deus criou o homem. Ele não n I GÊNESIS 5 w. 6-20 43 existia desde a eternidade, mas desde ontem. Ele não foi bora ele não tenha morrido no dia em que comeu o fruto o primogênito, mas o mais jovem da criação. 3. Que Deus proibido, mesmo assim, naquele dia exato, ele se tornou o fez à sua própria semelhança, justo e santo, e, portanto, mortal. Então, ele começou a morrer. Toda a sua vida sem qualquer dúvida, feliz. A natureza do homem asse­ posterior nada mais foi do que um adiamento, uma vida melha-se à natureza divina, mais do que a de qualquer condenada à perda e ao confisco. Além disso, foi uma das criaturas deste mundo inferior. 4. Que Deus os criou, vida agonizante e debilitada: ele não era apenas como um macho e fêmea (v. 2), para o mútuo consolo deles, bem criminoso condenado, mas como alguém já crucificado, como para a preservação e crescimento da sua espécie. que morre lentamente, pouco a pouco. Adão e Eva foram ambos feitos diretamente pela mão de Deus, ambos feitos à semelhança de Deus. E, portan­ to, não há aquela grande distância e desigualdade entre w. 6-20 os sexos, que alguns imaginam existir. 5. Que Deus os abençoou. É comum que os pais abençoem seus filhos. Temos aqui tudo que o Espírito Santo achou adequa­ Assim Deus, o Pai de todos, abençoou aos seus. Porém do deixar registrado, relativo a cinco dos patriarcas an­ os pais terrenos podem somente pedir uma bênção; é teriores ao dilúvio: Sete, Enos, Cainã, Maalalel e Jarede. prerrogativa de Deus disponibilizá-la. Isto se refere, Não há nada de notável com respeito a qualquer deles principalmente, à bênção do crescimento, não excluindo em particular, embora tenhamos razões para pensar que as outras bênçãos. 6. Que o Senhor o chamou de Adão. eles foram homens eminentes em seus dias, tanto pela Adão significa terra, terra vermelha. Assim sendo: (1) prudência como pela devoção. Mas, de um modo geral: Deus lhe deu este nome. O próprio Adão deu nome ao restante das criaturas, mas ele não devia escolher o seu Observe quão ampla e claramente as suas gerações próprio nome, para que ele não assumisse algum títu­ são registradas. Este assunto, seria de se pensar, lo pomposo e glorioso. Mas Deus lhe deu um nome que poderia ter sido comunicado em menos palavras. Po­ seria uma lembrança constante para ele da simplicidade rém é certo que não há uma única palavra desprovida de sua origem, e obrigá-lo a olhar para a rocha de onde de um motivo e de um objetivo nos livros de Deus, a fora cortado, e para a caverna do poço de onde foi cava­ despeito daquilo que haja nos livros dos homens. Tudo do, Isaías 51.1. Aqueles que são tão aparentados ao pó, isto está assim claramente registrado: 1. Para que seja têm pouca razão para se orgulhar. (2) O precioso Senhor de entendimento fácil e inteligível para os menos ca­ deu esse nome a ambos, ao homem e à mulher. Sendo, pazes. Quando somos informados da idade que tinham inicialmente um só por natureza, e depois um só pelo ao gerarem um determinado filho e quantos anos eles casamento, era adequado que ambos tivessem o mesmo viveram depois disso, um pouco de habilidade em mate­ nome, como sinal de sua união. A mulher é da terra, ter­ mática possibilitará a uma pessoa saber quanto tempo rena assim como o homem. eles viveram no total. Mesmo assim, o Espírito Santo registra o valor total, em consideração àqueles que se­ O nascimento de seu filho, Sete, v. 3. Ele nasceu no quer têm tal habilidade. 2. Para mostrar o prazer que centésimo décimo terceiro ano da vida de Adão. E, Deus tem nos nomes de seu povo. Encontramos a gera­ provavelmente, o assassinato de Abel não ocorrera mui­ ção de Caim mencionada rapidamente (cap. 4.18), mas to tempo antes. Muitos outros filhos e filhas nasceram este relato relativo à semente sagrada é estendido, e de Adão, além de Caim e Abel, antes disso. Porém nada é passado em palavras de forma detalhada, e não apenas comentado sobre eles, porque uma menção honrosa deve em números. É-nos dito quanto viveram aqueles que ser feita apenas ao nome daquele em cujos lombos esta­ viveram no temor a Deus, e quando morreram aqueles riam Cristo e a igreja. Mas o que é mais perceptível aqui, que morreram em sua graça. Mas, quanto aos outros, com relação a Sete, é que Adão o gerou à sua própria não lhes é dada importância. A memória dos justos é semelhança, à sua imagem. Adão foi feito à imagem de abençoada, mas o nome dos maus apodrecerá. Deus. Porém quando ele caiu e se corrompeu, ele gerou um filho à sua própria imagem: pecaminoso e desonra­ A vida deles é contada em dias (v. 8): São men­ do, frágil, mortal e desprezível como ele próprio. Não cionados os dias de Sete, e também dos demais, o apenas um homem como ele próprio, formado de corpo que indica a brevidade da vida do homem, mesmo qua e alma, mas um pecador como ele próprio, culpado e in­ do alcança a sua maior duração, e o rápido ciclo do nos solente, degenerado e corrompido. Até mesmo o homem tempo na terra. Se eles contavam o tempo da sua vi que é conforme o coração do próprio Deus, reconhece a em dias, certamente nós devemos contar o da nossa em si mesmo como concebido e nascido no pecado, Salmos horas, fazendo das seguintes palavras a nossa oração ha­ 51.5. Esta era a semelhança do próprio Adão, o reverso bitual (SI 90.12): Ensina-nos a contar os nossos dias. da semelhança divina na qual Adão foi feito. Mas, tendo ele mesmo a perdido, ele não podia transmiti-la à sua se­ De cada um deles, exceto de Enoque, é dito: mente. Note que a graça não corre no sangue, mas a cor­ e morreu. Está implícito na enumeração dos rupção sim. Um pecador gera um outro pecador, porém anos da vida deles que quando estes anos foram contados um santo não gera um outro santo. e concluídos, chegaram a um fim. E ainda assim é repe­ tido: e morreu, para mostrar que a morte ocorreu para A sua idade e morte. Ele viveu, ao todo, nove­ todos os homens, sem exceção, e que é particularmente centos e trinta anos, e então morreu, de acordo bom para nós estudarmos e aproveitarmos as lições que com a sentença que lhe foi imposta: Ao pó voltarás. Em­ nos são ministradas através da morte dos outros, para a I n n w. 21-24 GÊNESIS 5 44 nossa própria edificação. Este era um homem bastante a quem se deve prestar atenção, e esse alguém é Eno­ forte e saudável, porém morreu. Aquele era um homem que, da sétima geração de Adão: podemos supor que os rico e importante, porém morreu. Este era um político demais tenham vivido virtuosamente, mas ele superou esperto, porém morreu. Aquele era um homem muito a todos eles, e foi a estrela mais brilhante da era patriar­ bom, talvez alguém de muito valor, porém morreu etc. cal. Pouco, porém, é registrado a seu respeito. Mas esse pouco já é o bastante para engrandecer o seu nome, para O que é especialmente perceptível, é que todos engrandecê-lo mais do que o nome do outro Enoque, que eles viveram por muito tempo. Nenhum deles teve o seu nome dado a uma cidade. Eis aqui duas coisas morreu até que tivesse visto um ciclo de quase oitocentos relativas a ele: anos, e alguns deles viveram por mais tempo, um período grande demais para uma alma imortal ficar aprisionada Sua graciosa convivência neste mundo, da qual se em uma casa de barro. A vida de então, com certeza, não fala por duas vezes: Enoque andou com Deus, depois era para eles um fardo tão pesado, como é comum hoje, que gerou a Metusalém (v. 22), e outra vez: Enoque an­ caso contrário eles teriam se cansado dela. A vida futura dou com Deus, v. 24. Observe: não foi, então, tão claramente mostrada como é agora sob 1. A natureza de sua fé, além do escopo e do caráter o Evangelho, caso contrário eles ficariam ansiosos para se de sua convivência: ele andou com Deus, o que denota: transferir para ela: a vida longa era uma bênção para os (1) A religião verdadeira. O que é a religiosidade, a não piedosos patriarcas, que os tornou abençoados. 1. Algu­ ser andar com Deus? Os ímpios e profanos estão sem mas causas naturais podem ser apontadas para tamanha Deus neste mundo, eles caminham em direção contrária longevidade nessas primeiras épocas do mundo. E muito a ele: porém o piedoso anda com Deus, o que pressupõe a provável que a terra fosse mais fértil, que os seus produ­ reconciliação com Deus, pois dois não conseguem andar tos fossem mais fortificantes, que o ar fosse mais saudá­ juntos, se não estiverem de acordo (Am 3.3), incluindo vel, e que as influências dos corpos celestes fossem mais todas as partes e instâncias de uma vida devota, justa e benignas antes do dilúvio, do que depois deste. Embora sóbria. Andar com Deus é colocar sempre Deus diante o homem tenha sido retirado do paraíso, mesmo assim, a de nós, e agir como aqueles que estão sempre sob o seu própria terra era, então, um jardim paradisíaco, quando olhar. E viver uma vida de comunhão com Deus tanto nas comparada com a sua atual condição inóspita. E alguns ordenanças quanto nas providências. E fazer da Palavra pensam que o notável conhecimento que eles tinham da de Deus o nosso costume e, da sua glória, o nosso obje­ criação, e da sua utilidade tanto na alimentação como tivo em todas as nossas ações. E ter como preocupação na medicina, junto com a sua sobriedade e temperança, e empenho constante, em tudo, o desejo e a atitude de contribuíram muito para isso. Contudo, observe que não agradar a Deus, sem ofendê-lo em nada. E obedecer à vemos os intemperantes (e entendemos que havia muitos, sua vontade contribuindo com os seus desígnios, e tra­ Lucas 17.27) tendo uma vida tão curta quanto os intem­ balhar ao seu lado. E sermos seguidores dele, como seus perantes, de modo geral, têm agora. 2. Isto deveria ser filhos queridos. (2) Uma religião eminente. Ele estava decidido principalmente pelo poder e pela providência de inteiramente morto para este mundo, e não apenas se­ Deus. Ele prolongou a vida deles, tanto para o repovoa­ guia a Deus, como fazem todos os homens bons, mas mento mais rápido da terra como para a preservação mais caminhava com Deus, como se ele já estivesse no céu. efetiva do conhecimento de Deus e da religião, naquele Enoque vivia acima do padrão, não somente dos outros tempo, quando não havia palavra escrita, e apenas a tra­ homens, mas dos outros santos: ele não era apenas bom dição era o canal de sua transmissão. Todos os patriar­ nas ocasiões em que as coisas iam mal, mas era o me­ cas neste tempo, exceto Noé, nasceram antes da morte lhor quando tudo estava bem. (3) Diligência na promoção de Adão. De maneira que eles puderam receber dele um da religião entre os outros. Desempenhar a função de relato completo e satisfatório sobre a criação, o paraíso, a sacerdote é chamado de andar na presença de Deus, 1 queda, a promessa e os preceitos divinos relativos à adora­ Samuel 2.30,35 (veja também Zc 3.7). Enoque, ao que pa­ ção e à vida religiosa. E, se acontecesse alguma falha, eles rece, era um sacerdote do Deus Altíssimo. Entendemos poderiam recorrer a ele, enquanto estava vivo, como se que, assim como Noé, de quem da mesma forma foi dito fosse um oráculo capaz de fazer a devida correção. Após a que andou com Deus, ele era um pregador da justiça, morte de Adão, Metusalém (ou Matusalém) e outros que e profetizou sobre a segunda vinda de Cristo. O texto haviam convivido com Adão poderiam servil1como Adão em Judas 14 diz: Eis que é rindo o Senhor com milha­ serviria nestas situações de correção. Observe como foi res de seus santos. Agora, o Espírito Santo, ao invés de grande o cuidado do Deus Todo-Poderoso para preservar dizer: Enoque viveu, diz: Enoque andou com Deus. Pois em sua igreja o conhecimento de sua vontade, e a pureza a vida de um homem bom consiste em andar com Deus. de sua adoração. Esta foi: [1] A ocupação da vida de Enoque, sua constan­ te preocupação e trabalho. Enquanto os outros viviam para si mesmos e para o mundo, ele vivia para Deus. [2] O Traslado de Enoque Esta era a alegria e o sustento de sua vida. A comunhão w. 21-24 com Deus era, para Enoque, melhor do que a vida em si. “Para mim o viver é Cristo”, Filipenses 1.21. A contagem prossegue, aqui, por várias gerações 2. A ocasião de sua religiosidade. Foi dito (v. 21) que sem qualquer coisa fora do comum, ou qualquer altera­ ele viveu sessenta e cinco anos, e gerou Metusalém. Porém ção, exceto de nomes e números. Mas finalmente apa­ (v. 22) ele andou com Deus depois que gerou Metusalém, rece alguém que não deve ser ignorado dessa maneira, o que indica que Enoque não começou a se destacar pela I w. 25-27 GÊNESIS 5 45 devoção até por volta dessa época. No início, ele andava mado, assim como serão aqueles santos que estiverem apenas como os outros homens. Os santos notáveis alcan­ vivos na ocasião da segunda vinda de Cristo. Sempre que um homem bom morre, Deus o toma. O Senhor o busca, çam a sua eminência subindo degrau por degrau. 3. A duração de sua fé: ele andou com Deus por tre­e o recebe para si mesmo. O apóstolo acrescenta, quanto zentos anos, pelo tempo que permaneceu neste mundo. a Enoque, que antes do seu traslado, ele teve este teste­ Os hipócritas nem sempre oram. Mas o verdadeiro san­ munho: que ele agradou a Deus, e esta foi a boa reputação to, que age de acordo com um princípio e faz da religião que alcançou. Note que: [1] Andar com Deus é uma ati­ a sua escolha, perseverará até o fim, e andará com Deus tude que agrada a Deus. [2] Nós não conseguimos andar enquanto viver, como alguém que espera viver para sem­ com Deus de forma a agradá-lo, a não ser pela fé. [3] O próprio Deus dará honra àqueles que, pela fé, andam com pre com Ele, Salmos 104.33. Ele de forma a agradá-lo. Ele os confessará agora, e tes­ Sua gloriosa mudança para um mundo melhor. temunhará a favor deles diante dos anjos e dos homens Como Enoque não viveu como os demais, ele tam­ no grande dia. No entanto, aqueles que não tiverem esse bém não morreu como os demais (v. 24): Ele não foi mais testemunho antes do traslado, o terão posteriormente. [4] visto, pois Deus o tomou para si. Este fato pode ser as­ Aqueles cuja convivência no mundo for verdadeiramen­ sim explicado (Hb 11.5): Enoque foi trasladado para que te santa, considerarão a sua mudança para fora dele, de não visse a morte. E por esta razão não foi achado, pois fato, auspiciosa. O traslado de Enoque não foi apenas uma evidência para a fé em uma realidade de uma condição fu­ Deus o havia trasladado. Observe: 1. Quando ele foi, dessa maneira, trasladado. (1) Em tura, e da possibilidade da existência do corpo em glória que época da sua vida ocorreu este fato tão importante. nessa condição. Mas foi o fortalecimento da esperança de Foi quando ele tinha vivido apenas trezentos e sessenta todos aqueles que andam com Deus de que eles estarão, e cinco anos (o que não era uma vida tão longa na época). para sempre, com Ele: este fato indica que a devoção será De acordo com a expectativa de vida dos homens de en­ premiada com honras notáveis. tão, esta seria aproximadamente a metade de seus dias. Pois não havia nenhum dos patriarcas anteriores ao di­ w. 25-27 lúvio que não tivesse mais do que o dobro dessa idade. Mas, por que Deus o levou tão cedo? Com certeza porque A respeito de Metusalém (ou Matusalém), observe: o mundo, que agora se tornara corrupto, não era digno dele, ou porque ele estava tão acima do mundo e tão farto 1. O significado de seu nome, que alguns pensam que foi dele, a ponto de desejar uma rápida transferência para profético, porque seu pai, Enoque, foi um profeta. Metu­ o céu. Há também uma outra possibilidade: a sua obra salém significa aquele que morre, ou um movimento sú­ poderia estar completa, e teria sido concluída mais cedo bito, ou, o envio, em especial, do dilúvio, que ocorreu no pelo fato de Enoque cuidar dela com tanta dedicação. exato ano em que Metusalém morreu. Se, de fato, o seu Note que Deus muitas vezes leva mais cedo aqueles a nome tinha essa intenção e essa explicação, este foi um quem Ele mais ama, e o tempo que eles aparentemente aviso a tempo para um mundo negligente, muito tempo perdem na terra é ganho no céu, o que é, para eles, uma antes que o julgamento chegasse. No entanto, é notável indescritível vantagem. (2) Em que época do mundo. Foi que aquele que viveu por mais tempo, carregasse em seu quando todos os patriarcas mencionados neste capítulo nome a morte, para que ele se lembrasse de sua chegada estavam vivos, exceto Adão, que morrera cinqüenta e certa, embora ela chegasse com lentidão. 2. A sua idade: sete anos atrás, e Noé, que nasceu sessenta e nove anos ele viveu novecentos e sessenta e nove anos, o período depois. Esses dois tiveram confirmações concretas de mais longo sobre o qual lemos que qualquer homem ja­ sua fé de formas diferentes, mas para todos os outros, mais viveu sobre a terra. E ainda assim, ele morreu. O que foram ou podiam ter sido testemunhas do traslado vivente que mais viveu, deve, finalmente, morrer. Nem de Enoque, isso foi um fortalecimento substancial de sua a juventude nem a idade avançada dispensarão alguém dessa guerra, pois esse é o fim de todos os homens: nin­ fé e esperança em uma condição futura. 2. Como essa mudança é descrita: Ele não foi mais vis­ guém pode desafiar a vida através de remédios de pres­ to, pois Deus o tomou para si. (1) Ele não estava mais nes­ crição prolongada, nem fazer disso uma alegação contra te mundo. Isto não se refere ao tempo de sua existência, as sentenças de morte. E freqüentemente suposto que mas da sua existência aqui: Enoque não foi achado, assim Metusalém tenha morrido um pouco antes do dilúvio. Os o apóstolo o explica a partir da Septuaginta. Não encon­ autores judeus afirmam: “sete dias antes”, referindo-se trado por seus amigos, que o procuraram, como os filhos ao capítulo 7.10, e que ele foi afastado do mal que viria, dos profetas procuraram Elias (2 Rs 2.17). Não encontra­ o que concorda com esta suposição, que é geralmente do por seus inimigos, que, pensam alguns, o procuravam aceita, de que todos os patriarcas mencionados neste para matá-lo, em seu ódio contra ele, por sua destacada capítulo foram homens santos. Reluto em apresentar devoção. Parece, pela sua profecia, que havia naquela épo­ qualquer conjectura em contrário. E mesmo assim não ca muitos pecadores impiedosos, que proferiam discursos vejo como isso possa ser inferido a partir de seu registro duros e que provavelmente também faziam coisas injus­ aqui entre os ancestrais de Cristo, mais do que sobre os tas contra o povo de Deus (Jd 15). Porém Deus escondeu reis de Judá, cujos nomes estão registrados em sua ge­ Enoque deles, não sob o céu, mas no céu. (2) O Senhor nealogia, muitos dos quais, temos a certeza, eram muito Deus o tomou em corpo e alma para si, levando-o ao pa­ diferentes: e, se isto for questionado, talvez sugira como raíso celestial pelo ministério dos anjos, da mesma forma provável que Metusalém tenha se afogado com o resto do como, posteriormente, tomou Elias. Enoque foi transfor­ mundo. Pois é certo que ele morreu naquele ano. n vv. 28-32 GÊNESIS 6 O Relato de Noé w. 28-32 Temos aqui a primeira menção a Noé, sobre quem iremos ler muito nos capítulos seguintes. Observe: "I Seu nome, e a razão deste nome: Noé significa repouso. Seus pais lhe deram esse nome, pois ti­ nham a perspectiva de que ele seria mais do que uma bênção comum para a sua geração: Este nos conso­ lará acerca de nossas obras e do trabalho de nossas mãos, por causa da terra que o Senhor amaldiçoou. Aqui está: 1. A queixa de Lameque contra a calamitosa condição da vida humana. Pela entrada do pecado, e a herança da maldição pelo pecado, a nossa condição se tornou muito deprimente: toda a nossa vida é gas­ ta no trabalho, e o nosso tempo é preenchido com um esforço contínuo. Havendo Deus amaldiçoado o solo, o máximo que alguém pode fazer, com o máximo de precaução e esforços, é buscar nele um meio de vida muito difícil. Ele fala como alguém cansado dos assun­ tos desta vida, e lamentando que tanta consideração e minutos preciosos, que de outra maneira poderiam ser mais bem empregados, sejam inevitavelmente gastos com a obtenção da subsistência do corpo. 2. Suas espe­ ranças confortadoras de algum alívio pelo nascimento de seu filho: Este nos confortará, o que denota não apenas o desejo e a expectativa que, geralmente, os pais têm quanto a seus filhos (que, quando eles cres­ cerem, serão consolos para eles e os ajudem em seus negócios, embora eles muitas vezes demonstrem ser o contrário), mas uma apreensão e uma perspectiva de algo mais. É muito provável que existissem algumas profecias neste ponto, que o antecediam, como uma pessoa que seria maravilhosamente útil à sua geração, o que os teria provavelmente levado a concluir que ele fosse a semente prometida, o Messias que viria. E, ao mesmo tempo, isto indica que uma participação na aliança em Cristo, e a confiante expectativa de sua vinda, nos guarneçam com os melhores e mais claros consolos, tanto no que se refere à ira e maldição de Deus - que nós merecemos - quanto aos trabalhos e inquietações dos tempos atuais, dos quais nós vivemos freqüentemente nos queixando. “Cristo é nosso? O céu é nosso? Então seremos consolados”. JL Seus filhos, Sem, Cam e Jafé. Noé gerou o mais n velho deles quando tinha 500 anos de idade. Parece que Jafé era o mais velho (cap. 10.21), porém Sem é colocado primeiro porque nele o concerto foi transmitido, como entendemos pelo capítulo 9.26, on­ de Deus é chamado de o Senhor Deus de Sem. E pro­ vável que a ele tenha sido dado o direito de primogenitura, e é certo que descenderiam dele tanto Cristo (a Cabeça), como a igreja (que é o seu corpo). Por isso, ele é chamado de Sem, que indica boa reputação, pois em sua posteridade o nome de Deus sempre permane­ ceria, até que de seus lombos saísse aquele cujo nome está acima de todo o nome. Desta forma, ao colocar primeiro o nome de Sem, Cristo, aquele que deve ter a preeminência em todas as coisas, foi de fato colocado em primeiro lugar. 46 C a pítu lo 6 A coisa mais extraordinária relativa ao mundo an­ tigo da qual nós temos registro é a sua destruição através do dilúvio universal, cujo relato começa neste capítulo. Nele temos: I. A abundante iniqüi­ dade daquele mundo mau, w. 1-5 e w. 11,12. II. O justo ressentimento do Deus justo em relação àque­ la abundante iniqüidade, e sua sagrada decisão de castigá-la, w. 6,7. III. A generosidade especial de Deus para com o seu servo Noé. 1. No testemunho dado a respeito dele, w. 8-10. 2. Na comunicação do propósito que Deus tem para ele, w. 13,17. 3. Nas orientações que o Senhor lhe deu no sentido de construir uma arca visando a sua própria salvação, w. 14-16. 4. Na utilização dele para a preservação do restante das criaturas, w. 18-21. Por fim, a obe­ diência de Noé às instruções que lhe foram dadas, v. 22. E este assunto relativo ao mundo antigo é escrito como uma advertência para nós, de quem dependeria o futuro do mundo moderno. A Depravação do Mundo w. 1,2 Pela glória da justiça de Deus, e como advertência para um mundo pecaminoso, antes da história da ruína do mundo antigo, nós temos um relato completo de sua degeneração, sua apostasia em relação a Deus, e a sua rebelião contra Ele. A sua destruição era um ato, não de soberania absoluta, mas de justiça necessária, pela manu­ tenção da honra da autoridade de Deus. Neste ponto, nós temos um relato de dois fatores que ocasionaram a iniqüi­ dade do mundo antigo: 1. O crescimento da raça humana: Os homens começaram a se multiplicar sobre a face da terra. Esse foi um dos resultados da bênção (cap. 1.28). Mas, ainda assim, a depravação do homem e os abusos que praticou perverteram essa graça de uma tal manei­ ra, que ela foi transformada em uma maldição. Assim o pecado se aproveita das misericórdias de Deus para ser excessivamente pecaminoso. O texto em Provérbios 29.16 diz: Quando os ímpios se multiplicam, multiplicam-se as transgressões. Quanto mais pecadores, mais pecado. E a grande quantidade de transgressores incentiva os homens a pecar. Doenças infecciosas são mais destrutivas em cida­ des populosas. E o pecado é uma lepra contagiosa. Dessa forma, na igreja do Novo Testamento, quando o número de discípulos foi multiplicado, houve uma murmuração (At 6.1), e nós descobrimos uma nação que foi multiplicada, não para o aumento de sua alegria, Isaías 9.3. Quando existe um grande número de famílias, estas precisam ser bem dirigidas para que não se tornem famílias iníquas. 2. Casamentos mistos (v. 2): Os filhos de Deus (isto é, os membros da religião, que eram chamados pelo nome do Senhor, e chamados desta forma), desposaram as filhas dos homens, isto é, pessoas profanas e estranhas a Deus e ao serviço a Deus. A posteridade de Sete não se manteve por si mesma, como deveria ter feito tanto pela preser­ vação de sua própria pureza quanto pela abominação da apostasia. Eles se misturaram com a raça excomungada 47 GÊNESIS 6 v. 3 de Caim. Eles tomaram, para si, as esposas que escolhe­ com ele. Pode o etíope mudar a sua pele? Assim, em ou­ ram. Mas o que estava errado nesses casamentos? (1) tras palavras, todos, tanto um como o outro, todos eles Eles escolheram apenas pela aparência: Eles viram que mergulharam na lama da carnalidade. Note que: 1. A na­ elas eram bonitas, e só olharam para esta particularidade. tureza corrupta e a inclinação da alma em direção à car­ (2) Eles seguiram a escolha que seus próprios sentimen­ ne é que se opõem aos esforços do Espírito, e os tornam tos corrompidos fizeram: tomaram todas aquelas que es­ ineficazes. 2. Quando um pecador se dedica por muito colheram, sem procurar algum tipo de aconselhamento, tempo aos interesses da carne, e adere a ela contra o Es­ e sem qualquer ponderação. Porém: (3) A conseqüência pírito, o Espírito de maneira justa suspende a sua ação, foi comprovadamente ruim para eles. Casaram-se com e não contende mais. Ninguém fica excluído dos esforços esposas desconhecidas, prenderam-se a um jugo desigual do Espírito, a não ser aqueles que os negligenciaram de com infiéis, 2 Coríntios 6.14. Isso era proibido para Isra­ forma obstinada. el, Deuteronômio 7.3,4. Este foi o mesmo comportamento que ocasionou a infeliz apostasia de Salomão (1 Rs 11.1-4), T T Um adiamento concedido, apesar disso: Poe que trouxe conseqüências trágicas para os judeus de­ 1 JL rém os seus dias serão cento e vinte anos. Por pois de seu retorno da Babilônia, Esdras 9.1,2. Note que esse período eu adiarei o julgamento que eles merecem, aqueles que professam servir ao Senhor precisam ter o e lhes darei tempo para que evitem isso através de seu cuidado de casar tanto a si mesmos quanto aos seus filhos arrependimento e correção. A justiça disse: Acabe com dentro dos limites da fé que professam, com a finalida­ eles. Mas a misericórdia intercedeu: Senhor, deixe-os as­ de de agradar ao Senhor. O mal perverterá o bem muito sim este ano também. E, por enquanto, a misericórdia antes do bem consertar o mal. Aqueles que se declaram prevaleceu, porque um adiamento foi obtido por cento filhos de Deus não devem se casar sem o consentimento e vinte anos. Note que o tempo da paciência e da tole­ dele. O Senhor jamais aprovará que os seus filhos se unam rância de Deus em relação aos pecadores provocadores àqueles que agem como seus inimigos. é às vezes longo, mas sempre limitado: adiamentos não são perdões. Embora Deus tolere alguém por um longo período, Ele não tolerará para sempre. v.3 I Isso se insere aqui como um símbolo do desgosto de Deus com aqueles que se casaram com esposas desco­ nhecidas. Ele ameaça retirar deles o seu precioso Espíri­ to, ao qual eles tinham ofendido através de tais casamen­ tos contrários às suas convicções. As luxúrias carnais são freqüentemente punidas através de julgamentos espiri­ tuais, que são os mais doloridos de todos os julgamentos. Ou como em outra ocasião de grande iniqüidade do mun­ do antigo. O Espírito do Senhor, sendo provocado pela resistência deles às suas ações, parou de contender com eles, e então logo toda a religião estava perdida entre eles. Disso Ele os preveniu antes, para que não viessem a irritar ainda mais o seu Espírito Santo, e para que, atra­ vés das orações deles, Ele pudesse permanecer com eles. Observe neste versículo: A decisão de Deus de não contender com o homem para sempre através do seu precioso Espírito. O Espírito, então, se empenhou em convencer os homens através da pregação de Noé (1 Pe 3.19,20) e através de exames de consciência, mas isso foi em vão para a maio­ ria dos homens. Por essa razão, Deus diz: Ele não con­ tenderá para sempre. Note que: 1. O bendito Espírito contende com os pecadores através das condenações e advertências da consciência, para trazê-los do pecado para Deus. 2. Se alguém resistir ao Espírito, lutar contra Ele, tentar extingui-lo, é necessário saber que embora Ele contenda por muito tempo, não contenderá para sempre, Oséias 4.17. 3. Aqueles com quem o Espírito da graça deixou de contender estão caminhando rapida­ mente para a destruição. JL w. 4,5 Temos aqui um relato adicional da corrupção do mundo antigo. Quando os filhos de Deus se casaram com as filhas dos homens, embora isso tenha trazido um grande desgosto para Deus, Ele não os aniquilou imediatamente, mas esperou para ver quais seriam as conseqüências desses casamentos, e para que lado os fi­ lhos penderiam mais tarde. E o resultado mostrou (como habitualmente acontece), que eles penderam para o pior lado. Aqui temos: I A tentação sob a qual eles estavam para praticar a opressão e a violência. Eles eram gigantes, e eram homens de renome. Eles se tornaram muito insensíveis para tudo ao seu redor, e tomaram pela força tudo o que estava à sua frente: 1. Usando seus corpos avantajados, como os filhos de Anaque, Números 13.33. 2. Usando seus nomes importantes, como os reis da Assíria, Isaías 37.11. Isso fez deles o terror dos heróis na terra dos viventes. E, armados dessa forma, eles audaciosamente violaram os direitos de todos os seus vizinhos e passaram por cima de tudo que é justo e sagrado. Note que aqueles que têm tanto poder sobre os outros a ponto de serem capazes de oprimi-los, raramente têm tanto poder sobre si mesmos a ponto de não oprimir. Um grande poder é uma armadilha muito grande para muitos. Essa raça degenerada desprezou a honra que os seus ancestrais haviam obtido através da virtude e da religião, e criou para si mesma uma fama através daquilo que foi a ruína eterna de seu bom nome. A razão desta decisão: Porque o homem é carne, T I A acusação apresentada e comprovada contra isto é, um ser irremediavelmente corrupto, car­ JL JL eles, v. 5. A evidência produzida era incontestá­ nal e sensual, de modo que é trabalho perdido contender vel. Deus estava vendo tudo, e isso valia mais do que mil w. 6,7 GÊNESIS 6 48 testemunhas. Deus vê toda a maldade que está entre os A Humanidade É Ameaçada filhos dos homens. Esta não pode ser escondida dele, e, com a Destruição se eles não se arrependessem, em breve ela não seria w. 6,7 tolerada por Ele. O que Deus constatou agora? 1. Ele Aqui temos: observou as torrentes de pecados que fluíam ao longo da vida dos homens, e a amplitude e a profundidade dessas O ressentimento de Deus pela iniqüidade do homem. torrentes: Ele viu que a maldade do homem era grande Ele não via isso como um espectador desinteressa­ na terra. Observe a ligação disto com o que aconteceu anteriormente: os opressores eram homens poderosos e do, mas como alguém ferido e ofendido por ela. Ele a viu homens de fama. E, então, Deus viu que a maldade do como um pai afetuoso vê a insensatez e a teimosia de uma homem era grande. Note que a maldade das pessoas é criança rebelde e desobediente, que não apenas o irrita, realmente grande quando os mais notórios pecadores mas o aflige, e faz com que deseje não ter tido filhos. As entre elas são homens famosos. As coisas vão de mal a expressões usadas aqui são muito estranhas: arrependeupior quando os homens maus não só são reverenciados se o Senhor de haver feito o homem sobre a terra, porque - não obstante a sua maldade - mas quando são reveren­ Ele tinha criado um ser de tão nobres capacidades e ap­ ciados por sua maldade, e quando os homens mais vis são tidões, e o havia colocado nesta terra que Ele construiu e exaltados. A iniqüidade é grande, então, quando os gran­ proveu com o propósito de ser uma habitação conveniente des homens são iníquos. A iniqüidade deles era grande, e confortável para o homem. E isso pesou em seu coração. isto é, pecado em abundância era cometido em toda Estas são expressões que estão de acordo com o costume parte, por todos os tipos de pessoas. E tal pecado, como dos homens, e devem ser entendidas desta forma para não era em sua própria natureza o mais grave, abominável, prejudicar a honra da imutabilidade ou da felicidade de e desafiador. Era cometido com ousadia, como um desa­ Deus. 1. Esta linguagem não insinua qualquer emoção ou fio ao céu. Nenhum cuidado era tomado por aqueles que desconforto em Deus (nada pode criar qualquer perturba­ tinham em suas mãos o poder para restringi-lo e puni-lo. ção para a Mente Eterna), mas ela expressa o seu justo e Deus viu isso. Note que todas as faltas dos pecadores são sagrado desgosto contra o pecado e os pecadores, contra conhecidas por Deus, o Supremo Juiz. Aqueles que são o pecado como odioso à sua santidade e contra os pecado­ os mais versados no mundo, embora vejam muita iniqüi­ res como repulsivos à sua justiça. Ele se entristece pelos dade nele, ainda assim vêem apenas um pouco do que ele pecados de suas criaturas (Am 2.13), se cansa (Is 43.24), se é. Mas Deus vê tudo, e julga todas as coisas corretamen­ sente quebrantado (Ez 6.9), desgostoso (SI 95.10), e aqui te. E quão notável é o fato do Senhor jamais estar enga­ este desgosto alcança o coração. O Senhor se sente como nado em seu julgamento. 2. O bendito Senhor observou os homens se sentem quando são prejudicados e maltra­ a fonte do pecado que estava nos corações dos homens. tados por aqueles a quem foram muito generosos, e conse­ Qualquer um podia ver que a maldade do homem era quentemente se arrependem de sua bondade, e desejam grande, porque eles manifestaram os seus pecados como nunca ter alimentado em seu coração aquela serpente que Sodoma. Mas a visão de Deus foi mais longe: Ele viu que agora sibila em suas faces e os pica no coração. Deus odeia toda imaginação dos pensamentos dos corações era só o pecado? Sim. E então será que nós também não deverí­ má continuamente - uma triste visão, e muito desagra­ amos odiar o pecado? Nossos pecados entristeceram o seu dável para a santa visão de Deus! Essa era a raiz amar­ Santo coração? Então o nosso coração não deveria se sen­ ga, o manancial corrupto: toda violência e opressão, toda tir desgostoso e aferroado? O, que esta reflexão possa nos a luxúria e devassidão que havia no mundo, provinham humilhar e envergonhar, e que possamos olhar para aque­ da corrupção da natureza. A concupiscência as concebeu, le a quem tanto desgostamos, e chorar! Zacarias 12.10. 2. Tiago 1.15. Veja Mateus 15.19. (1) O coração deles era Isso não implica em qualquer mudança no pensamento de desprezível. Era enganador e desesperadamente mau. Deus. Pois Ele está decidido, e quem pode fazer com que Os princípios eram corruptos e nocivos, e o mesmo se po­ Ele mude de idéia? Com Ele não existe inconstância, Mas dia dizer dos seus hábitos e tendências. (2) Os pensamen­ isso representava uma mudança em sua atitude. Depois tos do coração eram assim. O pensamento é, às vezes, de fazer o homem reto, Deus descansou, e restaurou-se confundido com o julgamento estabelecido ou com a opi­ (Êx 31.17). Seu sentimento para com o homem demons­ nião, e esta era corrompida, tendenciosa e enganadora; trava que ele estava satisfeito com a obra de suas pró­ às vezes ela expressa as obras da imaginação, e estas são prias mãos. Mas, agora que o homem havia abandonado sempre vãs ou vis, tecendo a teia da aranha ou chocando a religião, o Senhor não podia fazer outra coisa a não ser o ovo do basilisco. (3) A imaginação dos pensamentos do mostrar-se desgostoso. Deste modo, a mudança estava coração dos homens era assim. Em outras palavras, os no homem, não em Deus. Deus se arrependeu de haver seus planos e artifícios eram malignos. Eles não faziam criado o homem. Mas nós nunca o vimos se arrependendo o mal por mera desatenção, como aqueles que se lançam de haver redimido o homem (embora esse trabalho tenha em aventuras, não prestando atenção no que fazem. Mas exigido um sacrifico muito maior), porque a graça especial eles faziam o mal deliberada e intencionalmente, plane­ e efetiva é dada para assegurar os grandes objetivos da jamento como causariam danos. Tudo isto era realmente redenção. Deste modo, aqueles dons e chamadas são sem ruim. Era iniqüidade sobre iniqüidade, continuamente. arrependimento, Romanos 11.29. E toda a imaginação deles era assim. Não se encontrava A decisão de Deus de destruir os homens em virtu­ nenhum bem entre eles, qualquer que fosse o momen­ de da iniqüidade que demonstraram, v. 7. Observe to: a torrente de pecado era plena, forte, e constante. E que: 1. Quando Deus se arrependeu de haver criado o hoDeus viu isso. Leia Salmos 14.1-3. GÉNESIS 6 w. 8-10 mem. Ele decidiu destrui-lo. Portanto, aqueles que ver­ a geração do seu furor. Graças diferenciadas demandam dadeiramente se arrependem do pecado, decidirão - na obrigações particularmente severas. É provável que Noé força da graça de Deus - refreá-lo e destrui-lo, e assim não tenha encontrado graça aos olhos dos homens. Eles podem desfazer aquilo que haviam feito errado. Aqueles o odiaram e o perseguiram porque ele condenava o mun­ que dizem que sentem muito por seus pecados, e que isso do tanto por sua vida quanto por sua pregação. Mas ele lhes pesa no coração, porém continuam se entregando ao achou graça aos olhos do Senhor, e isso era tanto uma pecado, estão tentando escarnecer de Deus. Estes esta­ honra quanto um conforto suficiente. Deus testificou mais rão fingindo, em vão, uma mudança em seus pensamen­ a respeito de Noé do que a respeito de todo o mundo, e tos, se não a comprovarem através de uma mudança em isso o tornou maior e mais verdadeiramente honrado do seu modo de agir. 2. O Senhor decide destruir o homem. que todos os gigantes que existiam naqueles dias, que se A frase original é muito significativa: Destruirei de sobre tornaram homens poderosos e renomados. Que a bênção a face da terra, o homem que criei (segundo alguns), as­ de encontrar graça aos olhos do Senhor seja o ápice de sim como a sujeira ou imundície é removida de um lugar nossas ambições. Trabalhemos para que, quer presentes, que deveria estar limpo, e é lançada no monturo, o local quer ausentes, possamos ser agradáveis a Ele, 2 Coríntios adequado para ela. Veja 2 Reis 21.13. Aqueles que são as 5.9. Aqueles a quem Deus vê com bons olhos são altamen­ manchas dos lugares onde vivem são merecidamente re­ te favorecidos. 2. Enquanto o restante do mundo era cor­ movidos pelos julgamentos de Deus. Apagarei de sobre rompido e mau, Noé manteve a sua integridade: Estas são a face da terra, o homem (segundo outros), assim como as gerações de Noé (este é o relato que temos para dar a aquelas linhas que desagradam o autor são apagadas do respeito dele). Noé era um homem justo, v. 9. Esta carac­ manuscrito de um livro, ou como o nome de um cidadão terística de Noé se insere aqui: (1) Como a razão da gene­ é apagado do rol dos homens livres quando ele morre, ou rosidade de Deus para com ele. Sua excepcional devoção quando é privado de seus direitos civis. 3. O Senhor fala o qualificou para receber sinais peculiares da bondade de do homem como sua própria criatura, mesmo quando Deus. Aqueles que encontram graça aos olhos do Senhor decide sobre a sua destruição: O homem que criei. Em devem ser como Noé foi, e fazer como ele fez. Deus ama outras palavras, embora Eu o tenha criado, isso não o aqueles que o amam. Ou: (2) Como conseqüência da bon­ isentará, Isaías 27.11. Aquele que o criou não o poupará. dade de Deus para com ele. Foi a boa vontade de Deus Se aquele que é o nosso Criador não for o nosso sobera­ para com Noé que produziu nele essa boa obra. Ele era no, Ele será o nosso destruidor. Ou: Porque eu o criei, e um homem muito bom, mas não era melhor do que a graça ele foi tão irresponsável e ingrato para com o seu Cria­ de Deus o tornou, 1 Coríntios 1-5.10. Agora, observe o ca­ dor, então o destruirei. Esses perdem a vida porque não ráter deste servo do Senhor. [1] Ele era um homem justo, correspondem à finalidade de sua existência. 4. Até mes­ isto é, justificado diante de Deus pela fé na semente pro­ mo os animais seriam envolvidos nessa destruição? Sim, metida. Pois ele era um herdeiro da justiça que é segundo os animais em geral, os répteis, e as aves dos céus. Esses a fé, Hebreus 11.7. Ele foi santificado, e teve princípios e foram feitos para o homem, e então devem ser destruí­ inclinações corretas implantados em si mesmo. E ele era dos com o homem. Pois, segue-se que: Arrependo-me de íntegro em suas conversas, alguém que procurava cons­ os haver criado. Pois o objetivo de sua criação também cientizar os seus semelhantes de que deveriam cumprir fora frustrado. Eles foram criados para que o homem as obrigações que tinham para com Deus e para com os pudesse com eles servir e honrar a Deus. E então foram homens. Note que ninguém, a não ser um homem total­ destruídos porque o homem havia servido às suas luxú- mente honesto, pode encontrar graça diante de Deus. A rias com eles, tornando-os sujeitos à vaidade. 5. Deus to­ conversa que será agradável a Deus deve ser regida pela mou essa decisão em relação ao homem depois que o seu simplicidade e sinceridade que são peculiares a Deus, e precioso Espírito havia estado durante um longo período não pela sabedoria carnal, 2 Coríntios 1.12. Deus, às ve­ contendendo com o homem, em vão. Ninguém é destruí­ zes, escolhe as coisas mais simples e até as coisas tolas do do pela justiça de Deus a não ser aqueles que odeiam ser mundo, mas Ele nunca escolheu as coisas desonestas des­ regenerados pela graça de Deus. te. [2] Noé era perfeito, não no sentido de não ter pecados, mas ele tinha uma perfeição em termos de sinceridade. E é bom para nós que, pela virtude do concerto da graça, w. 8-10 com base no critério da justiça de Cristo, a sinceridade seja aceita como nosso aperfeiçoamento no Evangelho. Nós temos aqui Noé diferenciado do resto do mundo, [3] Noé andou com Deus, assim como Enoque tinha feito e um sinal particular de honra foi colocado sobre ele. 1. antes dele. Ele não era apenas honesto, mas também de­ Quando o Senhor Deus estava desgostoso com o resto do voto. Ele andou, isto é, ele agiu de uma forma aceitável a mundo, Ele foi generoso para com Noé. Pois Noé achou Deus, como alguém que tem sempre em vista agradar ao graça aos olhos do Senhor, v. 8. Isso vindica a justiça de Senhor. Noé viveu uma vida em comunhão com Deus. A Deus em seu descontentamento contra o mundo, e indi­ sua preocupação constante era corresponder à vontade de ca que ele havia examinado rigorosamente o caráter de Deus, agradá-lo, e conviver à altura deste relacionamento. cada pessoa de acordo com ela, antes de declarar o mundo Note que Deus olha com bondade para aqueles que since­ como estando completamente corrompido. Pois, existindo ramente elevam o olhar para Ele com fé. Mas: [4] O que um homem bom, o Senhor o descobriu, e sorriu para ele. coroa o caráter de Noé é que ele era assim, e assim ele Isso também amplia a sua graça para com Noé, porque se mostrou em sua geração, naquela época degenerada e este foi tornado o eleito da misericórdia de Deus enquan­ corrupta na qual a sua sorte foi lançada. É fácil ser reli­ to, por outro lado, toda a raça humana havia se constituído gioso quando a religião está na moda. Mas é uma prova de 49 50 GÊNESIS 6 w. 11,12 solidez de fé e de determinação nadar contra a corrente com Noé foi claramente indicada naquilo que o adorável em direção ao céu, e se manifestar publicamente a favor Senhor disse a respeito dele, w. 8-10. Ali, o nome de Noé de Deus, quando ninguém mais age deste modo. Assim fez é mencionado cinco vezes em poucas linhas, quando uma Noé, e isso está registrado como uma honra imortal deste vez poderia ter servido para deixar claro o sentido. Era como se o Espírito Santo sentisse prazer em perpetuar a servo do Senhor. memória deste servo do Senhor. Mas isso se torna muito mais aparente no que o Senhor lhe diz nestes versículos - as informações e instruções que aqui lhe são dadas. A Depravação do Mundo w. 11,12 Aqui Deus faz de Noé o seu homem de confiança, co­ municando-lhe o seu propósito de destruir este mundo A iniqüidade daquela geração é aqui novamente men­ cionada como uma ênfase à devoção de Noé - ele era justo iníquo pela água. Posteriormente, o bendito Senhor agiu e perfeito, enquanto toda a terra estava corrompida. Ou de uma forma parecida, revelando a Abraão a sua decisão ainda como uma justificativa adicional para a determina­ a respeito de Sodoma (cap. 18.17: Ocultarei eu a Abraão o ção de Deus de destruir o mundo, a qual Ele estava, agora, que faço?). Portanto, era como se o Senhor aqui dissesse: prestes a comunicar ao seu servo Noé. 1. Todos os tipos de “Ocultarei eu a Noé o que faço, visto que ele certamen­ pecados foram encontrados entre eles, pois foi dito (v. 11) te virá a ser uma grande nação?” Note que o segredo do que a terra estava: (1) Corrompida diante de Deus, isto é, Senhor é para aqueles que o temem (SI 25.14). Ele era corrompida em relação à adoração a Deus. Também é pos­ conhecido pelos seus servos, os profetas (Am 3.7) através sível que eles tivessem outros deuses adiante dele, ou que de um espírito de revelação que os informava, particular­ o adorassem através de imagens. Também é possível que mente, sobre os seus propósitos. O segredo do Senhor é eles fossem corruptos e iníquos - para desgosto de Deus manifestado a todos os crentes através de um espüito de e em desrespeito a Ele - desafiando-o e desobedecendo-o sabedoria e de fé, que lhes capacita a entender e aplicar com audácia diante de sua face. (2) A terra também esta­ as declarações gerais da Palavra escrita, e as advertências va repleta de violência e injustiça no tocante aos homens. nela concedidas. Neste ponto: 1. Deus revelou a Noé, sem entrar em detalhes, que Não existia nenhum governo legal. Nenhum homem estava seguro na posse daquilo sobre o que tinha o mais puro e iria destruir o mundo (v. 13): O fim de toda carne é vin­ incontestável direito. Não, nem mesmo a vida mais inocen­ do perante a minha face. Eu os destruirei. Em outras te. Não havia nada além de assassinatos, estupros e pilha­ palavras, a destruição deste mundo maligno está decre­ gens. Note que a iniqüidade, por ser a vergonha da natu­ tada e determinada. É vinda, isto é, ela virá certamen­ reza humana, também é a ruína da sociedade. Ela afasta a te, e virá rapidamente. E provável que Noé, pregando consciência e o temor a Deus, e os homens se tornam como aos seus vizinhos, os tivesse avisado, em geral, sobre a bestas e demônios uns para com os outros. Eles passam a ira de Deus que eles trariam sobre si mesmos devido às agir como os peixes do mar, onde o maior devora o menor. iniqiiidades que praticavam, e agora Deus apóia os seus O pecado enche a terra de violência, e assim transforma o esforços através de uma declaração especial de ira, para mundo em uma selva, em um campo de batalha. 2. As pro­ que Noé pudesse testar se isso produziria algum efeito vas e as evidências disso eram inegáveis. Pois Deus con­ neles. Portanto, observe: (1) Que Deus confirma as pa­ templou a terra, e foi Ele próprio uma testemunha ocular lavras dos seus mensageiros, Isaías 44.26. (2) Que para da corrupção que havia nela, pois tudo está diante dos seus aquele que tem, e usa o que tem para o bem dos outros, olhos, v. 5. O Senhor é o Justo Juiz em todos os seus jul­ mais lhe será dado, até mesmo na forma de instruções gamentos, e procede sob a certeza infalível de sua própria mais completas. 2. O bendito Senhor lhe revelou, particularmente, onisciência, Salmos 33.13. 3. O que mais agravou a questão foi a propagação universal do contágio: Toda a carne ha­ que iria destruir o mundo por meio de um dilúvio de via corrompido o seu caminho. Não eram algumas nações águas: Veja que Eu, Eu mesmo, trago um dilúvio de ou cidades específicas que eram tão ímpias, mas o mundo águas sobre a terra, v 17. Deus podia ter destruído toda inteiro da humanidade era assim. Não havia ninguém que a humanidade através da espada de um anjo, uma espa­ fizesse o bem, não, ninguém além de Noé. Note que quando da flamejante girando para todos os lados, assim como a maldade se torna comum e universal, a destruição não destruiu todos os primogênitos dos egípcios e o acam­ está longe. Enquanto existirem pessoas que oram em uma pamento dos assírios. E então não era preciso mais do nação, evitando que a maldade atinja um nível intolerável, que colocar um sinal sobre Noé e sua família, para a os juízos podem ser evitados por um longo período. Mas preservação destes. Mas Deus opta por fazer isso por quando todas as mãos estão trabalhando para derrubar as meio de um dilúvio de águas, que deveria deixar o mundo barreiras que impedem a entrada do pecado, e não existe submerso. Os motivos, nós podemos estar certos, eram nenhuma que tape a brecha, o que se pode esperar a não sábios e justos, embora desconhecidos para nós. Deus possui muitas flechas em sua aljava, e Ele pode usar ser uma inundação de ira? aquela que lhe aprouver: como aquele que escolhe a vara com a qual punirá os seus filhos, assim Ele escolhe a es­ pada com a qual eliminará os seus inimigos. Observe a A Previsão do Dilúvio forma da expressão no idioma inglês: “Eu, Eu mesmo, w. 13-21 trago um dilúvio. Eu que sou infinito em poder, e por isso Aqui realmente se torna aparente que Noé achou posso fazê-lo. Eu, que sou infinito em justiça, e por isso o graça aos olhos do Senhor. A generosidade de Deus para farei”. (1) Isso expressa a certeza do julgamento: Eu, Eu I 51 GÊNESIS 6 w. 13-21 mesmo, o farei. Isso não pode efetivamente ser feito a deve ser feita de madeira de Gofer. Noé, indubitavel­ não ser que o próprio Deus se responsabilize por fazê-lo. mente, sabia qual era esse tipo de madeira, embora nós Veja Jó 11.10. (2) Aqui fica indicada a inclinação disso em agora não saibamos se cedro, ou cipreste, ou qual outra. favor da glória de Deus, e a honra de sua justiça. Desse (2) Do lado de dentro, ele deve construir três andares. (3) modo, Ele será engrandecido e exaltado na terra, e todo Ele deve dividi-la em compartimentos, com divisórias, o mundo saberá que Ele é o Deus a quem pertence a lugares adequados para vários tipos de criaturas, para vingança. Creio que a expressão aqui é mais ou menos não desperdiçar espaço. (4) As dimensões exatas foram como esta, Isaías 1.24: Ah! Consolar-me-ei acerca dos fornecidas a Noé, para que ele pudesse construí-la de meus adversários. forma proporcional, e que nela pudesse haver aposentos suficientes para atender a sua finalidade, e nada mais. Aqui Deus faz de Noé o homem do seu concerto, Note que aqueles que trabalham para Deus devem rece­ outra perífrase hebraica para amigo (v. 18): Mas ber dele as suas medidas e observá-las cuidadosamente. contigo estabelecerei o meu concerto. 1. O concertoNote, da além disso, que é conveniente que aquele que de­ providência de que o curso da natureza prosseguiria signa até a nossa habitação deva estabelecer as fronteiras e o fim dos tempos, não obstante a suspensão que o dilúvio os limites desta. (5) Ele a cobrirá com betume por dentro lhe traria. Essa promessa foi diretamente feita a Noé e e por fora - por fora, para escoar a chuva, e para impedir seus filhos, cap. 9.8ss. Eles eram como depositários para a água de se infiltrar - por dentro, para diminuir o mau toda esta parte da criação, e uma grande honra fora, cheiro dos animais quando mantidos em recinto fechado. através disso, colocada sobre ele e os seus. 2. O concerto Observe que Deus não ordena que ele a pinte, mas que da graça para que Deus fosse o seu Deus, e que de sua a cubra com betume. Se Deus nos dá habitações que são semente Deus tiraria para si mesmo um povo. Note que: seguras, aquecidas e saudáveis somos obrigados a lhe (1) Quando Deus faz um concerto, Ele o estabelece, o ga­ ser gratos, mesmo que estas não sejam magníficas ou rante, e o cumpre. Os seus concertos são eternos. (2) O as mais belas. (6) Noé deve construir uma pequena ja­ concerto da graça tem, em si, a recompensa por serviços nela no topo para deixar entrar a luz, e (pensam alguns) singulares, e é a fonte e o fundamento de todas as bene- para que através dessa janela ele possa contemplar as volências especiais para compensar aquilo que perdemos destruições que serão infligidas à terra. (7) Ele deve fa­ por amor a Deus, ou para criar uma felicidade para nós zer uma porta em um dos lados da arca, para que possa em Deus. Assim, não precisamos desejar mais do que ter entrar e sair através dela. o seu concerto firmado conosco. 2. Deus promete a Noé que ele e sua família serão mantidos vivos na arca (v 18): Tu entrarás na arca. Note Aqui Deus torna Noé um marco de bondosa que nós mesmos teremos o conforto e o beneficio daquilo misericórdia, ao colocá-lo em uma condição de que fizermos em obediência a Deus. Se fores sábio, para se proteger do dilúvio que se aproxima, para que ele não ti sábio serás. Não apenas ele próprio estava a salvo na perecesse com o resto do mundo: Os desfarei, diz Deus, arca, mas a sua esposa, os seus filhos, e as esposas de com a terra, v. 13. “Mas faze para ti uma arca. Eu to­ seus filhos. Observe: (1) O cuidado dos bons pais. Eles marei o cuidado necessário para te manter vivo.” Note são cuidadosos não apenas com a sua própria salvação, que as devoções singulares serão recompensadas com mas com a salvação de suas famílias, e especialmente de redenções especiais, que são, de maneira especial, obse­ seus filhos. (2) A felicidade daqueles filhos que têm pais quiosas. Isso acrescentará muito à honra e à felicidade tementes e obedientes ao Senhor. A devoção cle seus pais dos santos glorificados, de modo que eles serão salvos freqüentemente alcança uma salvação temporária para enquanto a maior parte do mundo for deixada para pe­ eles, como vemos aqui. E ela os favorece no caminho para recer. Neste ponto: a salvação eterna, se eles aproveitarem o seu benefício. 1. Deus orienta Noé a fazer uma arca, w. 14-16. Essa arca era como o casco de um navio, adaptada não para Aqui Deus torna Noé uma grande benção para navegar sobre as águas (não havia razão para isso, pois o mundo, e nessa narrativa faz dele um desta­ não haveria nenhuma costa para onde navegar), mas para cado modelo do Messias, embora não o próprio Messias, flutuar sobre as águas, esperando que a maré decresces­ como seus pais esperavam, cap. 5.29. 1. Deus fez dele se. Deus podia ter protegido Noé com a ajuda de anjos, um pregador para os homens daquela geração. Como sem colocá-lo em situações que exigissem dele cuidado, um atalaia, ele recebeu a palavra da boca de Deus, para esforço ou preocupação. Mas o precioso Senhor escolheu que pudesse lhes dar o aviso, Ezequiel -3.17. Desse modo, empregá-lo na criação daquilo que tinha a finalidade de enquanto a longanimidade de Deus esperava, através de ser o meio de sua preservação, tanto para testar a sua fé seu precioso Espírito, Noé pregava para o mundo antigo, e obediência quanto para nos ensinar que ninguém será que no texto que Pedro escreveu foi referido como espíri­ salvo por Cristo a não ser apenas aqueles que trabalha­ tos em prisão (1 Pe 3.18-20). E aqui Noé era um símbolo rem por sua própria salvação. Nós não podemos fazer de Cristo, que, em uma terra e em uma época em que isso sem Deus, e Ele não o pode fazer sem nós. Tanto a toda carne havia corrompido o seu caminho, continuou providência quanto a graça de Deus reconhecem e re­ pregando o arrependimento e avisando os homens da compensam os esforços daqueles que são obedientes e chegada do dilúvio da ira. 2. Deus fez dele um salvador diligentes. Deus deu a Noé instruções muito específicas para as criaturas inferiores, para impedir suas várias com respeito a essa construção, que só poderia ser ad­ espécies de perecer e de se perderem no dilúvio, w. 19miravelmente bem adequada para o seu propósito se a 21. Essa era uma grande honra conferida a Noé que não própria Infinita Sabedoria fosse o seu arquiteto. (1) Ela apenas nele a raça humana devesse ser preservada, e n 52 GÊNESIS 7 w. 22 que dele se originasse um novo mundo, a igreja, a alma mo barco. Mas estas, e milhares de outras dificuldades, do mundo e o Messias, a cabeça daquela igreja. Mas Noé superou através da fé. A sua obediência era pronta que ele fosse providencial para preservar as criaturas e decidida: Assim agia Noé, de boa vontade e com ânimo, inferiores, e, portanto nele a humanidade alcançasse um sem resmungar nem discutir. Deus diz: Faça isto, e Noé o novo atributo para si e para os seus serviços. (1) Noé de­ faz. Noé era também detalhista e perseverante: ele fazia veria fornecer abrigo para eles, para que não se afogas­ tudo, exatamente de acordo com as instruções que lhe sem. Dois de cada espécie, macho e fêmea, ele deveria eram dadas, e, tendo iniciado a construção, não parou levá-los consigo na arca. E para que ele não encontrasse até que a tivesse terminado. Assim ele fez, e assim nós qualquer dificuldade em reuni-los, e fazê-los entrar na devemos fazer. 3. Como um exemplo do bom senso para arca, Deus promete (v. 20) que eles viriam a ele por ini­ consigo mesmo, cuidando, dessa forma, de sua própria ciativa própria. Aquele que faz com que o boi conheça o segurança. Ele temia o dilúvio e, por isso, preparou a seu dono e o seu estábulo, faz, então, com que os animais arca. Note que quando Deus alerta sobre os julgamentos conheçam o seu protetor e a sua arca. (2) Noé deveria que se aproximam, é uma atitude de bom senso e de de­ fornecer comida para eles, para que não tivessem fome, ver de nossa parte nos prepararmos da melhor maneira v. 21. Ele deve abastecer a sua arca, de acordo com o possível. Veja Êxodo 9.20,21; Ezequiel 3.18. Devemos número de sua tripulação, aquela grande família sobre a nos preparar para nos encontrar com o Senhor em seus qual agora ele tinha a responsabilidade, e de acordo com julgamentos na terra, correndo para o seu nome como o tempo designado para o seu confinamento. Aqui Noé para uma torre forte (Pv 18.10). Devemos entrar em nos­ também era um símbolo de Cristo, a quem é devida a sos quartos (Is 26.20,21), preparando-nos especialmente existência do mundo, de quem todas as coisas dependem, para encontrá-lo na morte, no julgamento do grande dia. e que impede a humanidade de ser totalmente liquidada Devemos edificar a nossa vida sobre Cristo, a Rocha (Mt e destruída pelo pecado. Nele a semente sagrada está a 7.24). E devemos ir a Cristo, que é a Arca da salvação. salvo, e viva, e a criação está livre da vaidade sob a qual 4. Como um alerta direcionado a um mundo indiferente. ela geme. Noé salvou aqueles a quem ele comandaria, e E era um alerta claro do dilúvio que estava a caminho. Cada golpe de seus machados e martelos era um chama­ isto é o que Cristo faz, Hebreus 5.9. do ao arrependimento, um chamado para que eles tam­ bém preparassem arcas. Mas, como Noé não conseguiu convencer o mundo através dela, ele condenou o mundo v. 22 através dela, Hebreus 11.7. O cuidado e a diligência de Noé ao construir a arca podem ser considerados: 1. Como uma conseqüência de sua fé na Palavra de Deus. Deus lhe havia dito que, em C a p ít u l o 7 breve, iria inundar o mundo. Noé creu nisso, temeu a ameaça do dilúvio, e, com esse temor preparou a arca. Neste capítulo, temos a realização do que fora Note que nós deveríamos misturar a fé com a revelação previsto no capítulo anterior, tanto no que se re­ que Deus fez sobre a sua ira contra toda a iniqüidade fere à destruição do antigo mundo e à salvação de e injustiça dos homens. As ameaças da Palavra não são Noé. Pois podemos ter a certeza de que nenhuma alarmes falsos. Muitas coisas poderiam ter sido alegadas Palavra de Deus cairá por terra. Ali, nós deixa­ contra a credibilidade desse aviso dado a Noé. “Quem mos Noé ocupado com sua arca, e cheio de cuida­ podia acreditar que o sábio Deus, que criou o mundo, dos com a tarefa de concluí-la a tempo, enquanto pudesse tão cedo destruí-lo. Que aquele que havia remo­ o restante de seus vizinhos ria dele por causa de vido as águas para fora da terra seca (cap. 1.9,10) faria seus esforços. Agora, aqui, vemos qual foi o fim de com que elas a cobrissem novamente? Como é que isso tudo aquilo, o objetivo dos cuidados dele e o fim da poderia ser reconciliado com a misericórdia de Deus, que está acima de todas as suas obras? Como se pode­ indiferença deles. E este famoso período do anti­ go mundo, nos dá uma idéia do estado das coisas ria crer, especialmente, que as criaturas inocentes deve­ riam morrer pelo pecado do homem? De onde poderia quando o mundo que agora existe for destruído pelo fogo, assim como aquele foi destruído pela vir tanta água suficiente para inundar o mundo? E, se água. Veja 2 Pedro 3.6,7. Neste capítulo temos: I. deve ser assim, por que deveria o aviso a respeito disso O generoso chamado de Deus para Noé entrar na ser dado apenas a Noé - Mas a fé de Noé triunfou so­ arca (v. 1), e trazer as criaturas que seriam preser­ bre todas essas argumentações deturpadas. 2. Como um vadas vivas junto com ele (w. 2,3), em consideração gesto de obediência às ordens de Deus. Se Noé tivesse ao dilúvio que estava prestes a acontecer, v. 4. II. A se aconselhado com a carne e com o sangue, muitas obobediência de Noé à sua visão celestial, v. 5. Quando jeções teriam sido levantadas contra isso. Erguer uma construção como aquela, tão grande como ele nunca vira, ele estava com seiscentos anos, entrou, com a sua família, na arca (w. 6,7), e levou as criaturas con­ e de dimensões tão exatas, requereria dele um grande sigo (w. 8,9), um relato que é repetido (w. 13-16) cuidado, trabalho, e sacrifício. Seria um trabalho que to­ e no qual é acrescentado o tratamento cuidadoso maria tempo. A impressão era que levaria muito tempo de Deus para fechar a porta pelo lado de fora. III. para se realizar. Seus vizinhos o ridicularizavam por sua A chegada do dilúvio que havia sido predito (v. 10). credulidade, e ele era o tema da canção dos embriagados. Suas causas (w. 11,12): a prevalência deste, w. 17Sua construção era chamada de “A loucura de Noé”. Se o 20. IV A terrível desolação que foi causada por esta pior acontecesse, como se diz, todos estaríamos no mes­ 53 GÊNESIS 7 w. 1-4 calamidade: a morte de toda criatura vivente sobre tamento piedoso pelo qual parecem justos diante dos a terra, exceto daquelas que estavam na arca, w. homens, que podem ser enganados com facilidade. Mas 21-23. V Seu prosseguimento em meio a um mar de aqueles que têm o poder da piedade, através do qual eles águas, antes que a maré começasse a baixar: cento se mostram reconhecidos por Deus, que busca o coração, e cinqüenta dias, v. 24. e não pode ser enganado pela aparência dos homens. (2) Deus distingue e se apraz naqueles que são justos dian­ te dele: Te hei visto. Em um mundo de pessoas iníquas, Deus conseguiu enxergar o único justo, Noé. Aquele Noé É Convidado a Entrar na Arca único grão de trigo não podia ser perdido em um gran­ w. 1-4 de monte de refugo. O Senhor conhece aqueles que são seus. (3) Deus, que é uma testemunha da integridade do Eis aqui: seu povo, em breve será uma testemunha a favor do seu Um generoso convite a Noé e sua família para um lu­ povo. Aquele que tudo vê, o proclamará diante dos anjos gar seguro, agora que a completa inundação estava e dos homens, para a honra imortal deles. Aqueles que chegando, v. 1. alcançam a mercê de serem justos obterão o testemunho 1. O chamado em si é muito gentil, como o de um pai da sua integridade. (4) Deus fica, de uma forma espe­ carinhoso a seus filhos, para virem para dentro, quando cial, satisfeito com aqueles que são bons em tempos e vê a noite ou uma tempestade se aproximando: Entra na locais ruins. Noé era, portanto, distintamente justo, pois arca tu e toda a tua casa, aquela pequena família que tens. o era naquela geração pecaminosa e adúltera. (5) Deus Observe que: (1) Noé não foi para dentro da arca até que manterá a salvo em tempos de calamidade generalizada Deus o convidasse. Embora soubesse que ela havia sido aqueles que se mantêm puros em tempos de iniqüidade designada para ser o seu local de refúgio, ainda assim, generalizada. Aqueles que não tomam parte com outros ele aguardou uma renovação da ordem, e a recebeu. É em seus pecados não compartilharão, com eles, os seus muito reconfortante seguir o chamado da Providência e tormentos. Aqueles que são melhores do que os outros ver Deus caminhando à nossa frente a cada passo que estão, mesmo nesta vida, mais a salvo do que os outros, e damos. (2) Deus não o manda para dentro da arca, mas é melhor estar junto a estes. convida-o a entrar, indicando que iria com Noé, o condu­ ziria para dentro dela, o acompanharia nela, e, no devido Neste ponto estão as ordens necessárias que fo­ tempo, o levaria, em segurança, para fora dela. Note que ram dadas com respeito às criaturas irracionais onde quer que estejamos, é muito proveitoso ter conosco que deveriam ser preservadas vivas junto com Noé na a presença de Deus, pois ela é o nosso maior consolo em arca, w. 2,3. Eles próprios não eram capazes de rece­ todas as situações. Foi isto que fez da arca de Noé - que ber o aviso e as orientações, como o homem, que aqui parecia uma prisão - não apenas um refúgio, mas um pa­ é mais instruído do que as bestas da terra e feito mais lácio. (3) Noé havia feito muitos esforços para construir inteligente do que as aves do céu - pois ele é investido a arca, e agora ele próprio era mantido vivo dentro dela. com o poder da previsão. Por isso, o homem é responsa­ Note que através daquilo que fizermos em obediência bilizado pela proteção deles. Estando sob seu domínio, às ordens de Deus, e na fé, nós próprios teremos com eles devem estar sob a sua proteção. E, embora Noé não certeza o consolo, no princípio ou no final. (4) Não ape­ pudesse defender todos os indivíduos, ainda assim ele nas Noé, mas também a sua casa. Sua esposa e filhos são deveria preservar cada espécie, cuidadosamente, para chamados com ele para dentro da arca. Note que é bom que nenhum grupo, nem o menos importante, pudesse pertencer à família de um homem devoto; é seguro e con­ desaparecer por completo da criação. Observe nisto: 1. fortável viver sob tal proteção. Um dos filhos de Noé era O cuidado de Deus para com o homem, seu consolo e seu Cam, que posteriormente se mostrou um homem mau. benefício. Não notamos que Noé estivesse apreensivo Mesmo assim ele foi poupado na arca, o que indica: [1] consigo mesmo quanto a isso. Mas Deus se preocupa com Que filhos iníquos muitas vezes experimentam o melhor, a nossa felicidade, sim, mais do que nós mesmos. Embo­ devido à consideração que o Senhor Deus tem pelos seus ra Deus notasse que o mundo antigo era muito provoca­ pais devotos. [2] Que há uma mistura do bom com o mau dor, e antevisse que o novo seria pouco melhor, mesmo até mesmo nas melhores sociedades na terra, e não de­ assim, Ele preservou os animais irracionais para o uso vemos considerar isto estranho. Na família de Noé havia do homem. Tem Deus cuidado dos bois?, 1 Coríntios 9.9. Cam, e na família de Cristo havia Judas. Não há pureza Ou, ao contrário, o seu cuidado não visava o benefício do perfeita neste lado do céu. (5) Esta chamada feita a Noé homem? 2. Até mesmo os animais que não eram cerimofoi um modelo do chamado que o Evangelho faz aos infe­ nialmente limpos, que eram os menos valiosos e úteis, lizes pecadores. Cristo é uma arca já pronta, o único em foram preservados vivos na arca. Pois os cuidados afe­ quem conseguiremos estar a salvo quando a morte e o tuosos de Deus são sobre toda a sua obra, e não apenas julgamento chegarem. Agora, o refrão da canção é: “Ve­ sobre aquelas que são mais eminentes e úteis. 3. Todavia, nha, venha”. A palavra diz: “Venha”. Os ministros dizem: mais animais cerimonialmente limpos do que não limpos “Venha”. O Espírito diz: “Venha, entre na arca”. foram preservados. (1) Porque os limpos tinham mais 2. O motivo para esse convite é um testemunho mui­ utilidade para o homem. E, por isso, em benefício do ho­ to honroso da integridade de Noé: Porque te hei visto mem é que mais deles foram preservados e ainda são justo diante de mim nesta geração. Observe que: (1) São multiplicados. Graças a Deus que não existem manadas justos, verdadeiramente, aqueles que são vistos como de leões, como existem de bois, nem rebanhos de tigres, justos diante de Deus, que não têm somente o compor­ como há de ovelhas. (2) Porque os limpos eram para o I n 54 GÊNESIS 7 w. 5-10 sacrifício a Deus. E, por isso, em glória a Ele, mais des­ obtendo o objetivo desejado, isto fez com que o sangue ses foram preservados: três pares para procriação, e o deles fosse sobre as suas próprias cabeças. 2. Ele levou sétimo excedente para sacrifício, cap. 8.20. Deus nos dá consigo toda a sua família: sua esposa, para ser sua com­ seis por um em coisas terrenas, como na distribuição dos panheira e consolo (embora pareça que, depois disso, ele dias da semana, para que, nas coisas espirituais, sejamos não tenha tido filhos dela), seus filhos e as esposas de completamente dedicados a ele. Aquilo que é dedicado seus filhos, para que através deles, não apenas a sua fa­ à glória de Deus, e utilizado em seu serviço, é especial­ mília, mas o mundo da humanidade pudesse ser constru­ ído. Observe que embora os homens fossem reduzidos a mente abençoado e aumentado. um número tão pequeno, e fosse muito desejável ter o Aqui é dado um aviso da agora iminente apro- mundo rapidamente repovoado, ainda assim os filhos de í LJLJ» ximação da inundação: Passados ainda sete Noé teriam, cada um, apenas uma esposa, o que fortalece dias, farei chover sobre a terra, v. 4. 1. ‘Ainda se passa­ o argumento contra ter muitas esposas. Desde o princí­ rão sete dias antes que eu o faça”. Após os cento e vinte pio deste novo mundo, se seguiu a monogamia: foi assim anos se esgotarem, Deus lhes concede um adiamento de que Deus fez no início, e foi assim agora. Ele manteve a mais sete dias, para mostrar como Ele é tardio a se irar, mesma regra em vigor. Apenas uma mulher para cada e que o ato de punir lhe é estranho. O Senhor também homem. Veja Mateus 19.4,8. 3. Os animais irracionais estava lhes dando mais algum tempo para que se arre­ imediatamente entraram com ele. A mesma mão que, no pendessem. Mas foi tudo em vão. Os homens não sou­ início, os levou para que Adão lhes desse os seus nomes, beram aproveitar a preciosa oportunidade que estavam agora os levava a Noé, para serem preservados. O boi co­ recebendo. Em seqüência a todo o período de trégua, nhecia agora o seu possuidor, e o jumento, a manjedoura esses sete dias foram desperdiçados, pois não foram le­ de seu dono. Além disso, até as criaturas mais selvagens vados a sério pelos homens. Eles continuaram vivendo afluíram para ele. Porém o homem havia se tornado mais uma vida segura e carnal até o dia em que veio o dilúvio. animalesco do que os próprios animais, e não tinha co­ 2. “Serão apenas sete dias”. Enquanto Noé lhes falava nhecimento, não entendia, Isaías 1.3. do julgamento distante, eles eram tentados a postergar o seu arrependimento, pois ainda levaria muito tempo w. 11,12 para que a visão se cumprisse. Porém agora lhe é orde­ nado que diga a todos que o Senhor está à porta, que Eis aqui: eles têm apenas mais uma semana para se submeterem, apenas mais um sábado para aproveitar, para verificar agora se este, por fim, os despertará para considerarem 1" A data deste grande evento. Isto está cuidadosaas coisas das quais dependia a sua paz. De outra forma, JL mente registrado, para uma maior segurança da todo o bem logo seria ocultado de seus olhos. Porém é história. 1. Foi no 600.° ano da vida de Noé, o que, peíos cál­ comum que aqueles que foram descuidados com as suas almas durante os anos em que tinham saúde, ao contem­ culos, parece ser 1.656 anos após a criação. Os anos do plarem a morte à distância, se mostrem completamente mundo antigo são contados, não pelos reinados dos gi­ descuidados durante os dias, os sete dias de sua enfermi­ gantes, mas pela vida dos patriarcas. Os santos são de dade, mesmo vendo que o seu fim se aproxima. Eles têm, maior valor para Deus do que os príncipes. Os justos devem ser mantidos, permanente, em nossa memória. corações endurecidos pelo engano do pecado. Noé era, agora, um homem muito velho, mesmo quando se considera a idade que os homens alcançavam naquela época. Note que: (1) Quanto mais vivemos neste mundo, O Dilúvio mais vemos das misérias e calamidades dele; é por isso w. 5-10 que se fala daqueles que morrem jovens como se o fato Aqui está a pronta obediência de Noé às ordens que dos seus olhos não verem o mal que se aproxima fosse Deus lhe deu. Observe que: 1. Ele entrou na arca, ao ser um privilégio, 2 Reis 22.20. (2) As vezes, Deus exercita os informado de que a inundação viria após sete dias, embo­ seus servos antigos com provas extraordinárias de paci­ ra provavelmente o sinal de sua aproximação ainda não ência e obediência. Os mais velhos dos soldados de Cristo fosse visível, não havendo nenhuma nuvem ameaçadora não devem ter esperança de serem dispensados de seu no horizonte, e nada que a indicasse. Ao contrário, tudo combate até que a morte os libere. Eles devem, ainda, se continuava sereno e claro. Pois, assim como ele preparou equipar com a sua armadura, e não se vangloriar como a arca pela fé no aviso de que a inundação viria, da mes­ se a houvessem tirado. 2. O ano do dilúvio foi registrado. Lemos que ele ma maneira, ele entrou nela pela fé no aviso de que ela viria rapidamente, embora ainda não percebesse o iní­ ocorreu no segundo mês, no décimo sétimo dia do mês, o cio da ação das causas secundárias. Em cada passo que que é calculado como sendo aproximadamente o início de dava, Noé se movia pela fé, e não pela razão. Durante novembro. Deste modo, entendemos que Noé acabara de estes sete dias, é provável que ele estivesse assentando realizar uma colheita, com a qual abasteceu a sua arca. a si e a sua família na arca e distribuindo as criaturas As causas secundárias que concorreram para este em seus diferentes compartimentos. Esta era a conclu­ dilúvio. Observe que: são daquele manifesto sermão que ele, há muito tempo, 1. Exatamente no mesmo dia em que Noé foi colo­ vinha pregando aos seus vizinhos negligentes, o qual, seria de se pensar, podia tê-los despertado. Porém, não cado na arca, a inundação teve início. Note que: (1) Os GÊNESIS 7 w. 13-16 julgamentos desoladores não chegam até que Deus te­ Deus, e Ele faz delas o uso que desejar, quer para cor­ nha providenciado a segurança do seu próprio povo. Veja reção, ou para a sua terra, ou para algum gesto de mi­ cap. 19.22: Nada poderei fazer, enquanto não tiveres ali sericórdia, como Eliú fala da chuva, Jó 37.12,13. (2) Que chegado. E também vemos (Ap 7.3) que os ventos são Deus, muitas vezes, permite que aquilo que deveria ser contidos até que os servos de Deus estejam selados. (2) para o nosso bem estar se torne uma armadilha, Salmos Quando os homens bons são retirados, os julgamentos 69.22. Aquilo que geralmente é, para nós, um consolo e não estão distantes. Pois eles são afastados do mal que benefício, se transforma, quando Deus permite, em al­ está para chegar, Isaías 57.1. Quando eles são chamados gum flagelo e em alguma praga para nós. Nada é mais para as suas câmaras, escondidas na sepultura, ocultas necessário nem útil do que a água, sejam as fontes da no céu, então Deus sai do seu lugar para punir os iníquos, terra como também as chuvas do céu. Mesmo assim, Isaías 26.20,21. naquele momento nada era mais prejudicial, nem mais 2. Veja o que foi feito naquele dia, naquele dia fatal destrutivo: toda criatura é, para nós, aquilo que Deus faz para o mundo dos incrédulos. (1) As fontes do grande com que ela seja para nós. (3) Que é impossível escapar abismo se romperam. Talvez não tenha sido necessária dos justos julgamentos de Deus quando eles acontecem uma nova criação de águas. Aquelas que já haviam sido contra os pecadores com autoridade. Pois Deus pode ar­ criadas, no curso normal da providência, como bênçãos mar tanto o céu como a terra contra eles. Veja Jó 20.27. para a terra, eram agora, através de um ato extraordi­ Deus pode cercar os homens com os mensageiros de sua nário do poder divino, transformadas em sua destruição. ira, de forma que, se eles olharem para o alto, sentirão Deus pôs os abismos em tesouros (SI 33.7), e agora Ele horror e espanto. Se olharem para a terra, contemplarão desmanchou esses depósitos. Assim como nossos cor­ angústia e escuridão, Isaías 8. 21,22. Quem, então, é ca­ pos têm em si mesmos fluídos que, quando Deus permi­ paz de ficar diante de Deus, quando Ele está furioso? (4) te, se tornam as sementes e fontes de doenças mortais, Nesta destruição do mundo antigo pela água, Deus deu da mesma forma a terra tinha entranhadas em si essas uma amostra da destruição final do mundo, que agora águas que, ao comando de Deus, se levantaram e a inun­ acontecerá pelo fogo. Encontramos o apóstolo contra­ daram. Deus havia, na criação, estabelecido barreiras e pondo um contra o outro, 2 Pedro 3.6,7. Assim como há portas para as águas do mar, para que elas não tornassem águas sob a terra, da mesma forma o Etna, o Vesúvio e a cobrir a terra (SI 104.9; Jó 38.9-11). E agora Ele apenas outros vulcões, proclamam para o mundo que há fogos removeu esses antigos limites, montes e barreiras, e as subterrâneos também. E o fogo muitas vezes cai do céu. águas do mar voltaram a cobrir a terra, assim como ha­ Muitas devastações são causadas por raios. Deste modo, viam feito no início, cap. 1.9. Note que todas as criaturas quando o tempo predeterminado chegar, a terra e todas estão prontas para lutar contra o homem pecaminoso, e as obras que nela há serão destruídas entre esses dois qualquer uma delas está apta a ser o instrumento de sua fogos, assim como a enchente se levantou sobre o mundo destruição, se Deus apenas retirar as restrições através antigo: tanto das fontes do grande abismo como também das quais elas são refreadas durante o dia da sua paci­ através das janelas do céu. ência. (2) As janelas do céu foram abertas e as águas que estavam acima do firmamento foram derramadas sobre o mundo. Aqueles tesouros que Deus reteve até o tempo da w. 13-16 angústia, o dia da peleja e da guerra, Jó 38.22,23. A chuva que comumente desce em gotas, naquele tempo veio em Aqui é repetido o que foi relatado anteriormente so­ torrentes ou jatos, como eles os chamam nas índias, onde bre a entrada de Noé na arca, com a sua família e as cria­ as nuvens são conhecidas por muitas vezes explodir, como turas que foram designadas para a preservação. Neste eles dizem por lá, quando a chuva desce em uma torren­ momento: te muito mais violenta do que jamais vimos nos maiores aguaceiros. Lemos (Jó 26.8) que Deus prende as águas em As palavras são repetidas para a glória de Noé, cuja suas densas nuvens, e as nuvens não se rasgam debaixo fé e obediência se mostraram aqui tão claramente, delas. Mas agora, o laço era frouxo e a nuvem se rasgou, através das quais ele alcançou uma boa reputação e que e chuvas caíram como nunca se viu antes nem depois, neste relato parecia um favorito tão grande do Céu e em tamanha abundância e com tamanha continuidade. A uma bênção tão grande para esta terra. densa nuvem não estava - como normalmente acontece - saturada de umidade (Jó 37.11), desfazendo-se e en­ Aqui se dá atenção aos animais entrando confor­ fraquecendo-se rapidamente, exaurindo-se desta forma. me a sua espécie, de acordo com a expressão uti­ Mas as nuvens sempre voltavam, após a chuva, e o poder lizada na história da criação (cap. 1.21-25), para indi divino trazia novos reforços. Choveu, sem interrupção ou que todas as espécies que foram criadas no princíp redução, quarenta dias e quarenta noites (v. 12), e isso ao estavam sendo preservadas agora, e não em algum mesmo tempo, sobre a terra inteira, não como às vezes, tro momento. E que esta preservação era como uma sobre uma cidade e não sobre a outra. Deus criou o mundo nova criação. Desta forma, pode-se dizer que uma vida em seis dias, mas gastou quarenta dias para destruí-lo, notavelmente favorecida é - como foi naquela ocasião pois o precioso Senhor é tardio para se irar. Mas, embora uma nova vida. a destruição tenha vindo de uma forma lenta e gradual, ainda assim ela chegou com eficácia. Embora todas as inimizades e hostilidades en­ 3. Nestas circunstâncias, aprendemos algumas li­ tre as criaturas cessassem por ora - e as cria­ ções: (1) Que todas as criaturas estão à disposição de turas vorazes não só estivessem tão dóceis e controláveis 55 I n 56 GÊNESIS 7 w. 17-20 a ponto do lobo e do cordeiro se deitarem juntos, mas tão ção dela: isto não está em nosso poder, mas nas mãos do estranhamente alterados a ponto do leão comer palha Mediador. 4. A porta da benignidade logo será fechada como um boi (Is 11.6,7) mesmo assim, quando terminou para aqueles que agora não a levam a sério. Agora está esta condição - este freio foi retirado e eles continuaram em vigor a bondade e a longanimidade: batei e abrir-sea agir como de costume. Pois a arca não alterou a cons­ vos-á. Mas chegará o tempo em que a porta não se abrirá tituição deles. Os hipócritas que alegam fazer parte da mais, Lucas 13.25. igreja, que exteriormente obedecem às leis desta arca, podem mesmo assim permanecer inalterados, e então w. 17-20 mostrarão, uma hora ou outra, de que espécie são. É acrescentado (e a circunstância merece a nos­ sa atenção): O Senhor a fechou por fora, v. 16. Assim como Noé prosseguia em sua obediência a Deus, Deus também continuava em seu cuidado para com Noé. E neste ponto, parecia ser um cuidado muito especial. Pois o fechamento dessa porta estabelecia, adicional­ mente, uma parede divisória entre ele e o mundo todo. Deus fechou a porta: 1. Para lhe dar segurança e man­ tê-lo a salvo na arca. A porta deveria ser bem fechada, para que as águas não invadissem e afundassem a arca, e muito forte para que nada exterior a derrubasse. Assim Deus criou Noé, da mesma maneira como Ele faz as suas jóias, Malaquias 3.17. 2. Para excluir todos os outros, e mantê-los de fora para sempre. Até aqui, a porta da arca se manteve aberta, e, se qualquer um deles, mesmo du­ rante os últimos sete dias, tivesse se arrependido e crido, que eu saiba eles poderiam ter sido bem recebidos na arca, Mas agora a porta estava fechada e eles estavam excluídos de todas as esperanças de aceitação: pois Deus fechou e ninguém poderia abrir. V Aqui nos é contado: T Por quanto tempo as águas estiveram subindo - quaJL renta dias, v. 17. O mundo profano, que não acredi­ tava que isto pudesse acontecer, provavelmente tenha se persuadido, quando o fato aconteceu. Os incrédulos podem ter tido esperanças de que as águas logo dimi­ nuiriam e nunca chegariam ao extremo. Mas elas ainda cresciam e prevaleciam. Note que: 1. Quando Deus julga, Ele sobrepuja tudo e todos. Se Ele começar, Ele termi­ nará. Seu caminho é perfeito, tanto em juízo como em misericórdia. 2. As abordagens e avanços graduais dos juízos de Deus, que são planejados para levar os pecado­ res ao arrependimento, são muitas vezes utilizados erro­ neamente pelos próprios pecadores, e o resultado é que eles se endurecem em sua arrogância e obstinação. I Até que ponto as águas cresceram: elas subiram J l tanto que náo apenas as baixas regiões planas fo­ ram inundadas, mas - para fazer um trabalho garantido, e para que nada pudesse escapar - os topos das montanhas mais altas foram alagados - quinze côvados, ou seja, sete jardas e meia. Deste modo, em vão se esperaria a salva­ ção nos outeiros e montanhas, Jeremias 3.23. Nenhuma quer das criaturas de Deus é tão alta, mas o seu poder pode se elevar muito acima delas. E o Senhor fará com que todos saibam que Ele os supera infinitamente naquilo em que se ensoberbecem. Talvez os altos das montanhas tenham sido sobrepujados pela força das águas - o que muito ajudou as águas a prevalecerem sobre elas - pois é dito (Jó 12.15) que o Senhor controla as águas e elas não apenas transbordam, mas transtornam a terra. Assim, o refúgio das mentiras foi varrido e as águas inundaram o esconderijo dos pecadores (Is 28.17), e é em vão que eles fogem para elas em busca de segurança, Apocalipse 6.16. Agora, as montanhas desapareceram e os montes foram removidos, e nada serviu a um homem exceto o concerto da paz, Isaías 54.10. Não há lugar na terra tão alto a pon­ to de colocar os homens fora do alcance dos julgamentos de Deus, Jeremias 49.16; Obadias 3,4. A mão de Deus alcançará todos os seus inimigos, Salmos 21.8. Observe com que precisão as águas são medidas (quinze côvados), não pelo prumo de Noé, mas pelo conhecimento Daquele que tomou a medida das águas, Jó 28.25. TT Há muito do nosso dever e privilégio evangélico para ser visto na preservação de Noé na arca. O apóstolo faz disto uma figura do nosso batismo, dizer, da nossa situação abençoada como cristãos, 1 Pe­ dro 3.20,21. Observe, então: 1. É nosso nobre dever, em obediência ao chamado do Evangelho, através de uma fé viva em Cristo, entrar no caminho da salvação, o qual Deus providenciou para os infelizes pecadores. Quando Noé entrou na arca, ele abandonou a sua própria casa e terras. Assim devemos nós abandonar a nossa própria justiça e as nossas posses terrenas, sempre que elas en­ trarem em competição com Cristo. Noé deve, por algum tempo, se submeter ao confinamento e às inconveniên­ cias da arca, a fim de assegurar a sua preservação para um novo mundo. Assim, aqueles que aceitam a Cristo para serem salvos por Ele, devem negar a si mesmos, tanto nos sofrimentos quanto nos serviços que prestam ao Senhor. 2. Aqueles que vierem para a arca deverão trazer consigo tantos quantos puderem através de en­ sinos virtuosos, da persuasão e do bom exemplo. Donde sabes, ó marido, se salvarás tua mulher (1 Co 7.16), como Noé salvou a dele? Em Cristo há lugar para todos aque­ les que quiserem estar em sua doce presença. 3. Aqueles que pela fé aceitam a Cristo, que é a Arca da salvação, O que aconteceu com a arca de Noé quando as serão, pelo poder de Deus, guardados e mantidos como águas subiram desse modo: Ela foi levantada em uma fortaleza pelo poder de Deus, 1 Pedro 1.5. Deus sobre a terra (v. 17), flutuava e se movia sobre a su colocou Adão no paraíso, mas não o prendeu. E assim cie das águas, v. 18. Enquanto todas as outras edific o próprio Adão se desqualificou e causou a sua própria eram destruídas pelas águas e sepultadas sob elas, so expulsão. Porém, quando o Senhor colocou Noé dentro da arca, Ele o prendeu. Da mesma forma, quando o pre­ te a arca subsistiu. Observe que: 1. As águas que demo­ cioso Deus traz uma alma a Cristo, Ele assegura a salva­ liram todas as outras coisas, sustentaram a arca. Aquilo m w. 21-24 GÊNESIS 7 57 que para os incrédulos é um cheiro de morte para morte, morreram. Todos (w. 21,23), e talvez eles fossem tão nu­ para os crentes é um cheiro de vida para vida. 2. Quanto merosos quanto são hoje sobre a face da terra, se não mais as águas cresciam, mais alto a arca era levantada mais. Assim sendo: (1) Nós podemos facilmente imaginar em direção ao céu. Dessa forma, as aflições santificadas quanto terror e consternação se apossaram deles quando são promoções espirituais. E assim como as dificuldades se viram cercados. Nosso Salvador nos conta que até no próprio dia em que o dilúvio veio, eles estavam comen­ abundam, as consolações abundam muito mais. do e bebendo (Lc 17.26,27). Eles estavam mergulhados em despreocupação e luxúria antes que fossem afogados naquelas águas, clamando por paz, paz para eles mes­ w. 21-24 mos, que se fizeram de surdos e cegos para com todos os avisos divinos. Nessa situação, a morte os surpreendeu Eis aqui: como em 1 Samuel 30.16,17. Mas, ó que assombro foi o T A destruição geral de toda carne pelas águas do di- deles, então! Agora eles vêem e sentem aquilo no que JL lúvio. Vinde e contemplai as desolações que Deus não creram e nem temeram, e são convencidos de sua faz na terra (SI 46.8), e como Ele assenta monte sobre loucura em uma ocasião em que é tarde demais. Agora monte. A morte nunca triunfou desde a sua primeira eles não encontram nenhuma condição para arrependi­ aparição até este dia, como o fez então. Vem e vê a mor­ mento, embora a busquem cuidadosamente com lágri­ te sobre o seu cavalo amarelo, e o inferno que a segue, mas. (2) Nós podemos supor que eles tentaram todos os modos e meios possíveis para sua preservação, mas tudo Apocalipse 6.7,8. 1. Todo gado, aves e répteis, morreram, exceto os foi em vão. Alguns sobem no topo das árvores ou das poucos que estavam na arca. Observe como isto é repe­ montanhas, e lá prolongam os seus terrores por algum tido: toda a carne expirou, v. 21. Toda aquela em cujas tempo. Mas o dilúvio os alcança, finalmente, e eles são narinas estava o sopro da vida, de tudo que estava em forçados a morrer tendo refletido ainda mais sobre o as­ terra seca, v. 22. Toda substância viva, v. 2-3. E por quê? sunto. Alguns, é provável, agarram-se à arca, e esperam O homem só f'izera o mal e assim, de forma justa, a mão que aquilo que durante um longo tempo havia sido a sua de Deus se levanta contra ele. Porém o que haviam feito diversão, possa agora ser a sua segurança. Talvez alguns as ovelhas? A esta pergunta, eu respondo: (1) Estamos tenham alcançado o teto da arca e conseguido se arran­ certos de que Deus não lhes fez mal. Ele é o sobera­ jar ali. Mas ou eles pereceram lá por falta de comida, ou, no Senhor de toda a vida, pois Ele é a sua única fonte através de uma rápida queda, ou ainda um jato de chuva e o seu único Criador. Ele, que as criou conforme lhe os tenha arrastado para fora daquele convés. Outros, aprouve, podia desfazê-las quando lhe agradasse. E é possível, esperavam persuadir Noé a permitir a sua quem poderia lhe dizer: O que fazes? Será que o Onipo­ entrada na arca, e alegavam que o conheciam há muito tente não tem o direito de fazer aquilo que desejar com tempo: Não comemos e bebemos em tua presença? Não aqueles que lhe pertencem, e que foram criados para o ensinastes em nossas ruas? “Sim”, Noé poderia dizer, seu deleite? (2) Deus, de maneira admirável, serviu o “isso eu fiz, várias vezes, inutilmente. Eu clamei, e vós propósito de sua própria glória através da destruição, recusastes. Rejeitastes todo o meu conselho (Pv 1.24,25), bem como da criação deles. Neste ponto, a sua santi­ e agora não está em meu poder vos ajudar: Deus fechou dade e justiça foram muito engrandecidas. Parece, por a porta, e eu não posso abri-la”. Assim será no grande conta disso, que Ele odeia o pecado, e está altamente dia. Alcançar uma posição de destaque na hierarquia descontente com os pecadores, quando até mesmo as religiosa, ou alegar ter um relacionamento com pessoas criaturas inferiores, por servirem ao homem e serem boas não poderá levar os homens ao céu, Mateus 7.22; parte de suas posses, e por terem sido corrompidas 25.8,9. Aqueles que não forem encontrados em Cristo, para servir ao pecado, são destruídas com o homem. que é a Arca, serão certamente destruídos, destruídos Isto torna o julgamento ainda mais extraordinário, mais para sempre. A salvação em si não pode salvá-los. Veja terrível e, consequentemente, ainda mais expressivo da Isaías 10.3. (3) Podemos supor que alguns daqueles que ira e da vingança de Deus. A destruição das criaturas morreram no dilúvio ajudaram Noé, ou foram emprega­ foi a sua libertação da servidão da corrupção, por cuja dos por ele na construção da arca, e mesmo assim não libertação toda a criação agora geme, Romanos 8.21,22. foram tão sábios a ponto de, através do arrependimento, Este foi, da mesma maneira, um exemplo da sabedoria garantir para si um lugar nela. Desse modo os maus mi­ de Deus. Assim como as criaturas foram criadas para o nistros, embora possam ter sido instrumentos para aju­ homem, quando ele foi criado, elas também foram mul­ dar outros a alcançar o céu, serão lançados no inferno. Façamos uma pausa por algum tempo e avaliemos tiplicadas para ele, quando ele se multiplicou. Portanto, agora que a humanidade fora reduzida a um número esse espantoso julgamento! Deixemos os nossos corações tão pequeno, era adequado que os animais fossem pro­ meditarem sobre o terror, o terror dessa destruição. Que porcionalmente reduzidos, caso contrário, eles teriam o vejamos e digamos, É uma coisa terrível cair nas mãos domínio e teriam repovoado a terra, e o restante da hu­ do Deus vivo. Quem pode ficar diante dele quando Ele manidade que sobrara teria sido sobrepujado por eles. está zangado? Que vejamos e digamos: É uma coisa ruim Veja como Deus levou isto em conta em outra situação, e amarga afastar-se de Deus. Sem arrependimento, o Êxodo 23.29: Para que... as feras do campo se não mul­ pecado dos pecadores será a primeira ou a última causa de sua destruição. Deus sempre foi e sempre será ver­ tipliquem contra ti. 2. Todos os homens, mulheres, e crianças que es­ dadeiro. Ainda que junte mão a mão, ainda assim o mau tavam no mundo (exceto aqueles que estavam na arca) não ficará sem castigo. O Deus justo sabe como trazer w. 1-3 GÊNESIS um dilúvio sobre o mundo dos ímpios, 2 Pedro 2.5. Elifaz recorre a essa história como um alerta permanente para um mundo indiferente (Jó 22.15,16): Porventura consi­ deraste a vereda do passado, que pisaram os homens iníquos? Estes são os que foram arrebatados antes do seu tempo, e enviados para a eternidade, aqueles cujo fundamento foi submerso pelo dilúvio. T T A excepcional preservação de Noé e sua família: JL.. Apenas Noé, e aqueles que estavam com ele na arca, permaneceram vivos, v. 23. Observe que: 1. Noé vive. Enquanto todos ao redor dele eram monumentos de justi­ ça, mil caindo ao lado dele, e dez mil à sua direita, ele era um símbolo de misericórdia. Somente com os seus olhos ele poderia contemplar e ver a recompensa dos ímpios, Salmos 91.7,8. No transbordar de muitas águas, estas a ele não chegarão, Salmos 32.6. Nós temos razões para pensar que enquanto a longanimidade de Deus espera­ va, Noé não só pregou para, mas orou por, aquele mundo maligno, e teria afastado a ira. Mas as suas orações re­ tornaram para seu próprio peito, e responderam apenas por sua própria salvação, que é claramente mencionada em Ezequiel 14.14: Noé, Daniel e Jó livrariam apenas as suas próprias almas. Um sinal de honra será posto sobre os intercessores. 2. Ele apenas vive. Noé permanece vivo, e isso é tudo. Ele está, de fato, enterrado vivo - confinado em um lugar fechado, alarmado com os pavores da chuva que cai, a inundação crescente, e os gritos e os clamores de seus vizinhos perecendo, seu coração dominado por pen­ samentos melancólicos pela devastação que estava sendo feita. Mas ele se consola com isso, que ele está no caminho do dever e no caminho da salvação. E nós somos ensina­ dos (Jr 45.4,5) que quando os julgamentos devastadores estão por toda parte, nós não devemos buscar grandezas nem coisas agradáveis para nós mesmos, mas considerar como um favor indescritível o fato da nossa vida nos ser dada como um despojo. Ca pítu lo 8 No encerramento do capítulo anterior deixamos o mundo em ruínas e a igreja em dificuldades. Mas neste capítulo temos o conserto de um e o aumento do outro. Agora o cenário muda, e uma outra face das coisas começa a nos ser apresentada, e o lado mais brilhante daquela nuvem que pareceu tão ne­ gra e escura. Porque, embora Deus contenda por muito tempo, Ele não contenderá para sempre, nem ficará irado sempre. Temos aqui: I. A terra renova­ da, pela suspensão das águas, e o aparecimento da terra seca, agora uma segunda vez, e ambas gradu­ ais. 1. O aumento das águas cessou, w. 1,2. 2. Elas começam a diminuir sensivelmente, v. 3. 3. Após dezesseis dias de refluxo, a arca atraca, v. 4.4. Após sessenta dias de refluxo, os topos das montanhas apareceram acima das águas, v. 5.5. Após quarenta dias de refluxo, e vinte dias antes das montanhas aparecerem, Noé começou a enviar os seus espias, um corvo e uma pomba, para obter informações, w. 6-12. 6. Dois meses depois do aparecimento do topo 8 58 das montanhas, as águas desapareceram, e a face da terra se secou (v. 13), embora só fosse ficar seca o bastante para o homem quase dois meses depois, v. 14. II. 0 homem se fixou novamente na terra, na qual ocorreu, 1. A saída de Noé, de sua família, e de toda a carga da arca, w. 15-19. 2. Seu sacrifício de louvor a Deus pelos benefícios recebidos, v. 20. 3. A aceitação, por parte de Deus, de seu sacrifício, e a conseqüente promessa de nunca mais inundar o mundo, w. 21,22. E assim, finalmente, a misericór­ dia se alegra contra o juízo. A Terra Torna-se Seca w. 1-3 Aqui está: ato da graça de Deus: Lembrou-se Deus de Noé, Ira dosUm e de todo animal. Esta é uma expressão à manei­ homens. Porque nenhuma de suas criaturas (Lc 12.6), muito menos alguém do seu povo está esquecido por Deus, Isaías 49.15,16. Mas: 1. Toda a raça humana, exceto Noé e sua família, estava agora extinta, e lançada na terra do esquecimento, para não ser mais lembrada. De forma que Deus ter se lembrado de Noé foi o retorno de sua misericórdia à humanidade, que Ele não destruiria totalmente. Há uma expressão aparentemente estranha em Ezequiel 5.13: Assim, se cumprirá a minha ira, e sa­ tisfarei neles o meu furor e me consolarei. As exigências da justiça divina tinham sido atendidas pela destruição daqueles pecadores. Ele tinha se consolado quanto aos seus adversários (Is 1.24), e agora o seu espírito estava repousado (Zc 6.8), e Ele se lembrou de Noé e de todos os animais. O Senhor se lembrou da misericórdia em meio à sua ira (Hb 3.2), lembrou-se dos dias da antiguidade (Is 63.11), lembrou-se da santa semente, e então lembrouse de Noé. 2. O próprio Noé, embora sendo alguém que achou graça aos olhos do Senhor, pareceu ter sido es­ quecido na arca, e talvez tenha começado a pensar desta forma. Porque não encontramos que Deus tenha lhe dito quanto tempo ele deveria ficar confinado e quando seria solto. Homens muito bons às vezes chegam à conclusão de que foram esquecidos por Deus, especialmente quando as suas aflições têm sido excessivamente penosas e longas. Talvez Noé - embora sendo um grande crente - quando percebeu que a inundação continuava por muito tempo após ter presumivelmente atingido o seu objetivo, tenha sido tentado a temer que aquele que o havia encerrado dentro da arca o manteria ali, e assim poderia ter começa­ do a se queixar. Por quanto tempo te esquecerás de mim? Mas por fim Deus se voltou a ele em misericórdia, e isto é expresso através da lembrança dele. Note que aqueles que se lembrarem de Deus certamente serão lembrados por Ele, por mais que a sua condição possa ser desoladora e desanimadora. O Senhor designa um tempo, e se lembra de cada um de nós, Jó 14.13.3. Com Noé, Deus se lembrou de todos os animais. Porque, embora o seu prazer esteja especialmente nos filhos dos homens, Ele se alegra em todas as suas obras, e não odeia nada do que fez. Ele tem um cuidado especial, não só com as pessoas do seu povo, mas também com os seus bens - o Senhor cuida deles e de w. 4,5 GÊNESIS 8 59 tudo quanto possuem. Ele teve compaixão dos animais de Noé, sentir que a casa dentro da qual ele se encontrava estava em terra firme, e não se movia mais. Ela repousou Nínive, Jonas 4.11. sobre um monte, para onde foi dirigida, não pela prudên­ 1”T Um ato do poder de Deus sobre o vento e a água. cia de Noé (ele não a guiou), mas pela providência sábia e i X Ambos estão à sua disposição, embora nenhum misericordiosa de Deus, para que logo pudesse repousar. Note que Deus tem tempos e lugares de descanso para deles esteja sob o controle do homem. Observe: 1. Ele ordenou ao vento, e lhe disse, Vá, e ele foi, o seu povo depois de suas turbulências. E muitas vezes a fim de acabar com a inundação: Deus fez passar um Ele providencia um momento de tranqüilidade oportuno vento sobre a terra. Veja aqui: (1) Qual foi a lembrança e confortável sem o nosso próprio planejamento, e muito de Deus de Noé: foi libertá-lo. Observe que aqueles de além de nossa própria previsão. A arca da igreja, embora quem Deus se lembra, Ele se lembra efetivamente, para seja lançada de um lado para outro pelas tempestades, sempre. Ele se lembra de nós para nos salvar, para que e não seja confortada (Is 54.11), tem os seus repousos, possamos nos lembrar dele para servi-lo. (2) Que domí­ Atos 9.31. 2. Apareceram os cumes dos montes, como nio soberano Deus possui sobre os ventos. Ele os tem em pequenas ilhas, logo acima da água. Devemos supor seus punhos (Pv 30.4) e os tira dos seus tesouros, Salmos que eles foram vistos por Noé e por seus filhos. Pois não 1-35.7. Ele os manda quando quiser, onde quiser, e para havia ninguém além deles para vê-los. É provável que cumprir os propósitos que quiser. Até mesmo os ventos eles olhassem pela janela da arca todos os dias, como an­ tempestuosos cumprem a sua palavra, Salmos 148.8. siosos marinheiros depois de uma viagem tediosa, para Parece que, enquanto as águas aumentavam, não havia ver se poderiam descobrir terra, ou ainda como o ser­ vento. Pois isto provocaria um balanço excessivo da arca. vo do profeta (1 Rs 18.43,44). Por fim, viram a terra e Mas agora Deus enviou um vento, quando não seria um registraram este dia da descoberta em seu diário. Eles transtorno. Provavelmente, era um vento norte, porque tocaram a terra quarenta dias antes de vê-la, de acordo este afasta a chuva. No entanto, era um vento seco, um com o cálculo do Dr. Lightfoot, de onde ele deduz que, se vento semelhante ao vento que Deus enviou para dividir as águas diminuíram proporcionalmente, a arca baixou onze côvados na água. o Mar Vermelho diante de Israel, Êxodo 14.21. 2. Deus deu nova ordem às águas, e lhes disse: Ve­ nham, e elas vieram. (1) O Senhor removeu a causa. Ele w. 6-12 cerrou as fontes daquelas águas, as fontes do abismo e as janelas dos céus. Observe: [1] Assim como Deus tem Temos aqui um relato dos espias que Noé enviou a chave para abrir, Ele também tem a chave para fechar novamente, e reter o progresso dos juízos fazendo pa­ para lhe trazer informações do lado de fora: um corvo e rar as suas causas. E a mesma mão que traz a desolação uma pomba. Observe aqui: deve trazer o livramento. Portanto, a nossa atenção deve estar focada nesta boa mão. Aquele que fere é o único T Que embora Deus tivesse dito a Noé particularmente que é capaz de curar. Veja Jó 12.14,15. [2] Quando as afli­ JL quando a inundação viria, até mesmo o dia (cap. 7.4), ções já operaram aquilo para que foram enviadas, seja Ele não lhe deu um relato específico por revelação sobre a operação da morte ou a operação da cura, elas devem a duração, e por que etapas ela iria embora: 1. Porque ser removidas. A palavra de Deus não voltará vazia, Isa- o conhecimento do primeiro foi necessário para que ele ías 55.10,11. (2) Então o efeito cessou. Não de imediato, preparasse a arca, e entrasse nela. Mas o conhecimento mas gradualmente: E aquietaram-se as águas (v. 1), e do segundo só serviria para satisfazer a sua curiosidade, as águas tornaram de sobre a terra continuamente. Em e a ocultação disto a ele seria o exercício necessário de hebraico, elas estavam indo e retornando (v. 3), o que de­ sua fé e paciência. E: 2. Noé não poderia prever a inun­ nota uma saída gradual. O calor do sol evaporou boa par­ dação, exceto por revelação. Mas ele poderia, por meios te, e talvez as cavernas subterrâneas tenham absorvido comuns, descobrir a diminuição dela, e assim Deus se mais. Note que assim como a terra não foi inundada em agradou em deixá-lo usar estes meios. um dia, ela também não foi seca em um dia. Na criação, foi a obra de apenas um dia remover as águas de sobre Tf T Que embora Noé pela fé esperasse a sua libertaa terra que a cobria, e torná-la terra seca. Foi obra de X JL ção, e pela paciência tenha aguardado por ela, ele apenas meio dia, cap. 1.9,10. Mas, tendo a obra da criação estava curioso a esse respeito, como alguém que conside­ terminado, esta obra da providência foi efetuada pela in­ rava muito tempo para ficar assim confinado. Note que fluência simultânea de causas secundárias, e executada os desejos de sair de dificuldades, das expectativas ar­ deste modo pelo grande poder de Deus. Deus geralmen­ dentes, e das indagações sobre os seus avanços em nossa te opera o livramento ao seu povo gradualmente, para direção, concordarão muito bem com a sinceridade da fé que o dia das pequenas coisas não seja desprezado, nem e da paciência. Aquele que crê não se apressa para cor­ o dia das grandes coisas provoque desespero, Zacarias rer diante de Deus, mas se apressa para se apresentar 4.10. Veja Provérbios 4.18. a Ele, para encontrá-lo, Isaías 28.16. Particularmente: 1. Noé enviou um corvo pela janela da arca, que ia, como se lê na frase em hebraico, indo e voltando, isto é, voando w. 4,5 pelas redondezas, e se alimentando das carcaças que flu­ tuavam, mas voltando para a arca para repousar. Prova­ Aqui temos os efeitos e as evidências do refluxo das velmente não dentro dela, mas sobre ela. Isto deu a Noé águas. 1. A arca repousou. Isto foi uma satisfação para pouca satisfação. Assim: 2. Ele enviou uma pomba, que GÊNESIS 8 w. 13,14 60 voltou na primeira vez sem boas notícias, mas que prova­ Noé. Observe que embora Noé tenha visto a terra seca velmente estivesse molhada e suja. Mas, na segunda vez, no primeiro dia do primeiro mês, Deus não permitiu que ela trouxe uma folha de oliveira em seu bico, que pareceu ele saísse da arca até aos vinte e sete dias do segundo ter sido arrancada, uma clara indicação de que agora as mês. Alguns pensam que talvez Noé, estando um pou­ árvores, as árvores frutíferas, começavam a aparecer co cansado de sua reclusão, se fosse possível teria saído acima da água. Observe aqui: (1) Que Noé enviou a pom­ da arca a princípio. Mas Deus, em um gesto de bondade ba pela segunda vez sete dias depois da primeira vez, e para com Noé, ordenou que ele permanecesse ali por que a terceira vez também foi depois de sete dias. E pro­ muito mais tempo. Note que Deus leva em considera­ vavelmente a primeira vez que ela foi enviada ocorreu ção o nosso benefício em vez dos nossos desejos. Porque sete dias depois do envio do corvo. Isto indica que esta Ele sabe - melhor do que nós mesmos - o que é melhor experiência foi feita no sábado. Parece que Noé obser­ para nós, e por quanto tempo as nossas restrições de­ vava este dia religiosamente na arca. Tendo mantido o vem continuar e as misericórdias desejadas devem ser sábado em uma reunião solene de sua pequena igreja, postergadas. Nós teríamos saído da arca antes da terra ele então esperava bênçãos especiais do céu, e indagava estar seca. E, talvez, sabendo que a porta estava fecha­ a respeito delas. Tendo dirigido a sua oração, ele olhou da, estaríamos prontos a tirar a cobertura, e subir por para cima, Salmos 5.3. (2) A pomba é um símbolo de uma algum outro caminho. Mas devemos ficar satisfeitos pelo alma bondosa que, não encontrando repouso para o seu fato de que o tempo de Deus para mostrar misericórdia pé, nenhuma paz ou satisfação sólida neste mundo, neste é certamente o melhor tempo. Ele o faz quando a mi­ mundo que está submerso em corrupções e contamina­ sericórdia está madura para nós, e quando nós estamos ções, volta para Cristo como a sua arca, como se estives­ preparados para ela. se voltando para o seu Noé. O coração carnal, como o corvo, associa-se ao mundo, e se alimenta das carniças que encontra ali. Mas volta, minha alma, a teu repouso, w. 15-19 ao teu Noé. Assim é a palavra, Salmos 116.7. Ah! Quem me dera asas como de pomba, para voar a ele!, Salmos Aqui temos: 55.6. E assim como Noé estendeu a sua mão, e pegou a pomba, e a trouxe para si, para dentro da arca, também T A saída de Noé da arca, w. 15-17. Observe: 1. Noé Cristo, com grande misericórdia, preservará, ajudará e X não saiu até que Deus lhe ordenou. Assim como ele receberá aqueles que voarem até Ele em busca de des­ recebeu uma ordem para entrar na arca (cap. 7.1), por canso. (3) O ramo de oliveira, que era um símbolo de paz, mais tedioso que fosse o seu confinamento, ele iria espe­ foi trazido, não pelo corvo, uma ave de rapina, não por rar também por uma ordem para sair dela. Note que de­ um alegre e orgulhoso pavão, mas por uma pomba man­ vemos, em todos os nossos caminhos, reconhecer a Deus, sa, paciente e humilde. E uma disposição semelhante à e colocá-lo diante de nós em todas as nossas mudanças. de uma pomba que traz para a alma sentimentos de des­ Somente aqueles que seguem a direção de Deus e se su­ canso e alegria. (4) Alguns fazem disso uma ilustração. A jeitam ao seu governo, é que permanecem sob a proteção lei foi apresentada pela primeira vez como o corvo, mas de Deus. Aqueles que aderem firmemente à Palavra de não trouxe nenhuma notícia do abrandamento das águas Deus como sua regra, e são guiados por sua graça como da ira de Deus, com a qual o mundo da humanidade foi seu princípio, e buscam o conselho de sua providência submerso. Portanto, na plenitude do tempo, Deus enviou para ajudá-los na aplicação de instruções gerais para ca­ o seu Evangelho, como a pomba, que tipifica a descida do sos específicos, podem, através da fé, vê-lo guiando os Espírito Santo, e este nos apresenta um ramo de oliveira seus movimentos em sua marcha através do deserto. 2. e traz uma esperança melhor. Embora Deus o tenha detido por muito tempo, no final Ele lhe deu a sua libertação. Porque a visão é ainda para w. 13,14 o tempo determinado, e até ao fim falará, falará a ver­ dade (Hc 2.3), não mentirá. 3. Deus havia dito, Entra na Aqui está: 1. A terra seca (v. 13). Isto é, toda a água arca. E ao dizer, Sai da arca, entendemos que Deus além desapareceu, da qual, no primeiro dia do primeiro mês de ter entrado com Noé na arca, permaneceu com ele du­ (este foi um alegre dia de ano novo), Noé foi testemunha rante todo o tempo, até que lhe ordenou para sair quando ocular. Ele tirou a cobertura da arca, não toda a cober­ havia segurança. Porque o precioso Senhor disse, Não te tura, mas o suficiente para lhe dar uma perspectiva da deixarei nem te desampararei. 4. Alguns observam que, terra que estava ao seu redor. E ele teve uma perspecti­ quando eles receberam a ordem para entrar, os homens va muito reconfortante. E olhou, e eis que a face da terra e as mulheres foram mencionados separadamente (cap. estava enxuta. Note que: (1) É uma grande misericórdia 6.18): Tu, e tua mulher, e teus filhos, e as mulheres dos vermos terra à nossa volta. Noé estava mais ciente disso teus filhos. Conseqüentemente, estes deduzem que, du­ do que nós estamos. Porque a restauração das misericór­ rante o período de lamentação, eles estavam de um lado, dias é mais perceptível do que a continuidade das mise­ e suas mulheres de outro, e assim estavam separados, ricórdias. (2) O poder divino que agora renovou a face da Zacarias 12.12. Mas agora Deus os fez como recém-caterra pode renovar a face de uma alma aflita e perturba­ sados, enviando Noé e sua mulher juntos, e seus filhos da, como também de uma igreja aflita e perseguida. Ele e suas mulheres juntos, para que pudessem ser férteis pode fazer aparecer terra seca mesmo onde ela parece e se multiplicassem. 5. Noé recebeu ordens para trazer ter sido perdida e esquecida, Salmos 18.16. 2. A terra para fora os animais junto consigo. Tendo tido o cuidado se secou (v. 14), para ser uma habitação adequada para de alimentá-los por tanto tempo, e tendo sofrido tanto GÊNESIS 8 61 w. 20-22 por causa deles, o Senhor estava lhe dando a honra de ína a custa de muito cuidado e sofrimento, ele não se in­ conduzi-los como se fossem os seus exércitos, recebendo comodou de dar a Deus o que lhe era devido. Ele poderia a sua homenagem. ter dito: “Eu tenho apenas sete ovelhas com que começar o mundo, e será que uma destas deveria sete ser morta A saída de Noé quando recebeu autorização. As­ e queimada em holocausto? Não seria melhor adiar isto sim como ele não sairia sem permissão, ele tam­ até que tenhamos uma quantidade maior?” Mas Noé não bém, por medo ou respeito, não permaneceria dentro pensou assim. Para provar a sinceridade de seu amor e quando havia recebido licença para sair, mas observava gratidão, ele alegremente dá a sua parte ao seu Deus, em tudo a visão celestial. Embora tivesse sido prisionei­ como um reconhecimento de que tudo pertence ao Se­ ro da arca por um ano e dez dias, Noé viu que estava nhor, e deve ser oferecido a Ele. Servir a Deus com o sendo preservado ali, não só para uma nova vida, mas nosso pouco é a maneira certa de aumentar aquilo que para um mundo novo. E assim, não viu motivo para se temos. E jamais devemos considerar como desperdício queixar de seu longo confinamento. Agora observe: 1. aquilo que está sendo utilizado para honrar ao Deus pre­ Xoé e sua família saíram vivos, embora um deles fosse cioso e bendito. (-3) Veja aqui a antiguidade da religião: o iníquo Cam, que, embora tivesse escapado do dilúvio, a primeira coisa que encontramos sendo feita no mundo a justiça de Deus poderia ter tirado através de algum novo foi um ato de adoração, Jeremias 6.16. Devemos outro golpe. Mas todos eles estão vivos. Note que quando agora expressar a nossa gratidão, não com ofertas quei­ as famílias ficam juntas por um longo período de tempo, madas, mas pelos sacrifícios de louvor e pelos sacrifícios e entre elas não há nenhum rompimento de relações, isto de justiça, pelas devoções piedosas e também por uma deve ser considerado um favor especial atribuído às mi­ conversa piedosa. sericórdias do Senhor. 2. Noé trouxe para fora todos os animais que haviam entrado com ele, exceto o corvo e a T T A aceitação bondosa - por parte de Deus - da pomba, que, provavelmente, estavam prontos para en­ JL JL gratidão de Noé. Esta era uma lei estabelecida na contrar seus parceiros na saída. Noé foi capaz de prestar era patriarcal: Se tu fizeres bem, não serás tu aceito? Foi contas muito bem de sua tarefa. Porque de todos os que assim com Noé. Porque: lhe foram confiados, ele não perdeu nenhum, mas foi fiel 1. Deus se agradou do que foi feito, v. 21. Ele cheirou Aquele que nele confiou, pro hac vice - nesta ocasião, o cheiro suave, ou como expressa o hebraico, um “cheiro um excelente mordomo de sua casa. de repouso”. Assim como, quando havia feito o mundo a princípio, no sétimo dia o Senhor descansou para nos dar um exemplo, também agora que Ele havia refeito o O Sacrifício de Noé mundo, Ele descansou por ocasião do sacrifício do sé­ w. 20-22 timo animal. Ele se alegrou bastante pelo zelo piedoso de Noé, e com este início repleto de esperança do novo Aqui está: mundo, uma ocasião em que os homens se mostram acei­ táveis e agradáveis. Embora a oferta de Noé tenha sido O reconhecimento agradecido de Noé pelo favor que pequena, ela era proporcional à sua capacidade naquele Deus lhe concedeu, ao completar a misericórdia de momento, e o Deus glorioso a aceitou. Tendo feito a sua sua libertação, v. 20. 1. Ele edificou um altar. Até este ira repousar sobre o mundo de pecadores, o Senhor aqui momento ele não havia feito nada sem instruções e or­ fez o seu amor repousar sobre este pequeno remanes­ dens específicas de Deus. Noé teve um chamado especí­ cente de crentes. fico para entrar na arca, e um outro para sair dela. Mas, 2. Assim, o Senhor tomou a decisão de nunca mais sendo já os altares e os sacrifícios uma parte da insti­ inundar o mundo com um dilúvio. Aqui Ele tinha em vis­ tuição divina para a adoração religiosa, ele não esperou ta nem tanto o sacrifício de Noé, mas o sacrifício do pró­ por uma ordem específica para expressar a sua grati­ prio Cristo que estava tipificado e representado por ele, dão. Aqueles que receberam misericórdias da parte de e que na verdade foi uma oferta de cheiro suave, Efésios Deus devem ficar ansiosos por retribuí-las com ações de •5.2. Uma boa garantia é dada aqui, uma garantia digna graças, e não devem fazer isto por coação, mas volunta­ de toda a confiança e aceitação: riamente. Deus se agrada das ofertas voluntárias, e dos (1) Que este juízo jamais deveria ser repetido. Noé louvores que lhe são prestados. Noé agora estava em um poderia pensar: “Para que propósito o mundo deveria mundo frio e desolado, onde poderia se pensar que a sua ser restaurado, quando, com toda probabilidade, pela primeira preocupação teria sido construir uma casa para sua impiedade, ele será rapidamente - e de igual modo si mesmo. Mas, eis que ele começa a edificar um altar a - destruído outra vez?” “Não”, diz Deus, “nunca mais Deus. Deus, que é o primeiro, deve ser servido primeiro. será.” Foi dito (cap. 6.6): Arrependeu-se o Senhor de E aquele que começa servindo a Deus começa bem. 2. haver feito o homem. Agora aqui Ele fala como se tives­ Ele ofereceu holocaustos em seu altar, de todo animal se se arrependido de ter destruído o homem. Nenhum limpo e de toda ave limpa - o holocausto do sétimo, de dos dois significa uma mudança de idéia, mas ambos que nós lemos, cap. 7.2,3. Observe aqui: (1) Ele ofereceu demonstram uma mudança de sua maneira de agir. apenas aqueles que eram limpos. Porque não é suficiente Ele se arrependerá pelos seus servos, Deuteronômio que sacrifiquemos, mas devemos sacrificar aquilo que 32.36. Há dois modos pelos quais esta decisão é expres­ Deus indica, de acordo com a lei sacrificial. Jamais po­ sa: [1] Não tornarei mais a amaldiçoar a terra, o que demos sacrificar alguma coisa corrompida. (2) Embora o em Hebraico seria: Não acrescentarei mais nenhuma seu gado fosse muito pequeno, e tenha sido salvo da ru­ maldição à terra. Deus havia amaldiçoado a terra quan­ I GÊNESIS 9 62 do o pecado entrou nela pela primeira vez (cap. 3.17). não é assim, mas na terra Deus colocou um em oposição Quando o Senhor trouxe o dilúvio, Ele o acrescentou ao outro. Em segundo lugar, nada mudou até este mo­ àquela maldição. Mas agora Ele determina que nada mento. Existe uma constância determinada pelo Senhor, mais seja acrescentado a ela. [2] Nem tornarei mais mesmo em meio à inconstância da natureza, do tempo e a ferir todo vivente. Isto é, o Senhor determinou que dos eventos. Estas estações jamais cessaram, nem ces­ qualquer que fosse a destruição que Ele pudesse trazer sarão enquanto o sol continuar medindo constantemente sobre pessoas, ou famílias, ou países em particular, o o tempo, e a luz continuar a ser uma testemunha fiel no mundo nunca mais seria destruído até o dia em que o céu. Esta é a aliança de Deus, do dia e da noite, cuja esta­ tempo não existisse mais. Mas o motivo desta decisão bilidade é mencionada para a confirmação da nossa fé na é muito surpreendente, porque se parece com o motivo aliança da graça, que não é menos inviolável, Jeremias dado para a destruição do mundo: Porque a imaginação 33.20,21. Vemos as promessas de Deus para as criaturas do coração do homem é má desde a sua meninice, cap. se cumprindo. E assim podemos deduzir que as suas pro­ 6.5. Mas há esta diferença - ali é dito: A imaginação messas a todos os crentes sempre se cumprirão. dos pensamentos de seu coração era só má continua­ mente, isto é, “suas transgressões reais continuamente clamam a mim;” aqui é dito, É má desde a sua meninice. C a p ít u l o 9 Parece que está impregnada no homem. Ele a trouxe para o mundo consigo. Ele foi formado e concebido Tanto o mundo como a igreja estavam agora re­ nela. Agora, poderia se pensar que viria em seguida: duzidos a uma família, a família de Noé. Este “Portanto, esta raça culpada será totalmente extinta, e capítulo apresenta uma narrativa dos assuntos lhes darei um fim total.” Não: “Portanto, eu não usarei relacionados a esta família, e somos os mais inte­ mais este método severo. Porque”, em primeiro lugar, ressados em conhecê-la porque todos nós somos “o homem, antes, deverá receber compaixão, porque o descendentes dela. Aqui está: I. A aliança da pro­ que está demonstrando é todo o efeito do pecado que vidência estabelecida com Noé e seus filhos, v. habita nele. E isto é apenas o que poderia ser esperado 1-11. Nesta aliança, 1. Deus promete tomar conta de uma raça tão pecadora. 0 homem é chamado de pre­ de suas vidas, para que: (1) Eles pudessem repo­ varicador desde o ventre, e desse modo não é estranho voar a terra, v. 1,7. (2) Fossem salvos dos ataques que ele aja tão perfidamente”, Isaías 48.8. Assim Deus de criaturas brutas, que deveriam ter grande te­ se lembra de que o homem é carne, corrupto e pecador, mor deles, v. 2. (3) Tivessem a permissão de comer Salmos 78.39. Em segundo lugar, “ele será totalmente carne para o sustento de suas vidas. Eles só não destruído. Porque, se for tratado de acordo com os seus poderiam comer sangue, w. 3,4. (4) O mundo ja­ méritos, um dilúvio deve suceder outro até que todos sejam destruídos.” Observe aqui: 1. Estes juízos exter­ mais deveria ser inundado e submerso outra vez, nos, embora possam atemorizar e limitar os homens, w. 8-11.2. Deus exige que cada um tome conta da não podem, por si só, santificá-los e renová-los. A graça vida do outro, e da sua própria vida, w. 5,6. II. O de Deus deve operar estes juízos. A natureza do homem selo desta aliança, ou seja, o arco-íris, w. 12-17. era tão pecadora depois do dilúvio quanto havia sido an­ III. Uma passagem específica da história a res­ tes. 2. Que a bondade de Deus aproveita a pecaminosipeito de Noé e seus filhos, que ocasionou algumas dade do homem para engrandecer a si mesma. A razão profecias que diziam respeito ao futuro, 1. O peca­ da misericórdia procede da bondade do Senhor, e não do e a vergonha de Noé, w. 20,21. 2. A impudência de algo que esteja em nós. e a impiedade de Cam, v. 22. 3. O pudor piedoso de (2) Que o curso da natureza jamais deve ser des­ Sem e Jafé, v. 23.4. A maldição de Canaã, e a bên­ continuado (v. 22): “Enquanto a terra durar, e o homem ção de Sem e Jafé, w. 21-27. IV A idade e a morte sobre ela, haverá verão e inverno (não um inverno cons­ de Noé, w. 28,29. tante como no ano do dilúvio), dia e noite”. Não haverá uma noite constante, como provavelmente ocorreu du­ rante o período em que a chuva esteve caindo. Aqui: [1] A Bênção de Noé e seus Filhos Foi claramente sugerido que esta terra não durará para w. 1-7 sempre. Ela, e todas as suas obras, devem ser, em bre­ ve, consumidas pelo fogo. E nós esperamos novos céus e Lemos, no encerramento do capítulo anterior, as coi­ uma nova terra, quando todas estas coisas deverão ser sas muito boas e gentis que Deus disse em seu coração dissolvidas. Mas: [2] Enquanto ela durar, a providência com relação ao restante da humanidade que foi agora de Deus preservará cuidadosamente a sucessão regular deixada para ser a semente de um mundo novo. Agora dos tempos e das estações, fazendo com que cada um co­ estas coisas boas são ditas a eles. De um modo geral, nheça o seu lugar. E a esta promessa que se deve uma Deus abençoou Noé e seus filhos (v. 1), isto é, Ele lhes grande bênção: o mundo permanecer, e a roda da natu­ assegurou de sua boa vontade para com eles e das Suas reza continuar em seu rumo. Veja aqui como os tempos intenções misericordiosas a respeito deles. Isto se segue são mutáveis e, ao mesmo tempo, não se alteram. Em a partir daquilo que o Senhor disse em seu bendito co­ primeiro lugar, o curso da natureza está sempre mudan­ ração. Observe que todas as promessas da bondade de do. Como acontece com os tempos, assim ocorre com os Deus fluem a partir de seus propósitos de amor e dos eventos do tempo. Eles estão sujeitos a vicissitudes - dia conselhos da sua própria vontade. Veja Efésios 1.11; e noite, verão e inverno, se revezam. No céu e no inferno 3.11, e compare com Jeremias 29.11. Porque eu bem w. 1-7 63 GÊNESIS 9 w. 1-7 sei os pensamentos que penso de vós. Lemos (cap. 8.20) lião contra o homem, senão Deus poderia através delas como Noé bendisse a Deus através de seu altar e de seu destruir o mundo como efetivamente fez através de um holocausto. Agora aqui encontramos o precioso Deus dilúvio. Este seria um dos juízos penosos de Deus, Ezeabençoando Noé. Observe que Deus abençoará com mi­ quiel 14.21. O que é que mantém os lobos fora das nossas sericórdia (isto é, fará o bem para) aqueles que sincera­ cidades, e os leões fora das nossas ruas, e os confina nos mente o bendisserem. Isto é, aqueles que falarem bem desertos, além deste temor e pavor? No entanto, alguns dele. Aqueles que forem verdadeiramente gratos pelas foram domesticados, Tiago 3.7. misericórdias que receberem agirão prontamente para 3. Uma concessão de manutenção e subsistência: tê-las confirmadas e continuadas em sua vida. Tudo quanto se move, que é vivente, será para vosso Agora temos aqui a Magna Carta - a grande carta mantimento, v. 3. A maioria dos estudiosos entende que, constitucional deste novo reino da natureza que deveria até este momento, o homem havia sido limitado a se ali­ ser agora erguido e estabelecido, tendo a carta anterior mentar apenas dos produtos da terra, frutos, ervas e ra­ sido superada e cancelada. ízes, e todos os tipos de grão e leite. Assim foi a primeira concessão, cap. 1.29. Mas tendo talvez o dilúvio anulado As concessões desta carta aos homens são gentis e grande parte da fertilidade da terra, tendo assim tornan­ misericordiosas. Aqui está: do os seus frutos menos agradáveis e menos nutritivos, 1. Uma concessão de terras de grande extensão, e Deus aumentou a concessão, e permitiu que o homem uma promessa de um grande aumento de homens para comesse carne. Talvez o homem nunca tivesse pensado ocupá-las e desfrutá-las. A primeira bênção é aqui reno­ nisto até o momento em que Deus o instruiu a fazê-lo, vada: Frutificai, e multiplicai-vos, e enchei a terra (v. 1). nem tivesse o desejo de fazê-lo, assim como uma ovelha Ela foi repetida (v. 7) porque a raça humana, por assim não tem o desejo de sugar sangue como um lobo. Mas dizer, estava prestes a ter um novo começo. Agora: (1) agora o homem recebe a permissão de se alimentar de Deus coloca toda a terra diante deles, dizendo-lhes que carne, tão livremente e seguramente quanto tinha para tudo lhes pertence, enquanto durar, tanto a eles como se alimentar da erva verde. Agora observe aqui: (1) Que aos seus herdeiros. Observe que Deus deu a terra aos Deus é um bom pai de família, e provê, não só para que filhos dos homens por propriedade e habitação, Salmos possamos viver, mas para que possamos viver conforta­ 115.16. Embora ela não seja um paraíso, mas, antes, um velmente, em seu serviço. Ele nos concede bênçãos não deserto, ela é melhor do que merecemos. Bendito seja só para satisfazer as nossas necessidades, mas para que Deus por ela não sei' o inferno. (2) Ele lhes dá uma bên­ tenhamos prazer na vida. (2) Que toda criatura de Deus ção, pela força e virtude das quais a humanidade deveria é boa, e não há nada que rejeitar, 1 Timóteo 4.4. Poste­ ser multiplicada e perpetuada sobre a terra, para que em riormente, algumas carnes que eram adequadas para o pouco tempo todas as partes habitáveis da terra fossem consumo foram proibidas pela lei cerimonial. Mas parece mais ou menos habitadas. E, embora as gerações devam que desde o início não era assim, e, por esta razão, as passar, elas se sucederão enquanto o mundo durar, para proibições cerimoniais não fazem parte do Evangelho. que a torrente da raça humana seja suprida com uma sucessão constante, e corra em paralelo com o fluxo do Os preceitos e condições deste caráter não são tempo, até que ambos desemboquem juntos no oceano da menos bondosos e misericordiosos, e exemplos da boa-vontade de Deus ao homem. Os doutores judeu eternidade. Embora a morte ainda reinasse, e o Senhor ainda fosse conhecido pelos seus juízos, a terra jamais falam com muita freqüência dos sete preceitos de No ou dos filhos de Noé, os quais, eles dizem, deveriam s seria outra vez despovoada como fora agora, mas ainda observados por todas as nações, para que não errassem se encheria, Atos 17.24-26. 2. Uma concessão de poder sobre as criaturas in­ em seu estabelecimento. O primeiro era contra a adora­ feriores, v. 2. Ele concede: (1) Uma responsabilidade a ção a ídolos. O segundo, contra a blasfêmia, requerendo eles: Na vossa mão são entregues, para o vosso uso e que se bendiga o santo nome de Deus. O terceiro, contra benefício. (2) Um domínio sobre eles, sem o qual o título o homicídio. O quarto, contra o incesto e toda impureza, de propriedade de pouco valeria: E será o vosso temor e O quinto, contra o roubo e a rapina. O sexto, requeren­ o vosso pavor sobre todo animal da terra. Isto faz revi­ do a administração da justiça. O sétimo, contra comer a ver uma concessão anterior (cap. 1.28), com apenas uma carne que contém a vida (o sangue). Os judeus exigiam diferença: que o homem em inocência seria governado a observação destas coisas por parte dos prosélitos da pelo amor, e o homem caído seria governado pelo temor. porta. Mas todos os preceitos aqui apresentados dizem Agora, esta concessão permanece em toda a sua força, e respeito à vida do homem. até este momento ainda temos o seu benefício: [1] Que as 1. O homem não deve prejudicar a sua própria vida criaturas que são de algum modo úteis a nós são domes­ comendo uma comida que não seja saudável e que preju­ ticadas, e as usamos seja para serviço ou para alimento, dique a sua saúde (v. 4): “A carne, porém, com sua vida, ou ambos, conforme a capacidade de cada uma delas. O isto é, com seu sangue (isto é, carne crua), não come­ cavalo e o boi se sujeitam pacientemente ao freio e ao reis, como fazem os animais de rapina.” Foi necessário jugo, e a ovelha fica muda tanto diante do tosquiador acrescentar esta limitação à concessão da liberdade de como do açougueiro. Pois o temor e o pavor do homem comer carne, para que, em vez de nutrir os seus corpos, estão sobre eles. [2] As criaturas que são de algum modo ela não os destruísse. Deus, através disso, mostraria: (1) prejudiciais a nós são controladas, para que, embora de Que embora eles fossem senhores dos animais, estavam vez em quando o homem possa ser ferido por algumas sujeitos ao Criador, e sob as restrições de sua lei. (2) Que delas, elas não se associem para se levantar em rebe- eles não deveriam ser gananciosos e apressados ao to­ I n 64 GÊNESIS 9 marem o seu alimento, mas deveriam esperar pela sua de Deus para este propósito, para ser uma proteção ao preparação. Não poderiam ser como os soldados de Saul inocente, sendo um terror aos maliciosos e malfeitores, e (1 Sm 14.32), nem poderiam ser comilões desenfreados eles não devem trazer debalde a espada, Romanos 13.4. de carne, Provérbios 23.20. (3) Que eles não devem ser Antes do dilúvio, como parece pela história de Caim, bárbaros e cruéis com as criaturas inferiores. Eles de­ Deus tomou o castigo de homicídio em suas próprias vem ser senhores, mas não tiranos. Eles poderiam matá- mãos. Mas agora Ele entregou este juízo aos homens, las para o seu proveito, mas não torturá-las para o seu a princípio aos chefes de família, e depois aos chefes das prazer nem arrancar algum membro de uma criatura nações, que deveriam ser fiéis à confiança neles depo­ enquanto ela ainda estivesse viva, e comê-lo. (4) Que du­ sitada. Note que aquele que cometesse um assassinato rante a continuidade da lei de holocaustos, na qual o san­ deliberadamente deveria ser sempre punido com a mor­ gue fazia expiação pela alma (Lv 17.11), significando que te. Este é um pecado que o Senhor não perdoaria nem a vida do sacrifício era aceita como um resgate pela vida mesmo em um príncipe (2 Rs 24.3,4), e que, portanto, um do pecador, o sangue não deveria ser considerado como príncipe jamais deveria perdoar em um súdito. Há uma uma coisa comum, mas deveria ser derramado diante do razão anexa para esta lei: Porque, no princípio, Deus fez Senhor (2 Sm 23.16), ou sobre o seu altar, ou sobre a sua o homem conforme a sua imagem. O homem é uma cria­ terra. Mas, agora que o grande e verdadeiro sacrifício foi tura querida de seu Criador, e, portanto, deve ser assim para nós. Se Deus colocou honra sobre o homem, não oferecido, a obrigação da lei cessa com o seu motivo. 2. O homem não pode tirar a sua própria vida: Re­ sejamos nós aqueles que procuram colocar o desprezo quererei o vosso sangue, o sangue da vossa vida, v. 5. A sobre este. Aquilo que restou da imagem de Deus ainda nossa vida não nos pertence, e assim não podemos aban­ está sobre o homem caído, de modo que aquele que mata doná-la ao nosso bei prazer, mas ela pertence a Deus e injustamente desfigura a imagem de Deus e o desonra. devemos renunciá-la para agradá-lo. Se nós, de algum Quando Deus permitiu que os homens matassem seus modo, apressarmos a nossa própria morte, seremos res­ animais, Ele os proibiu de matar os seus escravos. Por­ que estes são de uma natureza muito mais nobre e ex­ ponsáveis por isso diante de Deus. 3. Não se deve permitir que os animais firam a vida celente, sendo não apenas criaturas de Deus, mas a sua do homem: Da mão de todo animal o requererei. Para imagem, Tiago 3.9. Todos os homens possuem, ao menos, mostrar a consideração e o carinho que Deus tem para uma parte da imagem de Deus sobre si mesmos. Mas os com a vida do homem, embora posteriormente tenha magistrados têm, além disso, a imagem do seu poder, e tido que fazer uma destruição tão grande de ridas, Ele os santos têm a imagem da sua santidade. Assim sendo, mandou matar o animal que matar um homem. Isto foi aqueles que derramarem o sangue de príncipes ou san­ confirmado pela lei de Moisés (Êx 21.28), e acho que ain­ tos incorrerão em uma culpa dupla. da seria seguro observá-la. Assim Deus mostrou o seu ódio pelo pecado de homicídio, para que os homens pu­ A Aliança de Deus com Noé dessem odiar ainda mais esta transgressão, e não apenas w. 8-11 puni-la, mas tomar precauções para que não aconteça. Veja também Jó 5.23. Aqui temos: 4. A instrução, aqui, é que os assassinos que preme­ ditam os seus crimes devem morrer. Este é o pecado que O estabelecimento geral da aliança de Deus com aqui se deseja evitai' através do terror da punição. (1) este mundo novo, e a extensão desta aliança, w. 9,10. Deus punirá os assassinos: Da mão do homem e da mão do irmão de cada um requererei a vida do homem, isto Observe aqui: 1. Que Deus se agrada, de uma forma mi­ é, Eu vingarei, sobre o assassino, o sangue do assassi­ sericordiosa, de tratar com o homem por meio de uma nado, 2 Crônicas 24.22. Quando Deus requer a vida de aliança, onde Deus glorifica grandemente o seu favor um homem da mão daquele que a tirou injustamente, o condescendente, e encoraja enfaticamente a obrigação e assassino não pode entregá-la, e, por esta razão, deve a obediência do homem, como um serviço sensato e útil. entregar a sua própria vida no lugar dela. Esta é a única 2. Que todas as alianças de Deus com o homem são fei­ maneira que resta para se fazer a restituição. Observe tas pelo próprio Senhor: Eu, eis que eu. Esta expressão que o Deus justo certamente fará uma inquisição pelo aumenta a nossa admiração - “E eis que, embora Deus sangue, mesmo que os homens não possam fazê-la, ou seja elevado, Ele tem este respeito pelo homem”, como não queiram fazê-la. Uma vez ou outra, neste mundo ou para confirmar as nossas garantias da validade da alian­ no vindouro, o Senhor descobrirá assassinos escondidos, ça - “Vede, eis que eu faço. Eu que sou fiel e capaz de fa­ que estão ocultos dos olhos dos homens, e punirá assas­ zer o bem.” 3. Que as alianças de Deus são estabelecidas sinos confessos que tentam se justificar, algo que seria mais firmemente do que os pilares do céu ou do que os difícil demais para a mão do homem. (2) O magistrado fundamentos da terra, e não podem ser anuladas. 4. Que deve punir os assassinos (v. 6): Quem derramar o sangue as alianças de Deus são feitas com os pactuantes e com do homem, seja por causa da provocação repentina, ou a sua semente. A promessa é para eles e para os seus tendo premeditado isso (porque a ira excessiva traz con­ filhos. 5. Que todas as pessoas podem ser introduzidas sigo o assassinato de coração, como t ambém a propensão na aliança com Deus, e receber os benefícios dela. Porém à malícia, Mateus 5.21,22), terá o seu sangue derramado elas não são capazes nem têm a autorização necessária por outro homem, isto é, pelo magistrado ou por quem para reespecificar, ou para dar o seu próprio consenti­ quer que seja designado a ser o vingador do sangue, ou mento. Porque esta aliança é feita com toda alma viven­ que tenha esta permissão. Há aqueles que são ministros te, e com todos os animais da terra. w. 8-11 I GÊNESIS 9 w. 12-17 A intenção específica desta aliança. Ela foi criada to a este selo da aliança, observe: 1. Este selo é fixado para garantir que não haveria um outro dilúvio no com repetidas garantias da veracidade desta promessa mundo: Não haverá mais dilúvio. Deus havia submergi­ da qual foi criado para ser a ratificação: O meu arco te­ do o mundo uma vez, e ainda assim o mundo estava nho tão posto na nuvem (v. 13). Aparecerá o arco nas nuvens sujo e provocador quanto antes. 0 Senhor Deus previu(v.a14). Que aquilo que os olhos contemplam possa tocar impiedade que o mundo demonstraria. No entanto, Ele no coração e confirmar a fé. E isto será um sinal do con­ prometeu que nunca mais traria um dilúvio sobre este. certo (w. 12,13), e me lembrarei do meu concerto, que Porque o bondoso Senhor não trata conosco de acordo está entre mim e vós, e ainda toda alma vivente de toda com os nossos pecados. É devido à bondade e à fideli­ carne. E as águas não se tornarão mais em dilúvio, v. 15. dade de Deus - e não a qualquer reforma por parte do Isto não significa que a Mente Eterna precise de um lem­ mundo - o fato deste mundo não ter sido inundado fre­ brete. Porém o Senhor o vê como um símbolo do concer­ qüentemente por um dilúvio, e não ser inundado agora. to eterno, v. 16. Então aqui está linha sobre linha, para E o velho mundo foi destruído para ser um monumento que todos aqueles que se apoderaram desta esperança de justiça, de forma que este mundo permanece até este possam ter uma consolação segura e forte. 2. O arco-íris dia como um monumento de misericórdia, de acordo com aparece quando as nuvens estão com mais umidade, e re­ o juramento de Deus. O Senhor misericordioso prome­ torna depois da chuva. Quando temos mais motivos para teu que as águas de Noé não cobririam a terra outra vez, temer que a chuva prevaleça, então Deus mostra este Isaías 54.9. Esta promessa mantém o mar e as nuvens selo da promessa afirmando que ela não prevalecerá. em seu lugar, conforme o decreto do Altíssimo, colocan­ Assim Deus apazigua os nossos temores com encoraja­ do-lhes portas e ferrolhos. Até aqui virás, Jó 38.10,11. Se mentos que são adequados e oportunos. 3. Quanto mais o mar fluísse livremente, sem quaisquer limites, apenas espessa for a nuvem, mais brilhante será o arco nela. As­ por alguns dias, ou mesmo durante algumas horas por sim, quando as aflições ameaçadoras abundam, as con­ dia, que desolação isto causaria! E como as nuvens se­ solações encorajadoras abundam em uma medida muito riam destrutivas, se as chuvas que às vezes temos visto maior, 2 Coríntios 1.5.4. O arco-íris aparece quando uma continuassem por muito tempo! Mas Deus, através do parte do céu está claro, o que sugere a misericórdia lem­ fluxo natural dos mares, e das chuvas impetuosas, mos­ brada em meio à ira. E as nuvens estão dispostas de uma tra o que Ele poderia fazer caso se irasse. No entanto, forma que favoreçam o arco-íris, para que não possam preservando a terra de ser inundada entre estas duas cobrir os céus. O arco parece colorir a chuva, bem como fontes naturais tão poderosas (o mar e as nuvens), o as bordas das nuvens. 5. O arco-íris é o reflexo dos raios bondoso Senhor mostra aquilo que só Ele pode fazer do sol, o que sugere que toda a glória e significado dos em misericórdia, e que está completamente disposto selos da aliança são derivados de Cristo - o Sol da Justi­ a fazer em verdade. Assim, demos a Ele toda a glória ça - que também tem um arco-íris ao redor do seu trono pela misericórdia que demonstrou ao fazer tão bondosas (Ap 4.3), e um arco-íris por cima de sua cabeça (Ap 10.1). promessas, e continuemos glorificando o seu santo nome Isto sugere não só a sua majestade, mas a sua mediação. por ser sempre verdadeiro e por cumprir integralmente 6. O arco-íris possui cores vívidas em si, o que pode sig­ aquilo que promete. Esta promessa não impede: 1. Que nificar que embora Deus não vá inundar o mundo outra Deus possa trazer outros juízos terríveis sobre a huma­ vez, o mundo será consumido pelo fogo quando chegar o nidade. Porque, embora Ele tenha se limitado a não usar tempo determinado por Deus. 7. Um arco anuncia terror, mais esta flecha, Ele tem outras flechas em sua aljava. mas este arco não possui nem corda nem flecha, como 2. Que o Senhor possa destruir lugares e países especí­ o arco ordenado contra os perseguidores (SI 7.12,13). E ficos através de inundações do mar ou dos rios. 3. Que a um arco sozinho não fará muita coisa. É um arco, mas destruição do mundo no último dia, através do fogo, seja está direcionado para cima, não está direcionado à terra. uma quebra de sua promessa. O pecado, que submergiu Porque os selos da aliança tinham a função de consolar, e o mundo antigo, queimará este. não de atemorizar. 8. Assim como Deus olha para o arco como um lembrete da aliança, devemos fazer o mesmo para que possamos nos lembrar sempre da aliança com w. 12-17 fé e gratidão. 65 n Os artigos de acordo entre os homens são geralmen­ te selados para que as alianças possam ser as mais so­ lenes, e o desempenho das alianças o mais seguro, para que haja uma satisfação mútua. Deus, portanto, dese­ jando mostrar mais abundantemente aos herdeiros da promessa a imutabilidade de seus conselhos, confirmou a sua aliança através de um selo (Hb 6.17), o que tor­ na firmes os fundamentos sobre os quais edificamos, 2 Timóteo 2.19. O selo desta aliança da natureza era sufi­ cientemente natural. Foi o arco-íris. Alguns pensam que é provável que o arco-íris fosse visto nas nuvens antes, quando causas secundárias coincidiam, mas nunca havia sido um selo da aliança até aquele momento. Agora ele se tornou este selo através de uma instituição divina. Quan­ O Pecado de Cam w. 18-23 Aqui temos: I A família de Noé e sua atividade. Os nomes de seus filhos são outra vez mencionados (w. 18,19) como aqueles que cobriam toda a terra, pelo que parece que Noé, depois do dilúvio, não teve mais filhos: todo o mun­ do foi formado a partir destes três. Observe que Deus, quando quer, pode fazer um pequeno se tornar mil, e aumentar grandemente o fim daqueles cujo início foi pequeno. Assim é o poder e a eficácia de uma bênção di­ 66 GÊNESIS 9 w. 18-23 vina. A atividade a que Noé se aplicou foi a de lavrador. que havia se mantido sóbrio na companhia de embria­ Em hebraico, um homem da terra, isto é, um homem que gados, está agora embriagado na companhia de sóbrios. lida com a terra, que manteve a terra em suas mãos, e a Aquele que pensa estar de pé tome todo cuidado para ocupou. Todos nós somos naturalmente homens da terra, não cair. 3. Que precisamos ter muito cuidado, quando feitos dela, vivendo nela, e direcionados a ela. Muitos são usamos abundantemente as coisas boas que Deus criou, pecaminosamente assim, viciados em coisas terrenas. para que não as usemos excessivamente. Os discípulos Noé foi, por seu chamado, levado a negociar os produtos de Cristo devem tomar cuidado para que os seus cora­ da terra. E começou Noé a ser lavrador da terra, isto é, ções não fiquem sobrecarregados em algum momento, algum tempo depois de sua saída da arca, ele retornou à Lucas 21.34. Agora, a conseqüência do pecado de Noé foi sua antiga atividade, da qual havia se afastado primeira­ a vergonha. Ele estava descoberto dentro de sua tenda, mente pela construção da arca, e depois disso pela cons­ envergonhado pela exposição de sua nudez, como Adão trução de uma casa em terra seca para si mesmo e para a quando havia comido o fruto proibido. No entanto, Adão sua família. Durante este período ele tinha sido um car­ procurou se esconder. Porém Noé está tão destituído de pinteiro, mas agora voltou a ser um lavrador. Observe pensamento e razão que não procura sequer se cobrir. que embora Noé fosse um grande homem e um homem Este é um fruto da vide no qual Noé não pensou. Obser­ bom, um homem velho e rico, um homem grandemente ve aqui o grande mal do pecado da embriaguez. (1) Ela favorecido pelo céu e honrado na terra, ele não viveria descobre e expõe os homens. Eles mostram e até mesmo uma vida ociosa, nem consideraria a vocação de lavrador declaram as suas fraquezas quando estão embriagados, como algo inferior para si. Observe que embora Deus, e revelam com muita facilidade os segredos que lhes fo­ por sua providência, possa nos tirar da nossa vocação ram confiados. Porteiros embriagados deixam os portões por algum tempo, quando a ocasião terminar devemos abertos. (2) Ela desgraça os homens, e os expõe ao des­ com humildade e esforço nos aplicar a ela novamente. É prezo. Assim como a embriaguez os revela, ela também necessário permanecermos fielmente na vocação a que os envergonha. Os homens dizem e fazem, quando estão formos chamados, para que possamos permanecer dian­ embriagados, aquilo que, quando estão sóbrios, corariam de vergonha só de pensar, Habacuque 2.15,16. te do nosso amado Deus, 1 Coríntios 7.24. n A impudência e impiedade de Cam: Ele viu a O pecado e vergonha de Noé: Ele plantou uma nudez de seu pai e o fez saber aos seus irmãos, vinha. E, quando havia juntado a vindima, pro­ v. 22. Vê-la acidentalmente e involuntariamente não te­ vavelmente designou uma dia de júbilo e banquete com ria sido um crime. Mas: 1. Ele sentiu prazer na visão, a sua família, e ele tinha os seus filhos e os filhos deles como os edomitas que olharam para o dia da adversidade consigo para se alegrarem com ele pelo aumento de sua casa como também pelo aumento de sua vinha. Podemos de seus irmãos (Ob 12) com satisfação e de uma forma até supor que ele tenha antecedido a festa com um sa­ ofensiva. Talvez o próprio Cam tenha ficado embriagado crifício para a honra de Deus. Se esta parte inicial foi algumas vezes, e tenha sido reprovado por seu bom pai, omitida, era justo que Deus o deixasse sozinho, para que a quem ele agora via, com alegria, dominado pela bebida aquele que não começou com Deus terminasse com os forte. Observe algo bastante comum: aqueles que andam animais. Mas nós caridosamente esperamos que esta em falsos caminhos se alegram pelos passos em falso que, parte fundamental não tenha faltado. E talvez Noé te­ às vezes, vêem os outros dar. Mas o amor não se alegra nha designado esta festa com um propósito: no seu en­ com a iniqüidade. Assim, os verdadeiros penitentes que cerramento, abençoar os seus filhos, como Isaque, cap. estão tristes por seus próprios pecados jamais poderão 27.3,4 - “Para que eu coma, e para que minha alma te se alegrar pelos pecados dos outros. 2. Ele contou o fato abençoe”. Nesta festa ele bebeu do vinho. Porque quem aos seus dois irmãos, fora (na rua, conforme o significado planta uma vinha e não bebe do seu fruto? Mas ele bebeu da palavra), de uma maneira escarnecedora e zombado­ generosamente demais, mais do que a sua idade suporta­ ra, para que o seu pai pudesse parecer desprezível a eles. ria, porque ficou embriagado. Temos razões para pensar É muito errado: (1) Brincar com o pecado (Pv 14.9), e que ele nunca ficou embriagado antes nem depois. Ob­ ficar envaidecido por aquilo que deveria trazer tristeza e serve como Noé foi, agora, surpreendido em sua falha. profundo pesar, 1 Coríntios 5.2. E: (2) Divulgar os defei­ Este foi o seu pecado, e pode ser considerado um grande tos de qualquer pessoa, especialmente dos pais, a quem pecado, principalmente por ter ocorrido logo após um temos a obrigação de honrar. Noé não só era um homem grande livramento. Mas Deus o deixou sozinho, como fez bom, mas havia sido um bom pai para Cam. E esta foi com Ezequias (2 Cr 32.31), e deixou este seu erro regis­ uma retribuição excessivamente vil e desprezível de seu trado, para nos ensinar: 1. Que a cópia mais clara que carinho. Cam é aqui chamado de pai de Canaã, o que su­ o mero homem já escreveu desde a queda teve os seus gere que ele, que também era pai, deveria ter sido mais defeitos e traços em falso. Foi dito a respeito de Noé que respeitoso para com aquele que era o seu próprio pai. ele era perfeito em suas gerações (cap. 6.9), mas este O cuidado piedoso de Sem e Jafé para cobri­ fato mostra que estas palavras se referiam à sua since­ rem a vergonha do seu pobre pai, v. 23. Além ridade, e não a uma perfeição isenta de pecado. 2. Que às vezes aqueles que, com vigilância e resolução, têm, de não quererem ver o pai naquela situação deprimente, pela graça de Deus, mantido a sua integridade em meio também providenciaram para que ninguém mais visse. à tentação têm sido - através da segurança, do descui­ Assim eles nos deram um exemplo de caridade com re­ do, e da negligência da graça de Deus - surpreendidos lação ao pecado e a vergonha de outros homens. Não é pelo pecado, quando a hora da tentação já passou. Noé, o bastante evitar comentar casos como este, sem nos 67 GÊNESIS 9 w. 24-27 envolver com aqueles que conspiram contra a boa mo­ para a ruína, porém ainda não estão maduros para ela. ral dos demais. Mas devemos ter o cuidado de ocultar a Portanto, o teu coração não inveje os pecadores. vergonha alheia, ou pelo menos fazer o melhor possível, 2. Noé transmite uma bênção a Sem e Jafé. assim como gostaríamos que fizessem por nós. 1. Há um (1) Ele abençoa a Sem, ou, antes, bendiz a Deus por manto de amor que deve ser lançado sobre os defeitos de ele, a ponto disto o habilitar à maior honra e felicidade todos, 1 Pedro 4.8. 2. Além disso, há uma túnica de reve­ imagináveis, v. 26. Observe: [1] Ele chama o Senhor de rência que deve ser lançada sobre os defeitos dos pais e o Deus de Sem. E feliz, três vezes feliz, é a nação cujo de outros superiores. Deus é o Senhor, Salmos 144.15. Todas as bênçãos estão incluídas nesta. Esta foi a bênção conferida a Abraão e à sua semente. O Deus do céu não estava envergonha­ A Profecia de Noé do de ser chamado de seu Deus, Hebreus 11.16. Sem é w. 24-27 suficientemente recompensado por seu respeito ao seu pai neste episódio: o próprio Senhor coloca a sua honra Aqui: sobre ele, para sei' o seu Deus, o que é uma recompen­ sa suficiente por todos os nossos serviços e por todos os Noé volta a si: Ele despertou de seu vinho. O sono nossos sofrimentos pelo seu precioso nome. [2] Noé dá a o curou, e podemos supor que o curou tanto que ele Deus a glória por esta boa obra que Sem havia feito, e, nunca reincidiu neste pecado depois disso. Aqueles que em vez de abençoar e louvar aquele que foi o instrumen­ dormem como Noé dormiu devem despertar como ele des­ to, ele bendiz e louva a Deus, que foi o autor. Note que a pertou, e não como aquele embriagado (Pv 23.35) que diz, glória de tudo o que em qualquer momento é bem feito, quando desperta: Ainda tornarei a buscá-la outra vez. por nós mesmos ou pelos outros, deve ser transmitida a Deus com humildade e gratidão, pois é Ele que opera O espírito de profecia vem sobre ele, e, assim todas as nossas boas obras em nós e por nós. Quando como Jacó quando estava prestes a morrer, Noé vemos as boas obras dos homens, devemos glorificar não agora diz a seus filhos o que lhes acontecerá, cap. 49.1.a eles, mas ao nosso Pai, Mateus 5.16. Assim Davi, na 1. Ele profere uma maldição sobre Canaã, o filho deverdade, abençoou Abigail, quando bendisse a Deus por Cam (v. 25), em que o próprio Cam é amaldiçoado. Há tê-la enviado (1 Sm 25.32,33), porque é uma grande hon­ duas possíveis razões para esta maldição: porque este ra e um grande favor ser empregado por Deus e usado seu filho era agora mais culpado do que os demais, ou por Ele para fazer o bem. [3] Ele prevê e prediz que o porque a posteridade deste filho seria, mais tarde, de­ tratamento misericordioso de Deus para com Sem e sua sarraigada de sua terra para dar lugar a Israel. E Moi­ família seria tal que evidenciaria a todo o mundo que ele sés aqui registra estas palavras para animar Israel nas era o Deus de Sem, pelo que muitos renderiam graças guerras de Canaã. Embora os cananeus fossem um povo a Ele: Bendito seja o Deus de Sem. [4] É sugerido que que se deveria temer, eles procediam de um antigo povo a igreja deveria ser edificada e continuada na posteri­ maldito, e destinado à destruição. A maldição específica dade de Sem. Porque dele vieram os judeus, que foram, é, servo dos servos (isto é, o servo mais insignificante e por muito tempo, o único povo professo que Deus teve mais desprezível) será, até mesmo de seus irmãos. Aque­ no mundo. [5] Alguns pensam que a referência aqui era les que por nascimento eram seus companheiros serão, a Cristo, que era o Senhor Deus que, em sua natureza por conquista, os seus senhores. Isto certamente aponta humana, deveria vir dos lombos de Sem. Porque dele, no para as vitórias obtidas por Israel sobre os cananeus. que diz respeito à carne, veio o Cristo. [6] Canaã é parti­ Estes seriam colocados sob a espada ou sob a obriga­ cularmente escravizado a Sem: ele será seu servo. Note ção de pagar tributos (Js 9.23; Jz 1.28,30,33,35), algo que que aqueles que têm ao Senhor como o seu Deus terão aconteceu aproximadamente 800 anos depois deste epi­ a honra e o poder deste mundo em uma medida que o sódio. Observe: (1) Deus freqüentemente visita a iniqüi­ Senhor considerar adequada. dade dos pais sobre os filhos, especialmente quando os (2) Noé abençoa Jafé, e, nele, as ilhas dos gentios, filhos herdam a má índole dos pais, e imitam as práticas que foram povoadas pela sua semente: Alargue Deus a perversas dos pais, e não fazem nada para interromper Jafé, e habite nas tendas de Sem, v. 27. Agora: [1] Alguns a seqüência de seu comportamento maldito. (2) A des­ entendem estas palavras como se referindo totalmente a graça é, de forma justa, colocada sobre aqueles que co­ Jafé, com a finalidade de denotar, em primeiro lugar: A locam a desgraça sobre os outros, especialmente aquela sua prosperidade exterior, que a sua semente seria tão que desonra e entristece os seus próprios pais. Um filho numerosa e tão vitoriosa que eles deveriam ser senhores desobediente que zomba de seus pais não é mais digno das tendas de Sem, o que foi cumprido quando o povo ju­ de ser chamado de filho, mas merece ser tratado como deu, a raça mais iminente de Sem, foi tributário primei­ um servo contratado, como um servo dos servos, entre ro dos gregos e depois dos romanos, ambos da semente os seus irmãos. (3) Embora as maldições divinas operem de Jafé. Observe que a prosperidade externa não é uma lentamente, mais cedo ou mais tarde elas terão efeito. Os marca infalível da verdadeira igreja. As tendas de Sem cananeus estavam sob uma maldição de servidão. No en­ nem sempre são as tendas do conquistador. Ou, em se­ tanto, por muito tempo tiveram o domínio. Porque uma gundo lugar, isto denota a conversão dos gentios, e a en­ família, um povo, uma pessoa, pode estar sob a maldição trada deles na igreja. E então deveríamos entender que de Deus, e, contudo, pode, por muito tempo, prosperar Deus persuadiria Jafé (porque este é o significado da pa­ no mundo, até que a medida de sua iniqüidade esteja lavra), e então, sendo assim persuadido, ele habitaria nas completa, como a dos cananeus. Muitos estão marcados tendas de Sem, isto é, judeus e gentios seriam reunidos I n w. 28,29 GÊNESIS 10 68 no aprisco do Evangelho. Depois que muitos gentios se C a p í t u l o 10 tornarem prosélitos da religião judaica, ambos serão um em Cristo (Ef 2.14,15), e a igreja cristã, composta em sua Este capítulo mostra mais particularmente o que maior parte por gentios, sucederá os judeus nos privilé­ foi dito em geral (cap. 9.19) a respeito dos três gios de serem membros da igreja. Tendo os judeus se filhos de Noé, que “deles toda a terra foi cober­ excluído por causa de sua incredulidade, os gentios habi­ ta”, e do fruto desta bênção (cap. 9.1,7); “encher tarão em suas tendas, Romanos ll.llss. Observe que só a terra”. E o único relato certo existente sobre a Deus pode reunir novamente na igreja aqueles que se se­ origem das nações. No entanto, talvez não haja pararam dela. É o poder de Deus que torna o Evangelho nenhuma nação além da dos judeus que possa ser de Cristo eficaz para a salvação, Romanos 1.16. E outra confiante sobre de qual destas setenta fontes (por­ vez, as almas são trazidas para a igreja, não pela força, que há muitas aqui) ela deriva as suas correntes. mas pela persuasão, Salmos 110.3. Eles são puxados por Através da falta de registros antigos, da mistura cordas humanas, e persuadidos pelo desejo de serem de pessoas, da revolução das nações, e da distância religiosos. [2] Outros entendem que estas palavras de­ do tempo, o conhecimento da descendência linear vem ser divididas entre Jafé e Sem, e Sem não teria sido dos habitantes atuais da terra está perdido. Nem abençoado diretamente, v. 26. Em primeiro lugar, Jafé as genealogias foram preservadas além das dos tem a bênção da terra, que está abaixo: Alargue Deus a judeus, por causa do Messias. Somente neste ca­ Jafé, alargue a sua semente, alargue a sua fronteira. A pítulo temos um breve relato: I. Da posteridade de prosperidade de Jafé povoou toda a Europa, uma gran­ Jafé, w. 2-5. II. Da posteridade de Cam (w. 6-20), de parte da Ásia, e talvez a América. Observe que Deus e neste ponto em particular observa-se Ninrode, v. deve ser reconhecido em todas as suas extensões. É ele 8-10. III. Da posteridade de Sem, v. 21 etc. que alarga a costa e alarga o coração. E outra vez, mui­ tos habitam em grandes tendas, porém não habitam nas tendas de Deus, como fez Jafé. Em segundo lugar, Sem Os Descendentes de Noé tem a bênção do céu, que está acima: Ele habitará (isto w. 1-5 é, Deus habitará) nas tendas de Sem, isto é: “De seus lombos virá o Cristo, e em sua semente a igreja será con­ Moisés começa com a família de Jafé porque este tinuada.” O direito de nascimento deveria agora ser di­ vidido entre Sem e Jafé, sendo Cam totalmente descar­ era o mais velho, ou porque a sua família ficava o mais tado. No principado que eles compartilham igualmente, distante de Israel e tinha pouco interesse para eles na Canaã será servo de ambos. A porção dobrada é dada a época em que Moisés escreveu. Portanto, ele menciona Jafé, a quem Deus alargará. Mas o sacerdócio é dado a esta raça de uma forma muito breve, apressando-se em Sem, porque Deus habitará nas tendas de Sem. E certa­ dar um relato da posteridade de Cam, que eram os ini­ mente seremos mais felizes se tivermos Deus habitando migos de Israel, e de Sem, que foram os antepassados de em nossas tendas do que se tivermos ali toda a prata e Israel. Porque é da igreja que a Escritura tem a intenção todo ouro do mundo. E melhor habitarmos em tendas de ser a história, e das nações do mundo apenas quando com Deus do que em palácios sem Ele. Em Salém, onde elas de um modo ou de outro estão relacionadas a Israel está o Tabernáculo de Deus, há mais satisfação do que ou aos assuntos ligados a Israel. Note: 1. Observa-se que em todas as ilhas das nações. Em terceiro lugar, ambos os filhos de Noé tinham filhos nascidos depois do dilúvio, têm domínio sobre Canaã: Canaã será servo deles. As­ para consertar e reconstruir o mundo da humanidade que sim alguns entendem. Quando Jafé se junta com Sem, o dilúvio havia destruído. Aquele que havia matado, ago­ Canaã cai diante de ambos. Quando estranhos se tornam ra faz viver. 2. A posteridade de Jafé recebeu as ilhas das nações (v. 5), que eram solenemente, por sorteio, depois amigos, os inimigos se tornam servos. de uma avaliação, divididas entre eles. E provavelmente estas ilhas tenham sido repartidas entre os demais. To­ w. 28,29 dos os lugares além do mar da Judéia são chamados de ilhas (Jr 25.22), e isto nos leva a entender aquela promes­ Aqui lemos: 1. Como Deus prolongou a vida de sa (Is 42.4): As ilhas aguardarão a sua doutrina. Ela fala Noé. Ele viveu 950 anos, vinte a mais que Adão e ape­ da conversão dos gentios à fé em Cristo. nas dezenove a menos que Metusalém. Esta vida longa foi uma recompensa adicional por sua piedade notável, w. 6-14 e uma grande bênção para o mundo, para o qual sem dúvida ele continuou sendo um pregador de justiça, com uma grande vantagem: agora todos a quem ele O que é observável e improvável nestes versículos pregava eram seus próprios filhos. 2. Como Deus fi­ é o relato dado sobre Ninrode, w. 8-10. Ele é aqui re­ nalmente colocou um ponto final em sua vida na terra. presentado como um grande homem em seus dias: Ele Embora Noé tenha vivido muito tempo, ele morreu, começou a ser poderoso na terra. Isto é, enquanto aque­ tendo provavelmente visto, primeiro, muitos que des­ les que foram antes dele ficaram satisfeitos por terem cenderam dele, mortos diante de si. Noé viveu para estado no mesmo nível de seus vizinhos, e embora todo ver dois mundos na terra. Mas, sendo um herdeiro da homem dominasse em sua própria casa e não desejasse justiça que é pela fé, quando morreu ele foi ver um nada mais que isso, a mente ambiciosa de Ninrode não conseguiu descansar aqui. Ele estava decidido a se so­ mundo melhor que estes dois. 69 GÊNESIS 10 w. 15-20 bressair acima de seus vizinhos, não só para ser impor­ ele avançou gradualmente, e talvez insensivelmente, em tante entre eles, mas para dominá-los. O mesmo espírito direção ao trono. Veja a antiguidade do governo civil, e que agiu nos gigantes antes do dilúvio (que se tornaram particularmente a sua forma que abriga a soberania em valentes e varões de fama, cap. 6.4), agora reviveu nele, uma só pessoa. Se Ninrode e seus vizinhos começaram, tão logo o tremendo juízo do orgulho e da tirania destes outras nações logo aprenderam a se organizar sob o con­ valentes foi trazido sobre o mundo esquecido. Observe trole de um líder em busca de segurança e bem-estar. E que há alguns em quem a ambição e a afetação de do­ embora este tipo de organização tivesse apenas começa­ mínio parecem ser inatas. Isto houve e haverá, apesar do, ela provou ser uma bênção tão grande para o mundo, da ira de Deus freqüentemente revelada do céu contra que as coisas foram consideradas desfavoráveis quando eles. Nada deste lado do inferno humilhará e quebrará não havia rei em Israel. os espíritos orgulhosos de alguns homens, como aconte­ ceu com Lúcifer, Isaías 14.14,15. Agora: Ninrode foi um grande construtor. Ele prova­ velmente planejou a edificação de Babel, e ali T Ninrode foi um grande caçador. Com isto ele co- começou o seu reino. Mas, quando o seu projeto de gover­ JL meçou, e por isto se tornou famoso a ponto de se nar sobre todos os filhos de Noé foi frustrado pela confu­ tornar um provérbio. Todo grande caçador é, em seme­ são das línguas, ele saiu da terra e foi para a Assíria (as­ lhança a ele, chamado de um Ninrode. 1. Alguns pensam sim se lê na anotação de margem em algumas versões da que ele fez o bem com a sua caçada, servindo o seu país Bíblia Sagrada, v. 11) e edificou Nínive e outras cidades. livrando-se dos animais selvagens que o infestavam, e Tendo edificado estas cidades, ele poderia comandá-las assim conseguiu a afeição de seus vizinhos, e conseguiu e governar sobre elas. Observe, em Ninrode, a natureza ser o príncipe deles. Aqueles que exercitam autoridade da ambição: 1. Ela não tem limites. Mesmo tendo muito, são benfeitores, ou pelo menos são chamados de benfei­ ainda clama: Dá, dá. 2. Ela não tem descanso. Mesmo tores, Lucas 22.25. 2. Outros acham que sob o pretexto tendo quatro cidades sob o seu comando, Ninrode não de caçar, ele reunia os homens sob o seu comando, pro­ ficou satisfeito até que teve mais quatro. 3. É muito cara. curando um outro jogo que ele tinha que jogar, que era Ninrode não se importa de ser acusado de erguer cida­ fazer-se senhor do país e trazê-los à sujeição. Ele era des, contanto que tenha a honra de governá-las. O desejo um caçador poderoso, isto é, ele era um invasor violen­ desenfreado de edificar é o efeito comum de um espírito to dos direitos e propriedades de seus vizinhos, e um orgulhoso. 4. É ousada, não se apegará a nada, e não se perseguidor de homens inocentes, carregando tudo que sujeitará a nada. O nome Ninrode significa rebelião (e estivesse diante de si, e tentando se apropriar de tudo ele realmente abusou de seu poder para a opressão de pela força e pela violência. Ele se considerava um prín­ seus vizinhos), o que nos ensina que os homens tiranos cipe poderoso, mas diante do Senhor (isto é, no conceito são rebeldes em relação a Deus, e a sua rebelião é como de Deus) ele era apenas um caçador poderoso. Observe o pecado de feitiçaria. que os grandes conquistadores não passam de grandes caçadores. Alexandre e César não teriam grande im­ portância na história relatada pelas Escrituras, como w. 15-20 tiveram na história secular. O primeiro é representado na profecia como um bode que corria, Daniel 8.5. Nin­ Observe aqui: 1. O relato da posteridade de Canaã, rode era um caçador poderoso contra o Senhor, assim das famílias e nações que descenderam dele, e da terra diz a Septuaginta. Isto é: (1) Ele estabeleceu a idolatria, que possuíram, é mais específico do que qualquer outro como fez Jeroboão, para a confirmação de seu domínio neste capítulo, porque estas eram as nações que seriam usurpado. Para que pudesse estabelecer um novo go­ conquistadas antes de Israel, e a terra deles estava no verno, ele estabeleceu uma nova religião sobre a ruína processo de, com o tempo, se tornar a terra santa, a da constituição primitiva de ambos. Babel era a mãe terra do Emanuel. E isto Deus tinha em vista quando, das meretrizes. Ou: (2) Ele continuou com a sua opres­ nesse ínterim, permitiu que fosse sorteado àquela raça são e violência desafiando o próprio Deus, desafiando o maldita aquele pedaço de terra que Ele havia escolhido céu com a sua impiedade, como se ele e seus caçadores para o seu próprio povo. Moisés observou isto (Dt 32.8) pudessem sobrepujar o Todo-poderoso em valentia, e quando o Altíssimo distribuiu a herança às nações e pôs fossem páreo para o Senhor dos exércitos e para todos os termos dos povos, conforme o número dos filhos de os seus exércitos. Pouco vos é afadigardes os homens, Israel. 2. Por este relato parece que a posteridade de senão que ainda afadigareis ao meu Deus, Isaías 7.13. Canaã era numerosa, e rica, e muito agradavelmente si­ tuada. No entanto, Canaã estava sob uma maldição, uma Ninrode era um grande príncipe: E o princípio do maldição divina, e não uma maldição sem causa. Observe seu reino foi Babel, v. 10. De um modo ou de outro, que aqueles que estão sob a maldição de Deus podem por habilidades ou armas, ele assumiu o poder. Sendo es­ talvez crescer e prosperar grandemente neste mundo. colhido para ele, ou forçando o seu caminho até ele. E as­ Pois não podemos conhecer o amor ou o ódio, a bênção sim estabeleceu os fundamentos de uma monarquia que ou a maldição, pelo que está diante de nós, mas pelo foi, mais tarde, uma cabeça de ouro e o terror dos pode­ que está dentro de nós, Eclesiastes 9.1. A maldição de rosos, e que seria universal. Não parece que ele tivesse Deus sempre opera realmente, e sempre de forma ter­ qualquer direito de governar por nascimento. Mas as rível. Mas esta talvez seja uma maldição secreta, uma suas atribuições para o governo o recomendavam, como maldição para a alma, e não opere visivelmente. Ou uma pensam alguns, para uma eleição, ou por força e política maldição lenta, e não opere imediatamente. Mas os peca­ w. 21-32 GÊNESIS 11 70 dores são, através dela, reservados e fadados a um dia de serve: (1) Serem irmãos pela graça é a melhor maneira ira. Canaã aqui possui uma terra melhor do que Sem ou de serem irmãos. Isto está de acordo com a aliança de Jafé, e ainda assim eles têm uma porção melhor, porque Deus, e com a comunhão dos santos. (2) Deus, ao distri­ herdam a bênção. buir a sua graça, não o faz em função da idade. O mais jovem às vezes ganha a primazia do mais velho ao passar w. 21-32 a fazer parte da igreja. Assim há derradeiros que serão os primeiros, e há primeiros que serão os derradeiros. Duas coisas são especialmente observáveis neste re­ lato da posteridade de Sem: O motivo do nome de Pelegue (v. 25): Porque em seus dias (isto é, na época de seu nascimento, T A descrição de Sem, v. 21. Nós não só temos o seu quando lhe foi dado o nome), a terra foi dividida entre X nome, Sem, que significa “um nome”, mas dois títu­ filhos dos homens que iriam habitá-la. Ou quando Noé los que o distinguem: dividiu através de uma distribuição ordenada, como J 1. Ele foi o pai de todos os filhos de Éber. Éber foi sué dividiu a terra de Canaã por sorteio, ou quando, ao se o seu bisneto. Mas por que ele deveria ser chamado de recusarem a concordar com esta divisão, Deus, com jus­ pai de todos os seus filhos, em vez de pai de todos os fi­ tiça, as dividiu pela confusão das línguas. Qualquer que lhos de Arfaxade, ou de Salá, etc.? Provavelmente por­ tenha sido a ocasião, o piedoso Éber viu motivos para que Abraão e sua semente, o povo da aliança de Deus, perpetuar a lembrança deste fato através do nome de não só descendia de Éber, mas devido a ele foram cha­ seu filho. Que de forma justa os nossos filhos possam ser mados de hebreus; cap. 14.13: “Abrão, o hebreu”. Paulo chamados pelo mesmo nome, porque, nos nossos dias, considerava isso como seu privilégio, que ele fosse um em um outro sentido, a terra, que é a igreja, tem sido “hebreu de hebreus”, Filipenses 3.5. O próprio Éber dividida de uma forma que nos traz grande tristeza. - podemos supor - foi um homem importante para a religião em uma época de apostasia geral, e um grande exemplo de piedade para a sua família. E a santa língua C a p ít u l o 11 deve ter sido comumente chamada de hebraico a partir dele; é provável que ele tenha retido este idioma em sua família, na confusão de Babel, como um sinal especial do A antiga distinção entre os filhos de Deus e os fi­ lhos dos homens (adeptos e profanos) sobreviveu favor de Deus para ele. E por causa dele os professores ao dilúvio, e agora aparecia novamente, quando os de religião eram chamados de filhos de Éber. Agora, quando os escritores inspirados deram a Sem um título homens começavam a multiplicar-se: segundo esta honrado, eles o chamaram de pai dos hebreus. Embora distinção, temos, neste capítulo: I. A dispersão dos eles fossem um povo pobre, desprezado e escravizado filhos dos homens, em Babel (w. 1-9), onde temos, no Egito quando Moisés escreveu estas palavras, era 1. Seu desígnio presunçoso e provocador, que era uma honra para um homem ser relacionado a eles por­ construir uma cidade e uma torre, w. 1-4.2. O jus­ que eram o povo de Deus. Assim como Cam, embora to julgamento de Deus sobre eles, desapontando o seu desígnio, confundindo a sua língua, e, desta tivesse muitos filhos, não é reconhecido sendo chamado maneira, dispersando-os, w. 5-9. II. A linhagem de pai de Canaã (em cuja semente a maldição foi trans­ dos filhos de Deus, até chegar a Abraão (w. 10mitida, cap. 9.22), assim também Sem, embora tivesse muitos filhos, é dignificado com o título de pai de Éber, 26), com uma explicação geral da sua família, e a saída da sua região natal, v. 27ss. em cuja semente a bênção foi transmitida. Observe que uma família de santos é mais verdadeiramente honrada do que uma família de nobres. A semente santa de Sem é mais honrada do que a semente real de Cam. Os doze A Confusão das Línguas patriarcas de Jacó são mais honrados do que os doze w. 1-4 príncipes de Ismael, cap 17.20. A comunhão com o Se­ nhor é a verdadeira grandeza. O final do capítulo anterior nos conta que, através 2. Ele era o irmão de Jafé, o mais velho, pelo que pa­ dos filhos de Noé, ou entre os filhos de Noé, as nações fo­ rece que, embora geralmente Sem seja colocado primei­ ram divididas na terra depois do dilúvio, isto é, foram se­ ro, ele não era o primogênito de Noé, mas Jafé era o mais paradas em diversas tribos, ou colônias. E, tendo os seus velho. Mas por que isto também deveria ser posto como lugares ficado pequenos demais para eles, foi indicado parte do título e descrição de Sem, que ele era o irmão por Noé, ou seus filhos decidiram, para onde cada tribo de Jafé, uma vez que isto tinha sido, na verdade, dito ou colônia deveria seguir, começando com as regiões que freqüentemente antes? E ele não era igualmente irmão estavam próximas a eles, com o objetivo de ir mais adian­ de Cam? A intenção destas palavras era, provavelmente, te, e afastar-se cada vez mais umas das outras, conforme mostrar a união dos gentios com os judeus na igreja. O o crescimento dos seus diversos grupos assim o exigisse. historiador sagrado havia mencionado como a honra de Desta maneira, ficou decidido o assunto, cem anos depois Sem o fato dele ser o pai dos hebreus. Mas, para que a do dilúvio, aproximadamente na época do nascimento de semente de Jafé não fosse, portanto, considerada exclu­ Pelegue. Mas os filhos dos homens, aparentemente, não ída para sempre da igreja, ele aqui nos lembra de que queriam dispersar-se a lugares distantes. Eles julgavam este era o irmão de Jafé, não só no nascimento, mas na que quanto mais, melhor, e mais seguro, e por isto pla­ bênção. Porque Jafé habitaria nas tendas de Sem. Ob­ nejaram continuar juntos, e não se preocuparam em ir n 71 w. 1-4 GÊNESIS 11 e ocupar a terra que o Senhor Deus dos seus pais lhes foram os seus melhores materiais. Mas, quando Deus tinha dado (Js 18.3), julgando-se mais sábios que Deus constrói a sua Jerusalém, Ele lança, até mesmo as suas ou Noé. Aqui, temos: fundações com safiras, e todos os seus termos, de pedras aprazíveis, Isaías 54.11,12; Apocalipse 21.19. 3. Com que finalidade eles construíram. Alguns jul­ As vantagens que favoreceram o seu desígnio de permanecerem juntos: 1. Eles eram todos “de uma gam que eles pretendiam se proteger das águas de outro mesma língua”, v. 1. Se havia línguas diferentes antes dilúvio. Deus lhes tinha dito, na verdade, que não inun­ do dilúvio, somente a de Noé, que provavelmente era a daria outra vez o mundo. Mas eles preferiram confiar mesma de Adão, foi preservada durante o dilúvio, e per­ em uma torre da sua própria construção, do cjue em uma maneceu depois dele. Agora, enquanto todos eles se en­ promessa de Deus, ou em uma arca que Ele indicasse. tendessem, teriam uma probabilidade maior de amarem Se, no entanto, eles tivessem considerado isto, teriam uns aos outros, e uma capacidade maior de ajudarem uns decidido construir a sua torre em cima de um monte, em aos outros, e seriam menos inclinados a se separarem vez de fazê-lo em um vale, mas aparentemente eles visa­ uns dos outros. 2. Eles encontraram um lugar muito con­ vam três coisas, ao construir esta torre: veniente e cômodo onde estabelecer-se, uma planície na (1) Ela parece destinar-se a uma afronta ao próprio terra de Sinar, um lugar espaçoso, onde caberiam todos, Deus. Pois eles desejavam construir uma torre cujo cume e um vale frutífero, capaz, de acordo com o seu número tocasse nos céus, o que evidencia um desafio a Deus, ou atual, de sustentar a todos eles, embora, talvez, eles não pelo menos, uma rivalidade com Ele. Eles desejavam ser tivessem considerado se haveria espaço para eles quan­ como o Altíssimo, ou pelo menos, aproximar-se dele o do seu número crescesse. Observe que as acomodações mais que pudessem, não em santidade, mas em altura. convidativas, na atualidade, freqüentemente provam ser Eles se esqueceram do seu lugar e, desdenhando o raste­ tentações fortes demais que levam à negligência do de­ jar sobre a terra, decidiram subir ao céu, não pela porta ver e dos interesses, no que diz respeito ao futuro. ou por uma escada, mas de alguma outra maneira. (2) Eles esperavam, com isto, fazer um nome para si. O método que eles empregaram para se com­ Eles desejavam fazer alguma coisa para que se falasse prometerem uns com os outros, e para se esta­ deles agora, e para dar a conhecer à posteridade que ha­ belecerem juntos, como um único grupo. Em lugarviade existido homens assim no mundo. Em lugar de mor­ ambicionar ampliar as suas fronteiras, por meio de uma rer sem deixar algo que os recordasse, eles desejavam partida pacífica, sob a proteção divina, eles planejaram deixar este monumento do seu orgulho, e ambição, e toli­ fortificar-se, e, como aqueles que estavam decididos a ce. Observe: [1] O ambição de honra e de um nome entre guerrear com o céu, colocaram-se em uma posição de os homens normalmente inspira um estranho ardor por defesa. A sua decisão unânime foi: “Eia, edifiquemos nós grandes e difíceis empreendimentos, e freqüentemente uma cidade e uma torre”. Deve-se observar que os pri­ para aquilo que é mau e ofensivo a Deus. [2] É justo que meiros construtores de cidades, tanto no mundo antigo Deus enterre no pó os nomes que se erguem pelo pecado. (cap. 4.17), quanto no novo mundo, aqui, não eram ho­ Estes construtores de Babel se permitiram uma grande mens do melhor caráter e reputação: as tendas serviam dose de tolice para se fazerem “um nome". Mas eles não como morada àqueles que se submetiam ao governo de conseguiram sequer isto, pois nós não encontramos em Deus. As cidades eram construídas, no início, por aque­ nenhum lugar da história o nome de sequer um destes les que se rebelavam contra Ele. Observe aqui: construtores. Philo Judaeus diz: Cada um deles gravou 1. Como eles incitaram e incentivaram, uns aos outros, seu nome em um tijolo, in perpetuam rei memoriam para iniciar este trabalho. Eles disseram: “Eia, façamos como um memorial perpétuo. E nenhum dos tijolos ser­ tijolos” (v. 3), e, novamente (v. 4): “Eia, edifiquemos nós viu ao seu propósito. uma cidade” - com incentivos mútuos, eles se tornavam (3) Eles fizeram isto para impedir a sua dispersão: mais ousados e resolutos. Observe que grandes coisas “Para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a podem vil' a acontecer quando os empreendedores são nu­ terra”. Isto foi feito, diz Josefo, em desobediência àquele merosos e unânimes, e incitam uns aos outros. Devemos mandamento (cap. 9.1): “Enchei a terra”. Deus ordena aprender a provocar, uns aos outros, para o amor e as boas que eles se dispersem. “Não”, dizem eles, “não quere­ obras, assim como os pecadores se incentivam e encora­ mos. Nós viveremos e morreremos juntos”. Para conse­ jam, uns aos outros, para as obras mal intencionadas. Veja guir isto, eles se envolvem neste vasto empreendimento. Salmos 122.1; Isaías 2.3,5; Jeremias 50.5. Para que pudessem estar unidos em um império glorio­ 2. Quais materiais eles usaram na sua construção. A so, eles decidem construir esta cidade e esta torre, para região, sendo plana, não produzia nem pedra nem cal, que fossem a metrópole do seu reino, e o centro da sua mas isto não os demoveu do seu empreendimento - eles unidade. E provável que o grupo do ambicioso Ninrode fizeram tijolos para substituir a pedra, e limo, ou betu­ estivesse envolvido nisto. Ele não pôde satisfazer-se com me, para substituir a cal. Veja aqui: (1) Os esquemas que o comando de uma colônia em particular, mas desejava a criarão aqueles que estão decididos nos seus objetivos: monarquia universal, e para isto, sob o pretexto da união se estivéssemos zelosamente influenciados por uma coi­ para a sua segurança comum, ele planeja conservá-los sa boa, não interromperíamos o nosso trabalho tão fre­ como um único corpo, para que, tendo todos sob os seus qüentemente como o fazemos, sob o pretexto de que nos olhos, não deixasse de tê-los sob o seu poder. Veja a pre­ faltam comodidades para realizá-lo. (2) A diferença que sunção ousada destes pecadores. Aqui temos: [1] Uma existe entre a construção dos homens e a de Deus. Quan­ ousada oposição a Deus: “Vocês devem se dispersar”, diz do os homens construíram a sua Babel, tijolos e betume Deus. “Mas não o faremos”, dizem eles. “Ai daquele que I n 72 GÊNESIS 11 W. 5-9 contende com o seu Criador”. [2] Uma ousada competi­ suas mãos, com o qual eles se prometiam honra imortal, ção com Deus. É prerrogativa de Deus ser o monarca pudesse voltar-se para sua reprovação eterna. Observe universal, o Senhor de tudo, e Rei dos reis. O homem que Deus tem objetivos sábios e santos ao permitir que que almeja isto se oferece para colocar o pé no trono de os inimigos da sua glória prossigam um longo caminho nos seus projetos ímpios, e prosperem por algum tem­ Deus, que não dará a outrem a sua glória. po nos seus empreendimentos. 2. Quando tinham, com muito cuidado e esforço, fei­ to um progresso considerável na sua construção, então w. 5-9 Deus determinou que o ritmo deles fosse frustrado, e Aqui temos o cancelamento do projeto dos constru­ que se dispersassem. Observe: (1) A justiça de Deus, que aparece nas considera­ tores de Babel, e a precipitação do conselho daqueles homens rebeldes, para que o conselho de Deus perma­ ções sobre as quais Ele procedeu nesta resolução, v. 6. Ele considerou duas coisas: [1] A união dos homens, necesse, apesar deles. Aqui temos: como uma razão pela qual eles deviam dispersar-se: “Eis que o povo é um, e todos têm uma mesma língua”. "I" Deus tomando conhecimento do desígnio que estava X em andamento: “Desceu o Senhor para ver a cida­ Se continuarem assim, grande parte da terra permane­ de”, v. 5. Esta é uma expressão à maneira dos homens. cerá desabitada. O poder do seu príncipe em breve será Ele sabia, tão claramente e completamente, como sa­ exorbitante. A maldade e a profanação serão intolera­ biam os homens que vinham ao local para olhar. Observe velmente desenfreadas, pois eles se fortalecerão mutu­ que: 1. Antes de julgar a causa deles, Deus a investigou. amente nelas. E, o que é o pior, haverá um desequilíbrio Pois Ele é incontestavelmente justo em todos os seus na igreja, e estes filhos dos homens, se assim se incor­ procedimentos contra o pecado e os pecadores, e não porarem, engolirão os poucos remanescentes dos filhos condena a ninguém sem ouvi-lo. 2. O fato de Deus tomar de Deus. Portanto, está decretado que eles não podem conhecimento desta construção, da qual os empreende­ ser um só. Observe que a união é uma política, mas não dores estavam tão orgulhosos, é mencionado como um é a marca infalível de uma igreja verdadeira. Ainda as­ ato de condescendência de Deus. Pois Ele se curva para sim, enquanto os construtores de Babel, embora de di­ observar as transações, até mesmo as mais considerá­ ferentes famílias, disposições e interesses, estivessem veis, deste mundo inferior, Salmos 113.6. 3. Está escri­ assim unânimes em oposição a Deus, que pena, e que to que a cidade e a torre eram obras que “os filhos dos vergonha será, que os construtores de Sião, embora homens edificavam”, o que sugere: (1) A sua fraqueza e unidos em uma cabeça comum e um Espírito comum, se fragilidade, como homens. Era uma coisa muito tola que dividam, como estão divididos, no serviço a Deus! Mas os filhos dos homens, vermes da terra, desafiassem o céu não se admirem com isto. Cristo não veio para trazer e provocassem o Senhor a sentir inveja. Serão eles mais paz. [2] A sua obstinação: “Não haverá restrição para fortes do que Ele? (2) A sua natureza pecadora e odiosa. tudo o que eles intentarem fazer”. E esta é uma razão Eles eram os filhos de Adão, assim está escrito no texto pela qual o seu desígnio deve ser interceptado e frus­ em hebraico. Na verdade, daquele Adão, daquele Adão trado. Deus tinha tentado, pelos seus mandamentos e desobediente e pecador, cujos filhos são, por natureza, advertências, demovê-los deste projeto, mas foi em váo. filhos da desobediência, filhos que corrompem a outros. Por isto Ele deve tomar outra atitude com eles. Veja (3) A sua distinção dos filhos de Deus, que professam a aqui, em primeiro lugar, a corrupção do pecado, e a per­ religião, dos quais estes construtores ousados tinham se sistência dos pecadores. Desde que Adão não conseguiu separado, e construído esta torre para apoiar e perpetu­ aceitar a restrição à árvore proibida, a sua semente não ar esta separação. O piedoso Éber não é encontrado en­ santificada tem sido impaciente com as restrições, e tre este grupo ímpio. Pois ele e os seus são chamados de pronta a rebelar-se contra elas. Em segundo lugar, veja filhos de Deus, e por isto as suas almas não participam a necessidade dos julgamentos de Deus sobre a terra, desta conspiração, nem se juntam à assembléia destes para manter o mundo em alguma ordem, e para atar as mãos daqueles que não podem ser controlados pela lei. filhos dos homens. (2) A sabedoria e a misericórdia de Deus, nos méto­ Os conselhos e determinações do Deus Eterno, a dos que foram empregados para derrotar este empreen­ respeito deste assunto: Ele não desceu meramen­ dimento (v. 7): “Eia, desçamos e confundamos ali a sua te como um espectador, mas como um juiz, um príncipe, língua”. Isto não foi dito aos anjos, como se Deus pre­ para olhar para estes homens soberbos, e abatê-los, Jó cisasse do seu conselho ou da sua ajuda, mas Deus fala isto consigo mesmo, ou o Pai fala ao Filho e ao Espírito 40.11-14. Observe que: 1. Deus permitiu que eles prosseguissem por al­Santo. Eles tinham dito: “Eia, façamos tijolos”. E: “Eia, gum tempo no seu empreendimento antes de colocar edifiquemos nós uma torre”, incentivando uns aos outros um fim nele, para que pudessem ter a oportunidade de na tentativa. E agora Deus diz: “Eia, confundamos ali a arrepender-se e, se lhes tivesse sobrado alguma consi­ sua língua”. Pois, se os homens se motivarem a pecar, deração, eles pudessem ficar envergonhados e aborre­ Deus se motivará a vingar-se, Isaías 49.17,18. Observe cidos com a sua obra. E caso contrário, para que o seu aqui: [1] A misericórdia de Deus, ao moderar a punição desapontamento pudesse ser ainda mais vergonhoso, e não torná-la proporcional ao crime. Pois Ele não lida e todos os que passassem por ali pudessem rir deles, conosco de acordo com os nossos pecados. Ele não diz: dizendo: Estes homens começaram a construir, e não “Desçamos agora, sob a forma de trovão e relâmpago, foram capazes de terminar, de modo que o trabalho das e destruamos estes rebeldes em um momento”. Nem: w. 5-9 GÉNESIS 11 73 “Que a terra se abra, e os trague e à sua construção, e uma língua universal, por mais desejável que possa pa­ que desçam rapidamente ao inferno estes que estão su­ recer, ainda é, na minha opinião, apenas uma futilidade. bindo ao céu pelo caminho errado”. Não. Ele diz somen­ Pois é lutar contra uma sentença divina, pela qual as lín­ te: “Desçamos, e espalhemos estas pessoas”. Eles mere­ guas das nações serão divididas, enquanto houver mun­ ciam a morte, mas são somente expulsos ou transferidos. do. (5) Aqui podemos lamentar a perda do uso universal Pois a paciência de Deus é muito grande com um mundo da língua hebraica, pois a partir de então ela tornou-se provocador. As punições estão reservadas principalmen­ somente a língua comum dos hebreus, e assim permane­ te para a condição futura. Os julgamentos que Deus faz ceu até o cativeiro na Babilônia, onde, mesmo entre eles, dos pecadores nesta vida, em comparação com aqueles foi substituída pelo idioma sírio. (6) Assim como a confu­ que estão reservados, são pouco mais do que empecilhos. são de línguas dividiu os filhos dos homens e os espalhou [2] A sabedoria de Deus, ao escolher um método efetivo sobre a face de toda a terra, o dom de línguas, conferido para interromper a evolução da construção, que foi o de aos apóstolos (At 2) contribuiu enormemente para a reu­ confundir a língua deles, para que não pudessem enten­ nião dos filhos de Deus, que estavam espalhados, e a sua der as palavras uns dos outros, nem pudessem unir as união em Cristo, para que com uma mente e uma boca mãos quando suas línguas estavam divididas. De modo possam glorificar a Deus, Romanos 15.6. 2. A sua construção foi interrompida: “Cessaram de que este foi um método bastante apropriado para demo­ vê-los da sua construção (pois, se não podiam compreen­ edificar a cidade”. Este foi o resultado da confusão das der uns aos outros, não podiam ajudai’uns aos outros), e línguas. Pois não somente os incapacitou a se ajudarem também para deixá-los dispostos a se dispersarem. Pois, uns aos outros, mas provavelmente instalou tal desalento quando não puderam compreender uns aos outros, não sobre os seus espíritos que eles não puderam prosseguir, tinham mais satisfação, uns com os outros. Observe que uma vez que viram, nisto, a mão do Senhor contra eles. Deus tem vários meios, e eficientes, para frustrar e der­ Observe que: (1) E sábio desistir daquilo contra o que rotar os projetos dos homens soberbos que se colocam vemos Deus lutar. (2) Deus pode destruir e arrasar todos contra Ele, e, particularmente, para dividi-los, seja di­ os artifícios e desígnios dos construtores de Babel. Ele vidindo os seus espíritos (Jz 9.23), ou dividindo as suas está no céu, e se ri dos conselhos dos reis da terra contra Ele e o seu ungido. E irá forçá-los a confessar que não línguas, como roga Davi, Salmos 55.9. há sabedoria, nem conselho contra o Senhor, Provérbios T T T A execução destes conselhos de Deus, para a 21.30; Isaías 8.9,10. 3. Os construtores se espalharam sobre a face de .JL JL1 destruição e a derrota dos conselhos dos ho­ mens, w. 8,9. Deus os fez saber qual palavra subsistirá, a toda a terra, w. 8,9. Eles partiram em grupos, confor­ sua palavra ou a deles, conforme a expressão. Jeremias me as suas famílias, e conforme as suas línguas (cap. 44.28. Apesar da sua união e obstinação, Deus foi severo 10.5,20,31), aos diversos lugares designados a eles na com eles, e naquilo que os orgulhava, Ele estava acima divisão que tinha sido feita, que eles já conheciam an­ deles. Pois quem endureceu seu coração contra Ele, e tes, mas não desejaram ir tomar posse até agora, que foram forçados a isto. Observe aqui que: (1) Aquilo que prosperou? Três coisas foram feitas: 1. A sua língua foi confundida. Deus, que, quandoeles temiam, lhes sobreveio. Aquela dispersão que pro­ criou o homem, o ensinou a falar, e a colocar na sua boca curavam evitar, através de um ato de rebelião, foi o que palavras adequadas para expressar os conceitos da sua causaram a si mesmos através deste mesmo ato - nós mente, agora fazia com que estes construtores se esque­ temos mais probabilidades de cair naqueles problemas cessem da sua antiga língua, e falassem e compreendes­ que tentamos evitar através de métodos indiretos e pe­ sem uma nova, que era comum àqueles da mesma tribo caminosos. (2) Era obra de Deus: “o Senhor os espa­ ou família, mas não a outros: aqueles de uma colônia po­ lhou”. A mão de Deus deve ser reconhecida em todas as diam conversar entre si, mas não com os de outra. Bem: providências de dispersão. Se a família se dispersa, se (1) Este era um grande milagre, e uma prova do poder os conhecidos se dispersam, se as igrejas se dispersam, que Deus tem sobre as mentes e as línguas dos homens, isto pode se tratar de uma obra do Senhor. (3) Embora cujo curso Ele altera, como se fossem rios. (2) Este era estivessem tão aliados entre si como poderiam estar, um grande julgamento sobre estes construtores. Pois, ainda assim o Senhor os espalhou. Pois ninguém pode estando privados, desta maneira, do conhecimento da unir o que Deus separa. (4) Assim Deus teve a justa antiga e santa língua, eles tinham ficado incapazes de vingança sobre eles, pela sua união naquela presunçosa comunicar-se com a verdadeira igreja, na qual ela era tentativa de construir a sua torre. As dispersões ver­ guardada, e provavelmente isto contribuiu muito para a gonhosas são a justa punição das uniões pecaminosas. sua perda do conhecimento do verdadeiro Deus. (3) To­ Simeão e Levi, que eram irmãos em iniqüidade, foram dos nós sofremos por causa disto, até hoje. Em todas as divididos em Jacó, cap. 49.5,7; Salmos 83.3-13. (5) Eles inconveniências que sofremos devido à diversidade de deixaram atrás de si uma recordação perpétua da re­ línguas, e todos os sofrimentos e dificuldades que temos preensão que receberam, no nome dado ao lugar. Ele para aprender as línguas, quando temos oportunidade, foi chamado Babel, confusão. Aqueles que visam um nós sofremos por causa da rebelião dos nossos ances­ grande nome normalmente acabam com um mau nome. trais, em Babel. Na verdade, todas as infelizes contro­ (6) Os filhos dos homens agora estavam finalmente dis­ vérsias que são disputas de palavras, e surgem pelo fato persos, e nunca se uniram novamente, nem jamais se de que interpretamos mal uns aos outros, que eu saiba, unirão, até o grande dia, quando o Filho se assentará se devem a esta confusão de línguas. (4) O projeto de al­ no trono da sua glória, e todas as nações forem reunidas guns de formar um caráter universal, com o objetivo de diante dele, Mateus 25.31,32. 74 Seus parentes, mencionados por sua causa, e por causa do seu interesse na história a seguir. 1. Seu pai foi Tera, de quem está escrito (Js 24.2) que servia a outros deuses, dalém do rio, pois desde cedo a idolatria ganhou bases no mundo, pois é difícil, mesmo para aque­ les que têm bons princípios, nadar contra a corrente. Embora esteja escrito (v. 26) que Tera gerou a Abrão, a Naor e a Harã quando tinha setenta anos (o que parece nos dizer que Abrão foi o filho mais velho de Tera, e que nasceu no seu septuagésimo ano de vida). Ainda assim, pela comparação do versículo 32, que diz que Tera morreu no seu 20-5.° ano, com Atos 7.4 (de onde entendo que ele ti­ nha somente setenta e cinco anos de idade, quando deixou Harã), parece que ele nasceu no 130.° ano de Tera, e pro­ vavelmente foi o seu filho mais jovem. Pois, nas escolhas de Deus, os últimos freqüentemente são os primeiros, e os primeiros, os últimos. Temos: 2. Algumas informações sobre os seus irmãos. (1) Naor, de cuja família vieram as esposas de Isaque e também de Jacó. (2) Harã, o pai de Ló, de quem aqui está escrito (v. 28) que morreu antes do seu pai, Tera. Observe que os filhos não podem ter certe­ za de que irão viver mais que os seus pais. Pois a morte não obedece a antigüidade, levando primeiro o mais velho. A sombra da morte é sem ordem alguma, Jó 10.22. Da mesma maneira, está escrito que ele morreu em Ur dos caldeus, antes da feliz remoção da família daquela região idólatra. Observe que é nosso interesse procurar sair ra­ pidamente da nossa condição natural, para que a morte não nos surpreenda nela. 3. A sua esposa foi Sarai, que, opinam alguns, é a mesma Iscá, filha de Harã. O próprio Abrão diz, a respeito dela, que ela era a filha do seu pai [pai de Abraão], mas não a filha de sua mãe, cap. 20.12. Ela era dez anos mais jovem que Abrão. GÊNESIS 12 w. 10-26 w. 10-26 Aqui temos uma genealogia, não uma genealogia sem fim, pois aqui ela termina em Abrão, o amigo de Deus, e mais adiante conduz até Cristo, a semente prometida, e a genealogia de Cristo está registrada partir de Abrão (Mt l.lss.). De modo que isto compatibiliza o capítulo 5, o capítulo 11, e Mateus 1, e o leitor tem toda a genealo­ gia de Jesus Cristo como a de nenhuma outra pessoa do mundo (na minha opinião), da sua linhagem completa, e a tal distância da fonte. E, unindo estas três genealogias, descobriremos que houve duas vezes dez, e três vezes catorze gerações ou descendentes, entre o primeiro e o segundo Adão, evidenciando, a respeito de Cristo, que Ele não somente era Filho de Abraão, mas o Filho do ho­ mem, e a semente da mulher. Observe aqui que: 1. Nada é registrado a respeito das pessoas desta linhagem, exceto seus nomes e idades. O Espírito Santo aparen­ temente se apressa em meio a esta menção até chegar à história de Abrão. Quão pouco sabemos sobre aqueles que vieram antes de nós neste mundo, mesmo aqueles que viveram nos mesmos lugares onde nós vivemos. Da mesma maneira, pouco sabemos sobre aqueles que são nossos contemporâneos em lugares distantes! Basta-nos preocupar-nos com o trabalho do nosso dia, e com o fato de que Deus pede conta do que passou, Eclesiastes 3.15. 2. Houve uma diminuição gradual, mas notável, no nú­ mero de anos da vida deles. Sem viveu 600 anos, o que era menos do que a idade dos patriarcas antes do dilúvio. Os três seguintes não chegaram a 500 anos. Os três se­ guintes, não chegaram a 300 anos. Depois deles, não le­ mos que ninguém tenha vivido 200 anos, exceto Tera. E, não muitas gerações depois disto, Moisés alcançou 70, ou 80 anos, que é o que os homens normalmente alcançam em nossa época. Quando a terra começou a ser povoada, a vida dos homens começou a ficar mais curta. De modo que a diminuição deve ser atribuída à sábia disposição da Providência, e não a alguma decadência da natureza. Por causa dos escolhidos, serão abreviados os dias dos homens. E, sendo maus, é bom que sejam poucos, e não cheguem aos dias dos anos da vida de nossos pais, cap. 47.9. 3. Éber, que deu o nome aos hebreus, foi quem teve a vida mais longa entre todos os que nasceram depois do dilúvio, o que talvez tenha sido a recompensa pela sua singular piedade e rígida adesão aos caminhos de Deus. As Gerações de Tera n A sua partida de Ur dos caldeus, com seu pai Tera, seu sobrinho Ló e o resto da sua família, em obediência ao chamado de Deus, sobre o qual lere­ mos mais, cap. 12.1ss. Este capítulo os deixa em Harã, um lugar aproximadamente no meio do caminho entre Ur e Canaã, onde viveram até a morte de Tera, provavel­ mente porque o velho era incapaz, devido às fraquezas da idade, de prosseguir na sua jornada. Muitos chegam a Harã, mas não conseguem chegar a Canaã. Eles não estão longe do reino de Deus, mas ainda assim nunca chegam até lá. w. 27-32 C a p í t u l o 12 Aqui tem início a história de Abrão, cujo nome se tornou famoso, a partir daqui, em ambos os Testamen­ tos. Aqui temos: No capítulo anterior, nós lemos sobre a linhagem e a família de Abraão. Aqui o Espírito Santo en­ tra na sua história, e daqui em diante Abrão e a sua semente são praticamente o único assunto da história sagrada. Neste capítulo, temos: I. O cha­ mado de Deus, para que Abrão fosse para a terra de Canaã, w. 1-3. II. A obediência de Abrão a este chamado, w. 4,5. III. A sua recepção na terra de Canaã, w. 6-9. IV A sua viagem ao Egito, com um relato do que lhe aconteceu ali. A fuga e o erro de Abrão, w. 10-13. O risco que Sarai correu, e o seu resgate, w. 14-20. T A terra do seu nascimento: “Ur dos caldeus”. Esta é X a terra do seu nascimento, uma região idólatra, onde até mesmo os próprios filhos de Éber tinham degene­ rado. Observe que aqueles que, por meio da graça, são herdeiros da terra da promessa, devem se lembrar de qual foi a terra do seu nascimento, de qual foi a sua con­ dição corrompida e pecaminosa por natureza, e também da rocha da qual foram tirados. GÊNESIS 12 w. 1-3 tudo isto deve ser odiado (Lc 14.26). Isto é, nós devemos 0 Chamado de Abrão amar tudo isto menos do que amamos a Cristo, amar mui­ W. 1-3 to menos tudo isto em comparação com Ele, e, sempre que Aqui temos o chamado pelo qual Abrão foi levado da qualquer uma destas coisas ou pessoas vier a competir terra do seu nascimento à terra da promessa, o que esta­ com Ele, deverá ser rejeitada, e a preferência deverá ser va designado tanto para testar a sua fé e obediência como dada à vontade e à honra do Senhor Jesus. (2) O pecado, para separá-lo e consagrá-lo para Deus, como também e todas as oportunidades para que ele ocorra, devem ser para serviços e favores especiais que lhe foram designa­ abandonados, em particular as más companhias. Nós de­ dos. Quanto às circunstâncias deste chamado podemos, vemos abandonar todos os ídolos de iniqüidade que se ins­ de alguma maneira, ser esclarecidos com o conhecimen­ talaram nos nossos corações, e sair do caminho da tenta­ to das palavras de Estêvão, Atos 7.2, onde nos é dito: 1. ção, arrancando até mesmo um olho direito se nos levar ao Que a glória de Deus apareceu a Abrão para fazer este pecado (Mt 5.29), voluntariamente separando-nos daquilo chamado, apareceu com tais manifestações da sua glória, que nos é querido, quando não podemos conservá-lo sem que não deu oportunidade para Abrão duvidar da divina prejudicar a nossa integridade. Aqueles que se decidem autoridade deste chamado. Posteriormente, Deus lhe fa­ a observar os mandamentos de Deus devem abandonar lou de diversas maneiras. Mas esta primeira vez, quando a companhia dos malfeitores, Salmos 119.115; Atos 2.40. a correspondência estava sendo estabelecida, Ele lhe (3) O mundo, e todos os nossos prazeres nele, devem ser apareceu como o Deus de glória, e falou com ele. 2. Que encarados com uma indiferença e um desprezo sagrados. este chamado foi feito na Mesopotâmia, antes de Abrão Nós não devemos mais considerá-lo como a nossa terra, habitar em Harã. Por isto interpretamos corretamente ou a nossa casa, mas como a nossa hospedaria, e, de ma­ que o Senhor tinha falado com Abrão, especificamente, neira correspondente, devemos ser indiferentes a ele, e em Ur dos caldeus. E, em obediência a este chamado, viver acima dele, deixar de querê-lo. 2. Por este preceito ele foi testado, se poderia confiar como Estêvão continua relatando a história (At 7.4), saiu da terra dos caldeus e habitou em Harã, por aproxima­ em Deus mesmo sem poder vê-lo. Pois precisava deixar damente cinco anos, e depois que seu pai faleceu, por a sua própria terra, para ir a uma terra que Deus iria lhe uma nova ordem, que se seguiu à anterior, Deus o trouxe mostrar. Deus não diz: “E uma terra que eu te darei”, à terra de Canaã. Alguns pensam que Harã se localizava mas apenas: “uma terra que eu te mostrarei”. Tampouco na Caldéia, e seria ainda uma parte da terra de Abrão, Ele lhe diz qual era esta terra, nem que tipo de terra ou que Abrão, tendo permanecido ali durante cinco anos, era. Mas ele devia seguir a Deus com uma fé implícita, começou a chamá-la de sua terra, a criar raízes ali, até e aceitar a palavra de Deus sobre a terra, de maneira que Deus o fez saber que este não era o lugar ao qual ele geral, embora não tivesse recebido nenhuma garantia estava destinado. Observe que se Deus nos ama, e tem especial de que não sairia perdendo ao deixar a sua terra misericórdia reservada para nós, Ele não permitirá que para seguir a Deus. Observe que aqueles que lidam com aceitemos o nosso descanso antes de chegar a Canaã, Deus, devem lidar com confiança. Nós devemos substi­ mas graciosamente irá repetir os seus chamados, até tuir todas as coisas que são vistas por coisas que não são que a boa obra comece a realizar-se, e as nossas almas vistas, e submeter-nos às aflições deste tempo presente repousem em Deus somente. No chamado propriamente esperando uma glória que ainda há de ser revelada (Em 8.18). Pois ainda não é manifesto o que havemos de ser dito nós temos um preceito e uma promessa. (1 Jo -3.2), não mais do que a Abrão, quando Deus o cha­ T Um preceito de teste: “Sai-te da tua terra”, v. 1. mou a uma terra que lhe mostraria, ensinando-o, assim, a viver dependendo constantemente da sua orientação, e X Agora: 1. Por este preceito ele foi submetido a uma prova quecom seus olhos voltados para Ele. testava se ele amava a sua terra natal e os seus amigos queridos, ou se poderia, voluntariamente, deixai' tudo, T X Aqui está uma promessa encorajadora, ou melhor, para seguir a Deus. A sua terra tinha se tornado idólatra, a 1 X uma complicação de promessas, muitas, e exces­ sua parentela e a casa do seu pai eram uma tentação cons­ sivamente grandiosas e preciosas. Observe que todos os tante para ele, e ele não poderia continuar com eles sem preceitos de Deus são acompanhados de promessas aos perigo de ser infectado. Portanto: Saia, lk-lk - Vade tibi, obedientes. Ele mesmo se dá a conhecer também como Saia logo, com toda a velocidade, escapa-te por tua vida. aquele que recompensa: se obedecermos à sua ordem, Não olhes para trás de ti, cap. 19.17. Observe que aqueles Deus não deixará de cumprir a promessa. Aqui há seis que estão em situação de pecado devem se interessar por promessas: 1. “Far-te-ei uma grande nação”. Quando Deus o ti­ fazer todo o possível para sair dela rapidamente. Sai por ti mesmo (segundo a interpretação de alguns), isto é, para o rou do seu próprio povo, prometeu fazer dele a cabeça de teu próprio bem. Observe que aqueles que abandonam os outro. Ele o fez deixar de ser o ramo de um zambujeiro, seus pecados, e que se voltam a Deus, ganharão indescri­ para fazer dele a raiz de uma boa oliveira. Esta promessa tivelmente com a mudança, Provérbios 9.12. Esta ordem foi: (1) Um grande alívio à apreensão de Abrão. Pois ele que Deus deu a Abrão é praticamente o mesmo chamado não tinha filhos. Observe que Deus sabe como adequar do Evangelho, pelo qual toda a semente espiritual do fiel os seus favores às necessidades dos seus filhos. Aquele Abrão é trazida ao concerto com Deus. Pois: (1) O afeto que tem um emplastro para cada ferida irá fornecer um natural deve abrir caminho à graça divina. A nossa terra para aquela que for mais dolorosa. (2) Um grande teste nos é querida, os nossos parentes ainda mais queridos, e a para a fé de Abrão. Pois a sua esposa tinha sido estéril casa do nosso pai é o que mais queremos. Mas ainda assim por muito tempo, de modo que, se ele cresse, isto seria 75 w. 4,5 GÊNESIS 12 76 contra as esperanças, e a sua fé deveria estar edificada ção do mundo, a maior com que o mundo jamais foi aben­ exclusivamente sobre aquele poder, que de pedras pode çoado. Ele é uma bênção familiar, por Ele vem a salvação suscitar filhos a Abraão e fazer deles uma grande nação. à casa (Lc 19.9). Quando contarmos as bênçãos da nossa Observe que: [1] Deus faz nações: através dele, nações família, devemos colocar Cristo no imprimis - primeiro nascem de uma só vez (Is 66.8), e Ele fala de edificá-las e lugar, como a bênção das bênçãos. Mas como podem ser plantá-las, Jeremias 18.9. E: [2] Se uma nação for grande todas as famílias da terra abençoadas em Cristo, quando em riqueza e poder, é Deus que a faz grande. [3] Deus tantas são estranhas a Ele? Resposta: [1] Todos os que pode criar grandes nações a partir de terra seca, e pode são abençoados, são abençoados nele, Atos 4.12. [2] To­ fazer com que o menor seja mil. dos os que crêem, não importa a qual família pertençam, 2. “Abençoar-te-ei”, particularmente com as bênçãos serão abençoados nele. [3] Alguns cle todas as famílias da da fertilidade e da multiplicação, como tinha abençoado terra são abençoados nele. [4] Existem algumas bênçãos a Adão e a Noé, ou, de maneira geral: “Eu o abençoarei com as quais todas as famílias da terra são abençoadas com todo tipo de bênçãos, tanto as mais elevadas quanto em Cristo. Pois a salvação do Evangelho é a salvação as mais simples. Deixe a casa do seu pai, e lhe darei a comum, Judas 3. (2) É uma grande honra relacionar-se bênção de um Pai, melhor do que a dos seus progenito­ com Cristo. O fato de que o Messias seria fruto dos seus res”. Observe que os crentes obedientes terão certeza de lombos engrandeceu o nome de Abrão muito mais do que o fato de que ele seria o pai de muitas nações. Foi uma herdar as bênçãos. 3. “Engrandecerei o teu nome”. Ao deixar a sua grande honra para Abrão ser o seu pai, pela natureza, ou terra, ele perdeu ali o seu nome. “Não se preocupe com seja, ser o patriarca da sua descendência. A nossa será isto”, diz Deus, “mas confie em mim, e Eu lhe farei um sermos seus irmãos, pela graça, Mateus 12.50. nome maior do que você poderia ter tido ali”. Não tendo filhos, ele temia não ter um nome. Mas Deus fará dele uma grande nação, e desta maneira, lhe engrandecerá A Chegada de Abrão a Canaã w. 4,5 o seu grande nome. Observe que: (1) Deus é a fonte de honra e dele vem a promoção, 1 Samuel 2.8. (2) O nome Aqui temos: dos crentes obedientes certamente será celebrado e en­ grandecido. O melhor testemunho é aquele que os anti­ gos alcançaram pela fé, Hebreus 11.2. T A saída de Abrão da sua terra, primeiramente de Ur, 4. “Tu serás uma bênção”. Isto é: (1) “A sua felicidade JL e posteriormente de Harã, obedecendo ao chamado será um exemplo de felicidade, de modo que àqueles que de Deus: “Assim, partiu Abrão”. Ele não foi desobedien­ quiserem abençoar os seus amigos bastará rogar que te à visão celestial, mas fez o que lhe foi dito, sem consul­ Deus os faça como Abrão”. Como em Rute 4.11. Obser­ tar carne ou sangue, Gálatas 1.15,16. A sua obediência foi ve que a maneira como Deus lida com os crentes é tão pronta e imediata, submissa e sem discussões. Pois ele gentil e graciosa que não precisamos desejar, nem a nós partiu, sem saber para onde ia (Hb 11.8), mas sabendo a mesmos, nem aos nossos amigos, melhor tratamento que quem seguia, e sob cuja orientação partia. Assim Deus o este: ter a Deus como nosso amigo é bênção suficiente. chamou para o pé de si, Isaías 41.2. (2) “A sua vida será uma bênção aos lugares onde você estiver”. Observe que os bons homens são as bênçãos da T T A sua idade quando partiu: Abrão tinha “setenta e sua terra, e o fato de que assim sejam é a sua indescrití­ JL A cinco anos”, uma idade em que ele talvez preferisse vel honra e felicidade. descansar e se estabelecer. Mas, se Deus desejava que ele 5. Eu “abençoarei os que te abençoarem e amaldi­ desse um novo início ao mundo, na sua velhice, ele obede­ çoarei os que te amaldiçoarem”. Isto criou um tipo de ceria. Aqui está um exemplo de um antigo concerto. aliança, ofensiva e defensiva, entre Deus e Abrão. Abrão abraçou sinceramente a causa de Deus, e aqui Deus T T T O grupo e os bens que Abrão levou consigo. promete se interessar pela dele. (1) Ele promete ser um Jt À A 1. Ele levou consigo “a Sarai, sua mulher, e a amigo dos seus amigos, a considerar as gentilezas feitas Ló, filho de seu irmão. Não pela força, e contra as suas a Abrão como feitas a Ele mesmo, e a recompensá-las vontades, mas pela persuasão. Sarai, sua mulher, certa­ adequadamente. Deus irá cuidar para que ninguém saia mente iria com ele. Deus os tinha unido, e nada poderia perdedor, no longo caminho, por nenhum serviço feito separá-los. Se Abrão deixasse tudo, para seguir a Deus, pelo seu povo. Até mesmo um copo de água fria será Sarai deixaria tudo, para seguir a Abrão, embora ne­ recompensado. (2) Ele promete manifestar-se contra os nhum deles soubesse para onde iam. E foi uma miseri­ seus inimigos. Estes são aqueles que odiavam e amaldi­ córdia para Abrão ter tal companheira nas suas viagens, çoavam o próprio Abrão. Mas, embora as suas maldições uma adjutora para ele. Observe que é muito consolador infundadas não possam ferir a Abrão, a justa maldição quando marido e mulher concordam em percorrer jun­ de Deus certamente os dominará e arruinará, Números tos o caminho para o céu. Também Ló, seu parente, foi 24.9. Esta é uma boa razão pela qual nós devemos aben­ influenciado pelo bom exemplo de Abrão, que talvez fos­ çoar aqueles que nos amaldiçoam, porque é suficiente se seu protetor, depois da morte do seu pai, e desejou que Deus os amaldiçoe, Salmos 38.13-15. acompanhá-lo também. Observe que aqueles que vão 6. “Em ti serão benditas todas as famílias da terra”. a Canaã não precisam ir sozinhos. Pois embora poucos Esta foi a promessa que coroou todas as demais. Pois ela encontrem a porta estreita, bendito seja Deus, alguns a aponta para o Messias, em quem todas as promessas são encontram. E sábio ir com aqueles com quem Deus está cumpridas. Observe que: (1) Jesus Cristo é a grande bên­ (Zc 8.23), para onde quer que eles vão. GÊNESIS 12 w. 6-9 O pouco conforto que ele teve na terra à qual tinha 2. Eles levaram consigo “toda a sua fazenda - todos vindo. Pois: 1. Ele não a teve para si: “Estavam, en­ os seus bens móveis - que haviam adquirido”. Pois: (1) No seu íntimo, eles deixaram tudo o que tinham, para tão, os cananeus na terra”. Ele encontrou a região po­ estar à disposição de Deus, não retiveram nenhuma voada e possuída pelos cananeus, que provavelmente parte do preço, mas dedicaram tudo ao Senhor, sabendo seriam maus vizinhos e proprietários ainda piores. E, que esta seria a melhor atitude. (2) Eles se abastece­ pelo que parece, ele não teria lugar onde armar a sua ram com o que era necessário, tanto para o serviço de tenda, exceto por permissão deles. Desta maneira, os Deus quanto para o suprimento de sua família, na terra amaldiçoados cananeus pareciam estai' em melhores cir­ à qual se dirigiam. Ter jogado fora o seu sustento, por­ cunstâncias do que o abençoado Abrão. Observe que os que Deus tinha prometido abençoá-lo, teria sido tentar filhos deste mundo normalmente possuem mais coisas a Deus, não confiar nele. (3) Eles não desejavam ter deste mundo, do que os filhos de Deus. 2. Ele não tinha nenhuma tentação de voltar. Por isto não deixaram nem onde estabelecer-se: “Passou Abrão por aquela terra”, v. uma unha para trás, para que isto não os fizesse pensar 6. E “moveu-se dali para a montanha”, v. 8. “Depois, ca­ minhou Abrão dali, seguindo ainda”, v. 9. Observe aqui: na terra da qual saíam. 3. Eles levaram consigo as almas que tinham con­ (1) Algumas vezes, o destino dos homens bons é não se seguido, isto é: (1) Os servos que tinham comprado, que estabelecerem, e serem obrigados, freqüentemente, a eram parte da sua fazenda - são chamados de almas, para transferir a sua residência. O bendito Davi teve as suas lembrar aos senhores que os seus pobres servos têm al­ peregrinações, as suas mudanças, Salmos 56.8. (2) As mas, almas preciosas, das quais eles devem cuidar e às nossas mudanças neste mundo freqüentemente ocorrem quais devem providenciar o alimento necessário e conve­ sob variadas condições. Abrão residiu temporariamente, niente. (2) Os prosélitos que tinham feito, e persuadido primeiramente em uma planície, v. 6, e depois em uma a adorar ao Deus verdadeiro, e a ir com eles a Canaã: montanha, v. 8. Deus o colocou em situações opostas. as almas que (como um dos rabinos assim o expressa) (3) Todas as pessoas devem considerar-se estranhos e tinham ajuntado debaixo das asas da Majestade divina. temporários neste mundo, e pela fé, encará-lo como uma Observe que aqueles que servem e seguem a Cristo de­ terra estranha. Abrão fez isto, Hebreus 11.8-14. (4) En­ vem fazer tudo o que puderem para trazer outros para quanto estivermos aqui, nesta condição atual, devemos servi-lo e segui-lo também. Aqui está escrito que estas estar viajando, e prosseguindo, de força em força, como almas se lhes haviam sido acrescidas. Nós devemos nos ainda não tendo chegado. considerar verdadeiros ganhadores se pudermos, sim­ Quanto consolo ele tinha no Deus ao qual seguia. plesmente, ganhar almas para Cristo. Embora pudesse ter pouca satisfação na convivên­ Aqui está a sua feliz chegada ao final da sua jor­ cia com os cananeus que encontrou ali, tinha abundante nada: “Vieram à terra de Canaã”. Assim tinham prazer na comunhão com aquele Deus que o havia trazi­ feito antes (cap. 11.31), porém sem chegar ao final da jor­ do para junto deles, e não o abandonou. A comunhão com nada, mas agora prosseguiram no seu caminho, e, pela Deus é mantida pela palavra e pela oração. E, por elas, de boa mão do seu Deus com eles, chegaram à terra de Ca­ acordo com os métodos daquela dispensação, a comunhão naã, onde, por uma nova revelação, souberam que esta com Deus foi mantida na terra na sua peregrinação. 1. Deus apareceu a Abrão, provavelmente em uma era a terra que Deus tinha prometido mostrar-lhes. Não ficaram desencorajados pelas dificuldades que encontra­ visão, e lhe disse palavras boas e consoladoras: “A tua se­ ram no seu caminho, nem se desviaram pelos deleites mente darei esta terra”. Observe: (1) Nenhum lugar, nem que encontraram, mas prosseguiram adiante. Observe condição de vida, pode nos excluir do consolo das gracio­ que: 1. Aqueles que saem rumo ao céu devem perseve­ sas visitas de Deus. Abrão é um residente temporário, não rar até o fim, procurando sempre alcançar as coisas que estabelecido entre os cananeus. Mas aqui também ele en­ estão à frente. 2. Aquilo que fizermos em obediência às contra aquele que vive, e que o vê. Os inimigos podem nos ordens de Deus, e acompanhando humildemente a sua separar das nossas tendas, dos nossos altares, mas não do providência, certamente será bem sucedido, e nos trará, nosso Deus. Na verdade: (2) Com respeito àqueles que se­ guem fielmente a Deus, no caminho do dever, embora Ele por fim, muitos consolos. os afaste dos seus amigos, Ele irá, pessoalmente, compen­ sar esta perda, por meio das suas graciosas manifestações a eles. (3) As promessas de Deus são garantidas e satisfa­ A Devoção de Abrão tórias a todos aqueles que conscientemente observam e w. 6-9 obedecem aos seus preceitos. E aqueles que, obedecendo Poderíamos esperar que, tendo tido um chamado tão ao chamado de Deus, deixam para trás, ou perdem qual­ extraordinário a Canaã, algum grande evento acontece­ quer coisa que lhes é querida, podem ter certeza de al­ ria quando Abrão ali chegasse, que ele fosse recebido guma coisa abundantemente melhor no seu lugar. Abrão com todos os sinais possíveis de honra e respeito, e que tinha deixado a terra do seu nascimento: “Bem”, diz os reis de Canaã lhe teriam imediatamente entregado Deus, “dar-te-ei esta terra”, cap. 15.7. Veja Mateus 19.29. suas coroas, prestando-lhe homenagens. Mas, não. Ele (4) Deus revela tanto a sua Pessoa como os seus favores chega despercebido e pouco é notado, pois Deus ainda gradualmente, ao seu povo. Antes Ele tinha prometido desejava que ele vivesse pela fé, e que considerasse Ca­ a Abrão mostrar-lhe esta terra. Agora, promete dá-la a naã, mesmo já estando nela, como uma terra de promes­ Abrão. Assim como a graça é crescente, o consolo também o é. (5) É consolador ter a terra dada por Deus, não so­ sa. Por isto, observe aqui: 77 I n w. 10-13 GÊNESIS 12 78 mente pela providência, mas também pela promessa. (6) As temporariamente. E foi um teste muito amargo. O teste graças concedidas aos filhos são graças concedidas aos pais. verificou o que ele pensava: 1. A respeito de Deus, que Eu a darei, não a você, mas à sua semente: “A tua semente o tinha conduzido até ali - se ele não estaria pronto a darei esta terra”. Esta era uma concessão em termos de dizer, murmurando como a sua semente, que tinha sido direito futuro, à sua semente, que, aparentemente, Abrão trazido para morrer de fome, Êxodo 16.3. Nada aquém entendeu também como uma concessão a si mesmo, de uma de uma forte fé poderia conservar os bons pensamentos terra melhor no futuro, da qual esta era um tipo. Pois ele a respeito de Deus, sob tal providência. 2. Sobre a terra esperava uma pátria celestial, Hebreus 11.16. da promessa - se ele julgaria a sua concessão merece­ 2. Abrão serviu a Deus nas ordenanças que Ele haviadora de aceitação, e uma consideração valiosa para o instituído. Ele “edificou ali um altar ao Senhor, que lhe abandono da sua própria terra, quando, aparentemente, aparecera... e invocou o nome do Senhor”, w. 7,8. Consi­ era uma terra que devorava os seus habitantes. Agora dere isto: (1) Como sendo feito em uma ocasião especial. ele era posto à prova quanto a se poderia preservar uma Deus se manifestou a Abrão quando e onde ele edificou confiança inabalável de que aquele Deus que o havia tra­ um altar, visando o Deus que lhe aparecera. Assim ele zido a Canaã iria sustentá-lo ali, e se poderia alegrar-se retribuiu a visita de Deus, e manteve a sua correspon­ nele, como o Deus da sua salvação, quando a figueira não dência com o céu, como alguém que estava decidido a não floresceu, Habacuque 3.17,18. Observe que: (1) Uma fé deixar que ela falhasse por alguma negligência de sua forte é normalmente testada com diversas provações, parte. Assim ele reconheceu, com gratidão, a bondade para que se ache em louvor, e honra e glória, 1 Pedro de Deus a ele, ao fazer-lhe esta graciosa visita e promes­ 1.6,7. (2) Às vezes, agrada a Deus provar com grandes sa. E assim ele testificou a sua confiança e dependência aflições aqueles que são apenas jovens iniciantes na fé. da palavra que Deus tinha dito. Observe que um crente (3) É possível que um homem esteja no caminho do de­ ativo pode, sinceramente, bendizer a Deus por uma pro­ ver, e no caminho da felicidade, e ainda assim encontre messa cujo cumprimento ainda não pode ver, e edificar grandes problemas e desapontamentos. um altar à honra de Deus, que lhe aparece, mesmo não tendo desfrutado os resultados da promessa. (2) Como A ida de Abrão ao Egito, por ocasião desta fome. seu procedimento constante, onde quer que ele estivesse. Veja quão sabiamente Deus provê para que haja Tão logo Abrão chegou a Canaã, embora fosse somente abundância em um lugar, quando havia escassez em o estrangeiro, e temporário ali, ainda assim estabeleceu tro, para que, como membros de um grande corpo, n e observou a adoração de Deus na sua família. E onde possamos dizer, uns aos outros: “Não tenho necessida quer que ele tivesse uma tenda, Deus tinha um altar, e de vós”. A providência de Deus cuidou para que houves­ um altar santificado pela oração. Pois ele não somente se se abundância no Egito, e a prudência de Abrão fez uso preocupava com a parte cerimonial da religião, a oferta da oportunidade. Pois nós tentamos a Deus, e não confia­ do sacrifício, mas com o dever natural de buscar o seu mos nele, se, em tempos de aflição, não usarmos os meios Deus, e de invocar o seu nome, este sacrifício espiritual que Ele graciosamente possibilita para a nossa preser­ no qual Deus se compraz. Ele pregou a respeito do nome vação. Não devemos esperar milagres desnecessários. do Senhor, isto é, instruiu a sua família e os seus vizinhos Mas aquilo que é particularmente notável aqui, para no conhecimento do Deus verdadeiro e da sua santa re­ louvor de Abrão, é que ele não se ofereceu para retornar, ligião. As almas que lhe foram acrescentadas em Harã, nesta ocasião, à terra da qual tinha saído, nem sequer em uma vez feitas discípulos, precisavam receber mais ensi­ direção a ela. A terra do seu nascimento estava localiza­ namentos. Observe que aqueles que desejam ser filhos da a nordeste de Canaã. Portanto, quando ele precisou, do fiel Abrão, e desejam herdar a bênção de Abrão, de­ durante algum tempo, deixar Canaã, ele decidiu ir para vem ter a preocupação de observar a solene adoração o Egito, que está ao sudoeste, na direção contrária, para a Deus, particularmente nas suas famílias, seguindo o que não parecesse que estava olhando para trás. Veja exemplo de Abrão. O caminho da adoração familiar é um Hebreus 11.15,16. Observe ainda que quando ele desceu caminho antigo e bom, não é invenção moderna, mas o ao Egito, foi para permanecer ali por algum tempo, não costume antigo de todos os santos. Abrão era muito rico para residir ali. Observe que: 1. Embora a Providência, e tinha uma família numerosa, e agora mesmo não estan­ durante algum tempo, possa nos levar a lugares aparen­ do estabelecido, e estando no meio dos inimigos, ainda temente ruins, ainda assim não devemos permanecer assim, onde quer que armasse a sua tenda, ali edificava ali por um tempo superior ao necessário. Nós podemos um altar. A todo lugar onde formos, jamais devemos dei­ estar peregrinando, provisoriamente, em algum lugar xar de levar conosco a nossa religião. onde não podemos nos estabelecer. 2. Um bom homem, enquanto está deste lado do céu, onde quer que esteja, está ali apenas provisoriamente. n A Ida de Abrão ao Egito w. 10-13 Um grande erro do qual Abrão foi culpado, ao negar que Sara era sua esposa e fingir que Aqui temos: era sua irmã. As Escrituras são imparciais em relatar os crimes dos mais celebrados santos, que são registrados, Uma fome na terra de Canaã, uma fome terrível. não para que os imitemos, mas para nossa advertência, Aquela terra produtiva tinha se tornado estéril, não para que aquele que pensa estar em pé possa tomar cui­ somente para punir a iniqüidade dos cananeus, que alidado para não cair. 1. Seu erro foi dissimular a sua re­ residiam, mas para testar a fé de Abrão, que ali estava lação com Sarai, referindo-se a ela equivocadamente, e I 79 GÊNESIS 12 w. 14-20 ensinando a sua esposa, e provavelmente todos os que os destes apuros e aflições que nós trazemos a nós mesmos, acompanhavam, a fazer a mesma coisa. O que ele disse pelo nosso próprio pecado e tolice, e dos quais, portanto, foi, de certa maneira, verdade (cap. 20.12), mas com o não devemos esperar nenhuma libertação por promessa, objetivo de enganar. Desta maneira, ele escondeu uma em breve estaríamos destruídos, ou melhor, estaríamos verdade para, na verdade, negá-la, e expor, desta manei­ destruídos muito tempo antes disto. O Deus bom e precio­ ra, tanto a sua esposa quanto os egípcios, ao pecado. 2. so não lida conosco de acordo com o que merecemos. No fundo, o que o motivou foi um temor ciumento, de que 1. Deus feriu a Faraó, e desta maneira evitou o pro­ alguns dos egípcios ficassem tão encantados com a bele­ gresso do seu pecado. Observe que são ferimentos felizes za de Sarai (como se no Egito houvesse poucas beldades) aqueles que nos impedem de seguir um caminho de pe­ que, se soubessem que ele era seu marido, encontrassem cado, e que efetivamente nos trazem ao nosso dever, em alguma maneira de matá-lo para que pudessem se casar particular, ao dever de restaurar aquilo que tomamos e com ela. Ele imagina que eles prefeririam ser culpados detivemos erradamente. Observe que não somente Faraó, de assassinato do que de adultério, que era um crime mas a sua casa, foram vítimas de pragas, provavelmente considerado hediondo naquela ocasião. Ele também tem especialmente aqueles príncipes que tinham recomenda­ como certo que havia uma consideração tão santa e tão do Sarai a Faraó. Observe que os parceiros no pecado se grande para com os laços do casamento. Conseqüente­ tornam, com razão, parceiros na punição. Aqueles que mente, ele deduz, sem nenhuma boa razão: “Matar-me- servem a luxúria de outros devem esperar compartilhar ão”. Observe que o medo do homem lhe traz armadilhas, das suas pragas. Nós não sabemos quais foram, em parti­ e muitos são levados a pecar por medo da morte, Lucas cular, estas pragas. Mas sem dúvida havia algo nas pragas 12.4,5. A graça na qual Abrão era mais eminente era a fé. propriamente ditas, ou alguma explicação acrescentada a E ainda assim ele caiu devido à descrença e desconfiança elas, suficiente para convencê-los de que foi por causa de da Providência divina, mesmo depois que Deus tinha se Sarai que estas pragas lhes sobrevieram. manifestado duas vezes a ele. Oh! O que será dos salguei­ 2. Faraó repreendeu a Abrão, e então o despediu ros, quando os cedros se abalam desta maneira? respeitosamente. (1) A repreensão foi calma, mas muito justa: “Que é isto que me fizeste?” Que coisa mais imprópria! Que inaAbrão Nega que Sarai É sua Esposa propriado para um homem sábio e bom! Observe que se w. 14-20 aqueles que professam a religião fizerem o que é injusto e dissimulado, especialmente se disserem aquilo que se Aqui temos: aproxima de uma mentira, deverão esperar ouvir sobre isto, e terão razões para agradecer àqueles que lhes fala­ T O perigo em que se encontrava Sarai de ter a sua rem sobre este assunto. Nós encontramos um profeta do JL decência violada pelo rei do Egito. E sem dúvida, o Senhor, repreendido e censurado, com razão, por um mes­ perigo do pecado é o maior perigo que podemos correr. tre de navio, Jonas 1.6. Faraó argumenta com ele: “Por Os príncipes de Faraó (ou melhor, seus olheiros) a viram que não me disseste que ela era tua mulher?”, indicando e, observando a sua formosura, elogiaram-na diante de que, se tivesse sabido disto, não a teria levado para sua Faraó. Eles não a elogiaram por aquilo que realmente casa. Observe que é um erro muito comum, entre as pes­ era digno de louvor nela - a sua virtude e modéstia, a soas boas, alimentar suspeitas dos outros, além daquilo sua fé e piedade (estas qualidades não eram excelentes que seria justificável. Temos freqüentemente, encontra­ aos olhos deles), mas pela sua formosura, que eíes jul­ do mais virtude, honra e consciência em algumas pessoas garam boa demais para os abraços de um súdito. Eles do que julgávamos que elas possuíssem. E deve ser um a recomendaram ao rei, e ela foi imediatamente levada prazer sermos assim desapontados, como Abrão aqui, que para a casa de Faraó, como Ester ao harém de Assuero descobriu que Faraó era um homem melhor do que ele (Et 2.8), para ser levada à sua cama. Agora, não deve­ esperava, A caridade nos ensina a esperar o melhor. mos considerar Sarai como alguém que está sendo hon­ (2) A despedida foi gentil, e muito generosa. Faraó lhe rada, mas como alguém que está entrando em tentação. devolveu a esposa, sem ofender ou causar qualquer dano E as causas disto eram a sua própria formosura (o que à honra dela: “Eis aqui tua mulher. Toma-a e vai-te”, v. 19. é uma armadilha para muitas pessoas), e o equívoco de Observe que aqueles que desejam evitar o pecado, devem Abrão, que é um pecado que normalmente serve como remover a tentação, ou sair do caminho dela. Ele também uma introdução a muitos pecados. Enquanto Sarai es­ o mandou embora, em paz, e estava tão longe de qualquer tava correndo este perigo, Abrão lucrou, por amor dela. desejo de matá-lo, como Abrão temia, que se preocupou Faraó lhe deu ovelhas, vacas etc. (v. 16), para obter o seu com ele de maneira especial. Observe que nós freqüen­ consentimento, para que pudesse, mais rapidamente, ter temente nos embaraçamos e atrapalhamos com temores aquela que ele supunha ser irmã de Abrão. Não pode­ que logo se mostram completamente infundados. Nós mos pensar que Abrão esperasse isto quando desceu ao freqüentemente tememos, onde não há o que temer. Nós Egito, e muito menos que visasse isto quando negou que tememos o furor do angustiador, como se ele se preparas­ Sarai era sua esposa: mas Deus fez nascer o bem do mal. se para destruir, quando na verdade não há perigo, Isaías Desta maneira se comprova que a riqueza do pecador, de 51.13. Teria sido melhor, para a credibilidade e o consolo uma maneira ou de outra, é acumulada para os justos. de Abrão, ter dito a verdade desde o início. Pois, afinal, a honestidade é a melhor política. Na verdade, está escrito A libertação de Sarai deste perigo. Se Deus não nos (v. 20): “Faraó deu ordens aos seus varões a seu respeito”, libertar, mais de uma vez - o que é um privilégio - isto é: [1] Ele lhes recomendou que não o prejudicassem, w. 1-4 GÊNESIS 13 80 de nenhuma maneira. Observe que não é suficiente, para A sua riqueza: Ele ia muito rico, v. 2. Ele ia muito aqueles que têm autoridade, que não firam pessoalmen­ pesado, de acordo com o significado da palavra te, mas que também impeçam que os seus servos, e os hebraica. Pois as riquezas são um peso, e aqueles que d que estão ao seu redor, façam o mal. Ou: [2] Ele lhes re­ sejam ser ricos somente se carregam com argila espe comendou, quando Abrão foi enviado de volta, depois da sa, Habacuque 2.6. Existe um peso de preocupação par fome, que o conduzissem em segurança para fora do país, consegui-las, medo para conservá-las, tentação para usácomo sua escolta. E provável que aquele governante te­ las, culpa em usá-las de maneira equivocada, tristeza de nha ficado alarmado com as pragas (v. 17) e deduzido, com perdê-las, e um peso de prestação de contas, finalmente, base nelas, que Abrão era um favorito especial do céu, e, a respeito delas. Grandes possessões apenas tornam os portanto, com medo do retorno das pragas, tenha tomado homens pesados e incômodos. Abrão não era somente cuidados especiais para que ele não sofresse danos no seu rico em fé e boas obras, e nas promessas, mas era rico país. Observe que Deus freqüentemente faz surgir ami­ em gado, e prata e outro. Observe: 1. Deus, na sua provi­ gos para o seu povo, fazendo com que os homens saibam dência, às vezes torna ricos os homens bons, e os ensina que correm riscos se os ferirem. É perigoso ofender aos a ter abundância, assim como sofrer necessidades. 2. As pequeninos de Deus, Mateus 18.6. A esta passagem, entre riquezas dos homens bons são os frutos das bênçãos de outras, se refere o salmista, Salmos 105.13-15: “Por amor Deus. Deus disse a Abrão: Abençoar-te-ei. E esta benção deles repreendeu reis, dizendo: Não toqueis nos meus un­ o enriqueceu, sem acrescentar dores, Provérbios 10.22. gidos”. Talvez, se Faraó não o tivesse mandado embora, 3. A verdadeira piedade será muito coerente com a gran­ Abraão tivesse se sentido tentado a permanecei' no Egi­ de prosperidade. Embora seja difícil que um homem to, e esquecer a terra da promessa. Observe que às vezes rico consiga o céu, ainda assim não é impossível, Marcos Deus faz uso dos inimigos do seu povo para convencê-los, 10.23,24. Abrão era muito rico, e apesar disto, muito reli­ e lembrá-los, de que este mundo não é o seu descanso, gioso. Na verdade, assim como a piedade é uma amiga da mas que devem pensar em partir. prosperidade externa (1 Tm 4.8), também a prosperida­ Finalmente, observe uma semelhança entre esta li­ de externa, se bem administrada, é um ornamento para bertação de Abrão do Egito, e a libertação dos seus des­ a piedade, e proporciona uma oportunidade de fazer um cendentes, do mesmo lugar: 430 anos depois que Abrão bem ainda maior. foi para o Egito, por causa de uma fome, seus descenden­ tes foram para lá, também por causa de uma fome. Ele A sua ida a Betei, w. 3,4. Para lá ele foi, não foi libertado com grandes pragas sobre Faraó, e também somente porque ali tinha tido a sua tenda, eles. Assim como Abrão foi mandado embora por Faraó, anteriormente, e estava desejoso de estar entre seus e enriquecido com os despojos dos egípcios, também antigos conhecidos, mas porque ali ele tinha tido, ante­ eles. O cuidado de Deus com o seu povo é o mesmo, on­ riormente, o seu altar: e, embora o altar não mais esti­ tem, hoje e sempre. vesse ali (provavelmente ele mesmo o teria destruído, quando deixou este lugar, para que não fosse profana­ do pelos cananeus idólatras), ele veio ao lugar do altar para reviver a recordação da doce comunhão que tinha C a p ít u l o 13 tido com Deus naquele lugar, ou talvez para cumprir os votos que ali tinha feito a Deus, quando empreendeu a Neste capítulo, temos mais informações a respeito sua viagem ao Egito. Muito tempo depois, Deus enviou de Abrão. I. De maneira geral, sobre a sua condi­ Jacó a este mesmo lugar, com aquela missão (cap. 35.1), ção e o seu comportamento na terra da promessa, Sobe a Betei - onde fizeste o voto. Nós precisamos ser que agora era a terra da sua peregrinação. 1. A lembrados, e devemos aproveitar todas as oportunida­ sua jornada, w. 1,3,4,18.2. Suas riquezas, v. 2. 3. A des para nos lembrar dos nossos votos solenes. E talvez sua devoção, w. 4,18. II. Um relato particular de o lugar onde eles foram feitos possa nos ajudar a trazêuma briga que houve entre ele e Ló. 1. A causa in­ los de novo à nossa mente, e, portanto, pode ser bom feliz da sua briga, w. 5,6. 2. Os grupos envolvidos que visitemos este lugar. na briga, para piorá-la, v. 7. III. A reconciliação, pela prudência de Abrão, w. 8,9. IV A separação A sua devoção, ali. Seu altar tinha sido destru­ entre Ló e Abrão, indo aquele à planície de Sodoído, de modo que ele não podia oferecer sacri­ ma, w. 10-13. V A manifestação de Deus a Abrão, fícios. Mas ele invocou o nome do Senhor, como tinha para confirmar-lhe a promessa da terra de Canaã, feito antes, cap. 12.8. Observe: 1. Todas as pessoas de v. 14 e outras passagens. Deus são pessoas de oração. É tão difícil encontrar um homem vivo sem respirar, quanto um cristão vivo sem oração. 2. Aqueles que desejam ser reconhecidos como A Mudança de Abrão para Canaã justos com o seu Deus, devem ser constantes e perse­ w. 1-4 verantes nos serviços da religião. Abrão não deixou a sua religião lio Egito, como muitos fazem nas suas via­ T Aqui está o retorno de Abrão do Egito, v. 1. Ele veio, gens. 3. Quando não podemos fazer o que desejamos, J„ e trouxe tudo o que era seu, consigo, de volta a Canaã. devemos nos preocupar em fazer o que pudermos, nos Observe que embora possa haver oportunidade para, às atos de devoção. Quando nos faltar um altar, que não vezes, ir a lugares de tentação, nós devemos nos apressar nos falte a oração, mas, onde estivermos, invoquemos para sair deles tão logo seja possível. Veja Rute 1.6. o nome do Senhor. n GÊNESIS 13 w. 5-9 e roubar a ambos. Observe que a divisão de famílias e A Separação entre Ló e Abrão igrejas se tornam, freqüentemente e comprovadamente, w. 5-9 a sua ruína. 2. Muito escandalosa. Sem dúvida, os olhos Aqui temos uma infeliz briga entre Abrão e Ló, que de todos os vizinhos estavam sobre eles, especialmente até então tinham sido companheiros inseparáveis (veja v. por causa da singularidade da sua religião, e da extra­ 1, e cap. 12.4), mas agora se separavam. ordinária santidade que professavam. E os cananeus e ferezeus logo perceberiam esta briga, e se aproveita­ O motivo da sua briga: as suas riquezas. Nós lemos riam dela, para sua reprovação. Observe que as brigas (v. 2) como Abrão era rico. Agora lemos (v. 5) que Ló, dos que professam a fé são a reprovação da sua profissão que ia com Abrão, também era rico. E, portanto, Deus o de fé e dão oportunidade, tanto quanto qualquer outra abençoou com riquezas, porque ele ia com Abrão. Obser­ coisa, para que os inimigos do Senhor blasfemem. ve: 1. É bom estar em boa companhia, e caminhar com aqueles com quem Deus está, Zacarias 8.23. 2. Aqueles A solução desta briga foi muito feliz. É melhor que são parceiros do povo de Deus, na sua obediência preservar a paz, para que ela não seja rompi­ e nos seus sofrimentos, serão seus parceiros nas suas da. Mas a segunda melhor coisa é, se surgirem as dife­ alegrias e nos seus consolos, Isaías 66.10. Agora, sendo renças, rapidamente acomodá-las, e apagar o fogo que ambos muito ricos, a terra não podia contê-los, para que irrompeu. O movimento para cessar esta briga partiu pudessem residir confortavelmente e pacificamente, jun­ de Abrão, o parente mais velho e aquele que tinha uma tos. De modo que as suas riquezas podem ser considera­ condição superior, v. 8. das: (1) Como colocando uma distância entre eles. Por 1. Seu pedido de paz foi muito afetuoso: não haja ser o lugar apertado para ambos, e não terem lugar para contenda entre mim e ti. Abrão, aqui, demonstra ser um o seu gado, era necessário que se separassem. Observe homem: (1) De espírito calmo, que tinha o controle da que todo consolo deste mundo tem a sua cruz acompa­ sua paixão, e sabia como afastar a ira com uma resposta nhando-o. Os negócios são um conforto. Mas têm neles branda. Aqueles que desejam manter a paz nunca de­ a sua inconveniência, não nos permitindo a companhia vem responder a insultos com insultos. (2) De um espí­ daqueles a quem amamos - com a freqüência, nem com a rito condescendente. Ele estava disposto até mesmo a duração que poderíamos desejar. (2) Como colocando-os suplicar ao seu inferior para que ficassem em paz, e fez a em desacordo, um com o outro. Observe que as riquezas primeira proposta de reconciliação. Os vencedores con­ são, freqüentemente, motivos para brigas e contendas sideram a sua glória obter a paz pela força. Porém não é entre parentes e vizinhos. Esta é uma daquelas eoncu- menos glorioso obter a paz pela humildade e pela sabe­ piscências loucas e nocivas em que podem cair aqueles doria. Observe que o povo de Deus sempre deve demons­ que desejam ser ricos, 1 Timóteo 6.9. As riquezas não trar ser um povo pacífico. Sejam quem forem os outros, o somente produzem assuntos para contendas, e são as povo de Deus deve ser a favor da paz. coisas sobre as quais se briga, mas também despertam 2. Seu apelo pela paz foi muito convincente. (1) Não um espírito de rivalidade, tornando as pessoas orgulho­ haja contenda entre mim e ti. Que briguem os cananeus sas e cobiçosas. Meum e tuum - Meu e , são os grandes e ferezeus sobre ninharias. Mas você e eu, que conhece­ instigadores de brigas, do mundo. A pobreza e o esforço, mos melhor as coisas, e procuramos uma terra melhor, as necessidades e as peregrinações, não puderam sepa­ não devemos brigar. Observe que aqueles que professam rar Abrão de Ló. Mas as riquezas, sim. Os amigos são a religião devem, mais que todos os outros, ter cuidado perdidos em breve. Mas Deus é um amigo de cujo amor, para evitar brigas. Não sereis vós assim, Lucas 22.26. nem a altura da prosperidade, nem a profundeza da ad­ Nós não temos tal costume, 1 Coríntios 11.16. Não haja versidade, podem nos separar. contenda entre mim e ti que vivemos juntos e que nos amamos durante tanto tempo. Observe que a lembrança Os instrumentos imediatos da disputa foram os de antigas amizades deve rapidamente colocar um final seus servos. A briga começou entre os pastores às novas brigas que acontecem em qualquer ocasião. (2) do gado de Abrão, e os pastores do gado de Ló, v. 7. Eles Lembremo-nos de que somos irmãos: em hebraico, que brigaram, provavelmente, sobre qual deles deveria somos ter homens e irmãos. Um argumento duplo. [1] So­ o melhor pasto, ou a melhor água. E ambos envolveram mos homens. E, como homens, somos criaturas mortais os seus senhores na briga. Observe que os maus servos -podemos morrer amanhã, e devemos nos preocupar em freqüentemente causam uma grande dose de prejuízo sermos encontrados em paz. Somos criaturas racionais às famílias, por orgulho e paixão, por suas mentiras, e devemos ser governados pela razão. Somos homens, e calúnias e fofocas. É algo muito perverso que os servos não feras, homens, e não crianças. Somos criaturas soci­ desempenhem mal as suas funções entre parentes e vi­ áveis, e sejamos assim ao máximo. [2] Somos irmãos. Ho­ zinhos, semeando, desta maneira, a discórdia. Aqueles mens da mesma natureza, da mesma família, da mesma que o fazem são agentes do diabo, e os piores inimigos religião, companheiros em obediência, companheiros em dos seus senhores. paciência. Note que a consideração do nosso parentesco, como irmãos, deve sempre prevalecer para moderar as O que piorou a briga foi o fato de que os cana- nossas paixões, ou para evitar ou para encerrar as nos­ neus e os ferezeus habitavam, então, na terra. sas contendas. Irmãos devem amar como irmãos. Isto tornou a briga: 1. Muito perigosa. Se Abrão e Ló 3. A sua proposta de paz foi muito justa. Muitos que não podiam concordar em alimentar juntos os seusprofessam reba­ ser favoráveis à paz, apesar disto, não fazem nhos, estará tudo bem, se o inimigo comum não os atacar nada para obtê-la. Mas Abrão aqui mostrou ser um ver­ 81 I n m 82 GÊNESIS 13 w. 10-13 dadeiro amigo da paz, propondo um meio irrepreensível tável, e que em um solo tão frutífero ele certamente iria para a sua preservação: Não está toda a terra diante de prosperar, e ficaria muito rico: e isto foi tudo o que ele ti?, v. 9. Foi como se tivesse dito: “Por que devemos nós enxergou. Mas o que aconteceu? Ora, as próximas notí­ brigar por espaço, quando existe lugar suficiente para nós cias que temos dele são de que ele está entre os arbustos, dois...” (1) Ele conclui que eles devem se separar, e está ele e os seus, cativos. Enquanto viveu entre eles, irritou a muito desejoso de que se separem como amigos: aparta-te sua alma justa com a convivência com eles, e nunca teve de mim. O que poderia ser expresso mais afetuosamente? um dia bom com eles, até que, por fim, Deus incendiou a Ele não o expulsa, não o força a ir embora, mas aconse­ cidade por cima da sua cabeça, e o forçou a subir a monta­ lha que o outro se separe dele. Tampouco ordena que o nha, em prol da segurança daquele que escolheu a planície outro parta, mas humildemente deseja que ele se retire. para ter riquezas e prazer. Observe que as escolhas sen­ Observe que aqueles que têm autoridade para mandai1,às suais são escolhas pecaminosas, e raramente têm suces­ vezes, em nome do amor e da paz, preferem pedir ou su­ so. Aqueles que, ao escolher relacionamentos, vocações, plicar, assim como Paulo suplicou a Filemon, w. 8,9. Assim residências, ou assentamentos são guiados e governados como o grande Deus condescende em nos pedir para fazer pelas concupiscências da carne, pelos desejos dos olhos ou algo, nós podemos muito bem rogar uns aos outros a re­ pela soberba da vida, e não consultam os interesses das conciliação, 2 Coríntios 5.20. (2) Ele lhe oferece uma parte suas almas nem a sua religião, não podem esperar ter a suficiente da terra em que estavam. Embora Deus tives­ presença de Deus entre si, nem a sua benção sobre si, se prometido a Abrão dar esta terra à sua semente (cap. mas são normalmente desapontados até mesmo naquilo 12.7), e não parece que qualquer promessa semelhante que mais desejam. Assim, deixam de ter satisfação naqui­ tenha sido feita a Ló, e Abrão pudesse ter insistido na sua lo que prometeram a si mesmos. Este princípio deve nos promessa, com total exclusão de Ló, ainda assim ele per­ governar em todas as nossas escolhas. O melhor para nós mite que Ló compartilhe dela, e oferece uma parte igual é aquilo que for melhor para a nossa alma. àquele que não tinha direitos iguais. Ele não fará com que TT Quão pouca consideração ele demonstrou para a promessa de Deus motive esta disputa, e estando sob a JL com a iniqüidade dos habitantes: eram maus os proteção da promessa não colocará qualquer dificuldade varões de Sodoma, v. 13. Observe: 1. Embora todos se­ em relação ao seu parente. (3) Ele lhe dá escolha, e se ofe­ jam pecadores, ainda assim alguns são mais pecadores rece para aceitar a sua partida: se escolheres a esquerda, irei para a direita. Havia todas as razões do mundo para do que outros. Os varões de Sodoma eram pecadores de que Abrão escolhesse em primeiro lugar. No entanto, ele primeira grandeza, pecadores contra o Senhor, isto é, abre mão do seu direito. Observe que é uma nobre vitória pecadores atrevidos e ousados. Assim eram conhecidos. estar disposto a cedei; em nome da paz; é a vitória con­ Conseqüentemente, nós lemos sobre aqueles que publi­ tra nós mesmos, contra o nosso orgulho e paixão, Mateus cam os seus pecados, como Sodoma, aqueles que sequer 5.39,40. Não somente as formalidades da honra, mas in­ os dissimulam, Isaías 3.9. 2. Que alguns pecadores são clusive os próprios interesses, é que, em muitos casos, os piores para viver em uma terra boa. Assim eram os sodomitas: pois esta foi a maldade de Sodoma: soberba, devem ser sacrificados pela paz. fartura de pão e abundância de ociosidade. E tudo isto era sustentado pela grande abundância que a sua região fornecia, Ezequiel 16.49. Desta maneira, a prosperida­ A Ida de Ló a Sodoma de dos tolos os destrói. 3. Que Deus freqüentemente dá w. 10-13 grande abundância a grandes pecadores. Os desprezí­ Aqui temos a escolha que Ló fez, quando se separou veis sodomitas viviam em uma cidade, em uma campina de Abrão. Nesta ocasião, poderíamos ter esperado: 1. frutífera, ao passo que o fiel Abrão e sua piedosa família Que ele tivesse expressado falta de vontade de se separar viviam em tendas, nas montanhas estéreis. 4. Quando a de Abrão, e, pelo menos, o tivesse feito com relutância. 2. iniqüidade chega ao máximo, a ruína não está distante. Que ele tivesse sido educado a ponto de ter devolvido o Pecados abundantes são presságios seguros de julga­ direito de escolha a Abrão. Mas nós não encontramos ne­ mentos próximos. Agora, a vinda de Ló, para viver entre nhuma evidência de deferência ou de respeito para com os sodomitas, pode ser considerada: (1) Como uma gran­ o seu tio, em toda a questão. Tendo Abrão lhe oferecido a de misericórdia para eles, e um provável meio de levá-los escolha, sem qualquer agradecimento ele a aceitou e fez ao arrependimento. Pois agora eles tinham entre si um a sua escolha. As paixões e o egoísmo tornam os homens profeta e um pregador da justiça. E se lhe tivessem dado ouvidos, poderiam ter sido transformados, e a destrui­ rudes. Na escolha que Ló fez, podemos observar: ção poderia ter sido evitada. Observe que o Senhor Deus T O quanto ele visava a generosidade da terra. Ele con- envia pregadores, antes de enviar destruidores. Pois Ele .L templou toda a campina do Jordão - a planície onde é bom, e não deseja que ninguém pereça. (2) Como um ficava Sodoma - que era toda bem regada (e talvez a briga grande sofrimento para Ló, que não somente lamentou tivesse sido sobre a água, o que o tornou particularmente ver a iniqüidade deles (2 Pe 2.7,8), mas foi perturbado e interessado nesta vantagem), e Ló escolheu para si toda perseguido por eles, porque não agia como eles. Obser­ a campina, w. 10,11. Aquele vale, que era como o próprio ve que freqüentemente tem sido um grande incômodo jardim do Éden, agora lhe fornecia uma perspectiva das para os homens justos viver entre os ímpios, peregrinar mais agradáveis. Aos seus olhos, ela era bela para a sua em Meseque (SI 120.5), e não pode ser mais lamentável, posição, a alegria de toda a terra. E, portanto, ele não se, como Ló, aqui, tiverem causado isto a si mesmos por duvidou que ela lhe propiciaria um assentamento confor­ meio de uma escolha imprudente. I GÊNESIS 14 w. 14-18 em meio à sua condição atual. Pois nós enxergamos de Deus Confirma a sua Promessa a Abrão fato as coisas que não são vistas, embora ainda estejam w. 14-18 distantes. (2) O Senhor lhe assegura esta terra, para ele Aqui temos a narrativa de uma graciosa visita que e para a sua semente, para sempre (v. 15): te hei de dar Deus fez a Abrão, para confirmar a promessa a ele e aos a ti. E. outra vez (v. 17) a ti a darei. Cada repetição da seus. Observe: promessa é uma ratificação dela. A ti e à tua semente, não a Ló e à sua semente. Eles não deveriam herdar Quando Deus renovou e ratificou a promessa: Depois esta terra, e por isto a Providência assim ordenou que que Ló se apartou dele, isto é: 1. Depois de termina­ primeiramente Ló fosse separado de Abrão, e depois a da a briga. Pois os espíritos mais bem preparados para concessão fosse confirmada a ele e à sua semente. Assim, as visitas da graça divina são os que estão calmos e tran­ Deus freqüentemente faz com que o bem surja a partir qüilos, e não incitados por alguma paixão. 2. Depois das do mal, e torna os pecados e as tolices dos homens sub­ humildes e abnegadas condescendências de Abrão a Ló, servientes aos Seus próprios conselhos sábios e santos. para a preservação da paz. Isto ocorreu quando Deus veio A ti e à tua semente - a ti, para peregrinar nela como até ele, com este sinal do seu favor. Observe que Deus irá um estranho; à tua semente, para residir e governar compensai' abundantemente com a paz espiritual aquilo nela, como proprietários. A ti, isto é, à tua semente. A de que nós abrirmos mão em benefício da preservação da concessão da terra a ele e aos seus, para sempre, indica paz entre vizinhos e amigos. Depois de Abrão ter ofere­ que ela tipificava a Canaã celestial, que é dada à semen­ cido voluntariamente a Ló a metade do seu direito, Deus te espiritual de Abrão, para sempre, Hebreus 11.14. (3) veio e lhe confirmou todo o seu direito. 3. Depois que ele Ele lhe dá o direito de propriedade dela, embora fosse tinha perdido a confortável companhia do seu parente, futuro: Levanta-te, percorre essa terra, v. 17. Entre, e por cuja partida as suas mãos se enfraqueceram e o seu tome posse, inspecione os lotes, e ela parecerá melhor do coração se entristeceu, então Deus veio até ele com estas que uma perspectiva distante. Observe que Deus deseja palavras boas e consoladoras. Observe que a comunhão mostrar mais abundantemente aos herdeiros da promes­ com Deus pode, a qualquer momento, servir para com­ sa a imutabilidade do seu concerto, e o inestimável valor pensar a falta de convivência com nossos amigos. Mesmo das bênçãos do concerto. Rodeai Sião, Salmos 48.12. que os nossos parentes estejam separados de nós, Deus 2. Aqui está a promessa de uma prole numerosa para não está. 4. Depois que Ló tinha escolhido aquela cam­ povoar esta boa terra, de modo que ela nunca seria per­ pina agradável e frutífera, e tinha ido tomar possa dela, dida por falta de herdeiros (v. 16): E farei a tua semente Para que Abrão não se sentisse tentado a invejá-lo, e a se como o pó da terra, isto é, Eles se multiplicarão de manei­ arrepender de ter-lhe dado a escolha, Deus vem até ele, e ra inacreditável, e, tomando-os a todos, serão uma multi­ lhe assegura que aquilo que ele tinha permaneceria para dão tão grande que homem nenhum poderá contar. Assim sempre, para ele e para os seus herdemos. De modo que, o eram no tempo de Salomão, 1 Reis 4.20. Eram, pois, os embora Ló talvez tivesse a melhor terra, Abrão tinha o de Judá e Israel muitos, como a areia que está ao pé do melhor título. Ló tinha o paraíso, de certa maneira, mas mar em multidão. Isto Deus aqui lhe promete. Observe Abrão tinha a promessa. E o evento logo deu a entender que o mesmo Deus que provê a herança provê os herdei­ que, apesar das aparências naquele momento, Abrão real­ ros. Aquele que preparou a terra santa, prepara a semen­ mente tinha a melhor parte. Veja Jó 22.20. Deus reconhe­ te santa. Aquele que dá a glória, dá a graça para que as ceu Abrão depois da sua contenda com Ló, assim como as pessoas se tornem adequadas a participar da sua glória. igrejas reconheceram Paulo depois da sua contenda com Finalmente, nós lemos o que Abrão fez depois que Barnabé, Atos 15.39,40. Deus lhe tinha assim confirmado a promessa, v. 18. 1. Ele removeu a sua tenda. Deus lhe disse que percorresse As mesmas promessas com as quais Deus agora a terra, isto é, “Não pense em fixar-se nela, mas espe­ consolava e enriquecia a Abrão. Duas coisas Ele re estar sempre se deslocando, e percorrendo-a rumo a lhe assegura - uma boa terra, e uma numerosa prole uma Canaã melhor”. Então, obedecendo à vontade de para desfrutar dela, Deus, ele remove a sua tenda, confirmando-se na condi­ 1. Aqui está a concessão de uma boa terra, uma ter­ção de peregrino. 2. Edificou ali um altar, como sinal da ra mais famosa que todas as terras, pois deveria ser a sua gratidão a Deus, pela gentil visita que lhe tinha feito. terra santa, e a terra do Emanuel. Esta é a terra aqui Observe que quando Deus nos encontra com promessas mencionada, (1) Aqui Deus mostra a terra a Abrão, como graciosas, Ele espera que nós lhe ofereçamos os nossos tinha prometido (cap. 12.1), e posteriormente a mostrou humildes louvores. a Moisés, do cume do Pisga. Ló tinha levantado seus olhos e contemplado a campina do Jordão (v. 10), e ti­ nha ido usufruir do que tinha visto: “Vamos”, diz Deus a Abrão, “levanta, agora, os teus olhos, e olha, e vê o que é Capítulo 14 teu”. Observe que aquilo que Deus tem a nos mostrar é infinitamente melhor e mais desejável do que qualquer Temos quatro assuntos na história deste capítulo. coisa que o mundo tenha a oferecer para que vejamos. As I. Uma guerra contra o rei de Sodoma e seus alia­ perspectivas de um olho que tem fé são muito mais ricas dos, w. 1-11. II. Aprisão de Ló, naquela guerra, v. e belas do que as do olho dos sentidos. Aqueles para os 12.III. O resgate de Ló daquela prisão, por Abrão, quais está designada a Canaã celestial, no outro mun­ com a vitória que obteve sobre os conquistadores, do, às vezes, pela fé, têm uma perspectiva consoladora w. 13-16. IV O retorno de Abrão da expedição (v. 83 I n 84 GÊNESIS 14 com a vitória? Mas ele preferiria se aventurar aos má­ 17), com um relato do que aconteceu: 1. Entre ele ximos extremos a render-se, e assim procedeu. Qitos e o rei de Salém, w. 18-20. 2. Entre ele e o rei de Deus destruet eos dementat - Aqueles a quem Deus de­ Sodoma, w. 21-24. Assim temos aqui, cumprindoseja destruir, Ele entrega a paixões cegas. 1. As forças se em parte, aquela promessa de Deus a Abrão, de do rei de Sodoma e seus aliados foram derrotadas. E, que engrandeceria o seu nome. aparentemente, muitos daqueles que tinham escapado às espadas pereceram em poços de betume, v. 10. Em todos os lugares estamos cercados de mortes de diversos Ló É Levado Cativo tipos, e especialmente no campo de batalha. 2. As cida­ w. 1-12 des foram saqueadas, v. 11. Todos os bens de Sodoma, e Aqui temos um relato da primeira guerra sobre em particular seus estoques e provisões de mantimentos a qual lemos nas Escrituras, cuja história (embora as foram levados pelos conquistadores. Observe que quan­ guerras das nações tenham grande presença na história) do os homens utilizam mal os dons de uma providência não teríamos, se Abrão e Ló não tivessem estado envol­ generosa, para a gula e os excessos, é justo que Deus, a vidos nela. A respeito desta guerra, podemos observar: seu tempo, de uma maneira ou de outra, os prive daquilo que usaram tão mal, Oséias 2.8,9. 3. Ló foi levado cativo, Os grupos envolvidos nela. Os invasores eram quatro v. 12. Eles levaram Ló juntamente com os demais, bem reis, dois deles ninguém menos que os reis de Sinar como a sua fazenda. Aqui, Ló pode ser considerado: (1) e Elão (isto é, da Caldéia e da Pérsia). Alguns entendem Compartilhando com seus vizinhos esta calamidade co­ que é provável que ali não estivessem pessoalmente os mum. Embora ele mesmo fosse um homem justo, e (o príncipes soberanos daqueles grandes reinos, mas ofi­ que aqui está expressamente registrado) o filho do irmão ciais subordinados a eles, ou talvez os chefes e líderes de de Abrão, ainda assim esteve envolvido, com os demais, algumas colônias que saíram daquelas grandes nações em todo este problema. Observe que tudo sucede igual­ e se estabeleceram perto de Sodoma, conservando, po­ mente a todos, Eelesiastes 9.2. Os melhores homens não rém, os nomes dos países de que se originavam. Os inva­ podem garantir estar isentos dos maiores problemas didos eram os reis de cinco cidades que são próximas, na desta vida. Tampouco estará na nossa própria piedade, planície do Jordão, especificamente, Sodoma, Gomorra, ou no nosso relacionamento com aqueles que são os favo­ Admá, Zeboim e Zoar. São citados os nomes de quatro ritos do céu, a nossa segurança, quando os julgamentos deles, mas não do quinto, o rei de Zoar, ou Bela, talvez de Deus estão em ação. Observe, ainda, que a muitos porque ele fosse muito inferior e insignificante, ou por homens honestos acontecem as piores coisas, por cau­ ser muito mais ímpio e desonroso que os demais, e assim sa de seus vizinhos ímpios. Portanto, é nossa prudência separarmo-nos, ou pelo menos distinguirmo-nos deles (2 merecesse ser esquecido. Co 6.17), salvando-nos, deste modo, Apocalipse 18.4. (2) O motivo desta guerra foi a revolta dos cinco Sofrendo pela tola escolha que tinha feito ao se assentar reis contra o governo de Quedorlaomer. Eles o ali. Isto está claramente indicado aqui, onde está escrito, Tomaram a Ló, que habitava em Sodoma, filho do irmão tinham servido durante doze anos. Pouca alegria eles de Abrão. Um parente tão próximo de Abrão deveria ser tinham com a sua terra frutífera, enquanto pagavam companheiro e discípulo de Abrão, e deveria residir per­ impostos a um poder estrangeiro, e não podiam chamar de seu o que tinham. As nações ricas são uma presa to das suas tendas. Mas, se escolheu habitar em Sodoma, desejável, e as nações luxuosas e ociosas são uma pre­ deve agradecer a si mesmo se compartilhar as calami­ sa fácil, para a grandeza crescente. Os sodomitas eram dades de Sodoma. Observe que quando nós saímos do a posteridade de Canaã, a quem Noé tinha designado caminho do nosso dever, deixamos a proteção de Deus, e como servo de Sem, de quem Elão descendia. Assim não podemos esperar que as escolhas feitas pelas nossas sendo, em breve aquela profecia começou a se cumprir. concupiseências resultem em nosso conforto. Uma men­ No décimo terceiro ano, começando a se cansar da sua ção particular é feita ao fato de que levaram os bens de submissão, eles se rebelaram, negaram seus tributos e Ló, aqueles bens que tinham provocado a sua briga com tentaram se libertar do jugo e recuperar a sua antiga Abrão, e a sua separação. Note que é justo que Deus nos liberdade. No décimo quarto ano, depois de uma pausa prive daqueles deleites pelos quais permitimos que seja­ e preparação, Quedorlaomer, juntamente com seus alia­ mos privados do deleite que temos nele e com Ele. dos, dispôs-se a castigar e reduzir os rebeldes e, como não podia obtê-lo de outra maneira, extorquir o seu tri­ Ló É Levado Cativo e Libertado buto com a ponta da espada. Observe que o orgulho, w. 13-16 a cobiça e a ambição são as concupiseências das quais surgem as guerras e batalhas. A estes ídolos insaciáveis Aqui temos o relato da única ação militar em que o sangue de milhares foi sacrificado. encontramos Abrão envolvido, e à qual ele foi levado, não pela sua avareza nem pela sua ambição, mas pura­ O progresso e o sucesso da guerra. Os quatro reis devastaram as nações vizinhas e se enri­ mente por um princípio de caridade. Não foi para en­ queceram com os seus despojos (w. 5-7), com a intenção riquecer, mas para ajudar o seu amigo. Jamais alguma de que estas notícias fariam a sabedoria do rei de So­ expedição militar foi empreendida, executada e con­ doma ser se submeter e desejar condições de paz. Pois cluída de maneira mais honrosa do que esta, de Abrão. como poderia ele enfrentar um inimigo tão enrubescido Aqui, temos: w. 1-12 I n 85 GÊNESIS 14 As notícias trazidas a Abrão, sobre a aflição do seu Iestivesse parente. A providência ordenou que ele agora não muito distante, para que pudesse ser uma ajuda bastante imediata. 1. Aqui ele é chamado Abrão, o hebreu, isto é, filho e seguidor de Eber, em cuja fa­ mília a profissão da religião verdadeira era observada até mesmo naquela época degenerada. Abrão, portanto, agia como um hebreu - de maneira não desmereeedora do nome e do caráter de alguém que professa a religião. 2. As notícias foram trazidas por um que escapara, cuja vida não foi vitimada. Provavelmente tenha sido um so­ domita, tão mau como o pior deles. Mas, conhecendo o parentesco de Abrão com Ló, e a sua preocupação por ele, vem implorar a sua ajuda, e espera ser bem suce­ dido, para o bem de Ló. Observe que até mesmo o pior dos homens, quando tiver problemas, ficará satisfeito em declarar que conhece aqueles que são prudentes e bons, pois desta maneira esperam conseguir alcançar os seus interesses. O homem rico no inferno chamou Abrão de Pai. E as virgens loucas tentam agradar as prudentes, para conseguir um pouco do seu óleo. w. 13-16 vel, para que a próxima vez não fosse a sua. Observe: 1. É nossa prudência e dever comportarmo-nos de forma tão respeitosa e cortês com os homens de modo que, quando houver oportunidade, eles possam estar dispos­ tos e prontos para nos fazer uma gentileza. 2. Até mesmo aqueles que confiam na ajuda de Deus devem, em tem­ pos de aflição, fazer uso da ajuda dos homens, conforme a Providência a oferecer. De outra maneira, eles estarão tentando a Deus. A sua coragem e conduta foram notáveis. 1. Houve uma grande dose de valentia na própria empreitada, considerando as desvantagens em que ele se encontrava. O que poderia uma família de lavradores e pastores fazer contra os exércitos de quatro príncipes, que acabavam de derramar sangue e ter uma grande vitó­ ria? Não era um exército derrotado, mas vitorioso, que ele deveria perseguir. Nem estava ele impelido pela necessi­ dade a esta tentativa ousada, mas foi levado a ela pela ge­ nerosidade. De modo que, levando tudo em consideração, pelo que eu sei, foi um exemplo tão grande de verdadeira coragem como se atribuiria a Alexandre ou a César. Ob­ Os preparativos que ele fez para esta expedição. A serve que a religião tende a tornar os homens não covar­ causa era evidentemente boa, a sua obrigação de des, mas verdadeiros valentes. O justo é corajoso como um se envolver nela era clara, e, portanto, com toda rapidez, leão. O verdadeiro cristão é o verdadeiro herói. 2. Houve armou seus servos treinados, nascidos na sua casa, atéuma o grande dose de planejamento na administração da número de trezentos e dezoito - uma grande família, mas empreitada. Abrão não desconhecia os estratagemas de um pequeno exército, aproximadamente o mesmo núme­ guerra: Ele se dividiu, como Gideão fez com o seu peque­ ro que tinha Gideão, que destruiu os midianitas, Juizes no exército (Jz 7.16), para poder surpreender o inimigo 7.7. Ele tomou os seus servos treinados, ou discipulados, de diversos lados, simultaneamente, desta forma fazendo não somente instruídos na arte da guerra - que então es­ os seus poucos parecerem muitos. Ele fez o seu ataque à tava muito longe da perfeição, e que foi aprimorada por noite, para poder surpreendê-los. Observe que o planeja­ gerações posteriores e piores - mas também instruídos mento honesto é um bom amigo, tanto da nossa segurança nos princípios da religião. Pois Abrão ordenava que a sua quanto da nossa utilidade. A cabeça da serpente (desde casa observasse os caminhos do Senhor. Isto mostra que que não seja semelhante à antiga serpente) pode se tornar Abrão era: 1. Um grande homem, que tinha tantos ser­ um bom corpo cristão, especialmente se nele houver um vos que dependiam dele, e empregados por ele, o que não olho de pomba, Mateus 10.16. somente era a sua força e honra, mas também lhe dava uma grande oportunidade de fazer o bem, que é tudo o Seu sucesso foi bastante considerável, w. 15,16. que é verdadeiramente valioso e desejável em grandes Ele derrotou os seus inimigos, e resgatou os seus lugares e em grandes propriedades. 2. Um bom homem, amigos. E não lemos que tenha sofrido nenhuma perda. que não somente servia pessoalmente a Deus, mas ins­ Observe que aqueles que se aventuram em uma boa cau­ truía todos à sua volta no serviço a Deus. Observe que sa, com um bom coração, estão sob a proteção especial aqueles que têm grandes famílias não somente têm mui­ do Deus bom, e têm motivos para esperar um bom resul­ tos corpos, mas muitas almas, além da sua própria, das tado. Novamente, para o Senhor é a mesma coisa, livrar quais precisa cuidar e às quais precisa prover. Aqueles com muitos ou com poucos, 1 Samuel 14.6. Observe: que desejam ser considerados seguidores de Abrão de­ 1. Abrão resgatou Ló, o seu parente, que aqui é duas vem cuidai' para que os seus servos sejam discipulados. vezes chamado de seu irmão. A lembrança do paren­ 3. Um homem prudente. Embora fosse um homem pací­ tesco que havia entre eles, tanto pela natureza quanto fico, ainda assim disciplinou seus servos para a guerra, pela graça, fez com que Abrão se esquecesse da pequena sem saber quando teria a necessidade de empregá-los briga que tinha havido entre eles, na qual Ló não tinha desta maneira. Observe que embora a nossa santa reli­ agido nada bem com relação a Abrão. Com razão, Abrão gião nos ensine a sermos pacíficos, ainda assim ela não poderia ter censurado Ló pela sua tolice em brigar com nos proíbe de atender as necessidades de uma guerra. ele e separar-se dele, e ter dito que Ló devia estar sa­ tisfeito, e que devia saber quando a sorte estava ao seu Seus aliados e confederados nesta expedição. lado. Mas no seio caridoso do piedoso Abrão, está tudo Ele liderou os seus vizinhos, Aner, Escol e perdoado e esquecido, e ele aproveita esta oportunidade Manre (com quem tinha uma boa relação) para que fos­ para dar uma prova real da sinceridade da sua reconci­ sem com ele. Foi prudente fortalecer, desta maneira, as liação. Observe: (1) Nós devemos estar prontos, sempre suas próprias tropas com estas forças auxiliares. E pro­ que pudermos, a socorrer e aliviar aqueles que sofrem, vavelmente eles se viram preocupados e tiveram interes­ especialmente nossos parentes e amigos. Na angústia se em agir, como pudessem, contra este poder formidá­ nasce o irmão, Provérbios 17.17. O amigo das horas difí­ n V 86 GÊNESIS 14 w. 17-20 ceis é um verdadeiro amigo. (2) Embora outros possam um sacerdote sob as ordens de algum mero homem, e estar falhando no seu dever para conosco, não devemos que algum sacerdócio humano fosse tão superior ao de negar o nosso dever para com eles. Alguns disseram Aarão como se sabe que foi o de Melquisedeque. 3. A que podem perdoar mais facilmente a seus inimigos opinião mais aceita é a de que Melquisedeque era um do que a seus amigos. Mas nós nos veremos forçados a príncipe cananeu, que reinava em Salém e observava ali perdoar a ambos, se considerarmos não somente que o a verdadeira religião. Mas, se assim fosse, por que, em nosso Deus, quando éramos inimigos, nos reconciliou, toda a história de Abrão, o seu nome só apareceria aqui? mas também que Ele se esquece da rebelião do restan­ e por que Abrão teria altares próprios, e não visitaria os altares do seu vizinho Melquisedeque, que era superior te da sua herança, Miquéias 7.18. 2. Ele libertou os outros cativos, por amor a Ló, em­a ele? Isto parece inexplicável. O Sr. Gregory, de Oxford, bora fossem estranhos a ele, e ele não tivesse nenhuma nos diz que a Catena Arábica, em cuja autoridade ele se obrigação para com eles. Na verdade, embora fossem baseia, oferece esta explicação sobre Melquisedeque: sodomitas, excessivamente pecadores contra o Senhor, que ele era filho de Heraclim, filho de Pelegue, filho de provavelmente, ele pudesse ter recuperado somente a Éber, e que o nome da sua mãe era Salatiel, filha de GoLó, mas ainda assim ele trouxe de volta todas as mulhe­ mer, filho de Jafé, filho de Noé. res, e o povo, e os seus bens, v. 16. Observe que quando T O que ele fez. 1. Ele trouxe pão e vinho, para revigohouver oportunidade, devemos fazer o bem a todos os X rar Abrão e seus soldados, parabenizando-os pela homens. A nossa caridade deve ser abrangente, quando houver oportunidade. Onde Deus dá a vida, não deve­ sua vitória. Isto ele fez como rei, ensinando-os a fazer o mos recusar a ajuda que pudermos dar para sustentá-la. bem e a transmiti-lo, e a sermos hospitaleiros, conforme a Deus faz o bem aos justos e aos injustos, e também de­ nossa capacidade. Ele estava representando as provisões vemos fazê-lo, Mateus 5.45. O profeta parece se referir a espirituais de força e consolo que Cristo colocou para nós esta vitória que Abrão obteve contra os reis, Isaías 41.2. no conceito da graça, para nosso alívio, quando estiver­ Quem suscitou do Oriente o justo e o fez dominar sobre mos cansados de todos os nossos conflitos espirituais. 2. reis? E alguns sugerem que, assim como Abrão tinha an­ Sendo sacerdote do Deus Altíssimo, ele abençoou Abrão, teriormente o direito a esta terra, por concessão, agora o que podemos imaginar que tenha sido, para Abrão, um alívio maior do que tinham sido o seu pão e o seu vinho. o tinha, por conquista. Desta maneira, Deus, tendo exaltado o seu Filho Jesus, enviou-o para nos abençoar como alguém que tinha toda a O Encontro de Abrão com Melquisedeque autoridade. E aqueles a quem Ele abençoa são realmen­ te bem-aventurados. Cristo foi para o céu, quando estava w. 17-20 abençoando os seus discípulos (Le 24.51). Pois isto é o que Este parágrafo se inicia mencionando o respeito que o bondoso Senhor faz continuamente. o rei de Sodoma prestou a Abrão, quando este voltou do T T O que Melquisedeque disse, w. 19,20. Ele disassassinato dos reis. Mas, antes que seja fornecido um 11 se duas coisas: 1. Ele abençoou a Abrão, com a relato sobre isto, é brevemente narrada a história de bênção de Deus: Bendito seja Abrão do Deus Altíssimo, Melquisedeque, a cujo respeito observe: v. 19. Observe os títulos que agora ele dá a Deus, que Quem ele era. Ele era rei de Salém, e sacerdote do são muito gloriosos. (1) O Deus Altíssimo, o que indica as Deus Altíssimo. E outras coisas gloriosas são ditas a Suas perfeições completas em si mesmo, e o seu domínio respeito dele, Hebreus 7.1ss. 1. Os rabinos, e a maioriasoberano sobre todas as criaturas. Ele é o Rei dos reis. dos nossos autores rabínicos, concluem que Melquisede­ Observe que é uma grande ajuda, tanto para a nossa fé, que era Sem, o filho de Noé, que foi rei e sacerdote da­ quanto para a nossa reverência na oração, considerar a queles que foram seus descendentes, segundo o modelo Deus como o Deus Altíssimo, e assim chamá-lo. (2) Pos­ patriarcal. Mas isto não é nada provável. Pois por que suidor dos céus e da terra, isto é, proprietário legítimo, seria mudado o seu nome? E como é que ele teria vindo e Senhor soberano de todas as criaturas, porque Ele as se estabelecer em Canaã? 2. Muitos autores cristãos opi­ criou. Isto indica que Ele é o grande Deus, e suficien­ nam que esta foi uma manifestação do próprio Filho de temente grande para ser louvado (SI 24.1), e feliz é o Deus, o nosso Senhor Jesus, conhecido de Abrão, nesta povo que se interessa pelo seu favor e pelo seu amor. 2. época, por este nome, da mesma maneira como poste­ Ele bendisse a Deus, por Abrão (v. 20): e bendito seja o riormente Agar o chamou por outro nome, cap. 16.13. O Deus Altíssimo. Observe: (1) Em todas as nossas ora­ Senhor apareceu a Abrão como um rei justo, reconhe­ ções devemos louvar a Deus, e unir aleluias a todas as cendo uma causa justa, e concedendo paz. É difícil imagi­ nossas hosanas. Estes são os sacrifícios espirituais que nar que algum mero homem seja sem pai, sem mãe, sem devemos oferecer diariamente, e também em ocasiões genealogia, não tendo princípio de dias nem fim de vida, especiais. (2) Deus, sendo o Deus Altíssimo, deve ter a Hebreus 7.3. A respeito de Melquisedeque, está escrito glória em todas as nossas vitórias, Êxodo 17.15; 1 Sa­ que vive, e que permanece como sacerdote para sem­ muel 7.10,12; Juizes 5.1,2; 2 Crônicas 20.21. Nelas, Ele pre (Hb 7.3,8). Ou ainda (Hb 7.13,14), o escritor diz que se mostra maior do que os nossos inimigos (Êx 18.11) e aquele de quem essas coisas se dizem é o nosso Senhor, maior do que nós. Pois sem Ele nada podemos fazer. (3) que procedeu de Judá. Da mesma maneira, é difícil pen­ Nós devemos dar graças pelas misericórdias recebidas sar que algum mero homem, nesta época, pudesse ser pelos outros, como pelas nossas, triunfando com aqueles maior que Abrão, nas coisas de Deus, que Cristo fosse que triunfam. (4) Jesus Cristo, nosso grande sumo sacer­ I I I 87 GÊNESIS 14 w. 21-24 dote, é o Mediador, tanto das nossas orações quanto dos java tomar desde um fio até à correia dum sapato, nem a nossos louvores, e não oferece somente os nossos, mas os menor coisa que tivesse pertencido ao rei de Sodoma ou seus, por nós. Veja Lucas 10.21. a qualquer dos seus. Observe que uma fé viva capacita um homem a considerar a riqueza deste mundo com um O que lhe foi feito: Abrão deu-lhe o dízimo de desprezo, 1 João 5.4. O que são todos os ornamen­ santo tudo, isto é, dos despojos, Hebreus 7.4. Isto tos e deleites dos sentidos a alguém que tem Deus e o pode ser considerado: 1. Como gratuitamente concedido céu sempre diante dos seus olhos? Ele devolve até mes­ a Melquisedeque, como uma retribuição pelos seus sinais mo um fio e uma correia de sapato. Pois uma consciência de respeito. Observe que aqueles que recebem gentile­ terna teme causar alguma ofensa, mesmo que seja por zas devem demonstrar gentilezas. A gratidão é uma das alguma coisa pequena. Bem: leis da natureza. 2. Como uma oferta prometida e dedi­ 1. Abrão ratifica esta resolução com um juramen­ cada ao Deus Altíssimo, e, por isto, colocada nas mãos de to solene: Levantei minha mão ao Senhor, não tomarei Melquisedeque, seu sacerdote. Observe: (1) Quando re­ coisa alguma de tudo o que é teu, w. 22,23. Observe cebemos algum sinal de misericórdia da parte de Deus, aqui: (1) Os títulos que ele dá a Deus, o Deus Altíssi­ é adequado que expressemos a nossa gratidão, por meio mo, o Possuidor dos céus e da terra, os mesmos que de algum ato especial de piedosa caridade. Deus sempre Melquisedeque tinha usado, v. 19. Observe que é bom deve receber o que lhe é devido daquilo que temos, es­ aprender com os outros como ordenar a maneira de pecialmente quando, por alguma providência particular, nos referirmos a Deus, e imitar aqueles que falam bem Ele o preservou ou aumentou para nós. (2) Que a déci­ sobre as coisas divinas. Este é o aprimoramento que ma parte dos nossos ganhos é uma proporção bastante devemos ter através da convivência com homens bons adequada a ser separada para a honra de Deus, e para e devotos. Nós devemos aprender a falar como eles. (2) o serviço do seu santuário. (3) Que a Jesus Cristo, nosso A cerimônia usada neste juramento: Levantei minha grande Melquisedeque, devemos prestar homenagens. mão. Nos juramentos religiosos nós apelamos ao co­ Cada um de nós deve reconhecê-lo, com humildade, nhecimento de Deus da nossa verdade e sinceridade, e como nosso Rei e Sacerdote. Não devemos lhe entregar rogamos a sua ira se jurarmos em falso, e o levantar cia apenas o dízimo de tudo, mas tudo o que tivermos deve mão é muito significativo e expressivo em relação a am­ ser entregue a Ele. bas as coisas. (3) O assunto deste juramento foi, especi­ ficamente, que ele não aceitaria nenhuma recompensa do rei de Sodoma. Aceitar algo teria sido uma atitude O Desinteresse de Abrão legítima, mas Abrão não era, por nenhum antecedente, w. 21-24 obrigado a isto. [1] Provavelmente Abrão tinha jurado, antes de ir à batalha, que, se Deus lhe desse sucesso, Aqui temos o relato do que aconteceu entre Abrão e ele iria, para a glória de Deus e a credibilidade da sua o rei de Sodoma, que sucedeu aquele que caiu na batalha profissão de fé, renunciar a si mesmo e ao seu próprio (v. 10), e julgou-se obrigado a render esta honra a Abrão, direito, a ponto de não tomar dos despojos nada para si em recompensa pelos bons serviços que ele lhe havia mesmo. Observe que os votos que fizemos quando está­ prestado. Aqui temos: vamos pedindo uma graça devem ser cuidadosamente e conscientemente guardados quando obtivermos a gra­ A oferta de gratidão do rei de Sodoma a Abrão (v. ça, ainda que sejam contra os nossos interesses. Um 21): Dá-me a mim as almas e a fazenda toma para ti. cidadão de Sião, se jurar, seja a Deus, ou ao homem, Assim consta na versão hebraica. Aqui ele pede, corre­não mudará ainda que isto lhe traga algum dano, Sal­ tamente, as pessoas, mas livremente concede os bens a mos 15.4. Ou: [2] Talvez Abrão, vendo agora motivos Abrão. Observe: 1. Onde um direito é dúbio e dividido, para recusar a oferta que lhe foi feita, ao mesmo tempo é prudente combinar a questão com mútuas concessões confirmou a sua recusa com este juramento, para evitar em vez de brigar. O rei de Sodoma tinha um direito origi­ insistências posteriores. Observe, em primeiro lugar, nal, tanto sobre as pessoas quanto sobre os bens, e have­ que pode haver, algumas vezes, boas razões pelas quais ria uma discussão se o direito adquirido de Abrão, pelo nós devamos negar a nós mesmos aquilo que é o nosso resgate, excedesse o seu direito e o extinguisse. Mas, direito incontestável, como o apóstolo Paulo, 1 Corín­ para evitar todas as discussões, o rei de Sodoma faz esta tios 8.13; 9.12. Em segundo lugar, as boas decisões são justa proposta. 2. A gratidão nos ensina a recompensar muito úteis para afastar a força das tentações. com o máximo que pudermos aqueles que enfrentaram a 2. Ele sustenta a sua recusa com uma boa razão: fadiga, correram riscos e estiveram empregados ao nos­ para que não digas: Eu enriqueci a Abrão, o que refle­ so serviço e benefício. Quem jamais milita à sua própria tiria uma reprovação: (1) Sobre a promessa e o concerto custa?, 1 Coríntios 9.7. Os soldados conquistam o seu pa­ de Deus, como se eles não tivessem enriquecido a Abrão gamento a um custo mais elevado do que qualquer traba­ sem os despojos de Sodoma. E: (2) Sobre a piedade e a lhador, e são muito merecedores de seus ganhos porque caridade de Abrão, como se o seu objetivo, quando em­ expõem a própria vida. preendeu esta perigosa expedição, fosse enriquecer. Ob­ serve: [1] Nós devemos tomar muito cuidado para não A generosa recusa de Abrão a esta oferta. Não so­ dar oportunidade para que outros digam coisas que não mente ele lhe entregou as pessoas que, tendo sido deveriam dizer. [2] O povo de Deus deve, pelo bem da sua libertadas das mãos dos inimigos, deveriam ter servidocredibilidade, a tomar cuidado para não fazer nada que pa­ Abrão, mas também lhe devolveu os bens. Ele não dese­ reça mesquinho ou mercenário, ou que pareça cobiça e I n GÊNESIS 15 88 interesse próprio. Provavelmente Abrão sabia que o rei O Concerto de Deus com Abrão de Sodoma era um homem orgulhoso e zombador, e al­ V. 1 guém que seria capaz de converter isto em uma censura Observe aqui: posterior a ele, mesmo sendo algo irracional. Quando nós tivermos que nos relacionar com tais pessoas, precisa­ Quando Deus fez esta aliança com Abrão: Depois mos agir com um cuidado particular. 3. Ele limita a sua recusa a uma dupla condição, v. destas coisas. 1. Depois deste famoso ato de genero­ 24. Ao fazer juramentos, nós devemos inserir cuidado­ sa caridade que Abrão tinha feito, resgatando seus ami­ samente as exceções necessárias, para que não possa­ gos e vizinhos da aflição, e não por preço nem por recom­ mos dizer, posteriormente, diante do anjo, Foi um erro, pensa. Depois disto, Deus lhe fez esta graciosa visita. Eclesiastes 5.6. Abrão aqui exclui: (1) O alimento dos Observe que aqueles que demonstram favor aos homens, seus soldados. Eles mereceram o seu alimento enquan­ encontrarão o favor da parte de Deus. 2. Depois daquela to combateram. Isto não daria pretexto para que o rei vitória que ele tinha obtido sobre quatro reis. Para que de Sodoma dissesse que tinha enriquecido Abrão. (2) Abrão não se sentisse muito elevado e satisfeito com isto, A parte dos seus aliados e confederados: Que tenham Deus vem a Abrão para dizer-lhe que tinha coisas melho­ a sua parte. Observe que aqueles que são rígidos em res reservadas para ele. Observe que uma convivência restringir a sua liberdade não devem impor estas res­ de fé com as bênçãos espirituais é um meio excelente de trições à liberdade dos outros, nem julgá-los da mesma nos impedir de ficarmos excessivamente absorvidos por maneira. Não devemos nos considerar o padrão pelo prazeres temporais. Os dons da providência comum não qual os outros devam ser avaliados. Um bom homem se comparam àqueles do amor do concerto. irá renunciar à liberdade que não irá negar a outras A maneira pela qual Deus falou com Abrão: A pessoas, contrariamente ao costume dos fariseus, Ma­ palavra do Senhor veio a Abrão (isto é, Deus ma­ teus 23.4. Não havia a mesma razão pela qual Aner, Es­ nifestou a si mesmo, bem como a sua vontade, a Abrão col e Manre devessem renunciar aos seus direitos. O em uma visão, o que nos faz supor que Abrão estivess caso deles era diferente do de Abrão. Eles não tinham despertado, e então tenha desfrutado de algumas apa feito a profissão de fé que ele tinha feito, nem estavam, como ele, sob a obrigação de um juramento. Eles não rições visíveis da Shechinah, ou algum sinal visível da tinham a esperança que Abrão tinha de uma terra no presença da glória divina. Observe que os métodos da outro mundo e, portanto, certamente, que recebam a revelação divina são adaptados ao nosso estado no mun­ do dos sentidos. sua porção neste. I n Ca pítu lo 15 Neste capítulo, temos uma aliança solene entre Deus e Abrão, a respeito de um concerto que se­ ria estabelecido entre eles. No capítulo anterior tivemos Abrão no campo com reis. Aqui nós o en­ contramos no monte com Deus. E, embora ali ele parecesse grandioso, na minha opinião aqui ele pa­ rece muito mais grandioso: pois há uma honra que todos os grandes homens do mundo têm, mas esta honra que Abrão estava desfrutando no monte é aquela que “têm todos os santos”. O concerto a ser firmado entre Deus e Abrão era um concerto de promessas. E, conseqüentemente, aqui temos: I. Uma garantia geral da bondade de Deus e da sua boa vontade para com Abrão, v. 1. II. Uma decla­ ração particular dos propósitos do seu amor por ele, em dois aspectos: 1. Ele lhe daria uma prole numerosa, w. 2-6. 2. Ele lhe daria Canaã como herança, w. 7-21. Se fosse uma propriedade sem um herdeiro, ou um herdeiro sem uma proprieda­ de, este teria sido apenas um “meio” consolo para Abrão. Mas Deus lhe assegura ambos. E o que fazia destas duas coisas - a semente prometida e a terra prometida - verdadeiros consolos a este grande crente, era o fato de que estavam relacio­ nadas a duas bênçãos de valor inestimável: Cristo e o céu. E assim temos motivos para pensar que Adão as tinha como objetivos. A graciosa certeza que Deus deu a Abrão, do seu favor a ele. 1. O Senhor o chamou pelo nome - Abrão, o que lhe foi uma grande honra, e engrandeceu o seu nome, e tam­ bém foi um grande incentivo e auxílio à sua fé. Observe que a boa palavra de Deus nos faz bem quando nos é pro­ ferida e trazida aos nossos corações pelo seu Espírito. A palavra diz: Ó vós todos (Is 55.1), o Espírito diz: O, tu. 2. Ele o aconselhou a não ficar inquieto nem confuso: Não temas, Abrão. Abrão poderia temer que os quatro reis que ele tinha derrotado o atacassem novamente, e que isto fosse a sua ruína: “Não”, diz Deus, “não tema. Não tema as vinganças deles, nem a inveja dos seus ini­ migos. Eu tomarei contra de você”. Observe: (1) Mesmo onde existe uma grande fé, pode haver muitos medos, 2 Coríntios 7.5. (2) Deus toma conhecimento dos temores do seu povo, por mais secretos que sejam, e conhece as suas almas, Salmos 31.7. (3) É a vontade de Deus que 0 seu povo não ceda aos medos, aconteça o que aconte­ cer. Que os pecadores em Sião tenham medo, mas você, Abrão, não tema. 3. O Senhor garantiu a Abrão segurança e felicida­ de, e que ele seria, para sempre: (1) Tão seguro quanto o próprio Deus poderia mantê-lo: Eu sou o teu escudo, ou, um pouco mais enfaticamente, Eu sou o teu grandíssimo galardão, aquele que realmente se preocupa contigo. Veja 1 Crônicas 17.24. Não somente o Deus de Israel, mas o Deus para Israel. Observe que consideração há nisto, que o próprio Deus é, e será, um escudo para o seu povo, para protegê-los de todos os males destrutivos, um escudo pronto para eles e um escudo ao seu redor. Isto deveria ser 89 GÊNESIS 15 w. 2-6 suficiente para silenciar todos os seus medos perturbado­ da, se esta bênção se cumpriria através de um filho dos res. (2) Tão feliz quanto o próprio Deus poderia fazê-lo: seus lombos, ou de um filho da sua casa. “Bem, Senhor”, Eu serei o teu grandíssimo galardão. Não somente quem diz Abrão, “se for somente um filho adotado, deverá ser te recompensa, mas a tua recompensa. Abrão generosa­ um dos meus servos, o que trará a desgraça à semente mente tinha recusado as recompensas que o rei de Sodo- prometida, que será descendente dele”. Observe que en­ ma lhe tinha oferecido, e aqui vem Deus, e lhe diz que ele quanto tardam em chegar as graças prometidas, a nossa não perderia nada por isto. Observe: [1] As recompensas incredulidade e impaciência são capazes de concluir que da obediência em fé, e da renúncia a si mesmo são muito estas bênçãos nos foram negadas. 4. Que a falta de um grandes, 1 Coríntios 2.9. [2] O próprio Deus é a felicidade filho era um problema tão grande para ele, que removia escolhida e prometida das almas santificadas - escolhida o consolo de todos os seus prazeres: “Senhor, que me hás neste mundo e prometida em um mundo melhor. Ele é a de dar? Tudo isto não será nada para mim, se eu não tiver porção da sua herança e o seu cálice. um filho”. Bem: (1) Se supusermos que Abrão não visava nada além de um consolo temporal, esta queixa mereceria uma punição. Deus, pela sua providência, lhe tinha dado w. 2-6 algumas boas coisas, e ainda mais, pela sua promessa. Mas ainda assim Abrão não se importa com elas, porque Aqui temos a garantia, dada a Abrão, de uma prole não tem um filho. Era, realmente, muito pouco apropriado numerosa que seria sua descendente. Observe: que o pai dos crentes dissesse: Que me hás de dar, pois ando sem filhos, imediatamente depois que Deus tinha A repetição da queixa de Abrão, w. 2,3. Isto foi o que dito, Eu sou o teu escudo, o teu grandíssimo galardão. motivou a promessa. A grande aflição que pesava so­ Observe que não avaliam corretamente as vantagens da bre Abrão era a falta de um filho. E esta queixa ele aquisua relação de concerto com Deus, e o seu interesse nele, derrama perante a preciosa face do Deus amoroso, e lheaqueles que não julgam que isto seja suficiente para con­ expõe a sua angústia, Salmos 142.2. Observe que embora trabalançar a falta de qualquer conforto temporal, qual­ jamais devamos nos queixar de Deus, temos permissão quer que seja ele. Mas: (2) Se supusermos que Abrão aqui para nos queixar a Ele, e para sermos demorados e de­ se referia à semente prometida, a impertinência deste seu talhados na declaração dos nossos pesares. E traz alguma desejo era altamente louvável: tudo era como nada para tranqüilidade a um espírito carregado, expor o seu caso a ele, se não tivesse o penhor daquela grande benção, e uma um amigo misericordioso e fiel: tal amigo é Deus, cujo ou­ certeza do seu parentesco com o Messias, do qual Deus já vido está sempre aberto. A sua queixa tem quatro partes: o tinha incentivado a manter as expectativas. Ele tem ri­ 1. Ele não tem filhos (v. 3): Eis que me não tens dado se­ queza, e vitória, e honra. Mas, enquanto for mantido às es­ mente. Não somente sem filho, mas sem semente. Se ele curas sobre o assunto principal, tudo isto será como nada tivesse tido uma filha, dela poderia descender o Messias para ele. Observe que até que tenhamos alguma evidência prometido, que deveria ser a semente de uma mulher. Mas consoladora do nosso interesse em Cristo e no novo con­ ele não tinha nem filho nem filha. Abrão parece, na minha certo, não devemos ficar satisfeitos com nada mais. “Isto, opinião, enfatizar isto. Seus vizinhos estavam cheios de e aquilo, eu tenho. Mas de que tudo poderá me servir, se filhos, os seus servos tinham filhos nascidos na sua casa. continuo sem Cristo” - mas, ainda assim, a queixa mere­ “Mas a mim”, Abrão declara com tristeza, “não deste ne­ ceria uma punição, pois haveria, no seu fundo, certa falta nhum”, mesmo Deus lhe tendo dito que ele seria favorito, de confiança na promessa, e um cansaço de esperar pela acima de todos. Observe que aqueles que julgam que es­ hora de Deus. Observe que os verdadeiros crentes às ve­ teja determinado que não terão filhos, devem ter a certeza zes julgam difícil conciliar as promessas de Deus e as Suas de que Deus realmente determinou isto. Uma vez mais, providências, quando elas parecem estar em desacordo. Deus freqüentemente retém, aos seus próprios filhos, os consolos temporais que dá abundantemente a outros, que A graciosa resposta de Deus a esta queixa. A primeira parte da queixa (v. 2), Deus não deu são estranhos a Ele. 2. Que não era provável que ele tives­ se nenhum filho, o que é sugerido pela palavra “ando”, ou imediatamente uma resposta, porque havia alguma i ritação nela. Mas, quando Abrão retoma suas palavra “sigo, sem filhos, avançando em anos, descendo a colina. Na verdade, saindo do mundo, percorrendo o caminho de um pouco mais calmo (v. 3), Deus lhe responde gracios toda a terra. Morro sem filhos”, segundo a Septuaginta. mente. Observe que, se nós continuarmos orando com “Deixo o mundo, e não deixo nenhum filho atrás de mim”. perseverança, e ainda assim orando com uma humilde 3. Que os servos tomam o lugar dos filhos, no presente, e submissão à vontade divina, não estaremos buscando ao provavelmente no futuro. Enquanto ele vivia, o mordomo Senhor em vão. 1. Deus lhe fez uma promessa expressa da sua casa era Eliezer de Damasco. A ele Abrão confiou de um filho, v. 4. Este - que nascer na tua casa - não será a administração da sua família e das suas propriedades, o teu herdeiro, como temes. Mas aquele que de ti será pois podia ser fiel, mas somente como um servo, não como gerado, esse será o teu herdeiro. Observe: (1) Deus faz um filho. Quando Abrão morresse, alguém nascido na sua herdeiros. Ele diz: “Este não será, e este será”. E quais­ casa seria o seu herdeiro, e governaria sobre tudo aquilo quer que sejam os planos e desígnios dos homens ao es­ pelo que Abrão tinha trabalhado, Eclesiastes 2.18,19,21. tabelecer as suas propriedades, o conselho de Deus terá Deus já lhe tinha dito que faria dele uma grande nação a absoluta prioridade. (2) Deus é freqüentemente melhor (cap. 12.2), e que faria a sua semente tão numerosa quanto para nós do que esperamos. E Ele que aplaca os nossos o pó da terra (cap. 13.16). Mas Abrão ficou em dúvida, se temores. E o Senhor que nos concede a misericórdia da esta seria a sua semente gerada, ou a sua semente adota­ qual podemos ter perdido a esperança há muito tempo. I n GÊNESIS 15 90 w. 7-11 2. Para tocá-lo mais com esta promessa, o Senhor levou semente prometida não vêem razões para duvidar de um Abrão para fora, e mostrou-lhe as estrelas (esta visão título da terra prometida. Se Cristo é nosso, o céu é nos­ deve ter ocorrido muito cedo, antes do raiar do dia), e so. Observe, novamente, a ocasião em que Abrão creu na então lhe disse: Assim será a tua semente, v. 5. (1) Tão promessa anterior (v. 6). Então o Deus maravilhoso lhe numerosa. As estrelas parecem incontáveis para um olho explicou, e ratificou a promessa. Observe que ao que tem comum: Abrão temia não ter nenhum filho, mas Deus lhe (e que aprimora o que tem), ser-lhe-á dado. Deus aqui garantiu que os descendentes dos seus lombos seriam lembra três coisas a Abrão, para seu incentivo a respeito tantos que não poderiam ser contados. (2) Tão ilustre, da promessa desta boa terra: 1.0 que Deus é, em si mesmo: Eu sou o Senhor Jeová. semelhante às estrelas, em esplendor. Pois a ela perten­ cia a glória, Romanos 9.4. A semente de Abrão, segundo E, portanto: (1) “Eu posso dar isto a você, pois Eu sou o a sua carne, seria como o pó da terra (cap. 13.16), mas Senhor soberano de tudo e de todos, e tenho o direito de a sua semente espiritual é como as estrelas do céu, não dispor de toda a terra”. (2) “Eu posso dá-la a você, qual­ quer que seja a oposição, ainda que seja realizada pelos somente numerosa, mas gloriosa e muito preciosa. filhos de Anaque”. Deus nunca promete mais do que Ele A firme crença de Abrão na promessa que Deus pode fazer, como os homens fazem freqüentemente. E agora lhe fazia, e a aceitação que Deus faz da devemos nos lembrar sempre de que Ele, e só Ele, pode sua fé, v. 6.1. Ele creu no Senhor, isto é, creu na verdade fazer todas as coisas. (3) “Eu cumprirei a minha promessa daquela promessa que Deus agora lhe tinha feito, descan­ a você”. Jeová não é um homem, para mentir. 2. O que Ele tinha feito por Abrão. Ele o tinha tirado sando sobre o poder irresistível e a inviolável fidelidade Daquele que a fazia. Ele tinha dito, e não o cumpriria? de Ur dos caldeus, do fogo dos caldeus, segundo alguns, Observe que aqueles que desejam ter o consolo das isto é, seja das suas idolatrias (pois os caldeus adoravam promessas devem misturar fé às promessas. Veja como o fogo), seja das suas perseguições. Os autores judeus o apóstolo engrandece esta fé de Abrão, e faz dela um têm uma tradição de que Abrão foi lançado ao fogo por se exemplo, Romanos 4.19-21. Ele não enfraqueceu na fé. E recusar a adorar ídolos, e foi milagrosamente salvo. Na não duvidou da promessa. Ele foi fortificado na fé. Ele foi verdade, é um lugar com este nome. De lá Deus o trouxe completamente persuadido. O Senhor opera esta fé em por um chamado efetivo, trouxe-o com uma firmeza gra­ cada um de nós! Alguns pensam que a expressão “ele creu ciosa, agarrou-o, como se fosse um galho no fogo. Isto no Senhor” signifique não somente o Senhor que prome­ foi: (1) Uma misericórdia especial: “Eu o trouxe, e dei­ tia, mas o Senhor prometido, o Senhor Jesus, o Mediador xei a outros, a milhares, para que perecessem ali”. Deus do novo concerto. Abrão creu nele, isto é, recebeu e acei­ chamou somente a ele, Isaías -51.2. (2) Uma misericórdia tou a revelação divina a respeito dele, e exultou por ver o espiritual, uma misericórdia para a sua alma, uma liber­ seu dia, embora ainda estivesse tão distante, João 8.56. 2. tação do pecado e das suas conseqüências fatais. Se Deus Deus lhe imputou isto por justiça: isto é, por este motivo salva as nossas almas, podemos ter a certeza de que não ele foi aceito por Deus, e, como os demais patriarcas, pela nos faltará nada que seja bom para nós. (3) Uma nova fé alcançou testemunho de que era justo, Hebreus 11.4. misericórdia, recentemente concedida, e, portanto, de­ Isto é mencionado com insistência no Novo Testamento, veria ser mais comovente, como aquela que é tão linda, e para provai1que somos justificados pela fé, sem as obras que encontramos no prefácio dos mandamentos: Eu sou da lei (Rm 4.3; G1 3.6). Pois Abrão foi justificado desta o Senhor, que te tirei da terra do Egito. (4) Uma miseri­ maneira, enquanto ainda era incircunciso. Se Abrão, que córdia de base, que serve como alicerce para nós, o início era tão rico em boas obras, não foi por elas justificado, da misericórdia, uma misericórdia peculiar a Abrão, e, mas somente pela sua fé, muito menos seremos nós, que portanto, um sinal de misericórdias posteriores, Isaías somos tão pobres em boas obras. Esta fé, que foi imputa­ 66.9. Observe como Deus fala disto, como se estivesse da a Abrão por justiça, tinha recentemente lutado com a se gloriando nisto. Eu sou o Senhor que te tirei. Ele se incredulidade (v. 2) e, saindo vencedora, assim foi coroa­ gloria nisto como um ato de poder e também de graça. da, assim foi honrada. Observe que uma aceitação prática Compare com Isaías 29.22, onde Ele se gloria nisto, mui­ e fiel da promessa de Deus de graça e glória, e Cristo, to tempo depois. Assim diz o Senhor, que remiu a Abraão e por Cristo, e uma confiança em tal promessa, é aquilo - que o remiu do pecado. 3. O que o Senhor ainda pretendia fazer por Abrão: que, segundo o teor do novo concerto, nos dá o direito a todas as bênçãos contidas na promessa. Todos os crentes “Eu te trouxe até aqui, para dar-te a ti esta terra, para são justificados, como Abrão o foi, e foi a sua fé que lhe foi a herdares - não somente para que a possuas, mas para que a possuas como uma herança, que é o título mais imputada por justiça. doce e garantido”. Observe: (1) A providência de Deus tem desígnios secretos, porém graciosos, em todas as suas variadas dispensações às pessoas boas. Nós não w. 7-11 podemos perceber os projetos da Providência, até que Aqui temos a garantia dada a Abrão da terra de Ca- os eventos os mostrem em toda a sua misericórdia e gló­ ria. (2) O grande objetivo que Deus deseja alcançar em naã, como herança. todas as Suas tratativas com o seu povo, é trazê-los em Deus declara o seu objetivo a respeito da terra, v. segurança ao céu. Eles são eleitos para a salvação (2 Ts 7. Observe aqui que Abrão não fez nenhuma queixa2.13), chamados para o reino (1 Ts 2.12), gerados para a este respeito, como tinha feito pela falta de um filho. a herança (1 Pe 1.3,4), e tornados adequados para ela, Note que aqueles que têm a certeza de um interesse na Colossenses 1.12,13; 2 Coríntios 4.17. I 91 GÊNESIS 15 w. 12-16 Abrão deseja um sinal: Como saberei que hei de coisas comuns e negligenciadas, Abrão as enxotava (v. herdá-la?, v. 8. Isto não nascia de uma falta de con­ 11), crendo que a visão, no final, falaria e não mentiria. fiança no poder nem na promessa de Deus, como a de Za­ Observe que um olho muito vigilante deve ser mantido carias. Mas ele desejava isto: 1. Para o fortalecimento sobre e a os nossos sacrifícios espirituais, para não permitir confirmação da sua própria fé. Ele creu (v. 6), mas aqui que ele algo os ataque e os deixe inadequados à aceitação roga: Senhor, ajude-me a combater a minha incredulida­ de Deus. Quando pensamentos vãos, como estas aves de de. Agora ele cria, mas desejava um sinal para ser guar­ rapina, descem sobre os nossos sacrifícios, nós devemos dado para uma hora de tentação, sem saber como a sua fé enxotá-los, e não permitir que se alojem dentro de nós, poderia, por um evento ou outro, ser abalada e tentada. mas comparecer diante de Deus sem distrações. Observe que todos nós precisamos, e devemos desejar, auxílios do céu para a confirmação da nossa fé, e devemos aproveitar os sacramentos, que são sinais instituídos com w. 12-16 este propósito. Veja Juizes 6.36-40; 2 Reis 20.8-10; Isaías 7.11,12. 2. Para a ratificação da promessa para a sua Aqui temos uma revelação plena e particular feita posteridade, para que também fossem levados a crer nela. a Abrão sobre os propósitos de Deus a respeito da sua Observe que aqueles que estão satisfeitos devem desejar semente. Observe: que os outros também estejam satisfeitos com a verdade das promessas de Deus. João enviou os seus discípulos a Quando Deus veio a ele com esta revelação: Quando Cristo, não tanto para a sua própria satisfação, como para o sol se punha, ou se enfraquecia, aproximadamente a deles, Mateus 11.2,3. Canaá tipificava o céu. Observe à hora do sacrifício da tarde, 1 Reis 18.36; Daniel 9.21. que é algo muito desejável saber que herdaremos a Canaã Pela manhã bem cedo, antes do raiar do dia, quando ain­ celestial, isto é, ser confirmados na nossa fé na verdade da podiam ser vistas as estrelas, Deus tinha lhe dado ins­ daquela felicidade, e ter as evidências do nosso direito a truções a respeito dos sacrifícios (v. 5), e podemos supor ela cada vez mais claras para nós. que tivesse sido o seu trabalho da manhã, pelo menos, prepará-los e deixá-los em ordem. Depois de fazer isto, Deus orienta Abrão a fazer preparativos para permaneceu junto a eles, orando e esperando quase até um sacrificio, pretendendo, com isto, dar-lhe à noite. Observe que o precioso Deus freqüentemente um sinal, e Abrão faz os preparativos adequadamen­ mantém o seu povo muito tempo em expectativa dos con­ te (w. 9-11): Toma-me uma bezerra, etc. Talvez Abrão solos que lhes destina, para a confirmação da sua fé. Mas esperasse algum sinal extraordinário do céu: masembora Deus as respostas às orações e o cumprimento das lhe dá um sinal em um sacrifício. Observe que aqueles promessas venham lentamente, eles certamente chega­ que desejarem receber as garantias do favor de Deus, rão. No tempo da tarde, haverá luz. e desejarem ter a sua fé confirmada, devem participar das ordenanças instituídas, e esperar encontrar a Deus Os preparativos para esta revelação. 1. Um pro­ nelas. Observe: 1. Deus indicou que cada um dos ani­ fundo sono caiu sobre Abrão, não um sono co­ mais usados para este serviço tivesse três anos de idade, mum devido ao cansaço ou à despreocupação, mas u porque então todos estariam na plenitude do seu cresci­ êxtase divino, como aquele que o Senhor Deus fez ca mento e força: Deus deve ser servido com o que tiver­ sobre Adão (cap. 2.21), para que, estando completame mos de melhor, pois Ele é o melhor. 2. Nós não lemos te removido da visão das coisas sensíveis, pudesse estar que Deus tenha dado a Abrão instruções especiais sobre completamente tomado pela contemplação das coisas es­ como lidar com estes animais e aves, sabendo que ele pirituais. As portas do corpo foram trancadas para que era tão instruído na lei e no costume de sacrifícios que a alma pudesse estar em privado e retirada, e pudesse não precisava de nenhuma instrução especial. Ou tal­ agir mais livremente, mais como ela mesma. 2. Com este vez lhe tenham sido dadas instruções, que ele observou sono, grande espanto e grande escuridão caíram sobre cuidadosamente, embora não tenham sido registradas. ele. Que mudança repentina! Pouco tempo antes disto, Ao menos foi-lhe indicado que eles deveriam ser prepa­ nós o vimos aliviando-se nos consolos do concerto de rados para a solenidade de ratificação de um concerto. Deus, e em comunhão com Ele. E aqui, grande espanto e E ele conhecia bem a maneira de prepará-los. 3. Abrão grande escuridão caem sobre ele. Observe que os filhos fez como Deus lhe indicou, embora ainda não soubesse da luz nem sempre andam na luz, mas às vezes nuvens como estas coisas se tornariam um sinal para ele. Este e escuridão estão à sua volta. Esta grande escuridão, não foi o primeiro exemplo da obediência implícita de que trouxe espanto consigo, tinha alguns propósitos: (1) Abrão. Ele partiu os animais ao meio, de acordo com a Despertar um assombro no espírito de Abrão, e possuícerimônia usada na confirmação de concertos, Jeremias lo com uma santa reverência, para que a familiaridade 34.18,19, onde está escrito, O bezerro dividiram em duas à qual Deus se comprazia em aceitá-lo não gerasse des­ partes, passando pelo meio das duas porções. 4. Abrão, prezo. Observe que o santo temor prepara a alma para tendo feito os preparativos de acordo com as indicações a santa alegria. O espírito de escravidão abre caminho de Deus, agora se pôs a esperar pelo sinal que Deus lhe para o espírito de adoção. Deus fere primeiro, e depois daria, como o profeta sobre a sua torre de vigia, Habacu- cura. Humilha primeiro, e depois exalta, Isaías 6.5,6ss. que 2.1. Enquanto tardava a aparição de Deus para reco­ (2) Ser uma amostra dos métodos de tratativas de Deus nhecer o seu sacrificio, Abrão continuou esperando, com com a sua semente. Eles deveriam primeiro passar pelo as suas expectativas aumentando com a demora. Quando espanto e pela escuridão da escravidão no Egito, e então as aves desciam sobre os cadáveres para comê-los, como entrar com alegria na terra prometida. Portanto, o pa­ n I m n GÊNESIS 15 92 triarca deveria ter a antecipação dos seus sofrimentos, turbam o seu povo. E este é um ato particular de justiça. antes de ter a previsão da sua felicidade. (3) Ser uma O julgamento dos inimigos da igreja é uma obra de Deus: indicação da natureza daquele concerto de peculiarida­ Eu julgarei. Deus pode fazê-lo, pois Ele é o Senhor. Ele de que Deus estava prestes a fazer agora com Abrão. o fará, pois Ele é o Deus do seu povo, e Ele disse: Minha A dispensação do Antigo Testamento, que se baseou é a vingança e a recompensa. A Ele, portanto, devemos neste concerto, foi uma dispensação: [1] De escuridão e deixá-la, para que ela seja realizada da sua maneira, e obscuridade, 2 Coríntios 3.13,14. [2] De medo e horror, no seu tempo. Hebreus 12.18ss. 3. A libertação da semente de Abrão do Egito. Este grande evento é aqui predito: depois sairão com gran­ T T T A predição propriamente dita. Diversas coisas de fazenda. Aqui está prometido: (1) Que eles seriam JL JL JL são preditaf aqui. enaltecidos: Depois sairão. Isto é, depois de terem sido 1. A condição de sofrimento para a semente de Abrão, afligidos por 400 anos, quando se cumprissem os dias da durante muito tempo, v. 13. Que Abrão não se lisonjeie sua servidão, ou depois que os egípcios fossem julgados com as esperanças de ter somente honra e prosperidade e assolados pelas pragas. Então poderiam esperar pela na sua família. Não, ele deve saber, com toda a certeza, libertação. Observe que a destruição dos opressores é a aquilo em que ele não queria crer, que a semente prome­ redenção dos oprimidos. Eles não permitirão a saída do tida seria uma semente perseguida. Observe que Deus povo de Deus até que sejam forçados a fazê-lo. (2) Que permite o pior, em primeiro lugar. Nós devemos sofrer seriam enriquecidos: sairão com grande fazenda. Isto se primeiro, e depois reinar. Ele também nos faz conhecer o cumpriu, Êxodo 12.35,36. Deus cuidou para que eles ti­ pior antes da sua chegada, para que, quando venha, não vessem não somente uma boa terra à qual ir, mas uma grande quantidade de bens para levarem consigo. seja uma surpresa para nós, João 16.4. Aqui temos: (1) Os detalhes dos sofrimentos deles. [1] Serão es­ 4. Seu feliz estabelecimento em Canaã, v. 16. Não so­ trangeiros. Assim foram, primeiramente em Canaã (SI mente sairão do Egito, mas virão novamente para cá, à 105.12), e depois no Egito. Antes de serem senhores da terra de Canaã, onde você está agora. A deseontinuidade sua própria terra, foram peregrinos em terra estrangei­ da sua posse não cancelaria o seu direito: não devemos ra. Os inconvenientes de uma condição incerta tornam considerar perdidos para sempre aqueles consolos que um assentamento feliz ainda mais bem vindo. Assim os são interrompidos por algum tempo. A razão pela qual herdeiros do céu são, primeiramente, peregrinos na ter­ eles não deveriam estar de posse da terra da promessa ra, em uma terra que não é sua. [2] Eles serão servos. até à quarta geração era porque a medida da injustiça dos Isto serão, para os egípcios, Êxodo 1.13. Veja como aqui­ amorreus ainda não estaria completa. Israel não pode ter lo que era o destino dos cananeus (cap. 9.25) se tornou, a posse de Canaã até que os amorreus sejam destituídos. comprovadamente, a aflição da semente de Abrão: eles E eles ainda não estão prontos para a destruição. O Deus são levados a servir, mas com esta diferença - os cana­ justo determinou que eles não fossem cortados até que neus servem sob uma maldição, mas, os hebreus, sob tivessem persistido durante tanto tempo no pecado, e uma benção. E os retos terão domínio na manhã, Salmos chegado a tal profundidade de iniqüidade, até que pudes­ 49.14. [3] Eles serão sofredores. Aqueles a quem irão se haver uma proporção justa entre o seu pecado e a sua servir, os afligirão. Veja Êxodo 1.11. Observe que aque­ ruína. Portanto, até que chegasse este momento, a semen­ les que são abençoados e amados por Cristo, freqüente­ te de Abrão não teria a posse. Observe: (1) A medida do mente são amargamente afligidos pelos homens ímpios. pecado se enche gradativamente. Aqueles que continuam E Deus prevê isto, e toma conhecimento disto. impenitentes em caminhos pecaminosos estão acumulan­ (2) A duração dos seus sofrimentos - quatrocentos do ira contra si mesmos. (2) A medida do pecado de alguns anos. Esta perseguição teve início com uma zombaria, povos se enche lentamente. Os sodomitas, que eram ex­ quando Ismael, filho de uma egípcia, perseguiu Isaque, cessivamente pecadores contra o Senhor, logo encheram a que nasceu segundo o Espírito, cap. 21.9; Gálatas 4.29. sua medida. A mesma coisa aconteceu com os judeus, que E a zombaria continuou. Pois era uma abominação para estavam, em sua profissão de fé, próximos a Deus. Mas os egípcios comei' pão com os hebreus, cap. 43.32. E, fi­ a medida da iniqüidade dos amorreus tardou para se en­ nalmente, chegou ao assassinato, o mais vil dos assas­ cher. (3) Esta é a razão da prosperidade dos povos ímpios. sinatos, o dos seus filhos recém-nascidos. De modo que A medida da sua injustiça ainda não está cheia. Os ímpios isto continuou por aproximadamente quatrocentos anos, vivem, envelhecem, e se esforçam em poder, enquanto embora não tanto nas piores condições. Foi um longo pe­ Deus guarda a sua violência para os próprios filhos deles, ríodo, mas um período limitado. Jó 21.7,19. Veja Mateus 23.32; Deuteronômio 32.34. 2. O julgamento dos inimigos da semente de Abrão: •5. A morte tranqüila de Abrão, e o seu sepultamento, Eu julgarei o povo ao qual servirão, v. 14. Isto aponta antes que acontecessem estas coisas, v. 15. Assim como para as pragas do Egito, pelas quais Deus não somente ele não viveria para ver aquela boa terra de posse da sua obrigou os egípcios a libertar Israel, mas os puniu por família, mas precisaria morrer - como viveu peregrino todas as aflições que lhes tinham imposto. Observe: (1) nela, também, para compensar isto, não viveria para ver Embora Deus possa permitir que perseguidores e opres­ as aflições que seriam impostas sobre a sua semente, e sores espezinhem o seu povo durante algum tempo, ain­ muito menos compartilharia delas. Isto é prometido a da assim certamente Ele acertará as contas com eles, no Josias, 2 Reis 22.20. Observe que os homens bons são, às final. Pois vem chegando o seu dia. Salmos 37.12,1-3. (2) vezes, grandemente favorecidos por serem levados antes A punição dos perseguidores é o seu julgamento: é justo do mal, Isaías 57.1. Que satisfaça a Abrão o fato de que, que Deus recompense, com tribulações, aqueles que per­ por sua parte: w. 12-16 GÊNESIS 15 w. 17-21 (1) Ele irá aos seus pais em paz. Observe: [1] Nem Deus era a sua tocha: esta palavra dita a Abrão também mesmo os amigos e favoritos do céu estão isentos do gol­ o era, era uma luz brilhando na escuridão. Talvez esta pe da morte. Somos nós maiores que o nosso pai Abrão, tocha anunciasse a coluna de nuvem e fogo que os tirou que está morto? João 8.53. [2] Os homens bons morrem do Egito, na qual Deus estava. (3) A tocha de fogo in­ voluntariamente. Eles não são apanhados, não são força­ dica a destruição dos seus inimigos, que os mantiveram dos, mas se vão. A sua alma não é pedida, como a do rico por tanto tempo no forno. Veja Zacarias 12.6. A mesma insensato (Lc 12.20), mas é entregue alegremente: eles nuvem que iluminou os israelitas perturbou e queimou não desejam viver para sempre neste mundo passageiro. os egípcios. [3] Na morte, nós vamos para os nossos pais, todos os 3. Apassagem entre as metades era a confirmação do nossos pais que foram antes de nós à. condição de mortos concerto que Deus agora fazia com ele, para que pudesse (Jó 21.32.33), aos nossos pais devotos que foram antes de ter uma forte consolação, sendo plenamente persuadido nós à condição de abençoados, Hebreus 12.23. O primei­ de que Deus certamente cumpriria aquilo que prometia. ro pensamento ajuda a remover o terror da morte, e o É provável que o forno e a tocha, que passaram entre as segundo lhe acrescenta consolo. [4] Quando um homem metades, os queimasse e consumisse, completando des­ bom morre, morre em paz. Se o seu caminho for a pieda­ te modo o sacrifício, e testificando a sua aceitação por de, ou seja, o temor e a obediência ao Senhor, o seu fu­ Deus, como aconteceu com Gideão (Jz 6.21), Manoá (Jz turo será paz, Salmos 37.37. A paz exterior, até o final, é 13.19,20), e Salomão, 2 Crônicas 7.1. Isto indica: (1) Que prometida a Abrão. Paz e verdade nos seus dias, não im­ os concertos de Deus com o homem são feitos através de portando o que virá depois (2 Rs 20.19): a paz com Deus, sacrifícios (SI 50.5). Cristo é o grande sacrifício, o maior e a paz eterna, são garantidas a toda a sua semente. de todos: sem expiação, não há acordo. (2) A aceitação de (2) Ele será sepultado em boa velhice. Talvez se faça Deus dos nossos sacrifícios espirituais é um sinal eterno, menção ao seu sepultamento aqui, onde a terra de Canaã e um sinal de favores futuros. Veja Juizes 13.23. E, com lhe é prometida, porque um sepulcro foi a primeira pos­ isto, podemos saber que Ele aceita os nossos sacrifícios, se que ele teve nela. Não somente morreu em paz, mas se acender nas nossas almas um fogo santo de piedosos e morreu com honra, morreu e foi sepultado decentemen­ devotos afetos em relação a estes sacrifícios. te. Não somente morrer em paz, mas morrer a seu tem­ po, Jó 5.26. Observe: [1] A velhice é uma benção. Ela está O concerto é repetido e explicado: Naquele mes­ prometida no quinto mandamento. Agrada à natureza. mo dia - que nunca deveria ser esquecido - fez E permite uma grande oportunidade para ser útil. [2] o Senhor um concerto com Abrão. Isto é, fez uma pro­ Especialmente, se for uma boa velhice. Pode ser consi­ messa a Abrão, dizendo: A tua semente tenho dado esta derada uma boa velhice, em primeiro lugar, a dos que são terra, v. 18. Aqui temos: velhos e saudáveis, não sobrecarregados com as doenças 1. Uma repetição da concessão. O bendito Senhor ti­ que fazem com que se cansem da vida. Em segundo lu­ nha dito antes, A tua semente darei esta terra, cap. 12.7; gar, a velhice daqueles que são velhos e santos, antigos 13.15. Mas aqui Ele diz, Eu tenho dado. Isto é: (1) Eu fiz discípulos (At 21.16), cujas cãs se acham no caminho da esta promessa, a carta está selada e entregue, e não pode justiça (Pv 16.31). Uma vida velha e útil, velha e exem­ ser cancelada. Observe que as promessas de Deus são plar em termos de santidade. Esta é, verdadeiramente, presentes de Deus, e assim devem ser consideradas. (2) uma boa velhice. A possessão é tão garantida, no devido tempo, como se lhes fosse, na verdade, entregue agora. Aquilo que Deus prometeu é tão garantido como se já estivesse feito. Con­ w. 17-21 seqüentemente, está escrito que aquele que crê tem a vida eterna (Jo 3.36), pois irá para o céu, e isto é tão certo Aqui temos: como se já estivesse lá. 2. Uma lista dos detalhes da concessão, como é usual T O conceito ratificado (v. 17). O sinal que Abrão de- nas concessões de terras. O Senhor especifica os limites 1. sejava foi dado, finalmente, quando o sol se pôs, de da terra que aqui deve ser concedida, v. 18. E então, para modo que houve escuridão. Pois aquela era uma dispen- maior garantia, como é usual em tais casos, Ele mencio­ sação misteriosa. na aqueles de cuja posse e ocupação estas terras eram 1. O forno de fumaça representava a aflição da sua agora. Dez nações diversas, ou tribos, são aqui mencio­ semente no Egito. Eles estavam no forno de fogo (Dt nadas (w. 19-21). Elas deverão ser expulsas, para abrir 4.20), na fornalha da aflição (Is 48.10), trabalhando no lugar para a semente de Abrão. O povo do Senhor não próprio fogo. Eles estavam ali, na fumaça, seus olhos estaria de posse de todas estas nações quando Ele os escurecidos, para que não pudessem ver o fim das suas trouxesse a Canaã, Os limites são muito mais estreitos, aflições, e para que não se confundissem imaginando o Números 34.2,3ss. Mas: (1) No tempo de Davi e de Salo­ que Deus faria com eles. Nuvens e trevas os rodeavam. mão, a jurisdição deles se estendia até o extremo destes 2. A tocha de fogo indica consolo nesta aflição. E limites, 2 Crônicas 9.26. (2) Foi por sua própria culpa que isto Deus mostrou a Abrão, ao mesmo tempo em que lhe não estiveram de posse de todos estes territórios antes, mostrou o forno de fumaça. (1) A luz indica a libertação e por mais tempo. Eles perderam o seu direito devido do forno. A sua salvação foi como uma tocha acesa, Isaías aos pecados que praticaram, e pela sua própria preguiça 62.1. Quando Deus desceu para libertá-los, Ele apareceu e covardia não tiveram a posse. (3) A terra concedida é em uma sarça que ardia, e não se consumia, Êxodo 3.2. aqui descrita na sua máxima amplitude porque devia ser (2) A tocha indica orientação na fumaça. A palavra de um tipo da herança celestial, onde há espaço suficiente: 93 n w. 1-3 GÊNESIS 16 94 Na casa de meu Pai há muitas moradas. Os atuais ocu­ posses. Mas ainda assim, era estéril. Observe: (1) Deus pantes são mencionados porque o seu número, força, e dispensa os seus dons de maneira variada, carregandolonga permanência não seriam obstáculos para o cum­ nos, mas não sobrecarregando-nos, de benefícios: uma primento desta promessa no seu devido tempo, e para ou outra cruz está indicada para acompanhar as grandes engrandecer o amor de Deus por Abrão e pela sua se­ alegrias. (2) A graça de ter filhos freqüentemente é dada mente, ao dar a esta nação única as posses de muitas na­ aos pobres e negada aos ricos, dada aos ímpios e nega­ ções, por serem tão preciosos e tão glorificados aos seus da às pessoas boas, embora os ricos tenham mais para deixar para os filhos, e as pessoas boas possam cuidar olhos, Isaías 43.4. melhor da sua educação. Deus faz tudo como lhe apraz. 2. Ela reconheceu a providência de Deus nesta afli­ ção: o Senhor me tem impedido de gerar. Observe: (1) C a p ít u l o 16 Assim como, quando há filhos, é Deus quem os dá (cap. 33.5), também quando eles faltam, é Ele quem os impe­ de, cap. 30.2. Esta decisão pertence ao Senhor. (2) Con­ Agar é a pessoa que desperta mais interesse na vém que reconheçamos isto, para que possamos usá-lo história deste capítulo, uma egípcia obscura, cujo e aproveitá-lo, como uma aflição que Ele permite com nome e história nós não conheceríamos jamais, se propósitos santos e sábios. a Providência não a tivesse trazido à família de 3. Ela usou isto como um argumento junto a Abrão, Abrão. Provavelmente era uma destas servas que para que se casasse com a sua serva. E ele foi persu­ o rei do Egito, entre outros presentes, concedeu adido, por este argumento, a fazer isto. Observe: (1) a Abrão, cap. 14.16. A respeito dela, lemos qua­ Quando os nossos corações estão muito preocupados tro coisas, neste capítulo: I. Seu casamento com por qualquer consolo mundano, nós somos facilmente Abrão, seu senhor, w. 1-3. II. Seu mau comporta­ convencidos a usar métodos indiretos para obtê-lo. Os mento para com Sarai, sua senhora, w. 4-6. III. A desejos desordenados normalmente produzem esforços sua conversa com um anjo que a encontrou na sua ilícitos. Se os nossos desejos não forem mantidos sub­ fuga, w. 7-14. IV O fato de que ela deu à luz um missos à providência de Deus, os nossos esforços dificil­ filho, w. 15,16. mente serão mantidos sob os limites dos seus preceitos. (2) É pela falta de uma firme confiança na promessa de Deus, e de uma paciente espera pelo tempo de Deus, que Abrão, Sarai e Agar nós saímos do caminho do nosso dever para agarrar uma w. 1-3 misericórdia esperada. Aquele que crê não se precipita. 4. Temos razões para pensar que a aquiescência de Aqui temos o casamento de Abrão com Agar, que seria sua segunda esposa. Nisto, embora possa haver Abrão à proposta de Sarai tenha nascido de um fervoroso alguma desculpa para ele, ele não pode ser justificado, desejo da semente prometida, a quem o concerto deveria pois não foi assim desde o princípio. E, quando o fato ser transferido. Deus tinha dito a ele que o seu herdeiro aconteceu, parece ter nascido de um desejo irregular deveria ser um filho da sua carne, mas ainda não lhe tinha de constituir famílias para povoar mais rapidamente o dito que deveria ser um filho gerado por Sarai. Por isto, mundo e a igreja. Certamente não dever ser assim ago­ Abrão pensou: “Por que não, com Agar, uma vez que a pró­ ra. Cristo reduziu esta questão à primeira instituição, e pria Sarai o propôs”. Observe: (1) As tentações tolas podem definiu a união do casamento somente entre um homem ter pretextos aparentemente muito justos, e se apresentar disfarçadas de algo que é muito plausível. (2) A sabedoria e uma mulher. Bem: da carne, da mesma maneira como antecipa o tempo da mi­ Quem celebrou esta união (Alguém saberia dizer?) sericórdia de Deus, também nos tira do caminho de Deus. - foi a própria Sarai: disse Sarai a Abrão: Entra, (3) Isto pode ser evitado alegremente se pedirmos o conse­ pois, à minha serva, v. 2. Observe: 1. Uma artimanha de lho de Deus, pela Palavra e pela oração, antes de nos em­ Satanás é nos tentar por meio dos nossos parentes mais penharmos naquilo que é importante e suspeito. Isto faltou próximos e queridos, ou por aqueles amigos que consi­ a Abrão. Ele se casou sem o consentimento de Deus. Esta deramos, e pelos quais temos afeto. A tentação é mais persuasão não veio Daquele que o chamou. perigosa quando é enviada por unia mão que é menos suspeita: é nossa prudência, portanto, considerar, não w. 4-6 tanto quem fala, quanto o que é dito. 2. Os mandamentos de Deus levam em conta o nosso consolo e a nossa honra Aqui temos as más conseqüências imediatas do in­ muito melhor do que os nossos próprios planos o fazem. Teria sido muito mais favorável ao interesse de Sarai se feliz casamento de Abrão com Agar. Um grande mal se Abrão tivesse seguido a lei de Deus, em vez de deixar-se produz rapidamente. Quando nós não agimos bem, o pe­ guiar pelos seus projetos tolos. Mas nós freqüentemente cado e os problemas estão à porta. E podemos agradecer a nós mesmos pela culpa e pela tristeza que nos acom­ fazemos mal a nós mesmos. panham quando saímos do caminho do nosso dever. Veja isto nesta história. O que motivou isto: a esterilidade de Sarai. 1. Sarai não gerou filhos a Abrão. Ela era muito Sarai é desprezada, e, desta maneira, sente-se pro­ formosa (cap. 12.14), era uma esposa muito agradável vocada e se irrita, v. 4. Tão logo Agar percebe estar e obediente, e compartilhava com ele as suas grandes I I 95 GÉNESIS 16 w. 7-9 grávida de um filho do seu senhor, passa a considerar a devido às aflições que os senhores rudes impõem irra­ sua senhora com desprezo, talvez criticando-a pela sua cionalmente aos seus servos. Eles deveriam contei' as esterilidade, insultando-a, para irritá-la (como em 1 Sm ameaças, tendo o mesmo pensamento de Jó: Aquele que 1.6). Ela estava se gabando das perspectivas que tinha me formou não o fez também a ele?, Jó 31.15. 3. O orgu­ de trazer um herdeiro a Abrão, para aquela boa terra, lho de Agar não pôde suportar isto, e o seu espírito ficou e para o cumprimento da promessa. Agora ela se julga impaciente pelas críticas: ela fugiu de sua face. Ela não uma mulher melhor do que Sarai, mais favorecida pelo só evitou a ira imediata de Sarai - como Davi evitou a de Céu, e com probabilidades de ser mais amada por Abrão. Saul - mas abandonou totalmente o seu serviço, e fugiu E por isto já não é mais submissa, como costumava ser. da casa, esquecendo-se: (1) Do mal que tinha feito à sua Observe: 1. Os espíritos inferiores e servis, quando fa­ senhora, cuja serva ela era, e ao seu senhor, cuja esposa vorecidos e promovidos, seja por Deus ou pelo homem, ela era. Observe que o orgulho dificilmente será conti­ podem se tornar arrogantes e insolentes, e esquecer seu do por alguns laços do dever. Não, nem por muitos. (2) lugar e origem. Veja Provérbios 29.21; 30.21-23. É difícil De que ela mesma tinha feito a provocação em primeiro atribuir a honra àqueles que realmente devem ser hon­ lugar, ao desprezar a sua senhora. Observe que aqueles rados. 2. Nós sofremos, com razão, por causa daqueles a que sofrem por suas próprias faltas devem suportar pa­ quem agradamos de maneira pecaminosa. E é justo que cientemente os seus sofrimentos, 1 Pedro 2.20. Deus converta em instrumentos de nossa aflição aqueles aos quais tornamos instrumentos do nosso pecado, e que nos aprisione nos nossos próprios maus conselhos: o que w. 7-9 revolve a pedra, esta sobre ele rolará. Aqui está a primeira menção que temos, nas Escri­ Sarai reclama com Abrão, que não consegue fi­ turas, da aparição de um anjo. Agar era um tipo da lei, car tranqüilo enquanto Sarai está de mau humor. que foi dada pela disposição dos anjos. Mas o mundo vin­ Ela o repreende veementemente, e, de maneira muito douro não se sujeita a eles, Hebreus 2.5. Observe: injusta, culpa-o pela ofensa (v. 5): Meu agravo seja so­ bre ti, com uma suspeita ciumenta e irracional de que ele Como o anjo a prendeu na sua fuga, v. 7. Aparente­ permitia a insolência de Agar. E, como se não desejasse mente, ela se dirigia à sua própria nação. Pois estava ouvir o que Abrão tinha a dizer, para retificar o engano no caminho de Sur, que fica na direção do Egito. E bom e absolver-se, irrefletidamente apela a Deus, no caso: O que as nossas aflições nos façam pensar na nossa casa, Senhor julgue entre mim e ti. Como se Abrão tivesse se que é o melhor lugar. Mas Agar estava fora do seu lu­ recusado a lhe dar a razão. Assim Sarai, na sua paixão, gar, e fora do caminho do seu dever, e desviando-se cada fala como falaria uma das mulheres tolas. Observe: 1. vez mais, quando o anjo a encontrou. Observe: 1. É uma Há um absurdo do qual as pessoas passionais freqüen­ grande graça ser interceptado em um caminho de peca­ temente são culpadas: de discutir com os outros por algo do, seja pela consciência ou pela Providência. 2. Deus de que elas mesmas são culpadas. Sarai não podia deixar permite que aqueles que saem do caminho vagueiem du­ de reconhecer que ela tinha dado a sua serva a Abrão, e rante algum tempo, para que quando virem a sua tolice, ainda assim grita: Meu agravo seja sobre ti, quando de­ e a confusão em que se meteram, possam estar mais dis­ veria ter dito, Que tola eu fui ao fazer isto! Nunca é dito postos a retornar. Agar não foi interceptada até chegar com prudência aquilo que é composto pelo orgulho e pela do deserto, e assentar-se, bastante cansada, junto a uma raiva. Quando a paixão está no trono, a razão está do lado fonte de água limpa com que poderia se refrescar. Deus de fora, e não é ouvida nem dita. 2. Não estão sempre nos leva para o deserto, e ali nos encontra, Oséias 2.14. certos aqueles que se apressam a apelar a Deus em altos brados. As imprecações impensadas e ousadas normal­ Como ele a examinou, v. 8. Observe: mente são evidências de culpa e de maus motivos. 1. Ele a chamou de Agar, serva de Sarai: (1) Com uma repreensão pelo seu orgulho. Embora fosse esposa Agar fica aflita e foge da casa, v. 6. Observe: de Abrão, e, como tal, estivesse obrigada a retornar, ainda 1. A mansidão de Abrão entrega a questão assimdaele a chama de serva de Sarai, para humilhá-la. Ob­ serva a Sarai, cuja ocupação apropriada seria governar serve que embora a educação nos ensine a tratar os outros esta parte da família: Eis que tua serva está na tua mão. pelos seus títulos mais elevados, ainda assim a humildade Embora ela fosse sua esposa, ele não poderia tolerá-la, e a sabedoria ensinam que devemos nos chamar pelos nos­ nem protegê-la, em nada que fosse desrespeitoso a Sa­ sos nomes ou títulos mais humildes. (2) Como uma repre­ rai, por quem ele ainda tinha o mesmo afeto que sempre ensão pela sua fuga. A serva de Sarai deveria estar na ten­ teve. Observe que aqueles que desejam manter a paz e da de Sarai, e não perambulando pelo deserto e passeando o amor devem dar respostas suaves até mesmo às acu­ ao lado de uma fonte de água. Observe que é bom que nós sações mais duras. Maridos e esposas, particularmente, freqüentemente tenhamos em mente qual é o nosso lugar devem estar de acordo, empenhando-se para não se zan­ e o nosso relacionamento. Veja Eclesiastes 10.4. garem mutuamente. Ceder é uma atitude que pacifica 2. As perguntas que o anjo fez a Agar foram muito grandes ofensas. Veja Provérbios 15.1.2. A paixão de Sa­ adequadas e muito pertinentes. (1) De onde vens? Con­ rai se vinga em Agar: Sarai lidou duramente com ela, não sidere que você está fugindo, tanto do dever ao qual está somente confinando-a ao seu lugar e trabalho comum de obrigada, quanto dos privilégios com os quais foi abenço­ serva, mas provavelmente fazendo-a servi-la com rigor. ada na tenda de Abrão. Observe que é uma grande van­ Note que Deus observa e sente um profundo desagrado tagem viver em uma família religiosa, e isto devem levar n I w. 10-14 GÊNESIS 16 96 em consideração aqueles que têm esta vantagem. Mas, que o Senhor ouviu a sua aflição. Ele ouviu, e, portanto, ainda assim, a cada leve estímulo, parece que estão pron­ também ouvirá em outros momentos de necessidade. tos a se esquecer disto. (2) Para onde vais? Agar está Observe que a experiência que temos da bondade opor­ correndo para o pecado, no Egito (se ela voltar àquele tuna de Deus para nós, na nossa aflição, deve nos in­ povo, estará voltando aos seus deuses), e ao perigo, no centivar a esperar um auxílio semelhante em situações deserto, pelo qual ela deveria viajar, Deuteronômio 8.15. similares, Salmos 10.17. Ele ouviu a tua aflição, v. 11. Note que aqueles que estão abandonando a Deus e ao Observe que mesmo onde há pouco clamor e devoção, o seu dever fariam bem em se lembrar não somente de Deus piedoso às vezes ouve graciosamente o clamor dos onde caíram, mas da direção à qual estão caindo. Veja aflitos. As lágrimas falam tão bem quanto as orações. Jeremias 2.18: Que te importa a ti (como a Agar) o cami­ Isto traz consolo aos aflitos, o fato de que Deus não so­ nho do Egito? João 6.68. mente vê quais são as suas aflições, mas ouve o que eles 3. A resposta dela foi honesta, e uma confissão jus­ dizem. Observe, além disto, que os auxílios oportunos, ta: Venho fugida da face de Sarai, minha senhora. Nesta em um dia de aflição, devem ser sempre lembrados com resposta: (1) Ela reconhece o seu erro em fugir da sua se­ gratidão a Deus. Em tal ocasião, em tal dificuldade, o nhora, mas: (2) Tenta desculpar este erro, porque fugiu da Senhor ouviu a voz da minha aflição, e me ajudou. Veja face, do desprazer, da sua senhora. Observe que os filhos Deuteronômio 26.7; Salmos 31.22. 3. Ele promete a ela e servos devem ser tratados com brandura e gentileza, uma descendência numerosa (v. 10): Multiplicarei so­ para que não os levemos a tomar algum caminho ilícito, bremaneira a tua semente - multiplicarei, do hebraico tornando-nos, desta maneira, cúmplices dos seus pecados, - isto é, multiplicarei em todas as gerações, de modo a o que nos condenará, embora não os justifique. perpetuá-la. Supõe-se que os turcos da atualidade des­ 4. Como o anjo a enviou de volta, com um conselho cendam de Ismael. E eles são, de fato, um povo bastan­ adequado e misericordioso: Torna-te para tua senhora te numeroso. Isto foi uma continuação da promessa fei­ e humilha-te debaixo de suas mãos, v. 9. Vá para casa, e ta a Abrão: farei a tua semente como o pó da terra, cap. humilhe-se por aquilo que você fez de errado, e peça per­ 13.16. Observe que muitos que são filhos de pais fiéis dão, e decida-se, para o futuro, a comportar-se melhor. ao Senhor têm, por causa destes, uma grande cota de Ele não deixa dúvidas de que ela seria bem vinda, embora bênçãos externas comuns, embora, como Ismael, não não pareça que Abrão a tivesse procurado. Observe que sejam levados a um concerto: muitos são multiplicados aqueles que deixaram o seu lugar e o seu dever, quando sem ser santificados. 4. Ele indica uma característica são convencidos do seu erro, devem apressar a sua volta do filho que ela iria ter, que, ainda que possa nos pare­ e correção, por mais mortificante que isto possa ser. cer desagradável, talvez não fosse desagradável a ela (v. 12): Ele será um homem bravo. Um homem como um jumento selvagem (este é o significado da palavra), A Promessa a respeito de Ismael rude, e valente, e não temente aos homens - indomável, w. 10-14 intratável, sem limites, e impaciente com o serviço e as restrições. Observe que os filhos da escrava, que estão Podemos supor que depois que o anjo deu a Agar fora do concerto com Deus, são, quando nascem, como este bom conselho (v. 9), de voltar à sua senhora, ela ime­ o jumentinho selvagem; é a graça que reivindica os ho­ diatamente prometeu fazê-lo, e colocou-se no caminho de mens, educa-os e torna-os prudentes e bons para algu­ casa. E então o anjo prosseguiu incentivando-a, com uma ma coisa. Está predito: (1) Que ele viverá lutando, e em garantia daquilo que o Deus misericordioso tinha reser­ estado de guerra: A sua mão será contra todos - este é vado para ela e para a sua semente: pois Deus encontra­ o seu pecado. E a mão de todos será contra ele - esta rá com misericórdia aqueles que estiverem retornando é a sua punição. Observe que aqueles que têm espíri­ ao seu dever. Dizia eu: Confessarei, e Tu perdoaste, Sal­ tos turbulentos normalmente têm vidas problemáticas. mos 32.5. Aqui temos: Aqueles que são provocadores, irritantes e ofensivos a outros, devem esperar ser recompensados com a mes­ Uma predição a respeito dos seus descendentes, ma moeda. Aquele que tem a sua mão e a sua língua que lhe é dada para consolá-la na sua aflição atual. contra todos os homens terá a mão e a língua de todos A sua condição é percebida: Eis que concebeste. E por os homens contra si, e não terá razão de se queixar dis­ isto a sua presença não é adequada neste lugar. Obser­ to. E, ainda assim: (2) Que ele viverá em segurança, e ve que é um grande consolo para as mulheres grávi­ manterá os seus contra todo o mundo: habitará diante das pensarem que estão sob o conhecimento e cuidado da face de todos os seus irmãos. Embora seja ameaça­ particular da Providência divina. Deus graciosamente do e insultado por todos os seus vizinhos, ainda assim leva em consideração o seu caso, e lhe proporciona a ele conservará o seu terreno, e por causa de Abrão, ajuda necessária. Bem: 1. O anjo lhe garante que terá mais do que por sua própria causa, será capaz de viver um parto seguro, e que será um menino, que era o que bem com eles. De maneira similar, lemos (cap. 25.18) Abrão desejava. Esta fuga poderia ter destruído a es­ que ele morreu, como viveu, na presença de todos os perança dela de um descendente. Mas Deus não lidou seus irmãos. Observe que muitos que são bastante ex­ com ela segundo a sua tolice. Terás um filho. Ela foi postos pela sua própria imprudência ainda assim são salva na gravidez, não somente pela providência, mas estranhamente preservados pela divina Providência, pela promessa. 2. Ele dá o nome ao filho dela, o que era pois Deus é muito melhor para eles do que merecem, uma honra, tanto para ela quanto para ele: chamarás quando não somente perdem a vida pelo pecado, mas a o seu nome Ismael - Deus ouve. E a razão para isto é arriscam por causa deste. I 97 GÊNESIS 17 w. 15,16 A reflexão piedosa de Agar sobre esta graciosa com a minha pessoa”, pois Deus freqüentemente nos an­ aparição de Deus a ela, w. 13,14. Observe, nas tecipa os seus favores, e é achado por aqueles que não o suas palavras: buscavam, Isaías 65.1. 1. A sua respeitosa adoração à onisciência e providên­ cia de Deus, aplicando-as a si mesma: ela invocou o nome O nome que assim foi dado a este lugar: Beerdo Senhor que com ela falava, isto é, desta maneira ela Laa i-Roi (versão RA), O poço daquele que vive fez uma confissão do seu glorioso nome. Isto ela disse em e me vê (versão NTLH), v 14. E provável que Agar te­ seu louvor: Tu és o Deus que me vê. Este seria, na vida nha dado este nome ao lugar. E ele foi conservado por dela, o nome do Deus maravilhoso para sempre. E este muito tempo, in perpetuam rei memoriam - como um seria o seu memorial, pelo qual ela o conheceria e dele se memorial perpétuo deste evento. Este foi um lugar onde lembraria enquanto vivesse: o Deus que me vê. Observe: o Deus da glória manifestou o seu conhecimento espe­ (1) O Deus com quem nos relacionamos é o Deus que vê, cial, e cuidou de uma pobre mulher em aflição. Observe: e o Deus que vê tudo. Os antigos o expressam da seguin­ 1. Aquele que vê tudo e todos, sempre esteve vivo, e vi­ te forma: “Deus é só olhos”. (2) Nós devemos reconhecer verá para sempre. Ele vive e nos vê. 2. Aqueles que são isto e aplicá-lo a nós mesmos. Aquele que tudo vê, me graciosamente aceitos à comunhão com Deus, e recebem vê (SI 139.1), Senhor, Tu me sondaste e me conheces. (3) consolos oportunos dele, devem contar aos outros o que Uma consideração a Deus repleta de fé, como ao Deus Ele fez pelas suas almas, para que os outros também que nos vê, será muito útil para nós quando nos dirigir­ possam ser incentivados a buscá-lo e a confiar nele. 3. mos a Ele. Há uma palavra bastante adequada para um Devemos nos lembrar eternamente das graciosas mani­ penitente: [1] “Tu vês o meu pecado e a minha tolice”. festações de Deus a nós. Jamais devemos esquecê-las. Eu pequei perante ti, diz o filho pródigo. Diante dos teus olhos, diz Davi. [2] “Tu vês a minha tristeza e aflição”. A isto Agar se refere, especialmente. Mesmo quando so­ O Nascimento de Ismael mos levados à aflição pela nossa própria tolice, Deus não w. 15,16 nos abandona. [3] “Tu vês a sinceridade e a seriedade do meu retorno e do meu arrependimento. Tu vês os meus Aqui se supõe, embora não esteja expressamente lamentos secretos pelo pecado, e os meus movimentos registrado, que Agar fez o que o anjo lhe ordenou, retor­ secretos em direção à tua presença”. [4] “Tu me vês, nando à sua senhora e submetendo-se: e então, na ple­ se eu, em qualquer instante, me afastar de ti”, Salmos nitude do tempo, ela deu à luz o seu filho. Observe que 44.20,21. Este pensamento deve sempre nos afastar do aqueles que obedecem os preceitos divinos terão os con­ pecado, e nos entusiasmar em relação ao dever. Tu, ó solos das promessas divinas. Este era o filho da escrava, Deus, me vês. que nasceu segundo a carne (G14.23), representando os 2. A humilde admiração de Agar pelo favor que Deus judeus incrédulos, Gálatas 4.25. Observe: 1. Há muitos lhe concedeu: “Não olhei eu também para aquele que me que, apesar de chamarem Abraão de pai, são nascidos vê?” Aqui eu vi pelas costas aquele que me vê - assim segundo a carne, Mateus 3.9. 2. A semente carnal, na pode ser interpretado, pois a palavra é muito parecida igreja, nasce antes da espiritual. É mais fácil persuadir com a de Êxodo 33.23. Ela não o viu face a face, mas os homens a assumir uma aparência de santidade, do que como por espelho, 1 Coríntios 13.12. Agar provavelmen­ persuadi-los a se sujeitar ao poder da santidade. te não soube quem estava falando com ela, até que Ele estivesse partindo (como em Jz 6.21,22; 13.21), e então o procurou, com uma reflexão semelhante à dos dois discí­ C a p í t u l o 17 pulos, Lucas 24.31,32. Ou: Não vi aqui aquele que me vê? Observe: (1) A comunhão que as almas santas têm com Deus consiste em que o contemplem com fé, como um Este capítulo contém artigos do concerto cele­ Deus que as contempla com favor. Este relacionamen­ brado e concluído entre o grande Jeová, o Pai das misericórdias, por um lado, e o piedoso Abrão, o to é mantido através do olhar. (2) O privilégio da nossa pai dos fiéis, por outro. Abrão é, portanto, chama­ comunhão com Deus deve ser considerado como algo do de “amigo de Deus”, não somente porque foi o prodigioso e digno de admiração: [1] Ao considerarmos quem somos, e que, mesmo assim, fomos aceitos para homem do seu conselho, mas porque foi o homem este favor. “Eu? Eu que sou tão mesquinho, eu que sou do seu concerto. Estes dois segredos estavam com tão vil”?, 2 Samuel 7.18. [2] Ao considerarmos o lugar ele. Foi feita menção a este concerto (cap. 15.18), em que somos assim favorecidos - aqui também? Não mas aqui ele é particularmente redigido e colocado somente na tenda de Abrão, e no seu altar, mas também sob a forma de um concerto, para que Abrão pu­ aqui, neste deserto? Aqui, onde eu não esperava por isto, desse ter uma firme consolação. Aqui estão: I. As onde eu estava fora do caminho do meu dever? Senhor, circunstâncias em que se celebrou este concerto, a como pode ser?, João 14.22. Alguns entendem a respos­ ocasião e a forma (v. 1), e a posição em que estava ta a esta pergunta como uma negativa, interpretando-a, Abrão, v. 3. II. O concerto propriamente dito. No seu escopo geral, v. 1. E, posteriormente, nos seus deste modo, como uma reflexão penitente: “Não olhei eu também para Deus - mesmo na minha aflição e no meu detalhes particulares. 1. Que ele seria o pai de uma multidão de nações (w. 4,6) e, como símbolo disto, sofrimento? Não, mas eu fui, como sempre, descuidada e despreocupada em relação a Ele. Porém ainda assim seu nome foi alterado, v. 5.2. Que Deus seria Deus Ele me visitou e demonstrou tamanha consideração para para ele e para a sua semente, e lhes daria a terra n w. 1-3 GÉNESIS 17 98 de Canaá, w. 7,8. E o selo desta parte do concerto muito reverentes quando se dirigem a Ele. Se dissermos foi a circuncisão, w. 9-14. 3. Que ele teria um filho que temos comunhão com Ele, e esta familiaridade gerar com Sarai, e, como símbolo disto, o nome dela foi algum tipo de desprezo, significa que nós nos enganamos. alterado, w. 15,16. Esta promessa Abrão recebeu, (3) Aqueles que desejam recebei' o consolo de Deus devem v. 17. E o seu pedido sobre Ismael (v. 18) foi aten­ se preparar para dar glória a Deus, e para adorar ante o dido, para sua abundante satisfação, w. 19-22. III. escabelo dos seus pés. A circuncisão de Abrão e de sua família, de acordo com a recomendação de Deus, v. 23ss. O escopo geral e o resumo do concerto apresen­ tado, como a fundação sobre a qual tudo mais foi edificado. Este não é outro, senão o concerto da graça, feito O Concerto com Abraão É Renovado com todos os crentes, em Jesus Cristo, v. 1. Observe aqui: w. 1-3 1. O que podemos esperar descobrir a respeito de Deus: Eu sou o Deus Todo-Poderoso. Com este nome Ele Aqui temos: decidiu se dar a conhecer a Abrão, e não pelo seu nome ■Jeová, Êxodo 6,3. O precioso Senhor usou este nome com A ocasião em que Deus fez esta graciosa visita a Abrão: Jacó, cap. 28.3; 43.13; 48.3. Este é o nome de Deus que é Quando ele tinha noventa e nove anos, treze anos mais usado ao longo do livro de Jó, pelo menos nos dis­ completados depois do nascimento de Ismael. 1. Durantecursos daquele livro. Depois de Moisés, Jeová é mais fre­ este tempo, aparentemente, as aparições extraordinárias qüentemente usado, e este, El-shaddai, mais raramente. de Deus a Abrão tinham estado interrompidas. E toda a Ele expressa o poder supremo de Deus, seja: (1) Como um comunhão que ele tinha com Deus era somente na forma vingador, de sdh, ele devastou, segundo alguns. E pensam comum de ordenanças e providências. Observe que exis­ que Deus adotou este nome devido à destruição do mundo tem alguns consolos especiais, que não são o pão cotidiano, antigo. Este pensamento é incentivado por Isaías 13.6 e não, nem dos melhores santos, mas eles são favorecidos Joel 1.15. Ou: (2) Como um benfeitor, s, de asr, quem, e com eles, de vez em quando. Deste lado do céu nós temos dij, suficiente. Ele é um Deus que é suficiente. Ou, como o alimento conveniente, mas não um banquete contínuo. 2. as nossas traduções inglesas trazem, de maneira muito Durante este tempo, a promessa de Isaque foi adiada. (1) significativa, Eu sou o Deus auto-suficiente. Observe que Talvez para corrigir o precipitado casamento de Abrão com o Deus com quem nós nos relacionamos é auto-suficiente. Agar. Observe que os consolos que nós antecipamos de for­ [1]Ele é suficiente em si mesmo. Ele é auto-suficiente. ma pecaminosa são, com razão, adiados. (2) Para que, sendo Ele tem tudo, e não precisa de nada. [2] Ele é suficiente Abrão e Sarai tão avançados em idade, o poder de Deus, para nós, se estivermos em concerto com Ele: nós temos neste assunto, pudesse ser mais enaltecido, e a sua fé, ain­ tudo nele, e temos o suficiente nele, o suficiente para satis­ da mais testada. Veja Deuteronômio 32.36; João 11.6,15. (3) fazer os nossos maiores desejos, o suficiente para suprir a Para que um filho esperado por tanto tempo pudesse ser falta de todo o resto, e para nos garantir a felicidade para um Isaque, um filho realmente, Isaías 54.1. as nossas almas imortais. Veja Salmos 16.5,6; 73.25. 2. O que Deus exige que sejamos para Ele. O concer­ A maneira como Deus fez este concerto com ele: to é mútuo: anda em minha presença e sê perfeito, isto Apareceu o Senhor a Abrão, na Shekinah, alguma é, justo e sincero. Pois aqui o concerto da graça ordena demonstração visível da presença gloriosa de Deus com que a sinceridade seja a nossa perfeição no Evangelho. ele. Observe que Deus primeiro se dá a conhecer a nós, Observe: (1) Que ser religioso é andar na presença de e nos dá um sinal de sua parte, pela fé, e então nos aceita Deus, na nossa integridade; é colocar Deus diante de nós, no seu concerto. e pensar, e falar, e agir, em todas as coisas, como alguém que está sempre sob os seus olhos. É ter uma conside­ A posição em que Abrão se colocou, nesta oca­ ração constante pela sua Palavra como nossa regra, e à sião: Ele se prostrou sobre o seu rosto enquanto sua glória como nosso objetivo em todas as nossas ações, Deus falava com ele, v. 3.1. Como alguém dominado pelo e estar constantemente tementes a Ele. É ser íntimo dele, esplendor da glória divina, e incapaz de suportar a visão em todos os deveres da adoração religiosa, pois, neles, em dela, embora a tivesse visto diversas vezes antes. Daniel e particular, nós andamos diante de Deus (1 Sm 2.30). É nos João fizeram a mesma coisa, embora também estivessem dedicarmos inteiramente a Ele, em uma santa convivên­ familiarizados com as visões do Todo-Poderoso, Daniel cia. Eu não conheço uma outra religião, exceto a sinceri­ 8.17; 10.9,15; Apocalipse 1.17. Ou: 2. Como alguém enver­ dade. (2) Que andar de uma forma perfeita com Deus é gonhado quanto a si mesmo, e ruborizado ao pensar nas a condição do nosso interesse na sua auto-suficiência. Se honras feitas a alguém tão indigno. Ele se considera com nós o negligenciarmos, ou ignorarmos, perderemos o be­ humildade, e a Deus, com reverência. E, como sinal de nefício e o consolo do nosso relacionamento com Ele. (3) ambas as coisas, se prostra sobre o seu rosto, colocando- Que uma contínua consideração à suficiência de Deus terá se em uma posição de adoração. Observe: (1) Deus gracio­ uma grande influência em nossa caminhada com Ele. samente condescende em conversar com aqueles que Ele aceita no concerto e na comunhão consigo. Ele fala com eles, por meio da sua Palavra, Provérbios 6.22. Ele fala w. 4-6 com eles por meio do seu Espírito, João 14.26. Esta honra terão todos os seus santos. (2) Aqueles que são aceitos na A promessa aqui é apresentada com solenidade: comunhão com Deus são, e devem ser, muito humildes e “Quanto a mim”, diz o grande Deus, “eis o meu concer­ I n 99 GÊNESIS 17 w. 7-14 to contigo, contemple-o e admire-o, contemple-o e tenha concerto, não somente com Abraão (pois então morreria certeza dele”. Como antes (v. 2), Porei o meu concerto. com ele), mas com a sua semente, depois dele, não ape­ Observe que o concerto da graça é um concerto cria­ nas com a sua semente segundo a carne, mas com a sua do pelo próprio Deus. Nisto Ele se glorifica (“quanto a semente espiritual. 3. É perpétuo, no sentido evangélico. mim”), e nós também podemos nos gloriar nele. Aqui: O concerto da graça é eterno. É desde a eternidade, nos seus conselhos, e até a eternidade, nos seus resultados e E prometido a Abraão que ele será o pai de uma nas suas conseqüências. E a sua administração externa é multidão de nações. Isto é: 1. Que a sua semente, transmitida com o seu selo à semente dos crentes, e a sua segundo a carne, seria muito numerosa, tanto através administração interna é desempenhada pela semente do de Isaque quanto através de Ismael, assim como através Espírito de Cristo, em todas as gerações. dos filhos de Quetura: alguma coisa extraordinária, sem dúvida, está incluída nesta promessa, e podemos supor O conteúdo do concerto: é um concerto de pro­ que o evento correspondeu a ela, e que houve, e há, mais messas, extremamente grandes e preciosas. Aqui filhos dos homens descendentes de Abraão do que de estão duas delas, que realmente são suficientes: 1. Qu qualquer outro homem igualmente distante, como ele, de Deus será o seu Deus, w. 7,8. Todos os privilégios d Noé, que foi a raiz de todos. 2. Que todos os crentes, em conceito, todas as suas alegrias e todas as suas esp todas as épocas, seriam considerados como sua semente ranças, estão resumidas nisto. Um homem não precisa espiritual, e que ele seria chamado, não somente de ami­ desejar nada mais do que isto, para ser feliz. Aquilo que go de Deus, mas de pai dos crentes fiéis. Neste sentido, Deus é, em si mesmo, Ele o será para o seu povo: a sua o apóstolo nos orienta a compreender esta promessa, sabedoria será deles, para guiá-los e aconselhá-los. Seu Romanos 4.16,17. Ele é o pai daqueles que, em todas as poder será deles, para protegê-los e sustentá-los. A sua nações, pela fé entram em concerto com Deus, e (como o generosidade será deles para abastecê-los e consolá-los. expressam os autores judeus) são reunidos debaixo das Aquilo que os adoradores fiéis podem esperar do Deus asas da Majestade divina. ao qual servem, os crentes podem encontrar em Deus, como seu. Isto é suficiente, mas não é tudo. 2. Que Canaã Como símbolo disto, seu nome foi mudado, de será a sua possessão eterna, v. 8. Anteriormente, Deus Abrão, pai exaltado, a Abraão, pai de uma mul­ tinha prometido esta terra a Abraão e à sua semente, tidão. Isto foi feito: 1. Para honrá-lo. Está escrito que cap. 15.18. Mas aqui, onde ela é prometida como uma é a glória da igreja que ela seja chamada por um novo possessão eterna, certamente isto deve ser considerado nome, que a boca do Senhor nomeará, Isaías 62.2. Prín­ como um tipo da felicidade do céu, aquele repouso eterno cipes dignificam os seus favoritos concedendo-lhes no­ que resta para o povo de Deus, Hebreus 4.9. Esta é aque­ vos títulos. Desta maneira foi Abraão dignificado por la terra melhor que Abraão visava, e cuja concessão é o aquele que é, na verdade, a fonte de toda a honra. Todos que corresponde à vasta abrangência daquela promessa, os crentes têm um novo nome, Apocalipse 2.17. Alguns que Deus seria o Deus deles. De modo que, se Deus não pensam que a honra do novo nome de Abraão foi maior tivesse preparado e planejado isto, Ele se envergonha­ porque uma letra do nome Jeová foi nele inserida. Ob­ ria de ser chamado de seu Deus, Hebreus 11.16. Assim serve como foi uma desgraça para Jeconias ter cortada como a terra de Canaã estava garantida à semente de a primeira sílaba do seu nome, porque era a mesma que Abraão, segundo a carne, também o céu está garantido a a primeira sílaba do nome sagrado, Jeremias 22.28. Os toda a sua semente espiritual, por meio de um concerto, crentes tomam o nome de Cristo, Efésios 3.15. 2. Para e como uma possessão que é verdadeiramente eterna. A encorajar e confirmar a fé de Abraão. Enquanto ele não oferta desta vida eterna é feita na Palavra, e confirmada tinha filhos, talvez até mesmo o seu próprio nome fosse, pelos sacramentos a todos aqueles que estão sob a admi­ às vezes, motivo de tristeza para ele: por que seria ele nistração externa do concerto. E o seu penhor é dado a chamado de pai exaltado, se não era pai? Mas agora que todos os crentes, Efésios 1.14. Aqui está escrito que Ca­ Deus lhe tinha prometido uma prole numerosa, e tinha naã seria a terra onde Abraão seria estrangeiro, e onde lhe dado um nome que significava tanto, este nome era a peregrinaria. E a Canaã celestial é uma terra em direção sua alegria. Observe que o Deus precioso chama as coi­ à qual todos nós peregrinamos, pois ainda não podemos sas que não são como se já fossem; é o que o apóstolo enxergar o que seremos. observa, sobre este mesmo assunto, Romanos 4.17. Ele chamou Abraão de pai de uma multidão porque com toda O símbolo do concerto, que é a circuncisão, mo­ a certeza o seria, no devido tempo, embora ainda tivesse tivo pelo qual o próprio concerto é chamado de somente um filho. concerto da circuncisão, Atos 7.8. Aqui está escrito que é o concerto que Abraão e a sua semente devem guar­ dar, como uma cópia ou reprodução, w. 9,10. É chamado w. 7-14 de sinal e selo (Rm 4.11), pois era: 1. Uma confirmação a Abraão e à sua semente, das promessas que eram a Aqui temos: parte de Deus do concerto, garantindo-lhes que elas se­ riam cumpridas, que no devido tempo Canaã seria de­ A continuação do concerto, indicada em três aspectos: les: e a continuação desta ordenança, depois que Canaã 1. Ele está estabelecido. Não deve ser alterado nemfosse deles, indica que estas promessas se referem a revogado. Ele é fixo, ratificado, tão firme quanto o poder uma outra Canaã, à qual eles ainda devem esperar. Veja e a verdade divinos podem fazê-lo. 2. Ele é extensivo; é um Hebreus 4.8. 2. O comprometimento de Abraão e da sua I n n I GÊNESIS 17 w. 15-22 semente, àquele dever que era a sua parte do concerto. Não somente do dever de aceitar o concerto e consentir nele, e deixar de lado a corrupção da carne (o que de maneira mais imediata e primária foi representado pela circuncisão), mas, de maneira geral, à observância de to­ dos os mandamentos de Deus, conforme fossem, algum tempo depois, indicados e dados a conhecer a eles. Pois a circuncisão obrigou os homens a guardar toda a lei, Gaia­ tas 5.3. Aqueles que desejam que Deus seja o seu Deus, devem consentir e se decidir a ser o seu povo. Agora: (1) A circuncisão era uma ordenança de sangue. Pois todas as coisas, segundo a lei, se purificam com sangue, He­ breus 9.22. Veja Êxodo 24.8. Mas, quando foi derramado o sangue de Cristo, todas as ordenanças de sangue foram abolidas. A circuncisão, portanto, deu lugar ao batismo. (2) Ela era peculiar aos varões, embora as mulheres tam­ bém estivessem incluídas no concerto, pois o homem é a cabeça da mulher. No nosso reino, o juramento de leal­ dade é exigido somente aos homens. Alguns pensam que o sangue dos varões era derramado na circuncisão por causa do respeito que nela havia a Jesus Cristo, e ao seu sangue. (3) Era a carne do prepúcio que deveria ser corta­ da, porque é por geração comum que o pecado se propaga. Aqui estava sendo levada em conta a semente prometida, que viria dos lombos de Abraão. Como Cristo ainda não tinha se oferecido por nós, o Senhor Deus Pai desejava que o homem entrasse no concerto oferecendo uma parte do seu próprio corpo, e nenhuma outra parte poderia ser mais bem oferecida. Esta é uma parte íntima do corpo. Pois a verdadeira circuncisão é a do coração: esta honra Deus conferiu a uma parte menos honrosa do corpo, 1 Coríntios 12.23,24. (4) A ordenança deveria ser realizada com os filhos quando tivessem oito dias de idade, e não antes disto, para que pudessem ter alguma força, sendo capazes de suportar a dor, e que houvesse pelo menos um sábado nestes oito dias. (5) Os filhos dos estrangeiros, cujo verda­ deiro proprietário era o senhor da família, deveriam ser circuncidados (w. 12,13), o que já era uma consideração favorável aos gentios, que seriam, no devido tempo, tra­ zidos à família de Abraão, pela fé. Veja Gálatas -3.14. (6) A observância religiosa desta instituição era exigida sob uma penalidade muito severa, v. 14. O desprezo à circunci­ são era um desprezo ao concerto. Se os pais não circunci­ dassem os seus filhos, isto seria um risco para eles, como no caso de Moisés, Êxodo 4.24,25. Com respeito àqueles que não fossem circuncidados na sua infância, se, depois de crescidos, não se submetessem a esta ordenança, Deus certamente acertaria as contas com eles. Se não cortas­ sem a carne do seu prepúcio, Deus os cortaria do seu povo. É perigoso não dar a devida importância às instituições divinas, e viver negligenciando-as. w. 15-22 Aqui temos: T A promessa feita a Abraão, de um filho gerado por 1 Sarai, aquele filho em quem se cumpriria a promessa que lhe foi feita, de que ele seria o pai de uma multidão de nações. Pois ela também seria a mãe das nações, e reis de povos sairiam dela, v. 16. Observe: 1. Deus reve­ 100 la gradualmente os objetivos da sua boa vontade para com o seu povo. Deus tinha dito a Abraão, muito tempo antes, que ele teria um filho, mas nunca, até agora, que ele teria um filho com Sarai. 2. A benção do Senhor dá fertilidade, e não traz consigo nenhuma tristeza, nenhu­ ma tristeza como houve no caso de Agar. Eu a hei de abençoar - com a fertilidade - e te hei de dar a ti dela um filho. 3. O governo civil e a ordem são uma grande benção para a igreja. Está prometido, não somente que aquele povo, mas que reis de povos, nasceriam dela. Não uma multidão sem líderes, mas uma sociedade bem modelada e bem governada. n A ratificação desta promessa foi a mudança do nome, de Sarai para Sara (v. 15), sendo acrescen­ tada ao seu nome a mesma letra que tinha sido acres centada ao de Abraão, e pelas mesmas razões. Sara significa minha princesa, como se a sua honra estives se limitada a somente uma família. Sara significa uma princesa - a saber, de multidões. Isto também poderia estar indicando que dela viria o Messias, o Príncipe, o Príncipe dos reis da terra. n T A recepção alegre e agradecida de Abraão desX ta graciosa promessa, v. 17. Nesta ocasião, ele expressou: 1. Grande humildade: ele se prostrou sob o seu rosto. Observe que quanto mais honras e favor Deus nos conceder, mais humildes nós devemos ser a seus olhos, e mais reverentes e submissos diante dele. 2. Grande alegria: Ele riu. Foi um riso de deleite, e não de desconfiança. Observe que até mesmo as promessas do Deus santo, assim como o cumprimento delas, são as alegrias das almas santas. Existe a alegria da fé, assim como a alegria do usufruto das bênçãos concedidas. Ago­ ra Abraão exultou por ver o dia de Cristo. Agora ele viu-o e alegrou-se (Jo 8.56). Pois, da mesma maneira como ele enxergou o céu na promessa de Canaã, também enxer­ gou Cristo na promessa de Isaque. 3. Grande admiração: A um homem de cem anos há de nascer um filho? Abraão não se refere a isto como algo duvidoso, de maneira ne­ nhuma (pois temos a certeza de que ele não duvidou da promessa, Romanos 4.20), mas como algo muito maravi­ lhoso, que não poderia acontecer, exceto pelo poder do Deus Todo-Poderoso, e como algo muito bondoso, e um favor que era ainda mais comovedor e gentil por ser ex­ tremamente surpreendente, Salmos 126.1,2. A oração de Abraão por Ismael: Tomara que viva Ismael diante de teu rosto!, v. 18. Isto ele fala, não desejando que Ismael tivesse a preferência sobre o filho que ele teria com Sarai. Mas, temendo que ele fosse abandonado por Deus, Abraão faz este pedido por ele. Agora que Deus está falando com ele, Abraão julga ter uma boa oportunidade de falar alguma coisa favorável a Ismael. Abraão não deixará escapar uma oportunidade como esta. Observe: 1.Embora nós não devamos tentai’ aconselhar a Deus, ainda assim Ele nos dá permissão, na oração, para sermos humildemente livres com Ele, e, em particular, para lhe apresentai’ as nossas súplicas, Filipenses 4.6. Qualquer que seja o assunto da nossa pre­ ocupação e do nosso medo, ele deve ser exposto diante de Deus, em oração. 2. É dever dos pais orar pelos seus 101 GÊNESIS 18 w. 23-27 filhos, por todos os seus filhos, como Jó, que oferecia ho- diversas limitações e recomendações, e então a conversa locaustos segundo o número de todos eles, Jó 1.5. Abraão chegou ao fim. O bendito Senhor acabou de falar com ele, não desejava pensar que, quando Deus lhe prometeu um e a visão desapareceu. E subiu Deus de Abraão. Obser­ filho gerado por Sarai, que ele tanto desejava, então seu ve que a nossa comunhão com Deus aqui, nesta terra, é filho gerado por Agar estaria esquecido. Não. ele ainda quebrada e interrompida. Porém no céu haverá um ban­ o traz no seu coração, e demonstra uma preocupação por quete contínuo e eterno. ele. A perspectiva de novos favores não deve fazer com que nos esqueçamos dos antigos. 3. A grande bênção que desejamos de Deus para os nossos filhos é que possam A Circuncisão de Abraão e Outros Eventos viver diante dele, isto é, que possam ser mantidos em w. 23-27 uma aliança ou concerto com Ele, e possam ter a graça de andar diante dele em justiça. As bênçãos espirituais Aqui temos a obediência de Abraão à lei da circunci­ são as melhores bênçãos, e aquelas pelas quais devemos são. Ele mesmo, e toda a sua família, foram circuncidados, ser mais fervorosos na presença de Deus, tanto por nós recebendo assim o símbolo do concerto e distinguindo-se mesmos quanto pelos outros. Vivem bem aqueles que vi­ das outras famílias, que não tinham nenhuma participa­ vem diante de Deus. ção neste assunto. 1. Foi uma obediência implícita: Ele fez como Deus lhe tinha dito, e não perguntou por que, A resposta de Deus à sua oração: e esta é uma res­ nem para que. A vontade de Deus não era somente uma posta de paz. Abraão não poderia dizer que tinha lei para ele, mas uma razão. Ele o fez, porque Deus lhe buscado a linda face de Deus em vão. disse para fazer. 2. Foi uma obediência rápida: Naquele 1. As bênçãos comuns estão garantidas a Ismael (v. mesmo dia, w. 23,26. A obediência sincera não é lenta, 20): Quanto a Ismael - com quem tanto te preocupas - Salmos 119.60. Enquanto a ordem ainda está soando aos também te tenho ouvido. Ele encontrará favor, por tua nossos ouvidos, e o senso de dever ainda está fresco, é causa. Eis aqui o tenho abençoado, isto é, tenho muitas bom que nos dediquemos a obedecer imediatamente, para bênçãos reservadas para ele. (1) A sua descendência que não nos enganemos ao adiar a nossa obrigação para será numerosa: fá-lo-ei multiplicar grandissimamente, uma oportunidade aparentemente mais conveniente. 3. mais que a seus vizinhos. Este é o fruto da bênção, como Foi uma obediência universal: Abraão não circuncidou aquele, cap. 1.28. (2) Seus descendentes serão conside­ a sua família e se isentou de fazê-lo, mas deu-lhes um ráveis: doze príncipes gerará. Nós poderíamos genero­ exemplo. Nem tomou somente para si o consolo do selo do samente esperar que bênçãos espirituais também fos­ concerto, mas desejou que todos os seus pudessem com­ sem concedidas a ele, embora a igreja visível não fosse partilhar desta bênção com ele. Este é um bom exemplo gerada dos seus lombos, e o concerto não se abrigasse para os chefes de família. Eles e suas casas devem ser­ na sua família. Observe que grande abundância de boas vil' ao Senhor. Embora o concerto de Deus não fosse es­ coisas exteriores freqüentemente é dada àqueles filhos tabelecido com Ismael, ainda assim ele foi circuncidado. de pais crentes - que nasceram segundo a carne - por Pois os filhos de pais crentes, como tais, têm direito aos causa dos seus pais. privilégios da igreja visível, e aos selos do concerto, não 2. As bênçãos do concerto estão reservadas para importando o que eles venham a ser posteriormente. Is­ Isaque, e designadas a ele, w. 19,21. Se Abraão, na sua mael é abençoado. Portanto, foi circuncidado. 4. Abraão oração por Ismael, quis dizer que ele desejava que o con­ praticou a circuncisão, embora pudesse haver muitas obcerto fosse feito com Ismael, e que a semente prometida jeções a esta. A circuncisão era dolorosa, e, para homens descendesse dele, então Deus não o atendeu literalmen­ adultos, vergonhosa. Humanamente falando, enquanto te, mas de maneira equivalente, ou melhor, da forma que eles estivessem sentindo dores e se encontrassem inca­ era melhor. (1) Deus repete a Abraão a promessa de um pacitados de agir, os seus inimigos poderiam se aproveitar filho gerado por Sara: Na verdade, Sara, tua mulher, te desta vantagem contra eles, como Simeão e Levi fizeram dará um filho. Observe que até mesmo os crentes fiéis contra os de Siquém. Porém era o Senhor que os guardava precisam ter as promessas de Deus repetidas para si enquanto o obedeciam. Embora Abraão tivesse noventa e mesmos, para que possam ter uma forte consolação, He­ nove anos, e já tivesse sido justificado e aceito por Deus breus 6.18. Uma vez mais podemos ver que os filhos da há muito tempo, e uma prática tão estranha, realizada de promessa são, realmente, filhos. (2) O Senhor dá o nome forma religiosa, pudesse ser convertida em críticas pelos a este filho - chamarás o seu nome Isaque - que significa cananeus e ferezeus que residiam então na terra, ainda riso, porque Abraão alegrou-se em espírito quando este assim o mandamento de Deus foi suficiente para respon­ filho lhe foi prometido. Observe que se as promessas de der a estas e a milhares de outras objeções como estas. Deus forem a nossa alegria, as Suas graças prometias Nós devemos fazer sempre aquilo que Deus exigir, sem serão, no devido tempo, as nossas maiores alegrias. Cris­ consultai’ a carne e o sangue. to será o riso daqueles que o buscam. Aqueles que ago­ ra exultam em esperança, em breve exultarão ao terem aquilo que esperavam: um riso que não é de loucura. (3) C a p ít u l o 18 O Senhor estende o concerto àquele filho: com ele esta­ belecerei o meu concerto. Observe que o precioso Deus aceita quem Ele quiser, ao concerto com Ele, de acordo Neste capítulo, temos o relato de outra conversa com o prazer da sua vontade. Veja Romanos 9.8,18. As­ entre Deus e Abraão, provavelmente alguns dias sim o concerto foi feito entre Deus e Abraão, com as suas depois da anterior, como recompensa da sua ale- V GÊNESIS 18 102 os homens. A cortesia decorosa é um grande ornamento gre obediência à lei da circuncisão. Aqui temos: I. à piedade. 2. Abraão foi muito fervoroso, insistindo em A gentil visita que Deus faz a Abraão, e a gentil acolhê-los, e encarou a estada deles com ele como um acolhida de Abraão àquela visita, w. 1-8. II. Os grande favor, w. 3,4. Observe que: (1) É conveniente que assuntos que foram discutidos. 1. Os objetivos do aqueles a quem Deus abençoou com abundância sejam amor de Deus, a respeito de Sara, w. 9-15. 2. Os liberais e abertos nas suas acolhidas, de acordo com a objetivos da ira de Deus contra Sodoma. (1) A re­ sua capacidade, e (não por obrigação, mas cordialmente) velação que Deus fez a Abraão, da sua intenção de devem receber bem a seus amigos. Nós devemos sentir destruir Sodoma, w. 16-22. (2) A intercessão que prazer ao mostrar gentileza a qualquer pessoa. Pois tan­ Abraão fez por Sodoma, v. 23ss. to Deus como os homens amam a quem dá alegremente. Quem comerá “o pão daquele que tem os olhos malig­ nos”? Provérbios 23.6,7. (2) Aqueles que desejam ter O Encontro de Abraão com os Anjos comunhão com Deus devem desejá-la fervorosamente, e w. 1-8 orar para que a tenham. Deus é um convidado digno de A aparição de Deus a Abraão parece ter tido mais fa­ ser recebido. 3. A sua acolhida, embora fosse muito aber­ miliaridade e liberdade, e menos grandeza e majestade, ta, ainda assim foi simples e humilde, e não houve nela do que aquelas sobre as quais vínhamos lendo até aqui. nada do esplendor e elegância dos nossos tempos. A sua E portanto mais se parece com aquela grande visita que, sala de jantai' estava debaixo de uma árvore. Sem uma na plenitude dos tempos, o Filho de Deus iria fazer ao rica toalha de linho, nem um aparador com pratos. A re­ mundo, quando o Verbo iria fazer-se carne, e se manifes­ feição era composta de uma ou duas coxas de vitela, e al­ guns bolos assados na lareira, e rapidamente enfeitados. tar como um de nós. Observe aqui: Não havia guloseimas, nem variedades, nem recheios, Como Abraão esperava estranhos, e como as suas nem doces, mas somente comida boa, simples e saudável, expectativas eram ricamente atendidas (v. 1): Ele se embora Abraão fosse muito rico e seus hóspedes fossem assentava à porta da tenda, quando o dia tinha aqueci­ muito honrosos. Observe que não devemos ter hábitos do. Não tanto para repousar ou distrair-se quanto para alimentares complicados. Sejamos gratos pelo alimento procurar uma oportunidade de fazer o bem, recebendo conveniente, embora seja humilde e comum. E não de­ estranhos e viajantes, pois talvez não houvesse hospe­ sejemos guloseimas, pois são comida enganosa àqueles darias onde alojá-los. Observe: 1. Provavelmente nós que as amam e desejam. 4. Ele e sua esposa foram mui­ teremos maior consolo naquelas boas obras às quais to atenciosos e prestativos ao receber os hóspedes com somos mais livres e motivados. 2. Deus graciosamente o melhor que tinham. A própria Sara cozinha e assa os visita aqueles em quem Ele primeiro despertou a expec­ bolos. Abraão corre para tomai' a vitela, traz o leite e a tativa sobre Ele, e se apresenta àqueles que o esperam. manteiga, e não pensa que esteja abaixo dele servir à Quando Abraão estava assim assentado, viu três homens mesa, de modo que pôde mostrar o quão sinceramente vindo em sua direção. Estes três homens eram três se­ bem-vindos eram os seus convidados. Observe que: (1) res espirituais celestiais, assumindo agora corpos huma­ Aqueles que têm méritos verdadeiros não precisam as­ nos, para que pudessem ser visíveis a Abraão e pudes­ sumir pompas. E as suas prudentes condescendências sem conversar com ele. Alguns pensam que todos eles também não são qualquer menosprezo ou descrédito tinham sido criados como anjos, outros, que um deles a eles. (2) A amizade sincera se curva a qualquer coi­ era o Filho de Deus, o anjo do concerto, a quem Abraão sa, exceto ao pecado. O próprio Cristo nos ensinou a distinguiu dos demais (v. 3), e que é chamado cle Senhor, lavar os pés, uns dos outros, em amor humilde. Aqueles v. 13. O apóstolo aproveita esta história para incentivar que assim se humilham serão exaltados. Aqui a fé de a hospitalidade, Hebreus 13.2. Aqueles que se motivam Abraão foi evidenciada em boas obras. E também deve a receber estranhos podem receber anjos, para sua in­ ser a nossa, caso contrário está morta, Tiago 2.21,26. O descritível honra e satisfação. Onde, por um julgamento pai dos fiéis era famoso pela sua caridade, e generosi­ prudente e imparcial, nós não virmos causas para sus­ dade, e pela boa administração da casa. E nós devemos peitar do mal, a caridade nos ensina a esperar o bem e a aprender com ele a fazer o bem e a transmiti-lo. Jó não mostrar bondade adequadamente. É melhor alimentar a comeu sozinho o seu bocado, Jó 31.17. cinco zangões, ou vespas, do que permitir que uma abe­ lha passe fome. w. 9-15 Como Abraão recebeu estes estranhos, e quão Estes convidados celestiais (sendo enviados para gentilmente a sua acolhida foi aceita. O Espírito a promessa recentemente feita a Abraão, de Santo prestou atenção especial à acolhida afetuosa econfirmar li­ que ele teria um filho gerado por Sara), enquanto estão vre que Abraão ofereceu aos estranhos. 1. Ele foi muito a gentil acolhida de Abraão, retribuem a sua gentil e respeitoso com eles. Esquecendo a sua idaderecebendo e seriedade, correu para encontrá-los da maneira mais gentileza. Ele recebe anjos, e tem a recompensa dos an­ cortês, e com toda a devida cortesia inclinou-se à ter­ jos, uma graciosa mensagem do céu, Mateus 10.41. ra, embora ele ainda nada soubesse sobre eles, exceto É tomado um cuidado especial para que Sara esti­ que pareciam ser homens respeitáveis e cheios da gra­ vesse ouvindo. Ela devia conceber pela fé, e por isto ça do Senhor. Observe que a religião não destrói, mas aprimora, as boas maneiras, e nos ensina a honrar todos a promessa devia ser feita a ela, Hebreus 11.11. Era o w. 1-8 I n I 103 GÊNESIS 18 w. 9-15 costume modesto daquele tempo que as mulheres não to que Sara obedecia a Abraão, chamando-lhe senhor, se sentassem à mesa para a refeição com os homens, ao como sinal de respeito e submissão. “Assim... a mulher menos, não com estranhos, mas ficassem confinadas aos reverencie o marido”, Efésios 5.33. E assim devemos nós seus próprios aposentos. Por isto Sara aqui não está à estar aptos a perceber aquilo que é dito decentemente, vista. Mas não deve estar onde não possa ouvir. Os anjos para a honra daqueles que o dizem, ainda que possa es­ perguntam (v. 9): “Onde está Sara, tua mulher?” Ao dizer tar mesclado com algo errado, e sobre isto nós devemos o seu nome, eles dão indicação suficiente a Abraão de lançar um manto de amor. 2. A improbabilidade humana que, embora pareçam estranhos, ainda assim o conhe­ freqüentemente se coloca em contradição com a promes­ cem muito bem, e à sua família. Perguntando por ela, sa divina. As objeções dos sentidos podem fazer tropeçar mostraram um interesse gentil e amistoso pela família e e confundir uma fé fraca, até mesmo dos crentes fiéis. É pelos parentes de alguém que tinha se revelado respeito­ difícil aderir à primeira Causa, quando há desdém em so a eles. Esta é uma cortesia comum, que deve proceder relação à segunda. 3. Mesmo onde existe fé verdadeira, de um princípio de amor cristão, para que tenha valor. ainda assim freqüentemente existem amargos conflitos E, ao falar nela (e ela ouvir isto, por acaso), eles atraem com a descrença. Sara poderia dizer: Senhor eu creio a sua atenção, para ouvir o que ainda seria dito. “Onde (Hb 11.11), e ainda assim deveria dizer: “Senhor, ajuda a está Sara, tua mulher?”, dizem os anjos. “Ei-la, aí está minha incredulidade”. na tenda”, diz Abraão. Onde mais poderia estar? Aí está, no lugar dela, como costuma estar, e agora está ao alcan­ O anjo reprova as expressões indecorosas da ce da sua voz. Observe que: 1. As filhas de Sara devem sua falta de confiança, w. 13,14. Observe que: aprender com ela a serem castas, e boas donas de casa, 1. Embora Sara estivesse recebendo muito gentilmente Tito 2.5. Não se consegue nada andando a esmo. 2. Têm e generosamente estes anjos, ainda assim, quando ela maior probabilidade de receber consolo de Deus e Suas age mal, eles a reprovam por isto, da mesma maneira promessas aqueles que estão no seu lugar, e no caminho como Cristo reprovou a Marta na sua própria casa, Lu­ do seu dever, Lucas 2.8. cas 10.40,41. Se os nossos amigos são gentis conosco, não devemos ser tão cruéis com eles, tolerando os seus peca­ A promessa é então renovada, e ratificada - a pro­ dos. 2. Deus reprovou Sara, por meio de Abraão, seu es­ messa de que ela terá um filho (v. 10): Certamente poso. A Abraão, Ele disse: “Por que se riu Sara”? talvez tornarei a ti por este tempo da vida - e te visitarei na pró­ porque ele não lhe tivesse contado da promessa que lhe xima vez com o cumprimento, assim como o faço agora, tinha sido feita algum tempo antes, com este propósito, na promessa. Deus irá retornar àqueles que lhe dãoe asque, se tivesse contado a ela, com suas ratificações, te­ boas-vindas, que acolhem as Suas visitas: Eu retribuirei ria evitado que ela ficasse tão surpresa agora. É possí­ a tua gentileza, “eis que Sara, tua mulher, terá um filho. vel que Abraão tenha ouvido a promessa, e que tivesse Isto é repetido novamente, v. 14. Da mesma maneira, as a incumbência de contá-la a Sara. A reprovação mútua, promessas sobre o Messias eram freqüentemente repe­ quando há oportunidade para tal, é um dos deveres da tidas no Antigo Testamento, para o fortalecimento da fé relação conjugal. 3. A reprovação, em si, é clara, e fun­ do povo de Deus. Nós somos lentos de coração para crer, damentada em uma boa razão: “Por que se riu Sara”? e por isto precisamos da repetição para o mesmo propó­ Observe que é bom investigar a razão do nosso riso, para sito. Esta é aquela palavra de promessa que o apóstolo que não seja riso de tolo, Eclesiastes 7.6. Porque ela riu? cita (Rm 9.9.), como sendo a promessa por cuja virtude - Novamente, a nossa descrença e desconfiança são uma nasceu Isaque. Observe que: 1. As mesmas bênçãos que grande ofensa ao Deus do céu. Com razão, Ele não gosta os outros têm da providência comum, os crentes têm da de ter as objeções dos sentidos colocadas em contradi­ promessa, o que as torna muito doces e garantidas. 2. A ção com as Suas promessas, como em Lucas 1.18.4. Aqui semente espiritual de Abraão deve a sua vida, e alegria, é feita uma pergunta que é suficiente para responder a e esperança, e tudo, à promessa. Eles são gerados pela todas as críticas da carne e do sangue: “Haveria coisa palavra de Deus, 1 Pedro 1.23. alguma difícil ao Senhor?” (em hebraico, “admirável” ou “maravilhosa demais”), isto é: (1) É alguma coisa tão Sara pensa que isto é bom demais para ser secreta a ponto de escapar ao seu conhecimento? Não, verdade, e por isto não consegue convencer nem o riso de Sara, embora ela somente se risse consigo o seu coração a crer nisto: “Riu-se Sara consigo”, v. 12. mesma. Ou: (2) É alguma coisa tão difícil, a ponto de ex­ Não foi um riso agradável de fé, como o de Abraão (cap. ceder o seu poder? Não, nem dar um filho a Sara na sua 17.17), mas foi um riso de dúvida e descrença. Observe avançada idade. que a mesma coisa pode ser feita a partir de princípios muito diferentes, os quais somente Deus, que conhece Sara se esforça tolamente para ocultar o seu erro o coração, pode julgar. A grande objeção que Sara não (v. 15): “Sara negou, dizendo: Não me ri”, pensan­ conseguia superar era a sua idade: “Eu já estou velha, e do que ninguém iria contradizê-la: ela disse esta mentir passei da idade de ter filhos, no curso da natureza, espe­ porque temeu. Mas foi inútil tentar ocultá-la de um olho cialmente tendo sido estéril até hoje, e (o que aumenta que tudo vê. Ela ouviu, para sua vergonha: Tú “te riste”. a dificuldade) o meu senhor também é velho”. Observe Bem: 1. Aqui parece haver em Sara uma retratação da aqui que: 1. Sara chama Abraão de seu senhor - esta foi sua desconfiança. Agora ela percebia, analisando as cir­ a única palavra boa nesta frase, e o Espírito Santo ob­ cunstâncias, que se tratava de uma promessa divina que serva isto, para a honra dela, e o recomenda à imitação tinha sido feita a seu respeito, e renunciou a todos os pen­ de todas as esposas cristãs. Em 1 Pedro 3.6 está escri­ samentos de dúvida e desconfiança. Mas: 2. Houve, além n V 104 GÊNESIS 18 disto, um esforço pecaminoso de encobrir um pecado com recido desta maneira, Mas aquele que anda com os sábios uma mentira. É uma vergonha agir mal, mas é uma ver­ será sábio, Provérbios 13.20. Veja como Deus se compraz gonha ainda maior negá-lo. Com isto nós somamos iniqüi­ em argumentar consigo mesmo: “Ocultarei eu a Abraão o dade à nossa iniqüidade. O medo de uma repreensão fre­ que faço” Poderei fazer tal coisa, e não contar a Abraão? qüentemente nos atrai a esta cilada. Veja Isaías 57.11: De Assim Deus, nos seus conselhos, se expressa, como os ho­ quem tiveste receio ou temor, para que mentisses? Nós mens, com deliberação. Mas por que Abraão deve perten­ nos enganamos se pensamos que enganamos a Deus. Ele cer ao Conselho? Os judeus sugerem que, por ter Deus pode trazer a verdade à luz, e o fará, para nossa vergonha. concedido a terra de Canaã a Abraão e à sua semente, Ele Aquele que encobre o seu pecado não pode prosperar, pois não destruiria as cidades que formavam parte daquela terra, sem o conhecimento e consentimento de Abraão. se aproxima o dia que o revelará. Mas aqui Deus oferece dois motivos diferentes: (1) Abraão deve saber, pois é um amigo e favorito, e alguém por quem Deus tem uma generosidade espe­ A Conversa de Abraão com Deus cial, e para quem tem grandes coisas armazenadas. Ele w. 16-22 virá a ser uma grande e poderosa nação. E não somente Os mensageiros celestiais agora tinham concluído isto, mas no Messias, que deverá nascer dos seus lom­ uma parte da sua missão, que era uma missão de graça bos, serão benditas todas as nações da terra. Observe a Abraão e Sara, e que realizaram em primeiro lugar. que o segredo do Senhor é para os que o temem, Salmos Mas agora têm diante de si uma obra de outra nature­ 25.14; Provérbios 3.32. Aqueles que, pela fé, levam uma za. Sodoma deve sei’ destruída, e eles devem fazer isto, vida de comunhão com Deus, não podem evitar conhecer cap. 19.13. Observe que assim como com o Senhor exis­ mais a sua vontade do que as outras pessoas, embora não te misericórdia, também Ele é o Deus a quem pertence com um conhecimento profético, mas prático e prudente. a vingança. Prosseguindo com a sua comissão, aqui le­ Eles têm um entendimento melhor do que o dos outros mos: 1. Que eles “olharam para a banda de Sodoma” (v. quanto àquilo que é atual (Os 14.9; SI 107.43), e uma me­ 16): Eles a olharam com ira, da mesma maneira como lhor previsão do que há de vir, pelo menos de modo sufi­ Deus viu o campo dos egípcios, Êxodo 14.24. Observe ciente para sua orientação e consolo. (2) Abraão deve saber, para que oriente a sua famí­ que embora Deus pareça tolerar os pecadores por mui­ to tempo, e por isto eles deduzam que o Senhor não vê, lia: “Eu o tenho conhecido, que ele há de ordenar a seus e não se importa, ainda assim, quando chega o dia da filhos e a sua casa depois dele”, v. 19. Considere isto: [1] sua ira, Ele olha para eles. 2. Que “foram-se para Sodo­ Como uma parte muito brilhante do caráter e do exemplo ma” (v. 22), e, coerentemente, nós encontramos a dois de Abraão. Ele não somente orava com a sua família, mas deles em Sodoma, cap. 19.1. Não se sabe se o terceiro também os ensinava como um homem de conhecimento, era o Senhor, diante de cuja face Abraão ainda ficou ou melhor, os ordenava como homem de autoridade, e era em pé, e de quem se aproximou (v. 23), como muitos profeta e rei, além de sacerdote, na sua própria casa. Ob­ crêem, ou se o terceiro os deixou antes que chegassem serve, em primeiro lugar, que tendo Deus feito o concerto a Sodoma, e o Senhor diante de quem Abraão ficou em com Abraão e com a sua semente, e tendo a sua casa sido pé era a Shekinah, ou aquela aparição da glória divina circuncidada, depois disto, ele tomava todos os cuidados que Abraão tinha visto anteriormente e com quem ti­ para ensiná-los e governá-los bem. Aqueles que espe­ ram bênçãos familiares devem ter consciência do dever nha conversado. No entanto, temos aqui: familiar. Se os nossos filhos são do Senhor, devem ser nu­ A honra que Abraão prestou aos seus convidados: tridos por Ele. Se eles usam o seu uniforme, devem ser Ele foi com eles, para levá-los pelo caminho, como treinados para a sua obra. Em segundo lugar, que Abraão alguém que não desejava despedir-se de tão boa compa­cuidava não somente dos seus filhos, mas também da sua nhia, e desejava prestar seus máximos respeitos a eles. casa. Seus servos eram servos discipulados. Os chefes de Esta é uma cortesia adequada para ser demonstrada aos família devem instruir e fiscalizar as maneiras de todos nossos amigos. Mas deve ser feita como o apóstolo orien­ os que estão debaixo do seu teto. Até mesmo os servos mais pobres têm almas preciosas que devem ser cuidadas. ta (3 Jo 6), de modo digno para com Deus. Em terceiro lugar, que Abraão preocupou-se e dedicou-se A honra que os anjos prestaram a Abraão. Pois em promover a prática religiosa na sua família. Ele não àqueles que honram a Deus, Ele honrará. Deus encheu as cabeças dos seus com assuntos de especulação, ou discussão duvidosa. Mas ensinou-os a guardar o cami­ comunicou a Abraão o seu objetivo de destruir Sodoma, e não somente isto, mas também entrou em uma con­ nho do Senhor, e a fazer juízo e justiça, isto é, ser sérios e devotos na adoração a Deus, e ser honestos nos seus versação livre com ele a este respeito. Tendo-o tomado, mais intimamente do que antes, em concerto consigo relacionamentos com todos os homens. Em quarto lugar, mesmo (cap. 17), aqui Ele o admite em uma comunhão Abraão, com isto, visava à posteridade, e se preocupava mais íntima do que nunca, como o homem do seu conse­ não somente que a sua casa, com ele, mas também que a sua casa, posterior a ele, guardasse o caminho do Senhor, lho. Observe aqui: 1. Os pensamentos amistosos de Deus em relação apara que a religião pudesse florescer na sua família quan­ Abraão (w. 17-19, onde temos a sua resolução de dar a do ele estivesse no seu sepulcro. Em quinto lugar, que o conhecer a Abraão o seu objetivo a respeito de Sodoma, fato de que ele fizesse isto era o cumprimento das condi­ incluindo as razões para isto. Se Abraão não os tivesse ções das promessas que Deus tinha feito a ele. Somente acompanhado pelo caminho, talvez não tivesse sido favo­ aqueles que têm consciência do seu dever é que podem es­ w. 16-22 I n 105 GÊNESIS 18 w. 23-38 perar os benefícios das promessas. [2] Como a razão pela O escopo geral desta oração. É a primeira oração qual Deus lhe daria a conhecer o seu objetivo a respeito solene que temos registrada na Bíblia. E é uma de Sodoma, porque ele comunicava o seu conhecimento e oração pedindo que Sodoma seja poupada. Abraão, se o aproveitava para o benefício daqueles que estavam sob dúvida, abominava enormemente a iniqüidade dos s os seus cuidados. Observe que àquele que tem se dará, domitas. Ele não viveria entre eles, como Ló, nem qu Mateus 13.12; 25.29. Aqueles que fizerem um bom uso do eles lhe tivessem dado a melhor terra na sua região. Mas seu conhecimento saberão mais. ainda assim ele orou fervorosamente por eles. Observe 2. A conversa amistosa de Deus com Abraão, na qualque embora o pecado deva ser odiado, os pecadores são Ele lhe dá a conhecer o seu propósito acerca de Sodoma, dignos de piedade, e merecem as nossas orações. Deus e lhe dá liberdade para dirigir-se a Ele sobre a questão. não se compraz com a morte deles, nem nós devemos de­ (1) Ele lhe fala das evidências que havia contra Sodo­ sejar o dia lamentável, mas protestar contra ele. 1. Ele ma: “Porquanto o clamor de Sodoma e Gomorra se tem começa orando para que os justos, entre eles, possam ser multiplicado”, v. 20. Observe que alguns pecados, e os poupados, e não envolvidos da calamidade comum, pen­ pecados de alguns pecadores, clamam ao céu, pedindo sando, em particular, no justo Ló, cujo comportamento vingança. A iniqüidade de Sodoma era uma iniqüidade malicioso contra ele já tinha sido esquecido e perdoado que clamava, isto é, era tão provocadora que até mesmo há muito tempo, com o testemunho do seu zelo amistoso insistia que Deus a punisse. (2) A investigação que Ele em resgatá-lo, antes pela sua espada, e, agora, pelas suas deseja fazer, com base nestas evidências: “Descerei ago­ orações. 2. Ele transforma sua oração em uma petição ra e verei”, v. 21. Isto não significa que haja alguma coisa para que todos possam ser poupados, em nome dos jus­ sobre a qual Deus tenha dúvidas, ou esteja às escuras. tos que havia entre eles, com o próprio Deus estimulando Mas Ele se compraz em expressar-se assim, à maneira este pedido, e, na verdade, colocando-o na sua resposta dos homens: [1] Para mostrar a incontestável justiça de ao primeiro pedido, v. 26. Observe que nós devemos orar, todos os seus procedimentos judiciais. Os homens são ca­ não somente por nós mesmos, mas também por outros. pazes de sugerir que o seu modo não é justo. Mas saibam Pois somos membros do mesmo corpo, pelo menos, do que os seus juízos são o resultado de um conselho eter­ mesmo corpo da humanidade. Somos todos irmãos. no, e nunca são decisões precipitadas ou impensadas. As graças particulares que se destacam nesta Ele nunca pune com base em relatos, ou fama comum, oração. ou informação de outros, mas com base no seu próprio conhecimento certo e infalível. [2] Para dar exemplo aos 1. Aqui existe grande fé. E é a oração da fé aquela que magistrados, e àqueles que têm autoridade, para que, prevalece. A sua fé apela a Deus, ordena a causa, e enche a com o máximo cuidado e diligência, investiguem os méri­ sua boca com argumentos. Ele age com fé, especialmente tos de uma causa, antes de julgá-la. [3] Talvez o decreto sobre a justiça de Deus, e está muito confiante: aqui seja mencionado como ainda não sendo peremptó­ (1) De que Deus não irá destruir os justos com os rio, para que pudesse haver espaço e incentivo para que ímpios, v. 23. Não. “Longe de ti que faças tal coisa”, v. Abraão intercedesse por eles. Assim Deus procurava se 25. Não devemos alimentar nenhum pensamento que haveria um intercessor, Isaías 59.16. menospreze a honra da justiça de Deus. Veja Romanos 3.5,6. Observe que: [1] Neste mundo, os justos estão misturados com os ímpios. Entre os melhores estão, nor­ A Intercessão de Abraão por Sodoma malmente, alguns maus, e entre os piores, alguns bons: w. 23-33 até mesmo em Sodoma, um Ló. [2] Embora os justos estejam entre os ímpios, o Deus justo certamente não A comunhão com Deus é mantida pela palavra e pela irá destruir os justos juntamente com os ímpios. Embora oração. Na palavra, Deus fala conosco. Na oração, nós neste mundo eles possam estar envolvidos nas mesmas falamos com Ele. Deus tinha revelado a Abraão as Suas calamidades comuns, ainda assim, no grande dia, uma intenções a respeito de Sodoma. Com base nisto, Abraão distinção será feita. aproveita a oportunidade para falar com Ele, a favor de (2) Os justos não serão como os ímpios, v. 25. Embora Sodoma. Observe que a palavra de Deus é boa para nós possam sofrer com eles, que não sofram como eles. As ca­ quando nos fornece material para oração, e nos motiva a lamidades comuns são, para os justos, uma coisa bastante isto. Quando Deus fala conosco, nós devemos considerar diferente daquilo que são para os ímpios, Isaías 27.7. o que temos a lhe dizer sobre o assunto. Observe que: (3) De que o Juiz de toda a terra fará o que é certo. Sem dúvida Ele o fará, porque é o Juiz de toda a terra; é A solenidade com que Abraão se dirige a Deus, nesta o argumento do apóstolo, Romanos 3.5,6. Observe que: [1] ocasião: “Chegou-se Abraão”, v. 23. Aexpressão in­ Deus é o Juiz de toda a terra. Ele dá ordens a todos, toma dica: 1. Um interesse santo: Ele empenhou seu coraçãoconhecimento de todos, e pronuncia a sentença sobre to­ para se chegar a Deus, Jeremias 30.21. “Sodoma será dos.- [2] Este Deus Todo-poderoso nunca fez, nem fará, ne­ destruída, e eu não vou falar nenhuma palavra a favor nhum mal, a nenhuma das criaturas, seja retendo aquilo dela?” 2. Uma santa confiança: Ele se aproximou com que é certo, ou exigindo mais do que é certo, Jó 34.10,11. a certeza da fé, chegou-se como um príncipe, Jó 31.37. 2. Aqui há grande humildade. Observe que quando nos dirigimos ao dever da oração, (1) Um profundo senso da sua própria indignida­ devemos nos lembrar de que estamos nos aproximando de (v. 27): “Eis que, agora, me atrevi a falar ao Senhor, de Deus, para que possamos estar cheios de uma santa ainda que sou pó e cinza”. E novamente, v. 31. Ele fala reverência a Ele, Levítico 10.3. como alguém surpreendido com a sua própria ousadia, I n w. 1-3 GÊNESIS 19 106 e com a liberdade que Deus graciosamente lhe permitia, der, até que Abraão deixasse de pedir. Tal é o poder da considerando a grandeza de Deus (Ele é o Senhor) e a oração. Por que, então, Abraão deixou de pedir, quando sua própria inferioridade (pó e cinza). Observe que: [1] tinha conseguido ir tão longe, a ponto de conseguir pou­ Os maiores homens, os mais consideráveis e dignos, são par o lugar se ali houvesse apenas dez pessoas justas? somente pó e cinza, inferiores e vis, diante do Senhor, Ou: (1) Porque reconheceu que ela mereceria ser destru­ desprezíveis, frágeis e moribundos. [2] Quando nós nos ída, se ali não houvesse este número de justos. Como o aproximamos de Deus, nos convém reconhecer reveren­ vinhateiro, que consentiu que a árvore infrutífera fosse temente a vasta distância que existe entre Deus e nós. cortada se mais um ano de experiência não a tornasse Ele é o Senhor da glória, nós somos vermes da terra. [3] frutífera, Lucas 13.9. Ou: (2) Porque Deus impediu que o O acesso que temos ao trono da graça, e a liberdade de seu espírito pedisse ainda mais. Quando Deus determina expressão que nos é permitida, são, com razão, motivo de a destruição de um lugar, Ele proíbe que se ore por este lugar, Jeremias 7.16; 11.14; 14.11. humilde assombro, 2 Samuel 7.18. (2) Um terrível temor do desprazer de Deus: “Não Aqui está o final da conversa, v. 33. 1. “Foi-se o se ire o Senhor” (v. 30), e novamente, v. 32. Observe que: Senhor”. As visões de Deus não devem ser cons­ [1] A impertinência que os crentes usam quando se di­ tantes neste mundo, onde é somente pela fé que pode rigem a Deus é tal que, se estivessem lidando com um homem como eles, não poderiam deixar de temer que mos vê-lo diante de nós. Deus não se foi, até que Abraão este se zangasse com eles. Mas aquele com quem nos tivesse dito tudo o que tinha a dizer. Pois Ele nunca se relacionamos é Deus, e não homem. E, quem quer que cansa de ouvir orações, Isaías 59.1. 2. Abraão retornou Ele possa parecer, não está, realmente, indignado com ao seu lugar, não orgulhoso com a honra que lhe tinha as orações dos justos (SI 80.4), pois elas são o seu conten­ sido feita, nem por estas extraordinárias conversas que tamento (Pv 15.8). Ele se alegra quando “lutamos” com surgiram no curso normal do dever. Ele voltou ao seu Ele em oração. [2] Mesmo quando recebemos sinais es­ lugar para observar o que iria acontecer. E ficou provado peciais do favor divino, devemos zelar por nós mesmos, que a sua oração tinha sido ouvida, mas ainda assim So­ para que não nos façamos odiosos ao desprazer divino. doma não foi poupada, porque não havia nela dez justos. E, por isto, devemos trazer o Mediador conosco, nos bra­ Não podemos esperar muito do homem, nem pouco da ços da nossa fé, para expiar a iniqüidade daquilo que é parte de Deus. santo para nós. 3. Aqui há grande caridade. (1) Uma opinião caridosa C a p ít u l o 19 sobre o caráter de Sodoma: por pior que fosse, Abraão julgava que houvesse diversas pessoas boas nela. É con­ O conteúdo deste capítulo é citado em 2 Pedro veniente que esperemos o melhor dos piores lugares. 2.6-8, onde lemos que Deus “condenou à subver­ Entre as duas coisas, é melhor errar neste extremo. (2) são as cidades de Sodoma e Gomorra, reduzindoUm desejo caridoso pelo bem estar de Sodoma: Abraão as a cinza... e livrou o justo Ló”. E a história da usou todo o seu interesse pelo trono da graça, pedindo destruição de Sodoma, e do resgate de Ló, de tal misericórdia para eles. Nós nunca o encontramos tão destruição. Nós lemos (cap. 18) sobre a vinda de fervoroso, apelando a Deus por si mesmo e pela sua fa­ Deus, para examinar a atual situação de Sodoma, mília, como aqui, apelando por Sodoma. qual era a sua iniqüidade e quais pessoas justas 4. Aqui existe grande ousadia e confiança, com fé. (1) nela havia. E aqui temos o resultado de tal ins­ Ele tomou a liberdade de escolher um determinado nú­ peção. I. Descobriu-se, depois de um teste, que mero de justos, que ele supunha haver em Sodoma, “Se, Ló era um homem muito bom (w. 1-3), e não pa­ porventura, houver cinqüenta justos”, v. 24. (2) Ele avan­ recia que houvesse mais ninguém com o mesmo çou sobre as concessões de Deus, repetidas vezes. Mes­ caráter. II. Descobriu-se que os sodomitas eram mo que Deus concedesse muito, ele ainda pediria mais, muito perversos e vis, w. 4-11. III. Cuidados es­ com a esperança de alcançar o seu objetivo. (3) Ele trou­ peciais, portanto, foram tomados para proteger a xe os termos a um mínimo possível, por vergonha (pois Ló e à sua família, em um lugar seguro, w. 12-23. teria alcançado a misericórdia, se houvesse somente dez IV Tendo a misericórdia exultado nisto, a justiça justos em cinco cidades), e este número era tão baixo que se mostra na destruição de Sodoma e na morte talvez ele tenha concluído que eles seriam poupados. da esposa de Ló (w. 24-26), com uma repetição geral da história, w. 27-29. V Um pecado tolo de O sucesso da oração. Aquele que lutou desta que Ló foi culpado, ao cometer incesto com suas maneira, venceu maravilhosamente. Como um duas filhas, v. 30ss. príncipe que desfruta o poder de Deus. Ele alcançou a bênção do Deus precioso e bendito: foi somente pedir, e receber. 1. A boa vontade geral de Deus é exibida no fato O Assalto à Casa de Ló de que Ele consentiu em poupar os ímpios por amor aos w. 1-3 justos. Veja como Deus é rápido para mostrar misericór­ dia. Ele até procura uma razão para isto. Veja as grandes Estes anjos provavelmente eram dois daqueles três bênçãos que as pessoas boas são para qualquer lugar, e quão pouco se favorecem aqueles que as odeiam e per­ que tinham estado pouco tempo antes com Abraão, os seguem. 2. O favor particular de Deus a Abraão está dois anjos criados que foram enviados para executar o demonstrado no fato de que Ele não deixaria de conce­ propósito de Deus com relação a Sodoma. Observe aqui V 107 GÊNESIS 19 w. 4-11 que: 1. Havia um único homem bom em Sodoma, e estes possível, um pecado que ainda traz o nome deles, e é cha­ mensageiros celestiais logo o descobriram. Onde quer que mado de sodomia. Eles foram levados por estas paixões estejamos, devemos procurai-, neste lugar, aqueles que vi­ infames (Rm 1.26,27), que são piores que a brutalidade, e vem no temor a Deus, e devemos decidir relacionar-nos são a censura eterna da natureza humana, na qual aque­ com eles, Mateus 10.11: “Procurai saber quem nela seja les que têm a menor fagulha de virtude e algum resto digno e hospedai-vos aí”. As pessoas que são da mesma de luz e consciência naturais não conseguem pensar sem região, quando estão em uma região estranha, gostam de horror. Observe que aqueles que se deixam envolver ficar juntas. 2. Ló se distinguiu suficientemente dos seus por um nível de impureza anormal são marcados para vizinhos, nesta ocasião, e isto o marcou claramente. Aque­ a vingança do fogo eterno. Veja Judas 7. 2. Eles não se le que não agiu como os demais não deve pagar como os envergonharam de reconhecer isto, e de prosseguir no demais. (1) “Estava Ló assentado à porta de Sodoma”. seu desígnio pela força e pelas armas. O ato teria sido su­ Quando os demais, provavelmente, estavam bebendo e ficientemente mau se tivesse sido realizado por intrigas embriagando-se, ele assentou-se sozinho, esperando uma e lisonjas. Mas eles declararam guerra contra a virtude, oportunidade de fazer o bem. (2) Ele foi extremamen­ e a desafiaram abertamente. Em Isaías está escrito so­ te respeitoso com os homens cujo aspecto e aparência bre ousados pecadores que publicam o seu pecado como eram sóbrios e sérios, embora não viessem com pompa. Sodoma, Isaías 3.9. Observe que aqueles que se torna­ Ele inclinou-se à terra, quando os encontrou, como se, à ram atrevidos no pecado geralmente provam ser impe­ primeira vista, discernisse alguma coisa divina neles. (3) nitentes no pecado. E isto será a sua ruína. Aqueles que Ele foi hospitaleiro, e muito liberal e generoso no seu pecam deliberadamente têm, realmente, corações endu­ convite e acolhida. Ele recebeu a estes estranhos na sua recidos, Jeremias 6.15. 3. Quando Ló intercedeu, com casa, e nas melhores acomodações que tinha, e lhes deu toda a brandura imaginável, para reprimir a ira e fúria todas as evidências que podia da sua sinceridade. Pois: da luxúria daqueles homens, eles foram insolentemente [1] Quando os anjos, para testar se ele era sincero no seu rudes e ofensivos a ele. Ele se aventurou entre eles, v. 6. convite, não o aceitaram, a princípio (o que é o costume Falou com eles educadamente, chamou-os de irmãos (v. comum da modéstia, e não representa censura à verdade 7), e rogou que não agissem de modo tão perverso. E, e à honestidade), a sua recusa não o fez mais inoportuno. estando enormemente perturbado com a intenção vil da­ Pois ele insistiu muito com eles (v. 3), em parte porque, de queles homens, lhes ofereceu de forma imprudente e in­ maneira nenhuma, ele permitiria que eles se expusessem justificável as suas duas filhas, para que se prostituíssem aos inconvenientes e perigos de se abrigarem nas ruas de com eles, v. 8. É verdade que entre dois males, devemos Sodoma, e em parte porque desejava a sua companhia e escolher o menor. Mas entre dois pecados, não devemos conversação. Ele não tinha visto dois rostos tão honestos escolher nenhum, nem jamais fazer algum mal para que em Sodoma durante muito tempo. Observe que aqueles dele venha algum bem. Ló argumentou com eles, alegou que vivem em lugares maus devem saber como valorizar as leis de hospitalidade e a proteção da sua casa, a que a companhia daqueles que são sábios e bons, e desejá-la os seus convidados tinham direito. Mas argumentar com fervorosamente. [2] Quando os anjos aceitaram o seu con­ estes teimosos pecadores que eram governados somente vite, ele os tratou com nobreza. Ele fez-lhes um banquete, pela luxúria e pela paixão era a mesma coisa que argu­ julgando-o bem oferecido a tais hóspedes. Observe que o mentar com um leão que ruge ou com um urso que urra. povo de Deus deve (com prudência) ser generoso. As palavras de Ló a eles somente os exasperaram. E, para completar a iniqüidade daqueles homens, e encher a sua medida, eles se lançaram contra ele. (1) Eles o ri­ w. 4-11 dicularizam, fazendo-lhe uma acusação absurda de pre­ tender ser um magistrado, não sendo sequer um cidadão Agora parecia, sem possibilidade de contradição, que da sua cidade, v. 9. Observe que é comum que um crítico o clamor de Sodoma não era mais alto do que deveria ser. seja injustamente censurado como sendo um usurpador. A obra desta noite foi suficiente para encher a medida. E, enquanto oferece a generosidade de um amigo, seja Pois aqui lemos: acusado de assumir a autoridade de um juiz: como se um homem não pudesse falar usando a razão sem ser arro­ Que todos eles eram perversos, v. 4. A iniqüidade gante. (2) Eles o ameaçam, e se arremessam sobre ele. tinha se tornado universal, e eles eram unânimes E assim o bom homem corre perigo de ser despedaçado em qualquer vil desígnio. Aqui estavam os velhos e os por esta multidão infame. Observe que: [1] Aqueles que moços, e todos, de todos os bairros, envolvidos neste odeiam ser transformados odeiam aqueles que os censu­ tumulto. Os velhos não passaram por ele, e os moços ram, ainda que o façam com muita ternura. Os pecadores logo se uniram a ele. Ou eles não tinham magistrados arrogantes fazem com as suas consciências aquilo que os que mantivessem a paz e protegessem os pacíficos, ou sodomitas fizeram com Ló, frustrando as suas reprova­ os seus magistrados eram também cúmplices. Observe ções, reprimindo as suas acusações, comprimindo-as até que quando a doença do pecado torna-se uma epidemia, insensibilizá-los e silenciar as suas bocas. Desta maneira é fatal a qualquer lugar, Isaías 1.5-7. eles se tornam prontos para a destruição. [2] Os maus tratos oferecidos aos mensageiros de Deus e aos fiéis crí­ Que eles tinham chegado ao máximo da iniqüida­ ticos logo enchem a medida da iniqüidade de um povo e de. Eles eram grandes pecadores contra o Senhor trazem destruição sem remédio. Veja Provérbios 29.1 e 2 (cap. 13.13). Pois: 1. A iniqüidade que agora eles se em­ Crónicas 36.16. Se as censuras não remediam a situação, penhavam em cometer era a mais anormal e abominável não há remédio. Veja 2 Crônicas 25.16. I n w. 12-14 GÊNESIS 19 108 Que nada menos que o poder de um anjo po­ vos com ele. Observe que às pessoas más freqüentemen­ deria salvar um bom homem das suas mãos te acontecem coisas boas neste mundo, por causa dos ímpias. Já não havia dúvida quanto ao caráter de So- seus bons relacionamentos. É bom ser parente de um doma e quanto ao curso que se deveria tomar com ela, homem fiel ao Senhor. e por isto os anjos imediatamente dão uma amostra do que pretendiam. 1. Eles resgatam Ló, v. 10. Observe Ele obedece, falando com seus genros (v. 14). que o que regar também será regado. Ló preocupou-se Observe: 1. O justo aviso que Ló lhes deu: em protegê-los, e agora eles cuidam da segurança dele, “Levantai-vos. Saí deste lugar”. A maneira de falar é retribuindo a sua gentileza. Observe ainda que os anjos assustadora e motivadora. Não havia tempo para brin­ são empregados para a preservação especial daqueles car quando a destruição estava à porta. Eles não te­ que se expõem ao perigo ao fazer o bem. Os santos, na riam quarenta dias para se arrepender, como tiveram morte, são levados, como Ló, a uma casa de perfeita os ninivitas. Eles devem fugir, agora ou nunca. À meia segurança, e a porta é fechada para sempre para aque­ noite foi feito este apelo. Deve ser como este o nosso les que os perseguem. 2. Eles punem a insolência dos apelo aos que ainda não se converteram, convertam-se sodomitas: Eles os feriram de cegueira, v. 11. Isto pre­ e vivam. 2. O desprezo que dedicam a este aviso: Jó “foi tendia: (1) Dar um fim ao seu ataque, e incapacitá-los tido, porém, por zombador aos olhos de seus genros”. de prosseguir com ele. Com razão ficaram cegos aque­ Eles pensaram, talvez, que o ataque que os sodomitas les que tinham sido surdos à razão. Os perseguidores tinham acabado de fazer à sua casa teria perturbado a violentos são freqüentemente desviados de sua rota sua cabeça, e o tinha deixado com tal medo que ele não original para não poderem prosseguir com as suas más sabia o que estava dizendo. Ou pensaram que ele não intenções contra os mensageiros de Deus, Jó 5.14,15. estava sendo sincero com eles. Aqueles que viviam uma Ainda assim, estes sodomitas, depois de atingidos pela vida feliz e ridicularizavam tudo, ridicularizaram este cegueira, continuaram procurando a porta, para arrom­ aviso, e assim pereceram na destruição. Assim muitos bá-la, até que se cansaram. Nenhum julgamento, por si que são avisados da desgraça e do perigo em que se mesmo, poderá modificar as naturezas e os objetivos encontram, por causa do pecado, não levam os avisos corruptos dos homens ímpios. Se as suas mentes não a sério, e pensam que os seus ministros estão apenas estivessem cegas, como os seus corpos, eles teriam dito, brincando com eles. Estes irão perecer com o seu san­ como os magos do Egito: “Isto é o dedo de Deus”, e te­ gue sobre as suas cabeças. riam se sujeitado. (2) Ser um penhor da sua destruição completa, no dia seguinte. Quando Deus, no caminho de um julgamento justo, cega os homens, a sua condição já w. 15-23 é desesperadora, Romanos 11.8,9. Aqui temos: Ló É Tirado de Sodoma w. 12-14 Aqui temos os preparativos para a libertação de Ló. saída de Ló de Sodoma. Embora não houvesse dez IrecesseAhomens justos em Sodoma, por cuja causa ela me­ sei1poupada, um homem justo que estava entre eles teve a sua alma livrada, Ezequiel 14.14. Ao amanhe­ cer, os seus convidados, em uma gentileza a ele, tiraramEle é avisado de que a destruição de Sodoma está no para fora, e com ele à sua família, v. 15. Suas filhas que próxima: “Nós vamos destruir este lugar”, v. 13. Ob­ eram casadas pereceram com seus maridos incrédulos. serve que os santos anjos são ministros da ira de DeusMas aquelas que permaneceram com ele foram preser­ para a destruição dos pecadores, assim como da sua mi­ vadas com ele. Observe: sericórdia para a preservação e libertação do seu povo. 1. Com que “graciosa violência” Ló foi retirado de Neste sentido, os anjos bons se tornam mensageiros de Sodoma, v. 16. Aparentemente, embora ele não tivesse males, Salmos 78.49. ridicularizado o aviso recebido, como fizeram seus gen­ ros, ainda assim ele demorou-se, deixou passar o tem­ Ló é orientado a avisar os seus amigos e parentes po, não agiu com a pressa que a situação exigia. Assim que, se desejassem, eles poderiam ser salvos com muitos que têm alguma convicção sobre a desgraça da ele (v. 12): “Você tem mais alguém aqui, com quemsua se condição espiritual, e a necessidade de alguma mu­ preocupe? Se tem, vá dizer a eles o que se aproxima”. dança, ainda assim retardam este trabalho necessário, e Isto indica: 1. O mandamento de um grande dever, que tolamente se demoram. Ló o fez, e isto poderia ter sido consistia em fazer tudo o que ele pudesse para a salva­ fatal a ele, se os anjos não o tivessem tomado pela mão, ção daqueles ao seu redor, tirá-los como tições do fogo. tirando-o fora, e salvando-o com temor, Judas 23. Por Observe que aqueles que, pela graça, são resgatados de isto está escrito: “Sendo-lhe o Senhor misericordioso”. uma condição pecaminosa devem fazer tudo o que pude­ Caso contrário Ele poderia tê-lo deixado perecer, uma rem para resgatar a outros, especialmente seus parentes vez que Ló se recusava tanto a partir. Observe que: (1) A e familiares. 2. A oferta de um grande favor. Eles não salvação dos homens mais justos deve ser atribuída à mi­ perguntam se ele conhecia alguém justo na cidade, que sericórdia de Deus, e não ao seu próprio mérito. Nós so­ pudesse ser digno de ser poupado: não, eles sabiam que mos salvos pela graça. (2) O poder de Deus também deve não havia ninguém. Mas perguntam quais parentes ele ser reconhecido no resgate das almas de uma condição tinha ali, para que, justos ou injustos, pudessem ser sal­ de pecado. Se Deus não nos tivesse tirado, nós nunca te­ I n 109 GÊNESIS 19 w. 24,25 ríamos saído. (3) Se Deus não tivesse sido misericordioso A Destruição de Sodoma e Gomorra conosco, a nossa demora teria sido a nossa ruína. w. 24,25 2. Com que graciosa veemência Jó foi encorajado a Então, quando Ló tinha chegado em segurança a fazer o melhor que pudesse, quando foi tirado, v. 17. (1) Ele ainda devia compreender-se no perigo de ser des­ Zoai’, então veio a destruição. Pois os homens bons são re­ truído, e motivar-se, pela lei da auto-preservação, a fugir movidos do mal que se aproxima. Então, quando o sol ti­ pela sua vida. Observe que um temor e tremor santos nha nascido, brilhante e claro, prometendo um dia bonito, são necessários para a realização da nossa salvação. (2) então veio este tempestade, para mostrar que ela não ti­ Portanto ele deveria cuidar da sua vida com a máxima nha causas naturais. A respeito desta destruição, observe preocupação e diligência. Ele não deveria ansiar por So- que: 1. Deus foi o seu autor imediato. Era uma destruição doma: “Não olhes para trás de ti”. Ele não deveria perder vinda do Todo-poderoso: “o Senhor fez chover” - vinha do tempo no caminho: “Não pares em toda esta campina”. Senhor (v. 24), isto é, de Deus, de si mesmo, pelo seu pró­ Pois toda ela será transformada em um mar morto. Ele prio poder, e não pelo curso comum da natureza. Ou, de não deveria parar antes do lugar de refúgio que lhe ha­ Deus, o Filho, de Deus, o Pai. Pois o Pai entrega todas as via sido indicado: “Escapa lá para o monte”. Como estes, coisas ao juízo do Filho. Observe que aquele que é o Sal­ são os mandamentos dados àqueles que, pela graça, são vador será também o destruidor daqueles que rejeitam libertos de uma condição de pecado. [1] Não retorne ao a salvação. 2. Foi uma estranha punição, Jó 31.3. Nunca pecado e a Satanás, pois isto é como olhar para trás, para houve nada como ela, nem antes, nem depois. O inferno Sodoma. [2] Não descanse em si mesmo e no mundo, pois choveu, do céu, sobre as cidades. Fogo e enxofre, e um isto é como parar na campina. E: [3] Procure alcançai' a vento tempestuoso, esta é a porção do seu copo (SI 11.6). Cristo e o céu, pois isto é escapar para o monte, antes do Não um relâmpago, que é suficientemente destrutivo quando Deus lhe dá esta comissão, mas uma chuva de re­ qual não devemos descansar. lâmpagos. Espalhou-se enxofre sobre as suas habitações A determinação de um lugar de refúgio para ele. O (Jó 18.15), e então o fogo logo os devastou. Deus poderia monte foi o primeiro lugar indicado como o destino tê-los afogado, como fez com o mundo antigo. Mas Ele desejava mostrar que tinha muitas flechas na sua aljava, da sua fuga, mas: 1. Ele implorou para ir a uma cidade o fogo, além da água. 3. Foi um julgamento que destruiu refúgio, uma das cinco que estavam próximas, chamada tudo aquilo: O Senhor “derribou aquelas cidades, e toda Bela, cap. 14.2,18-20. Foi uma fraqueza de Ló pensar que uma cidade da sua própria escolha seria mais segura do aquela campina, e todos os moradores daquelas cidades, e que o monte que Deus indicava, E ele argumentou con­ o que nascia da terra”, v. 25. Foi uma destruição completa tra si mesmo, quando alegou: “Engrandeceste a tua mi­ e irreparável. Aquele vale frutífero continua sendo, até sericórdia que a mim me fizeste, para guardar a minha hoje, um grande lago, ou mar, morto; é chamado de mar alma em vida. Mas não posso escapar no monte”. Pois Salgado, Números 34.12. Os viajantes dizem que ele tem não poderia aquele, que o arrancou de Sodoma, quando aproximadamente 48 quilômetros de extensão, e 16 de lar­ ele se demorava, levá-lo em segurança até o monte, ainda gura. E não há vida nele. Ele não se agita pelo vento. Seu que ele começasse a cansar-se? Não poderia aquele que o cheiro é desagradável. As coisas não afundam facilmente salvou de males maiores, salvá-lo do menor? Ele insiste nele. Os gregos o chamam de Asfaltite, devido a um tipo muito neste seu pedido, com base na pequenez do lugar: de betume que nele se acumula. O Jordão deságua nele, “Não é pequena?”, portanto, era de se esperar, não tão má e ali se dissipa. 4. Foi uma punição que correspondeu ao quanto as demais. Isto deu um novo nome ao lugar: ele seu pecado. Os desejos ardentes contrários à natureza fo­ passou a chamar-se Zoar, pequena. As intercessões pelos ram devidamente punidos com este incêndio sobrenatu­ pequenos sempre merecem ser lembradas. 2. Deus aten­ ral. Aqueles que procuraram carne estranha foram des­ deu o seu pedido, embora houvesse muita debilidade nele, truídos por fogo estranho, Judas 7. Eles perseguiram os w. 21,22. Veja o favor que Deus mostrou a um verdadeiro anjos com sua multidão, e causaram temor a Ló. E agora santo, embora fraco. (1) Zoar foi poupada, para satisfazê- Deus persegue-os com a sua tempestade e assombra-os lo. Embora a intercessão de Jó por ela não fosse, como a com o seu torvelinho, Salmos 83.15. 5. Esta destruição de Abraão por Sodoma, devida a um princípio de generosa tinha como função ser uma revelação permanente da ira caridade, mas meramente por interesse próprio, ainda as­ de Deus contra o pecado e os pecadores de todas as gera­ sim Deus concedeu-lhe o seu pedido, para mostrar o valor ções. Conseqüentemente, ela é sempre mencionada nas da oração fervorosa de um homem justo. (2) A destruição Escrituras, como um padrão da destruição de Israel (Dt de Sodoma foi adiada até que ele estivesse a salvo: “Nada 29.23), de Babilônia (Is 13.19), de Edom (Jr 49.17,18), de poderei fazer, enquanto não tiveres ali chegado”. Obser­ Moabe e Amom, Sofonias 2.9. Na verdade, ela foi típica ve que a própria presença de homens bons em um lugar da vingança do fogo eterno (Jd 7), e da destruição de to­ ajuda a manter à distância os julgamentos. Veja o cuidado dos os que vivem impiamente (2 Pe 2.6), especialmente que Deus tem com a preservação do seu povo. Os ventos aqueles que desprezam o Evangelho, Mateus 10.15. O são retidos até que os servos de Deus estejam assinala­ fato de que o lugar dos condenados é freqüentemente representado como um lago que queima, como Sodoma, dos, Apocalipse 7.3; Ezequiel 9.4. com fogo e enxofre é uma alusão a esta destruição. De­ É mencionado que o sol tinha nascido quan­ vemos aprender algumas lições a partir disto: (1) O mal do Ló entrou em Zoar. Pois quando um bom do pecado, e a sua natureza nociva. A iniqüidade leva à homem chega a um lugar, ele traz a luz com ele, ou destruição. (2) Os terrores do Senhor. Veja que horrenda deveria trazê-la. coisa é cair nas mãos do Deus vivo! n v. 26 GÉNESIS 19 110 ração por nós. Aqui vemos, portanto, a comunhão que v. 26 havia entre Deus e Abraão, no evento acerca de Sodoma, Isto também está escrito como advertência para nós. como também anteriormente, na consulta a seu respeito, Nosso Salvador se refere a isto (Lc 17.32): “Lembrai-vos pois a comunhão com Deus deve ser mantida tanto nas da mulher de Ló”. Da mesma maneira como, pelo exem­ providências como nas ordenanças. plo de Sodoma, os ímpios são aconselhados a afastar-se Aqui está a piedosa consideração de Abraão por da sua iniqüidade, também, pelo exemplo da mulher de Deus, neste evento, em dois aspectos: 1. Uma atenta Ló, os justos são aconselhados a não desviarem os olhos expectativa do evento, v. 27. Ele se levantou cedo para da sua justiça. Veja Ezequiel 3.18,20. Aqui temos: olhar em direção a Sodoma. E, para indicar que a sua O pecado da mulher de Ló: Estando atrás dele, ela intenção era ver qual teria sido o resultado das suas ora­ “olhou para trás”. Isto parecia pouco, mas estamos ções, ele foi ao mesmo lugar onde tinha estado diante da certos, com base na sua punição, que foi um grande pe­ face do Senhor, e ali se colocou, como se estivesse sobre cado, e enormemente pecaminoso. 1. Ela desobedeceu a sua fortaleza, Habacuque 2.1. Observe que quando nós a um mandamento expresso, e, assim sendo, pecou de orarmos, devemos acompanhar as nossas orações e ob­ modo semelhante à transgressão de Adão, que trouxe a servar o seu sucesso. Nós devemos endereçar a nossa ruína a todos nós. 2. A incredulidade estava no fundo de oração como uma carta, e então procurar uma resposta. sua atitude. Ela questionava se Sodoma seria destruída, Dirigi-la como uma flecha, e vigiar para ver se ela chega e pensava que ainda poderia estar em segurança ali. 3. ao alvo. Salmos 5.3. A nossa busca de novidades deve ser Ela olhou para trás, para os seus vizinhos, que ela tinha de acordo com a expectativa de uma resposta às nossas deixado para trás com mais preocupação do que era ade­ orações. 2. Uma assustadora observação do evento: Ele quado, agora que o dia de graça deles estava terminado, olhou em direção a Sodoma (v. 28), não como fez a mulher e a justiça divina se glorificava na destruição deles. Veja de Ló, tacitamente refletindo sobre a severidade divina, Isaías 66.24. 4. Provavelmente ela ansiava pela sua casa mas humildemente adorando-a e aquiescendo nela. As­ e pelos seus bens em Sodoma, e não desejava deixá-los. sim os santos, quando vêm a fumaça do tormento da Ba­ Cristo indica que este foi o pecado dela (Lc 17.31,32). bilônia subindo para todo o sempre (como a de Sodoma, Ela tinha uma excessiva consideração pelas suas coisas. aqui), dirão repetidas vezes: Aleluia, Apocalipse 19.3. Eu 5. O fato de que ela olhasse para trás evidenciou uma penso que aqueles que, no dia da graça, intercederam tendência de voltar. E por isto o nosso Salvador usa a mais fervorosamente pelos pecadores, no dia do julga­ sua história como uma advertência contra a apostasia mento ficarão satisfeitos por vê-los perecer, e irão glori­ da nossa profissão de fé cristã. Todos nós renunciamos ficar a Deus pela destruição dos iníquos. ao mundo e à carne, e voltamos os nossos rostos para Aqui está a consideração favorável de Deus por o céu. Nós estamos na campina, na nossa experiência. Abraão, v. 29. Anteriormente, Abraão rogou por E será um grande risco retornarmos aos interesses que Ismael, mas Deus o ouviu por amor a Isaque. E agora professamos ter abandonado. Voltar é o caminho para a quando ele rogou por Sodoma, o Senhor o ouviu, po perdição, e olhar para trás contribui muito para ela. Te­ amor a Ló. Deus se lembrou de Abraão e - por causa de mamos, pois, Hebreus 4.1. - tirou Ló do meio da destruição. Observe que: 1. Deus A punição da mulher de Ló, por este pecado. Elacertamente dará uma resposta de paz a quem ora com morreu no mesmo lugar. Porém o seu corpo nãofé, no seu devido tempo, e à sua maneira. Embora, du­ rante oualgum tempo, a oração pareça ter sido esquecida, caiu, mas permaneceu fixo e ereto como uma coluna, ainda assim, mais cedo ou mais tarde, será evidente que monumento, não sujeito à destruição ou à decadência, como o são os corpos humanos expostos ao ar, mas meta­ ela foi lembrada. 2. Aos parentes e amigos das pessoas morfoseado em uma substância metálica que duraria per­ tementes e obedientes ao Senhor acontecem as melhores petuamente. “Considera, pois, a bondade e a severidade coisas, devido ao interesse que elas têm em Deus, e pelas de Deus” (Rm 11.22): com Ló, que seguiu adiante, benig­ intercessões que fazem junto a Ele. Foi por consideração nidade. Com a sua mulher, que olhou para trás, severida­ a Abraão que Ló foi resgatado: talvez esta palavra tenha de. Embora ela estivesse muito próxima de um homem incentivado - muito tempo depois - Moisés a orar (Êx justo, embora fosse melhor do que os seus vizinhos, e em­ 32.13): “Lembra-te de Abraão”. E veja Isaías 63.11. bora a sua libertação de Sodoma fosse um monumento de misericórdia diferenciada, ainda assim Deus não tolerou A Desgraça de Ló a sua desobediência. Pois os grandes privilégios não nos w. 30-38 protegerão da ira de Deus se nós não os aproveitarmos, cuidadosamente e fielmente. Esta estátua de sal deveria Aqui temos: nos convencer. Uma vez que é tão perigoso olhar para trás, prossigamos adiante, Filipenses 3.13,14. O grande problema e a aflição aos quais Ló foi levado, depois da sua libertação, v. 30. 1. Ele temia habitar em Zoar, e saiu dali. Provavelmente porque tinha consci­ w. 27-29 ência de que era um refúgio de sua própria escolha, e que A nossa comunhão com Deus consiste na nossa gra­ nisto ele tinha, tolamente, dado ordens a Deus, e por isto ciosa consideração por Ele, e na sua graciosa conside­ não podia deixar de desconfiar da sua segurança ali. Ou- I I n n I 111 GÊNESIS 19 w. 30-38 tra possibilidade é que ele tenha percebido que esta cida­ da natureza. Observe que: [1] A visão dos julgamentos de era tão ímpia quanto Sodoma, e por isto concluiu que mais tremendos de Deus sobre os pecadores não irá, por não poderia sobreviver ali por muito tempo. Ou talvez si mesma, sem a graça de Deus, impedir que os corações ele observasse o aumento daquelas águas que, depois do maus cometam más ações. Poderíamos imaginar como incêndio, talvez viessem do Jordão e tenham começado a o fogo do desejo pôde se inflamar sobre aquelas que ti­ inundar a campina, e que, misturando-se com as ruínas, nham sido, tão recentemente, testemunhas oculares das pouco a pouco formaram o Mar Morto. Ele concluiu que chamas em Sodoma, [2] A solidão tem as suas tentações, Zoar necessariamente iria perecer em tais águas (em­ assim como as companhias, e particularmente quanto à bora tivesse sido poupada do fogo) porque estava loca­ impureza. Quando José esteve sozinho com a esposa do lizada no mesmo patamar. Observe que os assentamen­ seu senhor, esteve em perigo, cap. 39.11. Os parentes que tos e refúgios de nossa própria escolha, nos quais não residem juntos, especialmente se viverem isolados, pre­ seguimos a Deus, normalmente provam ser incômodos cisam estar cuidadosamente vigilantes até mesmo contra para nós. 2. Ló foi forçado a seguir para o monte, e a o menor mau pensamento deste tipo, para que Satanás contentar-se com uma caverna, como sua residência. Na não obtenha alguma vantagem contra eles. minha opinião, foi estranho que ele não retornasse para 2. O próprio Ló, pela sua própria tolice e imprudên­ junto de Abraão, e se colocasse sob a sua proteção, pois a cia, foi ignobilmente dominado, e permitiu que as suas Abraão ele devia a sua segurança, repetidas vezes - mas próprias filhas se aproveitassem dele, a ponto de, duas a verdade é que existem alguns homens bons que não são noites seguidas, ser embebedado e cometer incesto, v. prudentes o suficiente para sabei' o que é melhor para si 33ss. “Senhor, que é o homem!” O que são os melhores mesmos. Observe que: (1) Agora ele estava feliz em ir homens, quando Deus os deixa por sua própria conta! para o monte, o lugar que Deus tinha indicado como seu Veja aqui: (1) O perigo da segurança, Ló, que não somen­ refúgio. Observe que é bom que o desapontamento com te se manteve sóbrio e casto em Sodoma, mas que lamen­ o caminho que escolhemos nos leve, por fim, ao caminho tava constantemente a iniqüidade do lugar, e era uma que Deus tem para nós. (2) Aquele que, há pouco tempo, testemunha contra ela, no monte, onde estava isolado, não julgou que houvesse espaço suficiente para ele e o e, como pensava, fora do caminho da tentação, foi ver­ seu rebanho na terra, e precisou brigar com Abraão, e gonhosamente dominado por ela. Portanto, aquele que afastou-se dele o quanto pôde, agora está confinado a pensa que está em pé, erga-se e permaneça firme, que uma caverna em um monte, onde mal tem espaço para tome cuidado para não cair. Nenhum monte, deste lado virar-se, e ali está solitário e trêmulo. Observe que é jus­ do santo monte, pode nos colocar fora do alcance dos dar­ to que Deus reduza à pobreza e às limitações aqueles que dos inflamados de Satanás. (2) O perigo da embriaguez. usaram inadequadamente a sua liberdade e abundância. Este não é apenas um grande pecado, por si só, mas é o Veja também no exemplo de Ló a que ponto chegam, início de muitos pecados. A embriaguez pode vir a ser o finalmente, aqueles que abandonam a comunhão dos início dos piores pecados e dos pecados mais anormais, santos, trocando-a por vantagens seculares. Eles serão que podem se tornar uma ferida e uma desonra eternas. espancados com a sua própria vara. O Sr. Herbert descreve isto de maneira excelente: n O grande pecado de que Ló e suas filhas foram “Se aquele que está embriagado pode até mesmo culpados quando estavam neste lugar desolado. matai* a própria mãe, o que não faria à sua irmã.” Esta é uma história muito triste. 1. As filhas de Ló conceberam uma trama muito Um homem embriagado pode fazer - sem relutância perversa para levá-lo a pecar. E delas foi, sem dúvida, a - aquilo que, quando está sóbrio, não pode sequer pensar maior culpa. Elas planejaram, com o pretexto de alegrar sem se horrorizar. (3) O perigo da tentação dos nossos o espírito do seu pai, nesta condição atual, embriagá-lo e mais queridos parentes e amigos, a quem amamos, e então deitar-se com ele, w. 31,32. (1) Alguns pensam que estimamos, e dos quais esperamos gentilezas. Ló, cuja a sua desculpa era plausível. Seu pai não tinha filhos ho­ temperança e castidade foram impermeáveis aos exér­ mens, elas não tinham maridos, nem sabiam onde encon­ citos de forças estrangeiras, foi, surpreendentemente, trar algum pertencente à santa semente, ou, se tivessem levado ao pecado e à vergonha pela vil traição das suas filhos com outros homens, o nome do seu pai não seria próprias filhas: nós devemos temer uma armadilha onde preservado nelas. Alguns pensam que elas pensavam no quer que estejamos, e estar sempre vigilantes. Messias, que, esperavam, poderia sei' descendente do 3. No encerramento deste capítulo, nós temos o re­ seu pai: pois ele viria do filho mais velho de Tera, que se­ lato do nascimento dos dois filhos, ou netos (podemos parou-se dos demais descendentes de Sem, assim como chamá-los das duas maneiras) de Ló, Moabe e Amom, os Abraão, e agora estava evidentemente fora de Sodoma. pais de duas nações, vizinhas de Israel, e sobre as quais A mãe delas, e o resto da sua família, todos haviam mor­ freqüentemente lemos no Antigo Testamento. Ambos rido. Elas não poderiam se casar com os amaldiçoados são chamados de filhos de Ló, Salmos 83.8. Observe que cananeus. E por isto supuseram que o fim que visavam e embora nascimentos prósperos possam ser o resultado de a situação extrema à qual foram trazidas, iria desculpar concepções incestuosas, ainda assim eles estão tão longe a irregularidade. Esta é a opinião do erudito Monsieur de justificá-las que, na verdade, perpetuam a crítica a Allix. Observe que as boas intenções são freqüentemente elas, e transmitem a infâmia à posteridade. Mas a tribo de mal utilizadas para incentivar más ações. Mas: (2) Qual­ Judá, da qual se originou o nosso Senhor, descendia de um quer que fosse a pretensão delas, é certo que o plano era destes nascimentos, e Rute, uma moabita, tem o seu nome muito perverso e vil, e uma afronta atrevida à luz e à lei na árvore genealógica de Jesus, Mateus 1.3,5. 112 GÊNESIS 20 Finalmente, observe que, depois disto, não le­ expôs a castidade e a honra da sua esposa, das quais ele mos mais nada a respeito de Ló, nem sabemos o que deveria ter sido protetor. Mas, além disto, havia nele um aconteceu com ele: sem dúvida, ele se arrependeu do duplo agravo: (1) Ele tinha sido culpado, deste mesmo pe­ seu pecado, e foi perdoado. Mas com base no silêncio cado, anteriormente, e tinha sido repreendido por isto, e das Escrituras a seu respeito a partir daqui, podemos convencido da tolice da sugestão que o levou a isto. Mas, aprender que a embriaguez, que torna os homens es­ apesar disto, ele retorna ao mesmo pecado. Observe que quecidos, também faz com que os demais se esqueçam é possível que um bom homem possa, não somente cair deles. E muitos nomes que, nâo fosse por isto, pode­ em pecado, mas voltar a cair no mesmo pecado, pela sur­ riam ter sido lembrados com respeito, estão enterra­ presa e força da tentação e pela fraqueza da carne. Que os filhos rebeldes se arrependam, então, mas não se de­ dos em desprezo e esquecimento. sesperem, Jeremias 3.22. (2) Sara, aparentemente, estava agora grávida da semente prometida, ou, pelo menos, na expectativa de que isto acontecesse rapidamente, segun­ C a p ítu lo 20 do a palavra de Deus. Por isto, nesta ocasião, ele deveria ter cuidado dela de maneira especial, como em Juizes 13.4. Aqui estamos retornando à história de Abraão. 3. O perigo ao qual Sara foi exposta, por causa disto: o rei Mas esta parte da história que está aqui registra­ de Gerar mandou buscá-la e levou-a para a sua casa, para da, não o é para sua honra. Os mais belos mármo­ levá-la à sua cama. Observe que o pecado de um freqüen­ res têm seus defeitos, e, enquanto há manchas no temente ocasiona o pecado de outros. Aquele que rompe a sol, não devemos esperar nada imaculado debaixo barreira dos mandamentos de Deus, abre uma passagem dele. As Escrituras, isto deve ser reafirmado, são para um número incontável de transgressores. O início do imparciais ao relatar as manchas até mesmo dos pecado é como o jorrar da água. seus personagens mais célebres. Aqui temos: I. O pecado de Abraão, ao negar que Sara era sua esposa, e o conseqüente pecado de Abimeleque, w. 3-7 ao tomá-la, w. 1,2. II. As palavras de Deus a Abi­ meleque, em um sonho, nesta ocasião, quando Ele Fica evidente, nestes versículos, que Deus se revelava lhe mostra o seu erro (v. 3), aceita a sua defesa em sonhos (o que evidenciava que tais sonhos eram divinos (w. 4-6), e ordena que ele faça a restituição, v. 7. e sobrenaturais) não somente aos seus servos, os profetas, III. A conversa de Abimeleque com Abraão, em mas até mesmo àqueles que estavam fora dos limites da que Abimeleque o repreende pela trapaça que lhe igreja e do concerto. Mas, normalmente, era com alguma tinha feito (w. 8-10), e na qual Abraão procura se relação ao próprio povo de Deus, como no sonho de Fa­ desculpar como pode, w. 11-18. IV O bom resulta­ raó, em relação a José. No de Nabucodonosor, a Daniel. do da história, na qual Abimeleque restitui Sara a E aqui, no de Abimeleque, a Abraão e Sara, pois o Senhor Abraão (w. 14-16), e Abraão, pela oração, obtém repreendeu este rei por amor deles, Salmos 105.14,15. de Deus a remoção do julgamento sob o qual se Deus avisa Abimeleque do perigo que corria (v. 3), o encontrava Abimeleque, w. 17,18. perigo de pecar, dizendo a ele que a mulher que ele havia tomado era esposa de um homem, de modo que se Abraão Nega que Sara É sua Esposa ele se chegasse a ela, faria um grande dano ao marido w. 1,2 dela. O perigo de morte que vem através deste pecado: “Eis que morto és” - e o fato de Deus dizer isto de um Aqui temos: homem, o torna realmente morto. Observe que todos os pecadores deliberados devem ouvir que são homens 1. A saída de Abraão de Manre, onde tinha vividomortos, como o malfeitor condenado, e são considerados aproximadamente vinte anos, para a região dos filisteus: como o paciente cuja doença é mortal. Se você é. um ho­ Ele “peregrinou em Gerar”, v. 1. Nós não sabemos qual foi mem mau, certamente é um homem morto. o motivo da sua saída, se foi porque ficou assustado com a destruição de Sodoma, ou se porque a região tinha ficado T Ele alega ignorância, que Abraão e Sara tinham prejudicada por isto, ou se, como dizem alguns dos auto­ 1 concordado quanto ao que dizer a ele, e que não res judeus, foi porque ele ficou entristecido com o incesto lhe deram a conhecer que eram mais do que irmão e de Ló com suas filhas, e com a crítica que os cananeus irmã, v. 6. Veja a confiança que um homem pode ter para lhe faziam, e à sua religião, por causa d.os seus parentes com Deus, quando o seu coração não o condena, 1 João - sem dúvida, houve alguma boa razão para a sua parti­ •3.21. Se as nossas consciências testemunham a favor da da. Observe que em um mundo onde somos estranhos e nossa integridade, e se por mais que possamos ter sido peregrinos, não podemos esperar estar sempre no mesmo atraídos a uma cilada, nós não pecamos contra Deus lugar. Onde quer que estejamos, devemos nos considerar deliberadamente e conscientemente, esta será a nossa apenas como peregrinos. 2. Seu pecado em negar à sua alegria no dia do mal. Ele argumenta com Deus, como esposa, como antes (eap. 12.13), que não foi, em si mes­ Abraão tinha feito, eap. 18.23. “Senhor, matarás também mo, somente um equívoco, por ter se aproximado de uma uma nação justa?”, v. 4. Não uma nação como Sodoma, mentira, e que, se aceito como lícito, seria a ruína das re­ que na verdade foi destruída com razão, mas uma nação lações humanas, e o início de toda falsidade, mas também que, neste assunto, era inocente. w. 1,2 I I 113 GÉNESIS 20 dá uma resposta muito completa ao que m1. EleDeus Abimeleque tinha dito. aceita a sua defesa, e admite que, o que ele ti­ w. 8-13 meroso do pecado e das suas conseqüências, levanta-se cedo para obedecer às instruções que lhe foram dadas. nha feito, tinha feito na integridade do seu coração: “Bem Ele se preocupa com os seus servos, v. 8. O próprio sei”, v. 6. Observe que é um consolo para aqueles que são Abraão não poderia ter sido mais cuidadoso do que honestos, o fato de que Deus conhece a sua honestida­ foi, ao instruir a sua casa nesta questão. Observe que de, e irá reconhecê-la, embora talvez os homens que têm aqueles a quem Deus convenceu do pecado e do perigo preconceitos contra eles não possam ser convencidos devem contar aos outros aquilo que Deus fez pelas suas dela, nem desejarão aceitar que eles são honestos. almas, para que também estes possam ser despertados e 2. Deus o faz saber que foi impedido de cometer o trazidos a um santo temor semelhante. pecado simplesmente pela sua boa mão sobre ele: “Eu te tenho impedido de pecar contra mim”. Abimeleque Abimeleque tem uma repreensão para Abraão. foi, desta maneira, impedido de fazer o mal, Abraão, Observe: de sofrer o dano, e Sara, de ambas as coisas. Obser­ 1. A séria repreensão que Abimeleque fez a Abraão, ve que: (1) Existe uma grande quantidade de pecados w. 9,10. A sua argumentação com Abraão, nesta ocasião, planejados que nunca são executados. Por piores que foi muito forte. Mas, ainda assim, pode ser considerada sejam as situações neste mundo, elas não são tão más muito branda. Nada poderia ter sido mais bem dito. Ele quanto os homens maus e ímpios as teriam tornado. não o censura, nem o insulta, nem diz: “E esta a fé que (2) E Deus que impede os homens de fazerem o mal você professa? Estou vendo... embora você não jure, que desejam fazer. Não foi o precioso Deus que criou você mente. Se assim são os profetas, eu imploro para o pecado, mas é através dele que o pecado é retirado ser libertado da visão deles”. Mas Abimeleque apresen­ e evitado, seja pela sua influência sobre a mente dos ta devidamente a ofensa que Abraão lhe tinha feito, e homens, reprovando as suas inclinações ao pecado, ou calmamente explica o seu ressentimento. (1) Ele chama pela sua providência, removendo a oportunidade de este pecado, que agora descobria que tinha estado em pecar. (3) E uma grande misericórdia ser impedido de perigo de cometer, de “tamanho pecado”. Observe que cometer algum pecado. Disto, Deus deve ter a glória, mesmo a luz da natureza ensina aos homens que o peca­ a despeito de quem seja o instrumento que Ele tenha do de adultério é um pecado muito grande: isto deve ser decidido usar, 1 Samuel 25.32,33. dito para a vergonha de muitos que se dizem cristãos, e 3. Ele lhe ordena que se faça a restituição: “Agora, que negligenciam esta questão. (2) Abimeleque conside­ pois” - que já estás informado - “restitui a mulher ao seu ra que tanto ele como também o seu reino teriam sido ex­ marido”, v. 7. Observe que a ignorância não será uma des­ postos à ira de Deus, se ele tivesse sido culpado deste pe­ culpa válida por um tempo superior ao seu esclarecimen­ cado, ainda que sem sabê-lo. Observe que os pecados dos to. Se nós entramos em um caminho errado, por causa da reis freqüentemente provam ser as pragas dos reinos. ignorância, isto não será desculpa para permanecermos Os governantes, portanto, devem, por amor ao seu povo, nele, depois de esclarecidos, Levítico 5.3-5. As razões pe­ temer o pecado e se afastar dele. (3) Ele acusa Abraão de las quais Abimeleque deve ser justo e bom com Abraão fazer o que não era justificável, ao desonrar o seu casa­ são: (1) Porque Abraão é um profeta, próximo e amado mento. Sobre isto, ele fala, com razão, e ainda assim, ter­ de Deus, por quem Deus, de uma maneira particular, se namente. Ele não o chama de trapaceiro ou de mentiro­ interessa. Deus se ressente grandemente das ofensas fei­ so, mas lhe diz que ele tinha feito coisas que não deviam tas aos seus profetas, e as interpreta como sendo feitas a ser feitas. Observe que o equívoco e a dissimulação, por si mesmo. (2) “Sendo um profeta, rogará por ti”. Esta é a mais que possam ser mitigados, são coisas muito más, e recompensa de um profeta, e é uma boa recompensa. Está de nenhuma maneira podem ser admitidos, em nenhuma implícito que havia grande eficiência nas orações de um situação. (4) Ele considera uma ofensa muito grande, a profeta, e que os homens bons deveriam estar dispostos a si mesmo e à sua família, que Abraão os tivesse exposto ajudar com suas orações àqueles que necessitassem delas, ao pecado, desta maneira: “E em que pequei contra ti?” e deveriam, pelo menos, restituir as gentilezas que lhes Se eu tivesse sido o seu pior inimigo, você não poderia eram feitas. Abraão era cúmplice do problema de Abime­ ter me feito restituição pior, nem tomado um caminho leque, e, portanto, estava obrigado, pela justiça, a orar por mais eficiente para vingar-se de mim. Observe que nós ele. (3) “Se não lha restituíres” - o perigo será teu - “sabe devemos considerar que aqueles que, de qualquer ma­ que certamente morrerás”. Observe que aquele que faz neira, nos tentam ou nos expõem ao pecado, embora pos­ o mal, não importando quem seja, príncipe ou camponês, sam fingir amizade e oferecer o que é suficientemente certamente receberá pelo mal que fez, a menos que se ar­ agradável para corromper a natureza, nos infligem as rependa e faça a restituição, Colossenses 3.25. Nenhuma maiores crueldades do mundo. (5) Ele o desafia a citar injustiça pode ser aceita por Deus, não, nem pela imagem uma causa para suspeitar que eles fossem um povo em de César estampada nela. cujo meio seria perigoso que um homem honesto vivesse: “Que tens visto, para fazeres tal coisa?”, v. 10. Que razão você tem para pensar que se nós soubéssemos que ela A Conduta de Abimeleque com Abraão era sua mulher, você teria sido exposto a qualquer perigo w. 8-13 por causa disto? Observe que uma desconfiança da nossa bondade é, com razão, considerada uma afronta maior do Tendo sido avisado por Deus, em um sonho, Abime­ que um desprezo à nossa grandeza, leque aceita o aviso e, como alguém verdadeiramente te­ 2. A desculpa insuficiente que foi oferecida por Abraão. I n GÊNESIS 21 w. 14-18 114 (1) Ele fala da má opinião que tinha do lugar, v. 11. dá a sua permissão real para habitar onde desejasse, Ele dizia, consigo mesmo (embora não pudesse apre­ no seu país, desejando a sua permanência, porque lhe sentar nenhuma boa razão por pensar desta maneira): dá presentes reais (v. 14). ovelhas e vacas, e (v. 16) mil “Certamente não há temor de Deus neste lugar, e eles moedas de prata. Abimeleque deu tudo isto a Abraão me matarão”. [1] Pode-se esperar pouco bem, onde não quando restituiu Sara, ou: [1] Como uma compensação, existe temor a Deus. Veja Salmos 36.1. [2] Existem mui­ pelo mal que tinha se proposto a fazer, ao levá-la à sua tos lugares e pessoas que têm mais do temor a Deus do casa. Quando os filisteus devolveram a arca, ao serem que pensam ter: talvez eles não sejam chamados pelo atingidos pela praga, por conservá-la, enviaram, com nosso nome distinto, não usem nossos distintivos, não ela, um presente. A lei ordenava que quando alguma se apeguem àquilo de que temos boa opinião. E, conse­ restituição fosse feita, algo deveria ser acrescentado qüentemente, nós concluímos que não têm temor a Deus a ela, Levítico 6.5. Ou: [2j Para motivar as orações de em seus corações, o que é muito ofensivo, tanto a Cristo Abraão por ele: não como se as orações pudessem ser quanto aos cristãos, e nos torna detestáveis ao juízo de compradas e vendidas, mas devemos nos empenhar Deus, Mateus 7.1. [3] A falta de caridade e a disposição para sermos gentis àqueles que nos ajudam a alcan­ para julgar e criticai' são pecados que são causas de mui­ çar resultados espirituais positivos, 1 Coríntios 9.11. tos outros pecados. Quando os homens já se persuadi­ Observe que é sábio que obtenhamos e mantenhamos ram, a respeito deste e daquele, que não têm temor a um bom relacionamento com aqueles que têm um bom Deus, julgam que isto irá justificá-los nas práticas mais relacionamento com o céu, e que sejamos amigos da­ injustas e não cristãs para com eles. Os homens não fa­ queles que são amigos de Deus. [3] Ele dá a Sara boas instruções. Diz a ela que o seu marido (ele o chama de rão o mal, se, antes, não pensarem o mal. (2) Ele se desculpou da culpa de uma mentira direta, seu irmão, para repreendê-la por tê-lo chamado assim) explicando que, em certo sentido, ela era sua irmã, v. 12. deve ser, para ela, como o véu dos olhos, isto é, ela não Alguns pensam que ela era a própria irmã de Ló, que é deve olhar para nenhum outro homem, nem desejar ser chamado de irmão de Abraão (cap. 14.16), embora fosse olhada por nenhum outro. Observe que os companhei­ filho do irmão de Abraão. De modo que Sara é chamada ros de jugo devem ser, um para o outro, como o véu de sua irmã. Mas aqueles a quem ele dizia: “Ela é minha dos olhos. O concerto do casamento é como um conceito irmã”, entendiam que ela era sua irmã a ponto de não po­ com os olhos, como o de Jó, Jó 31.1. der ser sua esposa. De modo que esta foi uma expressão A bondade de um profeta, que Abraão mostrou a ambígua, com a intenção de enganar. Abimeleque: orou por ele, w. 17,18. Deus concede (.3) Abraão se isenta da imputação de uma afronta esta honra a Abraão, pois embora Abimeleque tivess designada a Abimeleque alegando que esta já tinha sido restituído a Sara, ainda assim o julgamento sob o qua sua prática anteriormente, conforme um acordo entre ele se encontrava seria removido pela oração de Abraão ele e sua esposa, quando começaram a peregrinar (v. 13): Quando Deus me levou a peregrinar, saindo da casa e não antes disto. Da mesma maneira, Deus curou Mido meu pai, então fizemos este acordo. Observe que: [1] riã, quando Moisés, a quem ela tinha ofendido, orou por Deus deve ser reconhecido em toda a nossa caminhada ela (Nm 12.13). O Senhor também perdoou os amigos de neste mundo, por onde quer que andarmos. [2] Aqueles Jó quando este, que eles tinham ofendido, orou por eles que viajam ao exterior, e convivem muito com estranhos, (Jó 42.8-10). E assim, de certa maneira, a reconciliação assim como têm necessidade da prudência de uma ser­ estava nas mãos das pessoas que haviam sido ofendidas. pente, também é essencial que tal prudência seja sem­ Observe que as orações dos homens bons podem ser uma pre temperada com a simplicidade da pomba. Pelo que importante gentileza para os grandes homens, e devem eu sei, poderíamos sugerir que Deus negou a Abraão e ser sempre valorizadas. Sara a bênção de um filho, por tanto tempo, para punilos por este pacto pecaminoso, se eles não reconheciam o seu casamento, por que deveria Deus reconhecê-lo? C a p ít u l o 2 ! Mas podemos supor que, depois desta repreensão que Abimeleque lhe fez, eles concordaram em nunca mais co­ meter o mesmo erro novamente, e imediatamente lemos Neste capítulo, temos: I. Isaque, o filho da pro­ (cap. 21.1,2) que Sara concebeu. messa, nascido na família de Abraão, w. 1-8. II. Ismael, o filho da serva, é expulso da família, w. 9-21. III. A aliança de Abraão com seu vizinho Abimeleque, w. 22-32. IV A devoção de Abraão ao w. 14-18 seu Deus, v. 33. Aqui temos: n I O Nascimento de Isaque A bondade de um príncipe que Abimeleque mos­ w. 1-8 trou a Abraão. Veja como eram injustos os zelos de Abraão. Ele imaginava que se soubessem que Sara era sua mulher, iriam matá-lo. Mas, quando souberam Finalmente chega aquele que tanto foi esperado. A disto, em vez de matá-lo, foram gentis com ele - foram visão a respeito da semente prometida era para um tem­ levados a ser gentis, ao menos pelas divinas repreen­ po determinado, e agora, no final, ela fala e não mente. sões sob as quais se encontravam. 1. Abimeleque lhe Poucos, na época do Antigo Testamento, foram trazidos 115 GÊNESIS 21 w. 1-8 ao mundo com tanta expectativa como foi Isaque, não por de todos os santos, em todas as gerações, e encheria as causa de nenhuma grande eminência à qual ele devesse suas bocas de riso. chegar, mas porque ele deveria ser, neste mesmo aspecto, 2. Ele o circuncidou, v. 4. Uma vez que o concerto um tipo de Cristo, aquela semente que o santo Deus tinha havia sido estabelecido com ele, o selo do concerto lhe prometido por tanto tempo, e os homens santos tinham foi administrado. E embora esta fosse uma ordenança esperado por tanto tempo. Nesta narrativa dos primeiros de sangue, e ele fosse um favorito, ainda assim ela não dias de existência de Isaque, podemos observar: deveria ser omitida, nem adiada além do oitavo dia. Deus tinha observado o tempo para cumprir a promessa, e por T O cumprimento da promessa de Deus na concepção isso Abraão também deveria observar o tempo, para J l e no nascimento de Isaque, w. 1,2. Observe que as obedecer ao preceito. providências de Deus parecem melhores e mais brilhan­ tes quando são comparadas com a sua palavra, e quando As impressões desta graça sobre Sara. 1. Ela se encheu de alegria (v. 6): “Deu observamos como Deus, em todas elas, age como tinha dito, como tinha falado. 1. Isaque nasceu de acordo com a tem feito riso”. Ele me deu motivos para alegrar-me, e promessa. O Senhor visitou Sara em misericórdia, como um coração para alegrar-me. Sara deve ter se sentido havia dito. Observe que nenhuma palavra de Deus cairá como a mãe do nosso Senhor, Lucas 1.46,47. Observe: por terra. Pois Ele é fiel ao que prometeu, e a fidelida­ (1) Deus concede graças ao seu povo, para incentivar a de de Deus é o sustento e o suporte da fé do seu povo. sua alegria, na sua obra e serviço. E, qualquer que seja Ele nasceu no tempo determinado, que Deus tinha dito, o motivo da alegria, Deus deve ser reconhecido como o v. 2. Observe que Deus sempre é pontual ao seu tempo. seu autor, a menos que seja o riso do tolo. (2) Quando as Embora as Suas misericórdias e graças prometidas não graças tardam por muito tempo, elas são ainda mais bem venham no tempo que nós determinamos, certamente vi­ vindas quando chegam. (3) Nosso consolo por qualquer rão no tempo que Ele determinar, e que sem dúvida será misericórdia será maior se tivermos amigos que exultem 0 melhor tempo. 2. Isaque nasceu em virtude da promes­ conosco nela: “todo aquele que o ouvir se rirá comigo”. sa: “Sara recebeu a virtude de conceber”, Hebreus 11.11. Pois o riso é contagiante. Veja Lucas 1.58. Outros se ale­ Portanto, Deus, pela promessa, deu-lhe esta virtude. Isa­ grariam neste exemplo de poder e bondade de Deus, e que não nasceu pelo poder da providência comum, mas seriam incentivados a confiar nele. Veja Salmos 119.74. pelo poder de uma promessa especial. Uma sentença de 2. Ela se encheu de assombro, v. 7. Observe aqui: morte, de certa forma, era proferida pelas causas secun­ (1) O que Sara julgou tão maravilhoso: Que ela desse de dárias: Abraão era idoso, e Sara idosa, e ambos estavam mamar a filhos, que pudesse, não somente dar à luz um praticamente mortos. E então se cumpriu a Palavra de filho, mas ser tão forte e saudável, nesta idade avança­ Deus. Observe que os verdadeiros crentes, em virtude da, a ponto de dar de mamar. Observe que as mães, se das promessas de Deus, podem fazer aquilo que está puderem, devem dar de mamar aos seus próprios filhos. acima da capacidade da natureza humana, pois por elas, Sara era uma pessoa digna, e era idosa. A amamentação eles participam de uma natureza divina, 2 Pedro 1.4. poderia ser julgada prejudicial a ela, ou à criança, ou a ambas. Ela poderia escolher amas de leite, sem dúvida, T T A obediência de Abraão ao preceito de Deus, no na sua própria família. Mas ela desejava cumprir o seu 1 X que se referia a Isaque. dever neste assunto. E as suas filhas serão boas espo­ 1. Ele lhe deu o nome que Deus havia ordenado, v. 3.sas desde que também cumpram as suas obrigações com Deus lhe recomendou um nome, como memorial, Isaque, amor e dedicação, 1 Pedro 3.5,6. Veja Lamentações 4.3. Riso. E Abraão, a quem competia esta tarefa, deu-lhe (2) Como ela expressou o seu assombro: “Quem diria?” este nome, embora pudesse ter desejado para ele algum O fato era tão altamente improvável, tão próximo do outro nome com algum significado mais pomposo. Ob­ impossível, que se alguém, que não fosse Deus, tivesse serve que é conveniente que a exuberância da invenção dito isto, nós não teríamos crido. Observe que os favores humana sempre se renda à soberania e simplicidade de Deus ao povo do seu concerto são tais que superam das instituições divinas. Mas havia uma boa razão para os pensamentos e expectativas, tanto os deles mesmos, o nome, pois: (1) Quando Abraão recebeu a promessa quanto os dos outros. Quem poderia imaginar que Deus sobre Isaque, riu de alegria, cap. 17.17. Observe que fizesse tanto por aqueles que mereceriam tão pouco, ou quando o sol do consolo se levanta sobre a alma, é bom melhor, por aqueles que mereceriam o mal? Veja Efésios recordar o quão bem vindo foi o amanhecer do dia, e com 3.20; 2 Samuel 7.18,19. Quem teria dito que Deus envia­ que alegria nós recebemos a promessa. (2) Quando Sara ria o seu Filho para morrer por nós, o seu Espírito para recebeu a promessa, ela riu, com desconfiança e modés­ nos santificar, os seus anjos para nos ajudar? Quem teria tia. Observe que quando Deus nos dá as misericórdias e dito que os grandes pecados seriam perdoados, que os as graças pelas quais começamos a nos desesperar, de­ maus serviços seriam aceitos, e que estes vermes indig­ vemos nos lembrar, com tristeza e vergonha, da nossa nos seriam aceitos ao conceito e comunhão com o gran­ vergonhosa falta de confiança no poder e nas promessas dioso e santo Deus? de Deus, quando as estávamos buscando. (3) O próprio Isaque foi motivo de riso para Ismael (v. 9), e talvez o seu Um curto relato da infância de Isaque: “E cres­ nome lhe indicasse que deveria esperar isto. Observe ceu o menino”, v. 8. Isto é mencionado de manei­ que os favoritos de Deus freqüentemente são os motivos ra especial, embora fosse o curso normal, para indicar das gargalhadas do mundo. (4) A promessa da qual ele que os filhos da promessa são filhos que crescem. Veja não somente era o filho mas o herdeiro, seria a alegria Lucas 1.80; 2.40. Aqueles que nascem de Deus crescerão w. 9-13 GÊNESIS 21 116 através do poder e da graça de Deus, Colossenses 2.19. todas as pessoas hipócritas e carnais, ainda que tenham Ele cresceu de modo a não precisar de leite sempre, mas um lugar e um nome na igreja visível. Todos os que são foi capaz de suportar comida mais forte, e então foi des­ nascidos segundo a carne, e não nascem de novo, que mamado. Veja Hebreus 5.13,14. E foi então que Abraão permanecem na lei e rejeitam a promessa do Evangelho, fez um grande banquete, para seus amigos e vizinhos, certamente serão expulsos. Isto se refere, em particular, dando graças a Deus pela sua misericórdia para com ele. à rejeição dos judeus incrédulos, que, embora fossem a Ele fez este banquete, não no dia em que Isaque nasceu, semente de Abraão, ainda assim, porque não se submete­ pois teria sido um incômodo muito grande para Sara. ram ao concerto do Evangelho, foram banidos da igreja e Nem no dia em que ele foi circuncidado, pois teria sido privados dos seus direitos - e aquilo que, acima de qual­ uma distração muito grande da ordenança. Mas no dia quer outra coisa, levou Deus a expulsá-los, foi o fato de em que ele foi desmamado, porque a bênção de Deus so­ que zombassem e perseguissem a igreja do Evangelho, o bre a amamentação de crianças, e a sua preservação dos Isaque de Deus, na sua infância, 1 Tessalonieenses 2.16. perigos da primeira infância, são exemplos do cuidado e Observe que há muitos que convivem familiarmente com da ternura da providência divina, que devem sei1reco­ os filhos de Deus neste mundo, e ainda assim não com­ partilham com eles a herança dos filhos. Ismael podia nhecidos com louvor. Veja Salmos 22.9,10; Oséias 11.1. ser o companheiro de brincadeiras, e colega de escola, de Isaque, mas não seu co-herdeiro. Agar e Ismael São Expulsos w. 9-13 A expulsão de Ismael é aqui considerada, e decidida. T O próprio Ismael motivou isto, por causa de algumas X afrontas que fez a Isaque, seu irmão menor - alguns opinam que foi no dia em que Abraão fez o banquete de alegria porque Isaque tinha sido desmamado, o que, segundo os judeus, não aconteceu antes que ele tivesse três anos, embora outros digam cinco anos. A própria Sara foi testemunha ocular da ofensa: ela viu que o filho da egípcia zombava (v. 9), zombava de Isaque, sem dúvi­ da, porque está escrito, com referência a isto (G1 4.29), que “aquele que era gerado segundo a carne perseguia o que o era segundo o Espírito”. Ismael aqui é chama­ do de filho da egípcia, porque, como pensam alguns, os 400 anos de sofrimento da semente de Abraão pelas mãos dos egípcios podem ter começado agora, e assim poderiam ser datados a partir daqui, cap. 15.13. Ela o viu brincando com Isaque, segundo a Septuaginta, e, na brincadeira, zombando dele. Ismael era catorze anos mais velho que Isaque. E, quando os filhos estão juntos, os mais velhos devem cuidar dos mais jovens - mas o fato de Ismael maltratar uma criança pequena que não era, de maneira nenhuma, páreo para ele, revelou um temperamento muito vil e sórdido. Observe que: 1. Deus observa o que as crianças dizem e fazem nas suas brin­ cadeiras, e irá acertai’ as contas com elas se disserem ou fizerem algo errado, ainda que seus pais não o façam. 2. Zombar é um grande pecado, e muito provocativo a Deus. 3. Existe uma inimizade enraizada remanescente na semente da serpente contra a semente da mulher. Os filhos da promessa devem esperar ser alvo de zomba­ ria. Isto é perseguição, e aqueles que vivem de maneira devota devem contar com ela. 4. Ninguém é rejeitado e expulso da preciosa presença de Deus, exceto aqueles que merecem tal castigo. Ismael permanece na família de Abraão até que se torna uma perturbação, um pesar e um escândalo a ela. Sara fez a sugestão: “Deita fora esta serva”, v. 10. Isto parece ser dito de uma forma acalorada, mas é citado (G1 4.30) como se tivesse sido dito através do Espírito de profecia. E esta é a sentença que recebem Abraão foi avesso a isto: Na sua opinião, isto era muito penoso, v. 11. 1. Entristecia-o o fato de Ismael ter feito tal provocação. Observe que as crianças devem considerar que quanto mais seus pais as amam, mais se entristecem com o seu mau compor­ tamento, e particularmente com as suas brigas entre si. 2. Entristecia-o o fato de Sara insistir em tal punição. Não bastaria castigá-lo? Nada serviria, exceto expulsálo. Observe que até mesmo as medidas extremas e ne­ cessárias que devem ser usadas com crianças maldosas e incorrigíveis são muito lamentáveis para os seus ternos pais, que muitas vezes não são capazes de ministrá-las com determinação. Deus assim o determinou, w. 12,13. Podemos imaginar que Abraão ficasse extremamente agitado com esta questão, não querendo desagradar a Sara, e não querendo expulsar a Ismael. Nesta dificul­ dade, Deus lhe diz qual é a sua vontade, e então ele fica satisfeito. Observe que um bom homem não deseja, em situações difíceis, nada mais que conhecer o seu dever, o que Deus deseja que ele faça. E, quando ele tem a ques­ tão esclarecida, ele fica, ou deveria ficar, tranqüilo. Para tranqüilizar a Abraão, Deus coloca esta questão diante dele, sob uma luz verdadeira, e lhe mostra: 1. Que a ex­ pulsão de Ismael era necessária para o estabelecimento de Isaque nos direitos e privilégios do concerto: “Em Isaque será chamada a tua semente”. Tanto Cristo quan­ to a igreja devem descender de Abraão, pelos lombos de Isaque. Esta é a transmissão da promessa por Isaque, e é citada pelo apóstolo (Rm 9.7), para mostrar que nem todos os que vêm dos lombos de Abraão são herdeiros do concerto de Abraão. Isaque, o filho prometido, deve ser o pai da semente prometida. Portanto: “Fora com Isma­ el, envie-o para muito longe, para que ele não corrompa os modos de Isaque, nem tente invadir os seus direitos”. Será a sua segurança ter o seu rival expulso. A semente do concerto de Abraão deve ser um povo peculiar, um povo, desde o início, distinto, não mesclado com aqueles que não pertencem ao concerto. Por esta razão Ismael deve ser separado. Abraão foi chamado sozinho, e tam­ bém assim deve ser Isaque. Veja Isaías 51.2. É provável que Sara não estivesse pensando nisto (Jo 11.51), mas Deus tomou aquilo que ela disse, e converteu-o em um 117 GÊNESIS 21 w. 14-21 oráculo, posteriormente, cap. 27.10.2. Que a expulsão de zes de esquecer promessas anteriores, quando as provi­ Ismael não seria a sua ruína, v. 13. Ele será “uma na­ dências da atualidade parecem contradizê-las, pois nós ção, porquanto é tua semente”. Não sabemos se esta foi vivemos pelos sentidos. a sua ruína eterna. É presunção dizer que todos aqueles 2. Nesta aflição, Deus graciosamente apareceu, para que são excluídos das dispensações eternas, são também seu alívio: Ele “ouviu... a voz do menino”, v. 17. Nós não excluídos de todas as misericórdias divinas: aqueles que lemos que ele tenha dito nem uma palavra. Mas os seus não são honrados em alguma ocasião também podem suspiros e gemidos, e o seu estado calamitoso, clamavam ser salvos. No entanto, nós temos a certeza de que esta aos ouvidos da misericórdia. Um anjo foi enviado para não foi a sua ruína temporal. Embora ele tenha sido ex­ consolar Agar, e esta não foi a primeira vez que ela se pulso da comunhão que tinham, ele não foi expulso do encontrou com os consolos de Deus, em um deserto. Ela mundo. Dele farei uma nação. Observe que: (1) As na­ tinha agradecidamente reconhecido a visita anterior ções são criação de Deus: Ele as funda, Ele as forma, que Deus lhe fez em uma situação parecida (cap. 16.13), Ele as estabelece. (2) Muitos estão cheios das bênçãos da e por isto Deus agora a visitava novamente, com ajuda providência de Deus, sendo estranhos às bênçãos do seu oportuna. (1) O anjo assegura a ela de que Deus tomou concerto. (3) Os filhos deste mundo freqüentemente têm conhecimento do seu sofrimento: “Deus ouviu a voz do benefícios, quanto a coisas exteriores, pela sua relação rapaz desde o lugar onde está”, embora ele esteja em com os filhos de Deus. um deserto (pois, onde quer que estejamos, o caminho para o céu está aberto). Portanto, “levanta o moço e pega-lhe pela mão”, v. 18. Observe que a prontidão de A Misericórdia de Deus para Deus em nos ajudar quando estamos em dificuldades com Agar e Ismael não deve relaxar, mas incentivar, os nossos empenhos w. 14-21 para ajudar a nós mesmos. (2) Ele repete a promessa a respeito do seu filho, de que ele seria uma grande na­ Aqui temos: ção, como uma razão pela qual ela deveria apressar-se para ajudá-lo. Observe que a consideração de que não A expulsão da serva, e do seu filho, da família de sabemos o que Deus designou para as crianças e jovens, Abraão, v. 14. A obediência de Abraão ao manda­ nem qual é o grande uso que a Providência pode fazer mento divino, nesta questão, foi rápida: “Pela manhã, dedeles, deve motivar o nosso cuidado e os nossos esfor­ madrugada”. Podemos imaginar que Abraão os expulsou ços por eles. (3) Ele a conduz a uma provisão próxima imediatamente depois de ter, nas visões da noite, rece­ (v. 19): “Abriu-lhe Deus os olhos” (que estavam inchados bido ordens para fazer isto. Também foi submissa. Era e quase cegos devido ao choro), e ela “viu um poço de contrário ao seu julgamento, pelo menos à sua própria água”. Observe que muitos que têm motivos suficientes inclinação, fazer isto. Mas tão logo ele percebe que era para serem consolados continuam chorando dia após dia, a vontade de Deus, ele não faz objeções, mas silenciosa­ porque não vêem os motivos que têm para consolar-se. mente faz como lhe foi ordenado, como alguém treinado Há um poço de graça ao seu lado, no concerto da graça, a uma obediência implícita. Ao mandá-los embora, sem mas eles não se dão conta disto. Eles não têm o benefício nenhuma ajuda, a pé, e com víveres escassos, é provável do poço, até que o mesmo Deus que abriu os seus olhos que estivesse obedecendo as instruções lhe que foram para que vissem a sua ferida, os abra para que vejam o dadas. Se Agar e Ismael tivessem se comportado bem na remédio, João 16.6,7. O apóstolo nos diz que estas coisas família de Abraão, poderiam ter continuado ali. Mas eles a respeito de Agar e Ismael são allegoroumena (G14.24), mesmos se expulsaram, pelo seu próprio orgulho e inso­ devem ser entendidas como alegoria. Isto, então, serve lência, e por isto foram devidamente punidos. Observe para ilustrar a tolice: [1] Daqueles que, como os judeus que ao usar mal os nossos privilégios, nós os perdemos. incrédulos, procuram a justiça segundo a lei e as suas Aqueles que não sabem reconhecer quando estão bem, ordenanças carnais, e não pela promessa feita em Cris­ em um lugar desejável como a família de Abraão, mere­ to, conseqüentemente precipitando-se a um deserto de cem ser afastados e conhecer o valor das misericórdias, necessidades e desespero. Seus consolos logo se acabam, ao sentirem a falta delas. e se Deus não os salvar, pela sua prerrogativa especial, e não abrir os seus olhos, indicando o seu erro, por um A sua peregrinação pelo deserto, perdendo o cami­ milagre de fé, eles estarão destruídos. [2] Daqueles que nho para o lugar que Abraão lhes havia designado. procuram a satisfação e a felicidade no mundo e nas coi­ 1. Ali eles passaram por grande aflição. Suas provi­sas que há nele. Aqueles que abandonam os consolos do sões se acabaram, e Ismael ficou fragilizado. Aquele que concerto e a comunhão com Deus, e escolhem a sua parte costumava ser abundantemente alimentado na casa de nesta terra, se satisfazem com um odre de água, uma Abraão, onde engordava, agora desmaiava e desfalecia, provisão insuficiente e escassa, e que logo se acaba. Eles pois os mantimentos lhe foram drasticamente reduzidos. vagam incessantemente procurando satisfação, e, no fi­ Agar está em lágrimas, e profundamente mortificada. nal, não a alcançam. Agora ela anseia pelas migalhas que desperdiçou e des­ prezou na mesa no seu senhor. Como alguém sob o poder O estabelecimento de Ismael, por fim, no do espírito da escravidão, ela perde a esperança de alívio, serto de Parã (w. 20,21), um lugar selvagem, sem esperar nada além da morte da criança (w. 15,16), adequado para um homem selvagem. E assim era ele embora Deus lhe tivesse dito, quando o filho nasceu, que (cap. 16.12, versão RA). Aqueles que nascem segundo a ele viveria para ser um grande homem. Nós somos capa­ carne se contentam com o deserto deste mundo, ao pas­ I n w. 22-32 GÊNESIS 21 118 so que os filhos da promessa desejam a Canaã celestial, Abraão concorda com o concerto, com uma cláu­ e não conseguem descansar até que estejam lá. Obser­ sula particular, a respeito de um poço. Nesta tran­ ve que: 1. Ele tinha alguns sinais da presença de Deus: sação, por parte de Abraão, observe que: “Era Deus com o moço”. A sua prosperidade exterior se 1. Ele estava disposto a fazer este concerto com Abi­ devia a isto. 2. Por profissão, ele tornou-se flecheiro, o meleque, julgando-o um homem de honra e consciência, que indica que a sua destreza era excelente e que o seu e que tinha o temor a Deus diante dos seus olhos: “Eu trabalho era um esporte: o rejeitado Esaú era um hábil jurarei”, v. 24. Observe que: (1) A religião não torna os caçador. 3. Ele casou-se com alguém entre os parentes homens morosos e anti-sociáveis. Tenho certeza de que da sua mãe. Sua mãe tomou-lhe uma mulher da terra ela não deve fazer isto. Nós não devemos, com o pretexto do Egito. Por maior flecheiro que fosse, ele não pensou de evitar as más companhias, rejeitar toda a companhia, que conseguiria acertar bem o alvo, em termos de casa­ e desconfiar de todo mundo. (2) Uma mente honesta não mento, se procedesse sem o conselho e consentimento se atemoriza com dadas circunstâncias: se Abraão diz da sua mãe. que será fiel a Abimeleque, ele não teria algum receio de jurar. Um juramento é a confirmação. 2. Prudentemente, ele define a questão a respeito de O Concerto de Abimeleque com Abraão um poço, sobre o qual os servos de Abimeleque tinham w. 22-32 disputado com ele. Os poços de água, aparentemente, eram bens bastante valiosos naquela região: e graças Aqui temos o relato do tratado entre Abimeleque e a Deus, não são raros em nossa região. (1) Abraão com Abraão, no qual aparece o cumprimento daquela promes­ brandura contou a Abimeleque a respeito do poço, v. 25. sa (cap. 12.2) de que Deus engrandeceria o seu nome. A Observe que se o nosso irmão nos ofende, nós devemos, sua amizade é valorizada e cortejada até mesmo por um com a brandura da sabedoria, falar-lhe sobre o seu erro, estranho, embora se tratasse de um arrendatário sujeito para que a questão possa ser resolvida de modo correto, à vontade dos cananeus e dos ferezeus. e encerrada, Mateus 18.15. (2) Ele concordou com a justi­ ficativa de Abimeleque nesta questão: “Eu não sei quem 0 acordo é proposto por Abimeleque, e Ficol, seu fez isto”, v. 26. Muitos são suspeitos de injustiça e cruel­ primeiro ministro e general do seu exército. dade, sendo, no entanto, perfeitamente inocentes, e nós 1. 0 que motivou isto foi o favor de Deus a Abraão (v. devemos ficai' satisfeitos quando se justificam. Os erros 22): “Deus é contigo em tudo o que fazes”, e não podemos dos servos não devem ser imputados aos seus senhores, deixar de perceber isto. Observe que: (1) Deus, na sua a menos que estes saibam de tais erros e os justifiquem. providência, às vezes mostra ao seu povo tais sinais para E nada mais se pode esperar de um homem honesto, ex­ bem, e os seus vizinhos não podem deixar de percebê-los, ceto que ele esteja disposto a fazer o que é correto tão Salmos 86.17. Seus negócios prosperam tão visivelmen­ logo saiba que cometeu alguma injustiça. (3) Ele tomou te, e eles têm um sucesso tão admirável nos seus empre­ precauções para que o seu direito ao poço fosse escla­ endimentos, que todos à sua volta se mostram dispostos recido e confirmado, para evitar quaisquer disputas ou a confessar que a presença de Deus está, realmente, na brigas no futuro, v. 30. É justiça, além de sabedoria, agir vida destes servos do Senhor. (2) É bom estar nas graças desta maneira, in perptuam rei memoriam - para que a daqueles que estão nas graças de Deus, e ter um bom circunstância seja lembrada eternamente. relacionamento com aqueles que têm um bom relaciona­ 3. Abraão deu um presente muito agradável a Abime­ mento com o céu, Zacarias 8.23. “Iremos convosco, por­ leque, v. 27. Ele não o presenteou com nada curioso nem que temos ouvido que Deus está convosco”. Nós faremos elegante, mas com aquilo que era valioso e útil - ovelhas bem a nós mesmos se tivermos comunhão com aqueles e vacas, em gratidão pela bondade de Abimeleque para que têm comunhão com Deus, 1 João 1.3. com ele, e como sinal da sincera amizade que havia entre 2. 0 teor do concerto era, de maneira geral, que de­ eles. O intercâmbio de gentilezas é o aprimoramento do veria haver uma amizade firme e constante entre as duas amor: aquilo que é meu também é do meu amigo. famílias, que não deveria ser, de maneira alguma, vio­ 4. Ele retificou o concerto com um juramento, e regislada. Este laço de amizade deveria ser fortalecido pela trou-o, dando um nome ao lugar (v. 31), Berseba, o poço força de um juramento, no qual se devia apelar ao Deus do juramento, como recordação do concerto que juraram, verdadeiro, tanto como testemunha da sua sinceridade para que sempre o tivessem em mente. Ou poço das sete, como vingador no caso de que algum lado cometesse como recordação das sete cordeiras dadas a Abimeleque, alguma traição, v. 23. Observe que: (1) Ele deseja que como consideração por ter ele confirmado o direito de este acordo seja propagado aos seus descendentes, e que Abraão a este poço. Observe que as negociações feitas de­ abranja o seu povo. Ele deseja que o seu filho, e o filho vem ser lembradas, para que possamos mantê-las e não do seu filho, e, da mesma maneira, a sua terra, tenham quebrar a nossa palavra por algum descuido. o benefício deste acordo. Os homens bons devem garan­ tir uma aliança e comunhão com os favoritos do céu, não somente para si mesmos, mas também para os seus. (2) w. 33,34 Ele lembra a Abraão do bom tratamento que ele tinha encontrado junto a eles: “segundo a beneficência que te Observe que: 1. Abraão, tendo se instalado em boa fiz”. Da mesma maneira como aqueles que recebem gen­ vizinhança, sabia quando estava bem, e permaneceu ali tilezas devem retribui-las, também aqueles que demons­ por muito tempo. Ali ele plantou um bosque, para ter tram gentileza podem esperá-la. sombra sobre a sua tenda, ou talvez um pomar de ár­ n 1 119 GÊNESIS 22 w. 1,2 vores frutíferas. E, embora não possamos dizer que ele sado. Mas, afinal, chega este encontro, que é mais severo tenha se estabelecido, pois Deus desejava que ele, en­ do que qualquer anterior. Observe que muitas tentações quanto vivesse, fosse um estrangeiro e peregrino, ainda anteriores não irão substituir novas tentações, nem nos assim ali permaneceu por muitos dias, tantos quantos proteger delas. Nós ainda estamos neste mundo, e somos pudessem ser coerentes com o seu caráter, ou seja, com humanos, 1 Reis 20.11. Veja Salmos 30.6,7. o caráter de Abraão, o hebreu, ou o peregrino. 2. Ali ele fez não somente uma prática constante, mas uma pro­ O autor da prova: Deus o pôs à prova, não para fissão aberta da sua religião: Ali ele “invocou... o nome levá-lo ao pecado, como Satanás (se Abraão tives­ do Senhor, Deus eterno”, provavelmente no bosque que se sacrificado Isaque, ele não teria pecado, as ordens qu tinha plantado, que era o seu oratório, ou lugar de ora­ recebera o teriam justificado e confirmado), mas para r ção. Cristo orou em um jardim, em uma montanha. (1) velar as Suas graças, quão fortes elas eram, para que p Abraão manteve a sua adoração pública, à qual, prova­ dessem ser achadas em louvor, e honra, e glória, 1 Pedro velmente, compareciam os seus vizinhos, para poderem 1.7. Da mesma maneira Deus provou Jó, para que pu­ se unir a ele. Observe que os homens bons devem não desse evidenciar ser não somente um bom homem, mas somente conservar a sua bondade onde quer que este­ um grande homem. Deus realmente provou Abraão. Ele jam, mas fazer tudo o que puderem para propagá-la e promoveu Abraão, segundo a interpretação de alguns. fazer bem aos outros. (2) Ao invocarmos o Senhor, deve­ Assim como um aluno que tem bons resultados é promo­ mos considerá-lo como o Deus eterno, o Deus do mundo, vido, quando passa para um nível mais avançado. Obser­ segundo alguns comentaristas. Embora Deus tenha se ve que a fé forte é freqüentemente exercitada através de dado a conhecer a Abraão como o seu Deus, em parti­ fortes provações, e aplicada em serviços difíceis. cular, e em concerto com ele, ainda assim Abraão não se esquece de glorificá-lo como o Senhor de tudo e de todos: A tentação propriamente dita. Deus apareceu Ele é o Deus eterno que era antes de todos os mundos, e a Abraão, como já tinha feito anteriormente, que será, quando o tempo e os dias não existirem mais. chamando-o pelo nome, Abraão, o nome que lhe tinha Veja Isaías 40.28. sido dado na ratificação da promessa. Abraão, como um bom servo, prontamente respondeu: “Eis-me aqui”. O que diz o meu Senhor ao seu servo? Provavelmente ele esperava alguma promessa renovada, como aquelas, cap. C a p ít u l o 22 15.1 e 17.1. Mas, para sua grande surpresa, o que Deus tem a dizer a ele, é, em resumo, Abraão, vai, mata o teu Aqui temos a famosa história do sacrifício que filho. E este mandamento lhe é dado em uma linguagem Abraão faz do seu filho Isaque, isto é, o seu ofe­ tão desagradável que torna a prova abundantemente mais recimento em holocausto, que é, com razão, consi­ dolorosa. Quando Deus fala, Abraão, sem dúvida, perce­ derada como uma das maravilhas da igreja. Aqui be cada palavra e ouve atentamente a cada uma delas. E temos: I. O estranho mandamento que Deus deu cada palavra aqui é uma espada nos seus ossos: a tentação a Abraão, a este respeito, w. 1,2. II. A estranha se endurece com palavras tentadoras. Será que a necessi­ obediência de Abraão a este mandamento, w. dade de permitir a aflição na vida de alguém traz algum •3-10. III. O estranho resultado desta prova. 1. O prazer ao Todo-poderoso? Não, de forma nenhuma. Mas, sacrifício de Isaque recebeu uma contra-ordem, uma vez que a fé de Abraão deve ser posta à prova, alguns w. 11,12. 2. Outro sacrifício foi providenciado, w. entendem que o Senhor Deus parece se comprazer ao 13,14. 3. Nisto o concerto com Abraão foi renova­ permitir que a prova piore, v. 2. Observe que: do, w. 15-19. Finalmente, um relato de alguns dos 1. A pessoa que deve ser oferecida em sacrifício. (1) parentes de Abraão, v. 20ss. “Toma teu filho”, não teus bezerros e teus cordeiros. Com que disposição Abraão teria se separado de milha­ res deles, para redimir a Isaque! “Da tua casa não tirarei Abraão Recebe o Mandamento de bezerro”, Salmos 50.9. “Eu quero o teu filho: não o teu Oferecer Isaque servo, nem o mordomo da tua casa, que não servirão a w. 1,2 este propósito. Eu quero o teu filho”. Alguns entendem que Jefté, para cumprir um juramento, ofereceu uma fi­ Aqui está o teste da fé de Abraão, que visava com­ lha. Mas Abraão deve oferecer o seu filho, em quem devia provar se ela continuava tão forte, tão vigorosa, tão vi­ ser edificada a sua família. “Senhor, permita que seja um toriosa, depois de um longo período de comunhão com filho adotivo”. Não. (2) O “teu único filho”. O teu único fi­ Deus, como era no início, quando, por esta fé, ele deixou lho, gerado por Sara. Ismael tinha sido expulso recente­ a sua terra. Naquela ocasião, ficou evidente ele amava a mente, para a tristeza de Abraão. E agora somente tinha Deus mais do que aos seus pais. Agora, que ele o amava ficado Isaque, e ele deveria ir, também? Sim: (3) Toma mais do que ao seu filho. Observe aqui: Isaque, pelo nome, o teu riso, este filho, realmente, cap. 17.19. Não mande buscar Ismael, e ofereça a ele. Não, A ocasião em que Abraão foi posto à prova (v. 1): De­ deve ser Isaque. “Mas, Senhor, eu amo Isaque, ele é, pois destas coisas, depois de todos os outros trabalhos para mim, como a minha própria alma. Ismael não está, que ele tinha tido, todas as dificuldades e os problemase o Senhor deseja tomar Isaque também? Tudo está con­ pelos quais tinha passado. Agora, talvez ele estivesse co­tra mim”. Sim: (4) Este filho “a quem amas”. Era uma meçando a pensar que as tempestades já tivessem pas­ prova do amor de Abraão por Deus, e, portanto, deveria n m I w. 3-10 GÊNESIS 22 120 ser um filho amado, e isto é muito enfatizado. No texto sempre, tanto dele, como do seu Deus. 6. O que diriam hebraico isto é expresso mais enfaticamente e, na minha os egípcios, e os cananeus, e os ferezeus, que habitavam, opinião, pode muito bem ser interpretado assim: Toma então, na terra? Seria uma crítica eterna a Abraão, e aos agora este teu filho, teu único filho, a quem amas, este seus altares. “Bem vinda seja a natureza, se isto for a Isaque. O mandamento de Deus deve superar todas as graça”. Estas e muitas outras objeções similares pode­ riam ter sido feitas. Mas Abraão estava infalivelmente nossas ponderações e considerações. 2.0 lugar: Na “terra de Moriá”, a três dias de viagem. certo de que era realmente um mandamento de Deus, Para que Abraão tivesse tempo de considerar a situação, e não um engano, e isto era o suficiente para responder e, se o fizesse, deveria fazê-lo deliberadamente, para que a todas as objeções. Observe que os mandamentos de Deus não devem ser discutidos, mas obedecidos. Nós pudesse ser um serviço mais razoável e mais honroso. 3. O método: “Oferece-o ali em holocausto”. Ele nãonão devemos consultar carne nem sangue sobre eles (G1 somente deve matar o seu filho, mas matá-lo como um 1.15,16), mas, com uma obstinação graciosa, persistir na sacrifício, matá-lo com devoção, matá-lo segundo regras, nossa obediência a eles. matá-lo com toda aquela pompa e cerimônia, com toda aquela serenidade e paz de espírito com que ele costu­ T T Os diversos passos da obediência, que ajudam a enJL X grandecê-la, e a mostrar que Abraão era guiado pela mava fazer suas ofertas em holocausto. prudência, e governado pela fé em toda aquela situação. 1. Ele se levanta muito cedo, v. 3: “Então, se levantou Abraão pela manhã, de madrugada”. Provavelmente o A Obediência de Abraão mandamento lhe foi dado nas visões da noite, e bem cedo, w. 3-10 na manhã seguinte, ele se dispõe a executá-lo - não demo­ Aqui temos a obediência de Abraão a este manda­ rou, não hesitou, não tomou tempo para deliberar. Pois o mento severo. “Ofereceu Abraão a Isaque, quando foi mandamento era peremptório, e não admitiria um debate. Observe que aqueles que fazem a vontade de Deus since­ provado”, Hebreus 11.17. Observe: ramente a farão rapidamente. Enquanto nós nos demora­ As dificuldades que Abraão superou, neste ato de obe­ mos, o tempo é perdido, e o coração, endurecido. 2. Ele prepara as coisas para um sacrifício e, como se diência. Muito poderia ter sido objetado contra tal ato. 1. Parecia ser diretamente contrário a uma lei anterior de ele mesmo fosse um gibeonita, aparentemente, com as Deus, que proíbe o assassinato, sob penalidade severa, suas próprias mãos ele fendeu a lenha para o holocausto, cap. 9.5,6. Pode o Deus imutável contradizer a si mesmo? para que não fosse necessário procurá-la quando o sa­ Aquele que detesta o roubo para oferta cle holocausto (Is crifício fosse oferecido. Os sacrifícios espirituais devem 61.8, versão RA) não pode comprazer-se no assassinato ser preparados. 3. É muito provável que ele não tenha dito nada a para tal oferta. 2. Como isto poderia ser coerente com o afeto natural pelo seu próprio filho? Não seria somen­ Sara sobre isto. Esta é uma viagem sobre a qual ela te assassinato, mas o pior dos assassinatos. Não pode não deve saber nada, para não impedir a sua realização. Abraão ser obediente, a menos que seja desnaturado? Se Existem tantas coisas nos nossos próprios corações que Deus insiste em um sacrifício humano, este sacrifício não tentam impedir o nosso progresso em nossos deveres poderá ser outro senão Isaque, e ninguém senão Abraão que precisamos nos afastar, tantas vezes quanto possa­ poderá ser o ofertante? Deve, o pai dos fiéis, ser o maior mos imaginar, do caminho de outros impedimentos. 4. Abraão olhou cuidadosamente à sua volta, para en­ monstro dentre todos os pais? 3. Deus não lhe apresentou nenhuma razão para isto. Quando Ismael estava prestes contrar o lugar indicado para este sacrifício, ao qual Deus a ser expulso, uma causa justa foi determinada, o que sa­ tinha prometido dirigi-lo através de algum sinal. Provavel­ tisfez a Abraão. Mas aqui, Isaque deve morrer, e Abraão mente a orientação foi dada por uma manifestação da gló­ deve matá-lo, e nenhum deles sabe o motivo ou o objetivo ria divina no lugar, alguma coluna de fogo que desceu do disto. Se Isaque tivesse que morrer como um mártir pela céu à terra, visível à distância, e à qual ele apontou quando verdade, ou se a sua vida tivesse sido o resgate de outra disse (v. 5): “Eu e o moço iremos até ali” - onde vocês estão vida mais preciosa, teria sido diferente. Ou se ele tivesse vendo a luz - “e, havendo adorado, tornaremos”. 5. Ele deixou seus servos a alguma distância (v. 5), para morrido como um criminoso, um rebelde contra Deus, ou seus pais, como no caso do idólatra (Dt 13.8,9), ou do fi­ que não intercedessem ou criassem alguma perturbação lho rebelde (Dt 21.18,19), isto teria sido aceito como um nesta estranha oblação. Pois Isaque era, sem dúvida, que­ sacrifício à justiça. Mas este não é o caso: ele é dócil, obe­ rido por toda a família. Da mesma maneira, quando Cristo diente, promissor, um bom filho. “Senhor, que bem pode iniciou a sua agonia no jardim, Ele levou consigo somente trazer o seu sangue...” 4. Como seria isto coerente com a três dos seus discípulos, e deixou os demais na entrada do promessa? Não tinha sido dito: “Em Isaque será chama­ jardim. Observe que é nossa prudência e dever, quando da a tua descendência”. Mas o que será desta semente, vamos adorar a Deus, deixar de lado todos aqueles pensa­ se este botão fértil for cortado cedo demais? 5. Como ele mentos e preocupações que podem nos distrair do serviço, poderia olhar Sara nos olhos novamente? Com que ex­ deixá-los no pé do monte, para que possamos comparecer pressão em seu rosto ele pode voltar para ela, e para a diante do Senhor sem distrações. 6. Ele obrigou Isaque a carregar a lenha, tanto para sua família, com o sangue de Isaque respingado nas suas vestes, e manchando toda a sua vestimenta? “Certamente testar a sua obediência em uma questão pequena, a prin­ me és um esposo sanguinário”, diria Sara (como em Êxo­ cípio, quanto para que ele pudesse representar a Cristo, do 4.25,26), e provavelmente afastaria os seus afetos para que carregou a sua própria cruz (Jo 19.17), enquanto I 121 GÊNESIS 22 w. 3-10 ele mesmo, embora soubesse o que estava fazendo, com ele chega, por fim, ao lugar fatal, edifica o altar (um uma resolução firme e destemida levava o cutelo fatal e o altar de terra, podemos supor, o mais triste que ele fogo, v. 6. Observe que aqueles que, pela graça, estão de­ construiu. E ele já tinha construído muitos), coloca em cididos quanto ao conteúdo de qualquer serviço ou oferta ordem a pilha de lenha para o funeral do seu Isaque, a Deus devem ignorar as pequenas circunstâncias que o e agora ele lhe conta as assombrosas notícias: Isaque, tornam duplamente difícil para a carne e o sangue. você é o cordeiro que Deus proveu. Isaque, ao que pa­ 7. Sem nenhuma irritação ou desordem, ele conver­ rece, está tão disposto quanto Abraão. Nós não lemos sa com Isaque, como se o sacrifício que ele ia oferecer que ele tenha levantado objeções contra isto, que tenha fosse apenas um sacrifício comum, w. 7,8. (1) Enquanto implorado pela sua vida, que tenha tentado escapar, caminhavam juntos Isaque lhe fez uma pergunta muito muito menos que tenha lutado com seu envelhecido pai, comovente. Isaque disse: “Meu pai”. Esta era uma pala­ ou oferecido qualquer resistência. Abraão o faz, pois vra enternecedora, que, poderíamos pensar, penetraria Deus deseja que seja feito, e Isaque aprendeu a se sub­ mais fundo no peito de Abraão do que o seu cutelo po­ meter a ambos, com Abraão, sem dúvida, consolando-o deria penetrar no peito de Isaque. Ele poderia ter dito, com as mesmas esperanças com as quais ele mesmo, ou pensado: “Não chame de seu pai a quem agora será o pela fé, era consolado. Ainda assim, é necessário que seu assassino. Pode um pai ser tão bárbaro, tão perfeita­ o sacrifício seja amarrado. O grande sacrifício, que na mente perdido a toda a ternura de um pai?” Mas ele con­ plenitude do tempo seria oferecido, deveria ser amar­ serva o seu temperamento, e conserva a sua aparência, rado. Portanto, o de Isaque também deveria ser. Mas admiravelmente. Calmamente ele espera pela pergunta com que coração Abraão poderia atai' estas mãos sem do seu filho, que foi a seguinte: “Eis aqui o fogo e a le­ culpa, que talvez freqüentemente tivessem se erguido nha, mas onde está o cordeiro para o holocausto?” Veja para pedir a sua bênção, e se estendido para abraçá-lo, como Isaque era conhecedor da lei e dos costumes nos e agora eram mais firmemente amarradas com as cor­ sacrifícios. Isto é ser bem discipulado. Esta foi: [1] Uma das do amor e do dever! No entanto, isto deve ser feito. pergunta dolorosa para Abraão. Como Abraão poderia Tendo amarrado Isaque, Abraão o deita sobre o altar, suportar pensar que Isaque seria o cordeiro? E ele re­ e coloca a sua mão na cabeça do seu sacrifício. E agora, almente o seria. Mas o pai ainda não ousa dizer-lhe isto. supomos, com rios de lágrimas, ele dá e recebe o adeus O bondoso Deus não se preocupa com a prova daqueles final com um beijo de despedida: talvez ele receba mais inocentes que têm a fé como armadura, pois Ele sempre um beijo de seu filho, que estava prestes a morrer, para lhes dará a vitória final, Jó 9.23. [2] Uma pergunta que que o transmitisse a Sara. Tendo feito isto, Abraão de­ ensina a todos nós que, quando vamos adorar a Deus, de­ cididamente se esquece dos seus sentimentos paternos, vemos seriamente considerar se temos tudo preparado, e veste a terrível seriedade de um sacrificador. Com um especialmente o cordeiro para o holocausto. Eis aqui o coração decidido, e um olho dirigido ao céu, ele toma o fogo, a ajuda do Espírito e a aceitação de Deus. A lenha cutelo, e estende a mão para desferir o golpe fatal na está preparada, as ordenanças instituídas designadas a garganta de Isaque. Assombre-se, ó céu, com isto. E despertar nossos afetos (que, realmente, sem o Espírito, maravilhe-se, ó terra! Aqui está um ato de fé e obedi­ são somente como a lenha sem o fogo, a menos que o Es­ ência, que merece ser um espetáculo para Deus, para pírito trabalhe por eles). Tudo está preparado, mas onde os anjos e para os homens. O amado de Abraão, o riso está o cordeiro? Onde está o coração? Ele está pronto de Sara, a esperança da igreja, o herdeiro da promes­ para ser ofertado a Deus, para ascender até Ele como sa, está deitado, pronto para sangrar e morrer pela um holocausto? (2) A resposta que Abraão lhe deu foi mão do seu próprio pai, que não recua ao fazê-lo. Esta muito sábia: “Deus proverá para si o cordeiro para o ho­ obediência de Abraão, ao oferecer Isaque, é uma re­ locausto, meu filho”. Esta era a linguagem, ou: [1] Da sua presentação vívida: (1) Do amor de Deus por nós, ao obediência. “Nós devemos oferecer o cordeiro que Deus entregar o seu Filho Unigénito para sofrer e morrer designou que seja oferecido agora”. Dando-lhe, desta por nós, como sacrifício. Ao Senhor agradou moê-lo. maneira, esta regra geral de submissão à vontade divina, Veja Isaías 53.10; Zacarias 13.7. Abraão era obriga­ para prepará-lo à aplicação dela, a si mesmo, muito em do, tanto por dever como por gratidão, a abrir mão breve. Ou: [2] Da sua fé. Quer ele quisesse dizer isto ou de Isaque, e a entregá-lo ao seu melhor amigo. Mas não, este provou ser o significado. Um sacrifício foi for­ Deus não tinha esta obrigação para conosco, pois nós necido, em lugar de Isaque. Em primeiro lugar, Cristo, o éramos seus inimigos. (2) Do nosso dever para com grande sacrifício expiatório, foi fornecido por Deus. Uma Deus, em retribuição àquele amor. Nós devemos pisar vez que ninguém no céu ou na terra pôde encontrar um nas pegadas desta fé de Abraão. Deus, pela sua Pala­ cordeiro para aquele holocausto, o próprio Deus encon­ vra, nos chama para abrirmos mão de tudo, por amor trou o resgate, Salmos 49.7; 89.20. Em segundo lugar, to­ a Cristo - de todos os nossos pecados, mesmo que se­ dos os nossos sacrifícios de gratidão também são forne­ jam como uma mão direita, ou como um olho direito, cidos por Deus. É Ele quem prepara o coração, Salmos ou ainda como um Isaque - de todas aquelas coisas 10.17. O espírito quebrantado e contrito é um sacrifício a que competem pela soberania do coração e que assim Deus (SI 51.17), fornecido por Ele. se tornam rivais de Cristo (Lc 14.26). E nós devemos 8. Com a mesma determinação e serenidade de abrir mão de tudo, alegremente. Deus, pela sua provi­ espírito, depois de muitas considerações do coração, dência, que é verdadeiramente a sua voz, às vezes nos Abraão se dispõe a completar este sacrifício, w. 9,10. chama a abrir mão de um Isaque. E nós devemos fazer Ele prossegue com uma disposição santa - depois de isto com uma resignação satisfeita e também com uma muitos passos cansativos e com um coração pesaroso submissão à sua santa vontade, 1 Samuel 3.18. GÊNESIS 22 w. 11-14 Isaque É Resgatado w. 11-14 Até aqui, esta história foi muito melancólica e pare­ ceu precipitar-se a um final muito trágico. Mas aqui o céu subitamente se abre, surge o sol e um cenário es­ plendoroso e agradável. A mesma mão que tinha ferido e deprimido agora cura e eleva. Pois, embora Ele cause dor, Ele terá compaixão. O anjo do Senhor, isto é, o pró­ prio Deus, o Verbo eterno, o anjo do concerto, que seria o grande Redentor e Consolador, intercedeu, e deu um final feliz a esta prova. Isaque é resgatado, w. 11,12. O mandamento de ofeIE, tendo recê-lo tinha a finalidade de ser somente uma prova. sido demonstrado como a prova de que Abraão realmente amava a Deus mais do que amava a Isaque, o objetivo do mandamento foi alcançado. E por isto é dada uma contra-ordem, sem nenhum reflexo sobre a imuta­ bilidade dos conselhos divinos: “Não estendas a tua mão sobre o moço”. Observe que: 1. É mais provável que os nossos consolos, que temos como criaturas, permaneçam em nós quando estivermos mais dispostos a resigná-los de acordo com a vontade de Deus. 2. O tempo de Deus ajudar e aliviai' o seu povo é aquele em que este é trazido às situações mais extremas. Quanto mais iminente for o perigo, e mais próxima estiver a execução, mais maravi­ lhosa e mais bem vinda será a libertação. Abraão não é somente aprovado, mas aplaudido. n Ele obtém um testemunho honroso de que é jus­ to: “Agora sei que temes a Deus”. Deus sabia disto antes, mas agora Abraão deu uma evidência mais memorável disto. Ele não precisava fazer mais nada. O que ele tinha feito era suficiente para provar a consideração religiosa que tinha por Deus e pela sua autoridade. Observe que: 1. Quando Deus, pela sua providência, impede a reali­ zação das nossas sinceras intenções nos seus serviços, graciosamente aceita a intenção da obra, e o empenho honesto, embora a obra não seja concluída. 2. A melhor evidência do nosso temor a Deus é o fato de estarmos dispostos a servi-lo e honrá-lo com aquilo que nos é mais querido, e a entregar tudo a Ele, ou por Ele. Outro sacrifício é fornecido, em lugar de Isa­ que, v. 13. Agora que o altar tinha sido edifica­ do, e a lenha tinha sido posta em ordem, era necessário que alguma coisa fosse oferecida. Pois: 1. Deus deve ser reconhecido com gratidão pela libertação de Isaque. E como já há um altar pronto, quanto mais cedo chegar a bênção, melhor será. 2. As palavras de Abraão devem se cumprir: “Deus proverá para si o cordeiro”. Deus não irá desapontar as expectativas do seu povo, que foram cria­ das por Ele mesmo. Mas o bondoso e precioso Senhor os atenderá segundo a medida da fé que nele depositarem. “Determinando tu algum negócio, ser-te-á firme” (Jó 22.28). 3. Deve ser feita referência ao Messias prometi­ do, a bendita semente. (1) Cristo foi sacrificado em nosso lugar, assim como este cordeiro o foi no lugar de Isaque. E a sua morte foi a nossa absolvição. Aqui estou (diz o Senhor Jesus, em outras palavras). Deixai ir estes (Jó 18.8). (2) Embora aquela bendita semente tivesse sido 122 recentemente prometida, e agora fosse representada por Isaque, ainda assim a oferta dele seria suspensa até o fim do mundo. E, enquanto isto, deveria ser aceito o sacrifício de animais, como o deste cordeiro, como um penhor daquela expiação que um dia seria feita por aque­ le grande sacrifício. E é notável que o templo, o lugar de sacrifício, tenha sido posteriormente edificado sobre este monte Moriá (2 Cr 3.1). E o monte do Calvário, onde Cristo foi crucificado, não ficava distante. Um novo nome é dado ao lugar, para a honra de Deus, e para o incentivo de todos os crentes, até o fim do mundo, para que confiem alegremente em Deus no caminho da obediência: Jeová-Jiré, O Senhor prove­ rá (v. 14), provavelmente aludindo ao que Abraão tinha dito (v. 8): “Deus proverá para si o cordeiro”. Isto não se devia a nenhuma invenção de Abraão, nem era uma resposta à sua oração, embora ele fosse um intercessor distinto. Mas foi puramente obra do Senhor. Que fique registrado para as gerações futuras: 1. Que o Senhor verá. Ele sempre terá os seus olhos sobre o seu povo em meio aos apuros e dificuldades que enfrentarem, para poder se apresentar com o socorro oportuno na situa­ ção mais crítica. 2. Que Ele será visto, visto no monte, nas maiores perplexidades do seu povo. Ele não somente irá manifestar, mas engrandecer, a sua sabedoria, o seu poder e a sua bondade, na libertação do seu povo. Onde Deus vê e provê, Ele deve ser visto e louvado. E, talvez, isto possa se referir ao Deus manifesto em carne. A Bênção de Abraão É Confirmada w. 15-19 A obediência de Abraão foi graciosamente aceita. Mas isto não foi tudo: aqui nós a vemos recompensa­ da, abundantemente recompensada, antes que ele saia deste lugar. Provavelmente enquanto o cordeiro que ele tinha sacrificado ainda estava queimando, Deus lhe en­ viou esta graciosa mensagem, renovando e ratificando o seu concerto com ele. Todos os concertos eram fei­ tos através de sacrifícios. E este também o foi, atra­ vés do sacrifício tipificado por Isaque e pelo cordeiro. Expressões muito elevadas do favor de Deus a Abraão são empregadas nesta confirmação do concerto com ele, expressões que excedem qualquer bênção com que ele tivesse sido abençoado anteriormente. Observe que serviços extraordinários serão coroados com honras e consolos extraordinários. E os favores contidos na pro­ messa, embora ainda não realizados, devem ser consi­ derados como recompensas reais e valiosas. Observe que: 1. Deus se compraz em mencionar a obediência de Abraão como a razão do concerto. E Ele fala sobre isto com louvor: “Porquanto fizeste esta ação e não me ne­ gaste o teu filho, o teu único”, v. 16. Ele coloca uma forte ênfase nisto, e (v. 18) elogia como um ato de obediência: Obedeceste à minha voz, e obedecer é melhor do que fazer sacrifícios. Não que esta fosse uma retribuição proporcional, mas Deus graciosamente concede esta honra, colocando-a sobre aquilo com que Abraão o tinha honrado. 2. Agora Deus confirmava a promessa com um juramento. Foi dito e selado anteriormente. Mas agora 123 GÊNESIS 23 w. 20-24 é jurado: “Por mim mesmo, jurei”. Pois “não tinha outro nificada com privilégios peculiares, aceita no concerto, e maior por quem jurasse”, Hebreus 6.13. Desta maneira abençoada com a transmissão da promessa, ainda assim Ele se interpôs com juramento, como expressa o após­ não considerou com desprezo e desdém os seus parentes, tolo, Hebreus 6.17. Ele (para falar com reverência) até mas ficou feliz por ouvir sobre o crescimento e a prospe­ mesmo empenha nisto a sua própria vida e existência ridade das suas famílias. 2. Para abrir caminho à história (como Eu vivo), e, por todas aquelas coisas imutáveis, seguinte, que fala sobre o casamento de Isaque com Renas quais é impossível que Deus minta, Abraão e os seus beea, uma filha desta família. teriam grandes consolações. Observe que se exercitar­ mos a nossa fé, Deus irá encorajá-la. Regozije-se nas promessas e aproprie-se delas, e Deus as ratificará em C a pít u l o 2 3 sua vida. 3. A promessa particular aqui renovada é a de uma numerosa descendência: “Deveras te abençoarei e grandissimamente multiplicarei a tua semente”, v. 17. Aqui temos: I. Abraão, lamentando a morte de Observe que aqueles que estiverem dispostos a abrir Sara, w. 1,2. II. Abraão comprando uma sepul­ mão de qualquer coisa por amor a Deus, terão uma tura para Sara. 1. A compra humildemente pro­ grande compensação, acrescida de uma vantagem in­ posta por Abraão, w. 3,4. 2. A compra tratada descritível. Abraão tem um único filho, e está disposto a corretamente, e combinada com uma grande abrir mão dele, em obediência a Deus. “Bem”, diz Deus, demonstração de civilidade, cortesia e respei­ “você será recompensado com milhares e milhões”. to mútuo, w. 5-16. 3. O pagamento referente à Que número impressionante de pessoas a semente de compra, v. 16. 4. As condições expressas e asse­ Abraão soma na história! Quão numerosos, ilustres e guradas a Abraão, w. 17,18,20. -5. O sepultamenfamosos foram os seus descendentes conhecidos e ou­ to de Sara, v. 19. tros tantos que, até hoje, triunfam na fé, por terem tido Abraão como seu pai! Assim ele recebeu centenas de vezes mais nesta vida, Mateus 19.29. 4. A promessa, A Morte de Sara sem dúvida, aponta para o Messias, e a graça do Evan­ w. 1,2 gelho. Este é o juramento feito ao nosso pai Abraão, a que Zacarias se refere, Lucas 1.73ss. E aqui está uma Aqui temos: 1. A idade de Sara, v. 1. Quase quarenta promessa: (1) Da grande bênção do Espírito: Abenço­ anos antes, ela tinha dito que havia envelhecido, cap. ando, te abençoarei, especificamente com a melhor das 18.12. Reconhecer que está envelhecida jamais fará bênçãos, o dom do Espírito Santo. A promessa do Espí­ com que alguma pessoa morra mais cedo, mas fará com rito foi aquela bênção prometida a Abraão que deveria que o processo de passagem desta vida para a eterna vir sobre os gentios, por meio do precioso Salvador, o seja muito melhor. 2. A sua morte, v. 2. Mesmo aque­ Senhor Jesus Cristo, Gálatas 3.14. (2) Do crescimento les que vivem mais, devem morrer, por fim. Abraão e da igreja, de que os crentes, a sua semente espiritual, Sara tinham vivido confortavelmente juntos por muitos seria tão numeroso como as estrelas dos céus. (3) De anos. Mas a morte separa aqueles a quem nada mais vitórias espirituais: “A tua semente possuirá a porta pode separar. Os amigos especiais e favoritos do céu dos seus inimigos”. Os crentes, pela sua fé, dominam não estão livres do golpe da morte. Ela morreu na terra o mundo e triunfam sobre todos os poderes das trevas, de Canaã, onde tinha estado durante mais de sessenta e são mais do que vencedores. Provavelmente Zacarias anos como peregrina. 3. O lamento de Abraão por ela. se refere a esta parte do juramento (Lc 1.74), ao falar Ele realmente lamentou. Ele não somente realizou as do juramento que Deus fez a Abraão: “De conceder-nos cerimônias fúnebres, de acordo com os costumes da­ que, libertados das mãos de nossos inimigos, o servísse­ quele tempo, como os pranteadores que andavam pelas mos sem temor”. Mas coroando tudo vem a última pro­ ruas, mas sinceramente lamentou a grande perda que messa. (4) Da encarnação de Cristo: “Em tua semente” sofria, de uma boa esposa, e deu prova da constância do - uma pessoa em particular que será teu descendente seu afeto por ela até o final. Duas palavras são usadas: (pois Ele não fala de muitos, mas de um, como obser­ “Veio Abraão lamentar a Sara e chorar por ela”. A sua va o apóstolo, Gálatas 3.16) - “serão benditas todas as tristeza não era fingida, mas real. Ele veio à tenda de nações da terra” ou se bendirão, como está expresso Sara, e se sentou ao lado do corpo, para pagar o tributo em Isaías 65.16. Nele todos poderão ser felizes se o das suas lágrimas, e para que os seus olhos pudessem desejarem, e todos os que pertencerem a Ele o serão, comover o seu coração. Assim Abraão poderia prestar e assim se considerarão. Cristo é a grande bênção do um respeito maior à memória daquela que tinha morri­ mundo. Abraão estava disposto a sacrificar o seu filho do. Observe que não é somente lícito, mas é um dever como um gesto de honra a Deus. E, nesta ocasião, Deus lamentar a morte dos nossos parentes próximos, tanto prometeu dar o seu Pilho em sacrifício pela salvação em obediência à providência de Deus, que nos chama do homem. para lamentar e chorar, como em honra daqueles a quem tal honra é devida. As lágrimas são um tributo devido aos nossos amigos falecidos. Quando um corpo é w. 20-24 semeado, deve ser regado. Mas não devemos lamentar como aqueles que não têm esperança. Pois nós temos Isto está registrado aqui: 1. Para mostrar que em­ uma boa esperança, por meio da graça, tanto a respeito bora Abraão visse a sua própria família altamente dig­ deles, quanto a nosso respeito. w. 3-15 GÊNESIS 23 124 bre generosidade destes cananeus envergonha e conde­ A Cova de Macpela na a reserva, e o egoísmo e o mau humor de muitos que w. 3-15 se dizem israelitas. Observe que estes cananeus ficariam felizes de misturar o seu pó com o de Abraão, e de ter o Aqui temos: seu fim como o dele. T O humilde pedido que Abraão fez aos seus vizinhos, X os heteus, de um sepulcro entre eles, w. 3,4. Era I T T A proposta particular que Abraão lhes fez, w. estranho que ele tivesse que fazer isso agora. Mas nós 1 1 1 7-9. Ele lhes retribui seus agradecimentos pela devemos imputá-lo mais à providência de Deus do que gentil oferta, com toda decência e respeito possíveis. Em­ à sua imprevidência, como fica claro em Atos 7.5, onde bora um grande homem, um velho, e agora um pranteador, está escrito que Deus não lhe deu herança em Canaã. ainda assim ele se levantou e se inclinou humildemente Seria bom se todos aqueles que têm a preocupação de diante deles, v. 7. Observe que a religião procura ensinar providenciar sepulcros para seus corpos depois da morte boas maneiras. E aqueles que a utilizam mal colocam-na tivessem o mesmo cuidado para providenciar um lugar em uma posição rude, e a expõem a uma situação extre­ de repouso para suas almas. Observe aqui: 1. O esque­ mamente desagradável. Então ele escolhe o lugar que jul­ cimento conveniente que esta questão trouxe, momenta­ ga mais conveniente, especificamente, a cova de Macpela, neamente, à tristeza de Abraão: Ele se levantou diante que provavelmente ficava próxima a ele e ainda não tinha do seu morto. Aqueles que se encontram em perigo de la­ sido usada como sepulcro. O proprietário naqueles dias mentar excessivamente pelos seus parentes mortos, e de era Efrom. Abraão não tratou aquela negociação com fin­ entrar nesta tentação, devem tomar cuidado ao meditar gimento e emulações, mas desejou realizar uma transação sobre a sua perda e sentar-se em melancolia. Deve haver justa daquela cova, e do local em que ela se encontrava. um momento de levantar-se diante do seu morto e inter­ Observe que um desejo moderado para obter o que nos é romper o pranto. Pois, graças a Deus, a nossa felicidade conveniente, por meios justos e honestos, não é o mesmo não se prende à vida de nenhuma criatura. Os cuidados que cobiçai' aquilo que é do nosso próximo, e que está proi­ com o funeral podem, como aqui, ser aproveitados para bido no déchno mandamento. que alguém se esqueça, a princípio, da tristeza ocasiona­ da pela morte, que tenta tiranizar a todos. O pranto não O presente que Efrom fez a Abraão, deste local: deve impedir que continuemos trabalhando, semeando e “O campo te dou”, w. 10,11. Abraão pensou que vivendo a vida que o Senhor tem nos concedido. 2. O ar­ ele deveria ser convencido a vendê-lo. Mas, à primeira gumento que Abraão usou com os filhos de Hete, que foi menção disto, sem súplica, Efrom o dá gratuitamente. o seguinte: “Estrangeiro e peregrino sou entre vós” - por Alguns homens são mais generosos do que se supõe que isto estou desprovido - “dai-me possessão de sepultura sejam. Abraão, sem dúvida, tinha aproveitado todas as convosco”. Esta foi uma ocasião que Abraão aproveitou oportunidades para agradar os seus vizinhos e lhes pres­ para confessar que ele era um estrangeiro e peregrino tar qualquer serviço que estivesse ao seu alcance. E ago­ na terra. Ele não se envergonhava de reconhecer isto ra eles desejavam retribuir a gentileza: pois aquele que publicamente, Hebreus 11.13. Observe que a morte dos regar também será regado. Observe que se aqueles que nossos parentes deve efetivamente nos lembrar de que professam temer a Deus adornarem a sua profissão de fé este mundo não é o nosso lar. Quando morre algum ami­ com cortesia e uma atitude que demonstre a disposição de go ou irmão, devemos dizer: “Nós também estamos indo servir a todos, descobrirão que esta bela atitude gerará para o nosso lar eterno”. 3. Seu constrangimento até que um efeito “bumerangue”. Ou seja, as outras pessoas pro­ esta questão fosse solucionada, está indicado nas pala­ curarão fazer algo em beneficio do seu consolo e daquilo vras: “Para que eu sepulte o meu morto de diante da mi­ que lhes for vantajoso, e também glorificarão a Deus. nha face”. Observe que a morte tornará desagradáveis aos nossos olhos aqueles que, enquanto viveram, foram a T 7 A modesta e sincera recusa de Abraão da genealegria dos nossos olhos. A face que era saudável e cheia V rosa oferta de Efrom, w. 12,13. Ele lhe oferece de vida torna-se pálida e assustadora, e adequada a ser agradecimentos abundantes (v. 12), faz a sua reverência removida à terra da escuridão. Enquanto ela estivesse a ele diante da face do povo da terra, para que pudessem diante dos seus olhos, a sua tristeza seria renovava, coisa respeitar ainda mais a Efrom pelo respeito que viam que que ele desejava evitar. Abraão lhe dedicava (1 Sm 15.30), mas decide pagar pelo campo, sim, o valor total deste. Não foi por orgulho que A generosa oferta que os filhos de Hete lhe fi­ Abraão recusou o presente, nem por evitar dever algum zeram, w. 5,6. Eles o saúdam: 1. Com um título tipo de obrigação a Efrom. Mas: 1. Por justiça. Abraão respeitoso: “Príncipe de Deus és no meio de nós”, estas era rico em prata e ouro (cap. 13.2), e podia pagar pelo palavras significam que Abraão não era somente gran­ campo, e por isto não desejava aproveitar-se da gene­ de, mas bom. Abraão tinha dito que era um estrangei­ rosidade de Efrom. Observe que a honestidade, assim ro e peregrino. Porém aqueles que com ele conviviam como a honra, nos proíbe de nos aproveitarmos dos nos­ chamaram-no de grande príncipe. Pois aqueles que se sos vizinhos e de tirar vantagem daqueles que são livres. humilham serão exaltados. Deus tinha prometido en­ Jó refletiu sobre isto com consolo, quando era pobre, grandecer o nome de Abraão. 2. Com uma oferta do me­ mencionando que não tinha comido os frutos da sua terra lhor dos seus sepulcros. Observe que até mesmo a luz da sem dinheiro, Jó 31.39.2. Por prudência. Abraão pagaria natureza nos ensina a sermos corteses e respeitosos com por ele para que Efrom, quando seu bom humor tivesse todos, ainda que sejam estrangeiros e peregrinos. A no­ diminuído, não o censurasse e dissesse: “Eu enriqueci a n 125 GÊNESIS 24 w. 16-20 Abrão” (cap. 14.23), ou para que o próximo herdeiro não pertencesse a Abraão, pela promessa, ainda assim, o questionasse o direito de Abraão (porque essa concessão tempo da posse ainda não era chegado, e aquilo de que era feita sem nenhuma deliberação) e pedisse de volta o necessitava agora, ele comprou e pagou. Observe que o campo. Da mesma maneira, Davi posteriormente recu­ domínio não se baseia na graça. O direito dos santos a sou a oferta de Araúna, 2 Samuel 24.24. Não sabemos uma herança eterna não lhes dá o direito às possessões que tipos de afrontas podemos receber, no futuro, por deste mundo, nem justifica que ajam mal. 2. Efrom, ho­ parte daqueles que agora são muito bondosos e genero­ nestamente e com justiça, confirmou-lhe o direito a esta sos, ou mesmo de seus sucessores. terra, w. 17,18,20. O campo, com tudo o que nele está, é transmitido a Abraão, e aos seus herdeiros, para sem­ O preço da terra fixado por Efrom, mas nãopre, exi­em audiência aberta, não por escrito (não parece gido: “A terra é de quatrocentos siclos de prata” que fosse usada a escrita), mas por tal declaração pública (aproximadamente cinqüenta libras de nossa época. Um e solene diante de testemunhas, o que era suficiente para valor elevado). Que é isto entre mim e ti?, w. 14,15. Ele aprová-lo. Observe que assim como aquilo que é compra­ preferia mais agradar o seu amigo Abraão, do que ter do deve ser honestamente pago, também aquilo que é tanto dinheiro no bolso. Através desta atitude, Efrom re­ vendido deve ser honestamente entregue e garantido. 3. vela: 1. Um grande desprezo pela riqueza terrena. “Que é Abraão, conseqüentemente, toma posse e sepulta Sara isto entre mim e ti?” É uma coisa pequena, nem merece na cova ou câmara (se era formada pela natureza ou por ser discutida. Muitos teriam dito: “É muito dinheiro. Isto arte, não se sabe ao certo), que estava no campo com­ afetará até mesmo a herança que deixarei para os meus prado. É provável que Abraão tivesse enterrado servos filhos”. Mas Efrom diz: “Que é isto?”. Observe que é uma da sua família desde que tinha vindo a Canaã, mas os coisa excelente que as pessoas tenham pensamentos hu­ sepulcros das pessoas comuns (2 Rs 23.6) deveriam ter mildes sobre toda a riqueza deste mundo. A riqueza não sido suficientes para eles. Mas agora que Sara estava é nada, e a vida de um homem não consiste na abundân­ morta, um lugar peculiar deveria ser encontrado, para cia daquilo que possui, Lucas 12.15. 2. Grande cortesia e os seus restos mortais. É digno de nota: (1) Que um se­ consideração pelo seu amigo e vizinho. Efrom não tinha pulcro foi o primeiro pedaço de terra que Abraão possuiu ciúmes de Abraão como um estrangeiro residente, nem o em Canaã. Observe que quando nós estamos entrando invejava como um homem que provavelmente havia pros­ no mundo, é bom pensarmos na nossa saída dele. Pois perado e enriquecido. Efrom não demonstrava nenhum tão logo nascemos, começamos a morrer. (2) Que foi o tipo de má vontade devido à singularidade da religião de único pedaço de terra que ele ali possuiu, embora a terra Abraão, mas era muito mais afável com ele do que a maio­ devesse ser toda sua, no futuro. Aqueles que têm me­ ria das pessoas hoje em dia o é com seus próprios irmãos nos desta terra encontrarão um sepulcro nela. Abraão na fé: “Que é isto entre mim e ti?” Observe que nada (nem conseguiu, não cidades, como Caim, e Ninrode, mas um mesmo alguma questão de menor importância) deveria sepulcro: [1] Para que fosse um constante lembrete da motivar dificuldades ou diferenças entre verdadeiros ir­ morte, a si mesmo e à sua descendência, para que ele mãos. Quando somos tentados a nos mostrar acalorados os seus pudessem aprender a morrer diariamente. Está devido a algum tipo de afronta, a exigir nossos direitos, a escrito que o sepulcro se situava no fim no campo (v. 9): nos comportar de forma ríspida, a negar alguma gentile­ pois, quaisquer que sejam as nossas possessões, existe za, devemos responder à tentação com a seguinte pergun­ um sepulcro no fim delas. [2] Para que fosse um símbolo ta: Que é isto entre mim e meu amigo? da sua fé e expectativa da ressurreição. Pois, por que tal cuidado deveria ser tomado com o corpo, se ele devesse ser lançado fora para sempre, e não devesse ressusci­ O Sepultamento de Sara tar? Abraão, com isto, disse claramente que procurava w. 16-20 uma pátria melhor, isto é, uma pátria celestial. Abraão se satisfaz por estar de passagem, enquanto vive, mas asse­ Aqui temos a conclusão do acordo ente Abraão e gura um lugar onde, quando morrer, a sua carne possa Efrom, acerca do sepulcro. A negociação foi feita publi­ descansar em esperança. camente diante de todos os vizinhos, na presença e aos ouvidos dos filhos de Hete, w. 16,17. Observe que a pru­ dência, assim como a justiça, nos ensina a sermos justos, C apítulo 2 4 e abertos, e honestos, nos nossos negócios. Os contratos fraudulentos odeiam a luz e preferem ser clandestinos. Mas aqueles que têm desígnios honestos nas suas nego­ Casamentos e funerais modificam as famílias, e ciações não se importam com quem as testemunhem. A são as notícias comuns entre os habitantes dos po­ nossa lei estimula que as vendas sejam feitas no mercado voados. No capítulo anterior, vimos a Abraão se­ aberto, e documentadas. Observe que: 1. Abraão, sem pultando sua mulher, aqui o vemos casando seu fi­ qualquer fraude, eomplô ou mais delongas, paga a quan­ lho. Estes histórias, a respeito da sua família, com tia, v. 16. Ele a paga prontamente, sem hesitação - pagaas suas circunstâncias detalhadas, são abundan­ a integralmente, sem diminuição - e paga-a por peso, a temente relatadas, ao passo que as histórias dos moeda corrente do comércio, sem fraude. Veja há quanto reinos do mundo, que então existiam, com as suas tempo o dinheiro era usado para auxiliar o comércio. E revoluções, estão sepultadas em silêncio. Pois o veja quão honestamente o dinheiro deve ser pago, quan­ Senhor conhece os que são seus. A proximidade do do é devido. Observe que embora toda a terra de Canaã casamento de Isaque com o funeral de Sara (com GÊNESIS 24 126 nela e vencidos, 2 Pedro 2.20. Cuidado para não fazê-los uma referência particular a ele, v. 67), nos mostra tornar outra vez, Hebreus 11.15. que “quando morre uma geração, outra nasce”. E assim a transmissão da natureza humana, assim A incumbência que ele deu a um bom servo, pro­ como do concerto, é preservada. Aqui temos: I. A vavelmente o damasceno Eliézer, cuja conduta, preocupação de Abraão com o casamento do seu fidelidade e afeto, para com ele e a sua família, Abra filho, e a incumbência que deu ao seu servo, a este já conhecia já muito tempo. Ele confiou-lhe esta gran respeito, w. 1-9. II. A viagem do seu servo pela missão, e não ao próprio Isaque, porque não deseja região de Abraão, à procura de uma esposa para que Isaque fosse de maneira nenhuma àquela região, o seu jovem mestre, entre os seus próprios paren­ mas se casasse ali, por procuração. E nenhuma procu­ tes, w. 10-14. III. A gentil providência que o fez ração era mais adequada do que este mordomo da sua conhecer a Rebeca, cujo pai era primo-irmão de casa. Esta questão é acertada entre o amo e o servo, com Isaque, w. 15-28. IV O acordo de casamento com grande cuidado e solenidade. 1. O servo deve estar obri­ os parentes dela, w. 29-49. V A obtenção do con­ gado, por um juramento, a fazer o máximo que puder sentimento deles, w. 50-60. VI. O feliz encontro e para conseguir uma esposa para Isaque, entre os seus o casamento entre Isaque e Rebeca, v. 61ss. parentes, w. 2-4. Abraão o fez jurar isto, tanto para a sua própria satisfação, quanto para o envolvimento do seu servo, com todo cuidado e diligência possíveis, nesta A Incumbência de Abraão ao seu Servo questão. Da mesma maneira, Deus faz com que os seus w. 1-9 servos jurem fidelidade ao seu trabalho, para que, ten­ Très coisas podemos observar aqui, a respeito de do jurado, possam realizá-lo. Aqui é feita honra ao Deus eterno. Pois o juramento é por Ele, pois por Ele, e so­ Abraão. mente por Ele, devem ser feitas estas petições. E alguns A preocupação que tinha com um bom filho, de vê-lo julgam que pela cerimônia aqui empregada (a cerimônia casado, bem casado. Era hora de pensar nisto agora, de colocar a mão do servo debaixo da coxa de Abraão) pois Isaque tinha aproximadamente quarenta anos dese fez honra ao concerto da circuncisão. Observe que o idade, e era costume, entre os seus antepassados, casar-juramento, sendo uma ordenança não peculiar à igreja, se aos trinta anos, ou mais cedo, cap. 11.14,18,22,24. mas comum à humanidade, deve ser realizado com os si­ Abraão creu na promessa da edificação da sua família, nais que são indicações e usos comuns da região, para e, portanto, não se precipitou. A pressa é inimiga da comprometer a pessoa ao juramento. 2. Ele estará livre perfeição. Duas considerações o levaram a preocupar-se do juramento se, mesmo depois de ter feito o máximo, com isto agora (v. 1): 1. A primeira dizia respeito ao fato não conseguir o seu intento. O servo prudentemente in­ de que era provável que ele mesmo deixaria em breve o seriu uma condição (v. 5), propondo o caso de que a mu­ mundo, pois era já velho e adiantado em idade, e ver o lher não o seguisse. E Abraão permitiu a exceção, v. 8. seu filho estabelecido seria para ele uma satisfação an­ Observe que os juramentos devem ser feitos com grande tes de morrer. E: 2. A segunda dizia respeito ao fato de precaução, e o assunto jurado deve ser corretamente que ele tinha uma boa quantidade de bens para deixar, compreendido e limitado. Observe que fazer, depois dos pois o Senhor o havia abençoado em tudo. E a bênção do votos, as perguntas que deveriam ter sido feitas antes, é Senhor enriquece. Veja o quanto a religião e a piedade uma armadilha que devora aquilo que é santo. favorecem a prosperidade exterior. A preocupação pie­ A confiança que Abraão tinha em um Deus dosa de Abraão a respeito do seu filho consistia em que: bom, que - ele não tem dúvidas - daria ao (1) Ele não se casasse com uma filha de Canaã, mas com uma jovem da sua parentela. Ele via que os cananeus seu servo sucesso nesta missão, v. 7. Ele se lembra de estavam se degenerando em grande iniqüidade, e sabia, que Deus o tinha tirado prodigiosamente da terra do por meio de revelação, que eles estavam destinados à ru­ seu nascimento, pelo chamado efetivo da sua graça, E ína, e por isto ele não desejava que o seu filho se casasse por isto ele não tem dúvidas de que Ele o faria bem com alguém do meio deles, para que eles não fossem uma sucedido no seu cuidado para não levar o seu filho para cilada para a sua alma, ou pelo menos uma mancha para lá outra vez. Ele se lembra também da promessa que o seu nome. (2) Ele não deixasse a terra de Canaã, para Deus tinha feito e confirmado, de que Ele daria Canaã ir pessoalmente entre os seus parentes, nem mesmo com à sua semente, e, portanto, deduz que Deus iria reco­ o objetivo de escolher uma esposa, para não ver-se ten­ nhecer os seus esforços para casar o seu filho não entre tado a permanecer ali. Esta precaução é mencionada (v. estas nações, mas com uma mulher que fosse adequada 6), e repetida, v. 8: “Não faças lá tornar o meu filho”, não para ser a mãe de tal semente. “Portanto, não tema. importando qual seria o resultado. É melhor que lhe fal­ Ele enviará o seu anjo diante de você, para fazer com te uma esposa, do que ele expor-se à tentação. Observe que o seu caminho seja bem sucedido”. Observe que: 1. que os pais, ao traçar o destino dos seus filhos, devem Aqueles que se mantêm cuidadosamente no caminho do cuidadosamente levar em consideração o bem estar das dever, e se governam pelos princípios da sua religião, suas almas, e a sua perseverança no caminho do céu. nos seus desígnios e empreendimentos, têm boas ra­ Aqueles que, pela graça, escaparam da corrupção que zões para esperar prosperidade e sucesso neles. Deus existe no mundo pela luxúria, e criaram seus filhos cor­ fará com que aquilo que nós sinceramente almejamos retamente, devem tomar cuidado para não fazer alguma para a sua glória resulte em nosso consolo. 2. As pro­ coisa pela qual eles possam ver-se outra vez envolvidos messas de Deus, e as nossas próprias experiências, são w. 1-9 n I 127 GÊNESIS 24 w. 10-28 suficientes para incentivar a nossa confiança em Deus, buscarmos a Deus em todas as incumbências com a qual e as nossas expectativas em relação a Ele, em todas as nos preocupamos, teremos o consolo de ter feito o nosso questões desta vida. 3. Os anjos de Deus são espíritos dever, qualquer que seja o resultado.(2) Ele apela para o ministradores, enviados, não somente para a proteção concerto de Deus com o seu senhor Abraão: “O Senhor, mas também para a orientação dos herdeiros da pro­ Deus de meu senhor Abraão... faze beneficência ao meu messa, Hebreus 1.14. Ele enviará o seu Anjo adiante da senhor Abraão!” Observe que assim como os filhos de tua face - e você será bem sucedido. bons pais, também os servos de bons senhores, têm en­ corajamento especial nas orações que oferecem a Deus, pedindo prosperidade e sucesso. (3) Ele propõe um sinal A Viagem do Servo de Abraão (v. 14), não para limitar a Deus, nem com o desígnio de não prosseguir, se não fosse agraciado nesta tarefa. Mas w. 10-28 a sua oração era: [1] Para que Deus provesse uma boa O servo de Abraão agora começa a ter importância esposa para o seu jovem senhor, e esta era uma boa ora­ nesta história. E, embora o seu nome não seja menciona­ ção. Ele sabia que uma mulher prudente vem do Senhor do, aqui há muitas coisas registradas para a sua honra, e (Pv 19.14), e, portanto, é isto que ele irá perguntar ao como exemplo a todos os servos, que serão honrados se, Senhor. Ele deseja que a esposa do seu senhor seja uma servindo fielmente a Deus e aos seus senhores, adorna­ mulher humilde e trabalhadora, nascida para ocupar-se rem a doutrina de Cristo (compare Provérbios 27.18 com e trabalhar, e disposta a colocar a sua mão em qualquer Tito 2.10). Pois com Deus não há acepção de pessoas, trabalho que tiver que ser feito. E que ela tenha um tem­ Colossenses 3.24,25. Um bom servo que tem consciência peramento cortês e caridade para com os estranhos. Ao do dever da sua posição, e o cumpre em temor a Deus, procurar uma esposa para o seu senhor, ele não foi ao embora não tenha importância no mundo nem o louvor teatro ou ao parque, esperando poder encontrar uma es­ dos homens, será reconhecido e aceito por Deus, e terá o posa ali, mas foi ao poço de água, esperando encontrar seu louvor. Observe aqui: ali uma mulher ocupada. [2] Para que Ele se alegrasse de fazer o seu caminho, neste assunto, claro diante da Quão fiel o servo de Abraão provou ser ao seu se­ sua face, pela coincidência de pequenas circunstâncias a nhor. Tendo recebido a sua incumbência, com toda seu favor. Observe, em primeiro lugar, que é o consolo, prontidão saiu em viagem, com uma bagagem adequada assim como a crença de um homem bom, que a providên­ ao objeto da sua negociação (v. 10), e tinha toda a fazenda cia de Deus se estenda às menores ocorrências e sirva do seu senhor, isto é, um esquema ou uma demonstração admiravelmente aos seus próprios propósitos através particular dos bens de Abraão, na sua mão, para mostrá- delas. Nosso tempo está na mão de Deus. Não somente la àqueles com quem iria tratar. Pois, desde o início até o os eventos propriamente ditos, mas também os seus mo­ final, ele se preocupava com a honra do seu senhor. Sen­ mentos. Em segundo lugar, que é prudente, em todos os do Isaque um tipo de Cristo, alguns interpretam esta nossos assuntos, seguir a Providência, e é tolice forçá-la. busca de uma esposa para ele como representando o Em terceiro lugar, que é muito desejável, e algo pelo que casamento da igreja, por intermédio dos seus servos, os podemos orar licitamente (enquanto, de maneira geral, ministros. A igreja é “a esposa, a mulher do Cordeiro”, nós colocamos a vontade de Deus diante de nós, como Apocalipse 21.9. Cristo é o esposo, e os ministros são os nossa lei), que Ele, por sugestões da providência, nos amigos do esposo (Jo 3.29), cuja função é persuadir as al­ oriente no caminho do nosso dever, e nos dê indicações mas a darem o seu consentimento a Ele, 2 Coríntios 11.2. de qual é a sua vontade. Desta maneira Ele guia o seu A esposa de Cristo não deve pertencer aos cananeus, povo com seus olhos (Pv 32.8), e os guia pela vereda di­ mas deve ser da sua própria parentela, nascida de novo reita, Salmos 27.11. do alto. Os ministros, como o servo de Abraão, devem 2. Deus o atende através de uma providência espe­ dispor de si mesmos com a maior sabedoria e o maior cial. Ele determinou o negócio, e lhe foi estabelecido, Jó cuidado para servir os interesses do seu Senhor. 22.28. De acordo com a sua fé, lhe foi dado. A resposta a esta oração foi: (1) Rápida - “Antes que ele acabasse Com que devoção ele reconheceu a Deus neste de falar” (v. 15), pois está escrito: “E será que... estando assunto, como alguém daquela feliz casa à qual eles ainda falando, eu os ouvirei” (Is 6-5.24). Embora nós Abraão tinha ordenado que guardassem o caminhosejamos do lentos para orar, Deus é rápido para ouvir as Senhor, cap. 18.19. Ele chegou à tarde (depois de muitos orações. (2) Satisfatória: a primeira que veio pegar água dias de viagem) ao lugar de seu destino, e descansou jun­ era, e agiu, em tudo, de acordo com o padrão desejado to a um poço de água, para refletir como poderia tratar por aquele homem. [1] Ela era tão qualificada que em to­ da sua incumbência para a melhor solução. E: dos os aspectos atendia às qualificações que ele desejava 1. Reconheceu a Deus, por meio de uma oração par­em uma mulher que seria a esposa do seu senhor, bonita ticular (w. 12-14), na qual: (1) Ele pede prosperidade e e saudável, humilde e laboriosa, muito cortês e presta­ sucesso nesta incumbência: “Dá-me, hoje, bom encon­ tiva com um estranho, tendo todos os sinais de um bom tro”. Observe que nós temos permissão para sermos temperamento. Quando ela veio ao poço (v. 16), desceu à específicos ao recomendar os nossos assuntos à condu­ fonte, e encheu o seu cântaro, e subiu - para voltar para ção e aos cuidados da divina Providência. Aqueles que casa com o cântaro. Ela não permaneceu para olhar para desejam ser bem sucedidos devem orar por isto - Hoje, o estranho e os seus camelos, mas preocupou-se com as neste encontro. Desta maneira, devemos reconhecer a suas coisas, e não desejou desviar-se delas, a não ser Deus em todos os nossos caminhos, Provérbios 3.6. E, se por uma oportunidade de fazer o bem. Ela não iniciou I n GÊNESIS 24 w. 29-53 128 uma conversa com ele, nem curiosamente nem confian­ idade, em nada difere do servo, Gálatas 4.1. Tendo feito temente, mas modestamente respondeu a ele com todo o isto, ele converte o seu assombro em adoração (v. 21): decoro que convinha ao seu sexo. Que época degenerada “Bendito seja o Senhor, Deus de meu senhor Abraão”, é esta em que vivemos, na qual aparecem todos os exem­ w. 26,27. Observe aqui que: (1) Ele tinha orado, pedin­ plos de orgulho, luxúria e preguiça, o oposto do caráter do para ser bem sucedido (v. 12), e agora que tinha tido de Rebeca, cujas filhas são poucas! Estes exemplos de sucesso no seu empreendimento, ele dá graças. Observe bondade que havia, naquela época, em honra, agora são que devemos usar com louvor aquilo que alcançarmos desprezados por muitos. [2] A providência ordenou que através da oração. Pois as graças em resposta à oração ela fizesse o que corresponderia exatamente ao sinal que nos deixam sob obrigações especiais. (2) Ele tinha so­ Eliézer havia pedido, e foi admiravelmente a contraparte mente uma perspectiva razoável de graça, e não estava da sua proposta. Não somente ela lhe deu de beber, o certo de qual seria o resultado. Mas ainda assim, ele dá que já era mais do que se podia esperar, mas também se graças. Observe que quando os favores de Deus vêm em ofereceu para dar de beber aos seus camelos, o que era nossa direção, nós devemos encontrá-los com nosso lou­ o sinal que ele havia proposto. Em primeiro lugar, que vor. (3) Ele bendiz a Deus pelo sucesso da sua negociação Deus, em sua providência, às vezes reconhece admira­ pelo seu senhor. Observe que nós devemos dar graças velmente aquele que ora com fé, e satisfaz os inocentes pelas misericórdias obtidas pelos nossos amigos, assim desejos do seu povo que ora, mesmo nas pequenas coi­ como pelas nossas. (4) Ele agradece porque, estando a sas, para que possa mostrar a extensão dos seus cuida­ caminho, indeciso quanto a qual rumo tomar, o Senhor o dos e possa incentivá-los, em todas as ocasiões, a buscar tinha guiado. Observe que em caso de dúvidas, é muito a Ele, e confiar nele - mas nós devemos ter cuidado para consolador ver que Deus nos guia, assim como guiou Is­ não sermos ousados demais, a ponto de tentarmos dar rael no deserto pela coluna de nuvem e fogo. (5) Ele se ordens a Deus, para que o evento não enfraqueça a nossa julga muito feliz, e agradece a Deus pelo fato de ter sido fé, ao invés de fortalecê-la. Em segundo lugar, que é bom levado à casa dos irmãos do seu senhor, aqueles, entre aproveitar todas as oportunidades de mostrar um tem­ eles, que tinham saído de Ur dos caldeus, embora não ti­ peramento humilde, cortês, caridoso, porque, em uma vessem vindo a Canaã, mas permanecido em Harã. Eles ou outra ocasião, isto pode converter-se mais em nossa não eram idólatras, mas adoradores do verdadeiro Deus, honra e benefício do que podemos imaginar. Alguns, não e apreciadores da religião da família de Abraão. Observe longe daqui, hospedaram anjos, e Rebeca, muito além da que Deus deve ser reconhecido por prover companhei­ sua expectativa nesta ocasião, foi trazida para o grupo de ros de jugo adequados, especialmente aqueles que têm a Cristo e do concerto. Em terceiro lugar, que pode haver mesma religião. (6) Ele agradece a Deus por não ter dei­ uma grande quantidade de bondade cortês naquilo que xado o seu senhor destituído da sua misericórdia e ver­ custa apenas um pouco: o nosso Salvador prometeu um dade. Deus tinha prometido edificar a família de Abraão, galardão por um copo de água fria, Mateus 10.42. Em mas ela parecia destituída do benefício desta promessa. quarto lugar, que a coincidência de providências e suas Mas agora a Providência trabalha para o cumprimento mínimas circunstâncias, para a continuidade do nosso da promessa. Observe que: [1] Os fiéis de Deus, por mais sucesso, em qualquer assunto, devem ser particularmen­ destituídos que possam estar dos consolos mundanos, te observadas, com admiração e gratidão, para a glória nunca estarão destituídos da misericórdia e da verdade de Deus: “O varão estava admirado”, v. 21. Nós somos de Deus. Pois a misericórdia de Deus é uma fonte ines­ deficientes em relação a nossa própria vida, tanto no gotável, e a sua verdade é uma fundação inviolável. [2] dever quanto no consolo, por negligenciarmos a obser­ Aumenta muito o consolo de qualquer bênção ver nela a vação da Providência. [3] Com algumas perguntas, ele continuidade da misericórdia e da verdade de Deus. descobriu, para sua grande satisfação, que ela era uma parente próxima do seu senhor, e que a família à qual ela pertencia era bastante considerável, e podia hospedá-lo, O Servo de Abraão É Recebido por Labão. A Missão do Servo de Abraão w. 23-25. Observe que Providência às vezes conduz pro­ w. 29-53 digiosamente aqueles que pela fé e oração procuram a orientação do céu, na escolha de companheiros adequa­ Aqui temos o acordo de casamento entre Isaque e dos para compartilhar o jugo. Aqueles casamentos que são realizados no temor a Deus têm a grande probabili­ Rebeca. Ele é narrado de modo muito detalhado e par­ dade de ser casamentos felizes. E temos a certeza de que ticular, chegando às mínimas circunstâncias que, em nossa opinião, poderiam ter sido poupadas, ao passo que eles são confirmados no céu. 3. Ele reconhece a Deus com uma ação de graçasoutras coisas de grande importância e mistério (como a particular. Em primeiro lugar, ele ofereceu seus respei­ história de Melquisedeque) são relatadas em poucas pa­ tos a Receba, em gratidão pela sua cortesia (v. 22), agra- lavras. Desta maneira, Deus oculta aquilo que é curioso ciando-a com tais enfeites e ornamentos que uma jovem, aos sábios e instruídos, e revela aos pequeninos o que é especialmente uma esposa, não pode esquecer (Jr 2.32), comum e que está de acordo com a sua capacidade (Mt embora, em nossa opinião, não fossem adequados à jo­ 11.25), governando e salvando os crentes pela loucura da vem que apanhava água. Mas os pendentes e braceletes pregação, 1 Coríntios 1.21. Assim, também, nós somos que ela usava às vezes, não faziam com que ela se jul­ orientados a perceber a providência de Deus nas peque­ gasse superior ao trabalho de uma mulher virtuosa (Pv nas ocorrências comuns da vida humana, e nelas, tam­ 31.13), que trabalha de boa vontade com as suas mãos. bém, exercer a nossa própria prudência e outras graças. Nem do serviço a uma criança que, enquanto tem pouca Pois as Escrituras não se destinavam somente ao uso de GÊNESIS 24 w. 29-53 filósofos e estadistas, mas tornar-nos mais sábios e virtu­ (2) Ele lhes conta da incumbência que o seu senhor osos no nosso comportamento e na condução das nossas lhe tinha dado, de conseguir uma esposa para o filho en­ famílias. Aqui temos: tre os seus parentes, e a razão disto, w. 37,38. Desta ma­ neira, ele faz uma insinuação agradável, de que, embora A recepção muito gentil feita ao servo de Abraão, Abraão tivesse ido para uma região tão distante, ainda pelos parentes de Rebeca. Labão, irmão dela, foi conservava a lembrança dos seus parentes que tinha convidá-lo e trazê-lo para dentro, mas não antes de verdeixado para trás, e um respeito por eles. Os mais altos o pendente e os braceletes nas mãos de sua irmã, v. 30.graus de afeto divino não devem nos desviar do afeto na­ “Oh!”, pensa Labão, “aqui está um homem que tem algo tural. Da mesma maneira ele evita uma objeção, de que, com que pode viver satisfatoriamente, um homem que se Isaque fosse merecedor, ele não precisaria buscar tão é rico e generoso. Nós nos certificaremos de recebê-lo longe uma esposa: por que não se casava com alguém bem!” Nós conhecemos tão bem o caráter de Labão, pela mais próximo da sua casa? “Por uma boa razão”, diz o história a seguir, a ponto de pensar que ele não teria sido servo; “o filho do meu senhor não deve casar-se com uma tão espontâneo na sua acolhida, se não tivesse esperado cananéia”. Ele ainda recomenda a sua proposta: [1] Pela ser bem pago por ela, como o foi, v. 53. Observe que o fé que o seu senhor tinha de que seria bem sucedida, v. presente do homem alarga-lhe o caminho (Pv 18.16), e 40. Abraão foi encorajado pelo testemunho da sua cons­ para onde quer que se volte, servirá de proveito, Pro­ ciência de que andava diante de Deus em um curso regu­ vérbios 17.8.1. O convite foi amável: “Entra, bendito do lar de uma vida santificada, e conseqüentemente deduziu Senhor”, v. 31. Eles viram que ele era rico, e por isto que Deus o faria prosperar. Provavelmente ele se refere o chamaram de Bendito do Senhor. Ou, talvez, porque àquele concerto que Deus tinha feito com ele (cap. 17.1): ouviram os comentários de Rebeca (v. 28) sobre as gra­ “Eu sou o Deus Todo-poderoso. Anda em minha presen­ ciosas palavras que procediam da sua boca, e concluíram ça e sê perfeito”. Portanto, diz ele, “o Senhor, em cuja que era um bom homem, e, por isto, “bendito do Senhor”. presença tenho andado, enviará o seu Anjo”. Observe Observe que aqueles que são benditos de Deus devem que enquanto temos consciência da nossa participação no sei' bem vindos a nós. E bom reconhecer aqueles a quem concerto, podemos aceitar os consolos da participação de Deus reconhece. 2. A acolhida foi amável, w. 32,33. Tanto Deus nele. E devemos aprender a aplicar as promessas a casa como o estábulo estavam bem equipados, e o servo gerais aos casos particulares, conforme houver ocasião. de Abraão foi convidado a fazer uso de ambos, livremen­ [2] Pelo cuidado que ele mesmo tinha tido de preservar a te. Cuidado especial foi tomado com os camelos. “O justo liberdade de que dessem ou recusassem o seu consenti­ olha pela vida dos seus animais”, Provérbios 12.10. Se o mento, conforme vissem motivos, sem incorrer no crime boi conhece o seu possuidor, para servi-lo, o possuidor de perjúrio (w. 39-41). Isto mostrou que ele era um ho­ deve conhecer o seu boi, para proporcionar-lhe o que é mem prudente, de maneira geral, e agiu com um cuidado adequado para ele. particular para que o consentimento deles não fosse for­ çado, mas livre, ou que então não o consentissem. T T A narrativa completa que ele fez da sua missão, e (•3) Ele lhes conta da prodigiosa ajuda das providên­ JL JL a corte que fez a eles, para obter o seu consenti­ cias, para permitir e incentivar a proposta, mostrando mento a respeito de Rebeca. Observe: claramente o dedo de Deus no assunto. [1] Ele lhes con­ 1. Quão aplicado ele foi à sua tarefa: embora esti­ ta como tinha orado pedindo a orientação por um sinal, vesse saindo de uma viagem, e tivesse chegado a uma w. 42-44. Observe que é bom lidar com aqueles que, em boa casa, ele não comeria, até que lhes tivesse declarado oração, levam Deus consigo ao tratarem dos assuntos a sua missão, v. 33. Observe que a realização do nosso referentes à sua vida. [2] Como Deus tinha atendido à trabalho, e o cumprimento daquilo que nos foi confiado, sua oração, literalmente. Embora ele somente falasse no seja para Deus ou para os homens, deve ter preferência seu coração (v. 45), o que ele talvez mencione para que à nossa alimentação mesmo sendo tão necessária: esta não se pudesse suspeitar que Rebeca tivesse ouvido a era a comida e a bebida do nosso Salvador, -João 4.34. sua oração, e tentado agradá-lo. “Não”, diz ele, “eu falei 2. Quão hábil ele foi na condução cla sua missão. Ele no meu coração, de modo que ninguém me ouviu, exceto provou ser, neste assunto, um homem prudente e tam­ Deus, para quem os pensamentos são palavras, e dele bém um homem íntegro, fiel ao seu senhor, de quem ti­ veio a resposta” w. 46,47. [3] Como ele tinha reconhecido nha recebido a missão, e justo com aqueles com quem imediatamente a bondade de Deus para com ele, condu­ tratava agora. zindo, encaminhando-o, como aqui ele expressa, no cami­ (1) Ele faz uma curta demonstração das proprieda­nho correto. Observe que o caminho de Deus é sempre o des da família do seu senhor, w. 34-36. Ele era bem vindo caminho direito (SI 107.7), e são bem conduzidos aqueles antes, mas podemos supor que foi duplamente bem vin­ a quem Ele conduz. do quando disse: “Eu sou o servo de Abraão”. O nome de (4) Ele se refere adequadamente ao assunto da con­ Abraão, sem dúvida, era muito conhecido e respeitado sideração deles, e espera a sua decisão (v. 49): “Se vocês entre eles, e podemos supor que eles não fossem com­ desejarem lidar gentilmente e honestamente com o meu pletamente ignorantes dos seus bens, pois Abraão co­ senhor, muito bem. Se desejarem ser sinceramente ge­ nhecia os deles, cap. 22.20-24. Ele menciona duas coisas, nerosos, vocês aceitarão a proposta, e eu terei sido bem para recomendar a sua proposta: [1] Que o seu senhor, sucedido naquilo por que vim aqui. Se não, não me dei­ Abraão, pela bênção de Deus, tinha boas propriedades. xem sem sabê-lo”. Observe que aqueles que tratam com E: [2] Que Abraão tinha dado tudo o que tinha a Isaque, honestidade têm razões para esperar que sejam tratados em cujo nome ele vinha cortejar. com honestidade. 129 I w. 54-61 GÊNESIS 24 130 (5) Livremente e alegremente, eles aceitam a pro­ prestes a ir para tão longe, e não era provável que eles posta com base em um princípio muito bom (v. 50): “Do voltassem a se ver outra vez: “Fique a donzela conos­ Senhor procedeu este negócio”, a Providência sorriu co alguns dias ou pelo menos dez dias”. Este era um para ele, e não temos nada a dizer em oposição a ele. pedido aparentemente razoável. Porém algumas ver­ Eles não objetam quanto à distância, ou ao fato de que sões da Bíblia Sagrada trazem uma interpretação que Abraão os tinha deixado, nem ao fato de que ele não sugere que se tratasse de dez meses ou um ano, algo possuísse terras, mas somente bens pessoais: eles não que parece torná-lo impossível. Eles tinham consentido questionam a veracidade daquilo que este homem dizia. no casamento, mas estavam relutantes em se separar Mas: [1] Eles confiam muito na sua integridade. Seria dela. Observe que há um fato que é um exemplo da fu­ bom se a honestidade prevalecesse universalmente en­ tilidade deste mundo: nele não há nada tão agradável, tre os homens, a ponto de que aceitar a palavra de um mas, mesmo assim, ele conserva as suas ligações. Nulla homem fosse tanto um ato de prudência quanto de boa est sincera voluptas - New existe prazer que não este­ índole. [2] Eles confiam ainda mais na providência de ja, ligado a nada. Eles estavam satisfeitos por terem Deus, e, por isto, sem dizer nada, dão o consentimento, casado tão bem uma filha da sua família, mas, quando porque isto parece ser orientado e disposto pela Sabe­ a negociação chegou ao fim, foi com grande relutância doria Infinita. Observe que um casamento terá maiores que a enviaram. 3. A própria Rebeca decidiu a questão. probabilidades de ser confortável quando tudo indicar Eles apelaram a ela, como era adequado que fizessem que ele procede do Senhor. (v. 57): “Chamemos a donzela (que tinha se retirado aos (6) O servo de Abraão faz um reconhecimento agra­ seus aposentos, com modesto silêncio) e perguntemosdecido do sucesso que alcançou: [1] A Deus: Ele adorou lho”. Observe que da mesma maneira como os filhos o Senhor, v. 52. Observe, em primeiro lugar, que, como não devem se casar sem o consentimento dos seus pais, o seu sucesso continuava, ele continuou bendizendo a também os pais não devem casá-los sem o seu próprio Deus. Aqueles que oram sem cessar devem, em todas as consentimento de cada um deles. Antes que a questão coisas, dar graças, e reconhecer a Deus em cada estágio seja decidida, “perguntemos à donzela”. Ela é a parte da misericórdia. Em segundo lugar, que Deus enviou o mais interessada no assunto, e por isto deve ser prin­ seu anjo diante dele, e assim deu-lhe sucesso, v. 7,40. Mas cipalmente consultada. Rebeca consentiu, não somente quando ele tem o sucesso desejado, ele adora a Deus, e em ir, mas em ir imediatamente: “Irei”, v. 58. Podemos não ao anjo. Seja qual for o benefício que tivermos, pelo imaginar que aquilo que ela tinha observado da pieda­ ministério dos anjos, toda a glória deve ser dada ao Se­ de e da devoção do servo lhe tivessem dado tal idéia nhor dos anjos, Apocalipse 22.9. [2] Ele também presta da prioridade da religião e da santidade na família à os seus respeitos à família, e particularmente à esposa, qual ela deveria ir, que isto a fez desejosa de apressar a v. 53. Ele presenteou-a, e à sua mãe, e ao seu irmão, com sua ida, e de se esquecer do seu próprio povo e da casa muitas coisas preciosas, tanto para dar uma prova real do seu pai, onde a religião não tinha tanta importân­ das riquezas do seu senhor, e da sua generosidade, como cia. 4. Conseqüentemente ela é enviada com o servo de por gratidão pela cortesia que dispensaram para com Abraão. Podemos supor que isto não tenha acontecido ele, e também para agradá-los. no dia seguinte, mas muito prontamente: suas amigas viram que ela estava decidida, e despediram-na: (1) Com acompanhantes adequados - sua ama (v. 59), suas A Partida de Rebeca moças, v. 61. Parece, então, que quando foi ao poço para w. 54-61 buscar água, não foi porque não tivesse servos sob seu comando, mas porque tinha prazer em trabalhos de hu­ Aqui Rebeca está deixando a casa do seu pai. E: milde aplicação. Agora que ela estava viajando entre 1. O servo de Abraão insiste que o deixem ir. Embora estranhos, era adequado que levasse consigo aqueles ele e o seu grupo tivessem sido muito bem recebidos, e com quem tinha familiaridade. Aqui, nada é dito sobre estivessem muito felizes ali, ele disse: “Deixai-me ir a o seu dote. O mérito pessoal de Rebeca já era um dote. meu senhor” (v. 54), e novamente, v. 56. Ele sabia que o E assim, o servo de Abraão não precisava levar junta­ seu senhor o esperava em casa com alguma impaciên­ mente com ela nenhum outro dote. Por esta razão, este cia. Ele tinha tarefas para realizar em casa, que preci­ assunto não fez parte do acordo de casamento. (2) Com savam da sua presença, e, portanto, como alguém que desejos bons e sinceros: Eles “abençoaram Rebeca”, dá prioridade ao seu trabalho acima do seu prazer, ele v. 60. Observe que quando nossos parentes estão ini­ desejava apressar-se e voltar para casa. Observe que ciando uma nova condição, nós devemos, pela oração, demorar-se e tardar não convém a um homem prudente recomendá-los à bênção e graça de Deus. Agora que e bom. Quando tivermos concluído os nossos negócios ela iria ser uma esposa, eles oraram para que pudesse fora, não devemos tardar em retornar aos nossos negó­ ser mãe de uma prole numerosa e vitoriosa. Talvez o cios em casa, nem nos afastarmos mais do que seja ne­ servo de Abraão lhes tivesse contado sobre a promessa cessário. Pois qual ave que vagueia longe do seu ninho, que Deus tinha feito recentemente ao seu senhor, pois tal é o homem que anda vagueando longe do seu lugar, é provável que Abraão a desse a conhecer à sua casa Provérbios 27.8. 2. Os parentes de Rebeca, por afeto que Deus iria multiplicar a sua semente como as estre­ natural, e de acordo com as usuais expressões de gen­ las do céu, e que eles possuiriam a porta dos seus inimi­ tileza nestes casos, pedem que ela fique algum tempo gos (cap. 22.17) - e assim entenderam que esta bênção entre eles, v. 55. Eles não podiam pensar em se separar fazia parte da promessa que estavam aguardando: Que dela repentinamente, especialmente porque ela estava Rebeca fosse a mãe de tal semente. 131 GÊNESIS 25 w. 62-67 que, quando viu Isaque, saltou e seguiu a pé, e devem 0 Casamento de Isaque se sujeitar Aquele que é a sua Cabeça (Ef 5.24), como w. 62-67 Rebeca, que indicou esta submissão pelo véu com que se Isaque e Rebeoa. finalmente se unem. Observe que: cobriu, 1 Coríntios 11.10. estava ocupado quando encontrou Rebeca: I62,63.Isaque “Isaque safra a orar no campo, sobre a tarde”, w. Alguns pensam que ele esperava o retorno dos seus servos, a esta hora, e saiu com o objetivo de encon­ trá-los. Mas, aparentemente, ele saiu com outra missão, aproveitar o benefício de uma tarde silenciosa e de um campo solitário para meditação e oração, estes exercícios divinos pelos quais conversamos com Deus e com o nosso próprio coração. Observe que: 1. As almas santas amam os retiros. Nos fará bem ficarmos freqüentemente sozi­ nhos, caminhar sozinhos, e estar sozinhos. E, se tiver­ mos a habilidade de aprimorar a solidão, descobriremos que nunca estamos menos a sós do que quando estamos a sós. 2. A meditação e a oração devem ser os nossos inte­ resses, e também os nossos deleites, quando estivermos sozinhos. Enquanto tivermos um Deus, um Cristo e um céu com que nos relacionarmos, e junto aos quais dese­ jemos assegurar os nossos interesses, não sentiremos falta de assunto nem para meditar nem para orar. Estas são atividades que, se andarem juntas, se favorecerão mutuamente. 3. Nossos passeios no campo são verdadei­ ramente agradáveis quando neles nos dedicamos à medi­ tação e à oração. No campo temos uma perspectiva livre e aberta dos céus que estão acima de nós, da terra que está ao nosso redor, e da hospitalidade e das riquezas de ambos, cuja vista deve nos levar à contemplação do Criador e Senhor de tudo e de todos. 4. O exercício da nossa devoção deveria ser o alívio e o prazer da tarde, para nos aliviar da fadiga causada pelas preocupações e atividades do dia, e para nos preparar para o repouso e para o sono da noite. 5. As providências misericordiosas são duplamente confortáveis quando nos encontram bem empregados e no caminho do nosso dever. Alguns pen­ sam que Isaque estava orando pelo sucesso desta ques­ tão que estava pendente, e meditando sobre o que era adequado para incentivar a sua esperança em Deus, a este respeito. E agora, quando se coloca, por assim dizer, sobre a sua fortaleza, para ver o que Deus lhe respon­ deria, como o profeta (Hc 2.1), ele vê os camelos que se aproximavam. Muitas vezes Deus envia imediatamente a misericórdia solicitada em oração, Atos 12.12. Rebeca se comportou de uma maneira muito ade­ n quada, quando viu Isaque: compreendendo quem ele era, ela se lançou do camelo (v. 64), tomou um véu Eles se uniram (provavelmente depois de al­ gum conhecimento mútuo) para sua mútua consolação, v. 67. Observe aqui: 1. O afeto que Isaque sentia pela sua mãe: haviam se passado aproximadamen­ te três anos desde a morte de Sara, e ele ainda não tinha se consolado. A ferida que aquele sofrimento causou ao seu espírito terno sangrou por muito tempo, e nunca foi curada, até que Deus o trouxe a este novo relacionamen­ to. Desta maneira, as cruzes e os consolos se equilibram (Ec 7.14), e ajudam a manter a balança nivelada. 2. O marido afetuoso que ele foi para a sua esposa. Observe que se pode esperar que aqueles que tiveram um bom relacionamento, terão outro: Ela foi-lhe por mulher, e ele a amou. Havia todas as razões no mundo pelas quais ele deveria amá-la, pois o homem deve amar a sua esposa como a si mesmo. O dever do relacionamento no casa­ mento estará assim cumprido, e o consolo deste relacio­ namento poderá ser aproveitado quando o amor mútuo governar. Pois então o Senhor ordenará a bênção. C a pítulo 25 O historiador sagrado, neste capítulo: I. Despedese de Abraão, com um relato, 1. Sobre os seus fi­ lhos com outra esposa, w. 1-4.2. Sobre o seu último desejo e o seu testamento, w. 5,6. 3. Sobre a sua idade, a sua morte e o seu sepultamento, w. 7-10. II. Ele se despede de Ismael, com um curto rela­ to, 1. Sobre os seus filhos, w. 12-16. 2. Sobre a sua idade e morte, w. 17,18. III. Ele inicia a história de Isaque. 1. A sua prosperidade, v. 11.2. A concepção e o nascimento dos seus dois filhos, com o oráculo de Deus a respeito deles, w. 19-26. 3. As diferentes personalidades de seus filhos, w. 27,28. 4. A venda de Esaú da sua primogenitura a Jacó, w. 29-34. A Morte de Abraão w. 1-10 Abraão viveu, depois do casamento de Isaque, trin­ ta e cinco anos, e tudo o que está registrado, a respeito dele, durante este período, está apresentado aqui, em alguns poucos versículos. Não lemos de outras aparições extraordinárias, nem provações, de Deus a ele. Pois to­ dos os dias, até mesmo os dias dos melhores e maiores santos, não são dias eminentes. Alguns deslizam silen­ ciosamente, e nem a sua chegada nem a sua partida são observados. Assim foram os últimos dias de Abraão. Aqui temos: e cobriu-se (v. 65) como sinal de humildade, modéstia e submissão. Ela não repreendeu a Isaque por não ter vin­ do pessoalmente buscá-la, ou, pelo menos, encontrá-la a um dia ou dois de viagem. Não reclamou da monotonia da sua viagem, nem da dificuldade de deixar os seus pa­ rentes para vir a um lugar estranho. Mas, tendo visto a Providência andando diante dela no assunto, ela se adapta com alegria ao seu novo relacionamento. Aque­ les que, pela fé, estão casados com Cristo, e desejam ser Um relato sobre os seus filhos com Quetura, outra apresentados a Ele como virgens puras, devem agir de mulher com quem se casou depois da morte de Sara. conformidade com o exemplo que foi dado pelo próprio Ele tinha sepultado Sara e casado Isaque, os dois queri­ Senhor. Eles também devem se humilhar como Rebeca, dos eompanhemos da sua vida, e agora estava solitário. I w. 11-18 GÊNESIS 25 132 Ele precisava de uma enfermeira, a sua família preci­ deve viver para sempre. Foi também a coroa da glória sava de uma governanta, e não era bom que ele ficasse da sua velhice. 3. Ele estava farto de dias, ou farto de sozinho. Portanto, ele se casa com Quetura, provavel­ vida (assim pode ser interpretado), incluindo todas as mente a mais importante das suas servas, nascida na conveniências e os consolos da vida. Ele não viveu até sua casa, ou comprada com dinheiro. O casamento não que o mundo estivesse cansado dele, mas até que ele fi­ é proibido na idade avançada. Com ela, Abraão ele teve casse cansado do mundo. Ele já tinha estado no mundo o seis filhos, em quem se cumpriu parcialmente a promes­ suficiente, e não desejava mais. Vixi quantum satis est sa feita a Abraão a respeito do grande aumento da sua Eu já vivi tempo suficiente. Um bom homem, ainda que descendência, coisa que, provavelmente, ele visava, com não morra velho, morre farto de dias, satisfeito por viver este casamento. A força que ele recebeu pela promessa aqui, e desejando viver em um lugar melhor. 4. Ele foi ainda permanecia nele, para mostrar o quanto a virtude congregado ao seu povo. Seu corpo uniu-se à congrega­ ção dos mortos, e a sua alma, à congregação dos abenço­ da promessa excede o poder da natureza. ados. Observe que a morte nos congrega ao nosso povo. A maneira como Abraão dispôs dos seus bens, w. Aqueles que são o nosso povo enquanto vivemos, sejam 5,6. Depois do nascimento destes filhos, ele coloca o povo de Deus ou os filhos deste mundo, são o povo ao a sua casa em ordem, com prudência e justiça. 1. Ele fez qual a morte nos irá congregar. de Isaque seu herdeiro, como devia fazer, em justiça a Sara, sua primeira e principal esposa, e também a ReSeu sepultamento, w. 9,10. Nada está registra­ beca, que se casou com Isaque com a certeza disto, cap. do aqui sobre a pompa ou a cerimônia do seu 24.36. Incluídas neste “tudo” que ele deu a Isaque, estão sepultamento. Somente lemos: 1. Quem o sepultou: Seus talvez a promessa da terra de Canaã e a transmissão do filhos, Isaque e Ismael. Foi o último ato de respeito que concerto. Ou, já tendo Deus feito de Isaque o herdeiro tinham que prestar ao seu bom pai. Tinha havido alguma da promessa, Abraão fez dele o herdeiro dos seus bens. distância antigamente, entre Isaque e Ismael. Mas pare­ Nossos afetos e dons devem acompanhar os de Deus. 2. ce que Abraão os tinha reunido pessoalmente enquanto Ele deu presentes aos seus demais filhos, tanto a Isma­ vivia, ou que pelo menos a sua morte os reconciliou. 2. el, embora a princípio ele tivesse sido mandado embora Onde o sepultaram: no seu próprio sepulcro, que ele ti­ sem nada, como também aos seus filhos com Quetura. nha comprado, e onde tinha sepultado a Sara. Observe Era justo prover para eles. Os pais que não o imitam que aqueles que, na vida, foram muito queridos, uns aos são piores que os infiéis. Era prudente estabelecê-los outros, podem não somente de modo inocente, mas lou­ em lugares distantes de Isaque, para que não tivessem vável, desejar ser sepultados juntos, para que nas suas pretensões de dividir com ele a herança, nem fossem, de mortes não sejam separados, e como sinal da sua espe­ maneira alguma, uma preocupação ou uma despesa para rança de ressuscitar juntos. ele. Observe que ele fez isto enquanto vivia, para que isto não fosse feito, ou não fosse tão bem feito, posterior­ mente. Observe que em muitos casos é prudente que os A Genealogia de Ismael homens façam os seus testamentos com as suas próprias w. 11-18 mãos, enquanto viverem, enquanto puderem. Estes fi­ lhos das concubinas foram enviados à região que está a Imediatamente depois do relato da morte de Abraão, leste de Canaã, e os seus descendentes foram chama­ Moisés dá início à história de Isaque (v. 11), e nos conta dos de filhos do Oriente, tornando-se famosos pelo seu onde ele habitava, e quão admiravelmente Deus o aben­ grande número, Juizes 6.5,33. Seu grande crescimento çoou. Observe que a bênção de Abraão não morreu com foi o resultado da promessa feita a Abraão, de que Deus ele, mas sobreviveu para passar para todos os filhos da multiplicaria a sua semente. Deus, ao dispensar as suas promessa. Mas ele imediatamente se desvia da história bênçãos, faz como Abraão. As bênçãos comuns, Ele dá de Isaque, para falar brevemente sobre Ismael, tendo em aos filhos deste mundo, como ao filhos da serva, mas as vista que ele também era filho de Abraão, e Deus tinha fei­ bênçãos do concerto Ele reserva para os herdeiros da to algumas promessas a seu respeito, cujo cumprimento é promessa. Tudo o que Ele tem é deles, pois eles são os necessário que saibamos. Observe aqui o que está escrito: seus “Isaques”, de quem todo o resto estará separado 1. A respeito dos seus filhos. Ele tinha doze filhos, que são para sempre. chamados de doze príncipes (v. 16), chefes cle famílias, que no decorrer do tempo tornaram-se nações, tribos distin­ T 1 T A idade e a morte de Abraão, w. 7,8. Ele viveu tas, numerosas e muito consideráveis. Eles habitavam em X .i JL cento e setenta e cinco anos, exatamente cem uma região muito grande, que ficava entre o Egito e a As­ anos depois que veio a Canaã. Durante tanto tempo, ele síria, chamada Arábia. Os nomes de seus doze filhos estão foi um peregrino em terra estranha. Embora ele vivesse registrados. A respeito de Midiã e Quedar lemos freqüen­ muito e vivesse bem, embora ele fizesse o bem e pudesse temente nas Escrituras. E alguns excelentes comentaris­ ser poupado, ainda assim ele morreu, por fim. Observe tas observaram o significado destes três nomes que foram como a sua morte é aqui descrita, 1. Ele expirou. A sua colocados juntos (v. 14), como contendo um bom conselho vida não foi extorquida dele, mas alegremente ele a en­ a todos nós, Misma, Dumá, e Massá, isto é, ouça, man­ tregou. Nas mãos do Pai dos espíritos ele entregou o seu tenha silêncio, e tolere. Nós os temos juntos, na mesma espírito. 2. Ele morreu em boa velhice, um velho. Pois ordem, em Tiago 1.19, Seja pronto para ouvir, tardio para isto Deus lhe tinha prometido. A sua morte foi a sua li­ falar, tardio para se irar. A descendência de Ismael não bertação das cargas da sua idade: um homem velho não tinha somente tendas nos campos, onde enriqueciam em 133 GÊNESIS 25 w. 19-28 tempos de paz. Mas tinham vilas e castelos (v. 16), onde das como a base da nossa fé. Embora ele rogasse por esta se fortificavam em tempos de guerra. O número e a força graça com muita freqüência, e continuasse com as suas desta família eram fruto da promessa feita a Agar, a res­ súplicas por muitos anos, e ela não fosse concedida, ainda peito de Ismael (cap. 16.10), e a Abraão, cap. 17.20 e 21.13. assim ele não deixou de rogar por isto. Pois os homens Observe que muitos dos que são estrangeiros ao concer­ devem orar sempre e nunca desfalecer (Lc 17.1), orar sem to da promessa são, ainda assim, abençoados com pros­ cessar, e bater até que a porta seja aberta. Ele orou por peridade exterior, por causa dos seus santos ancestrais. sua mulher. Alguns entendem que ele orou com sua mu­ Fortuna e riquezas estarão nas suas casas. 2. A respeito lher. Observe que maridos e esposas devem orar juntos, o do próprio Ismael. Aqui está um relato sobre a sua ida­ que é sugerido na advertência do apóstolo, Para que não de: Ele viveu cento e trinta e sete anos (v. 17), o que está sejam impedidas as suas orações, 1 Pedro 3.7. Os judeus registrado para mostrar a eficiência da oração de Abraão têm uma tradição que diz que Isaque, por fim, levou a sua por ele (cap. 17.18): “Tomara que viva Ismael diante de esposa consigo ao monte Moriá, onde Deus tinha prome­ teu rosto!” Aqui também há um relado sobre a sua mor­ tido multiplicar a semente de Abraão (cap. 22.17), e ali, te. Também ele foi congregado ao seu povo. Mas não está em oração com ela, e por ela, implorou o cumprimento da escrito que ele fosse farto de dias, embora vivesse até tão promessa feita naquele mesmo lugar. 2. Deus ouviu a sua avançada idade: ele não estava tão cansado deste mundo, oração, e recebeu a sua súplica. Observe que os filhos são nem tão desejoso de deixá-lo, como estava o seu bom pai. presentes de Deus. Aqueles que permanecem constantes As palavras “Ismael fez o seu assento diante da face de em oração, como Isaque, descobrirão, por fim, que não todos os seus irmãos”, quer signifiquem, como as inter­ buscaram em vão, Isaías 45.19. pretamos, que ele morreu, ou, segundo outros, que “a sua sorte caiu”, têm a função de mostrar o cumprimento das Que eles tinham sido profetizados antes de nasce­ palavras ditas a Agar (cap. 16.12): ele “habitará diante da rem, e grandes mistérios estavam envolvidos nas face de todos os seus irmãos”, isto é, florescerá e será emi­ profecias que vieram antes deles, w. 22,23. Isaque tin nente entre eles, e estará com os seus até o fim. Ou que ele rogado por muito tempo, por um filho. E agora a sua m morreu com seus amigos à sua volta, o que é consolador. lher está esperando dois filhos, para recompensá-lo p sua longa espera. Assim, Deus freqüentemente supera as nossas orações e nos dá mais do que somos capazes de O Nascimento de Esaú e Jacó pedir ou pensai-. Estando Rebeca esperando estes dois w. 19-28 filhos, observe aqui: 1. Como ela se sentia confusa quanto à sua condição Aqui temos o relato no nascimento de Esaú e Jacó, atual: “Os filhos lutavam dentro dela”. A comoção que os filhos gêmeos de Isaque e Rebeca: a sua entrada no ela sentia era completamente extraordinária e a deixava mundo foi (o que não é usual) uma das partes mais consi­ muito desconfortável. Quer ela estivesse apreensiva por deráveis da sua história. Mas não há muita informação a pensar que o nascimento destes filhos ocasionaria a sua respeito de Isaque, exceto no tocante ao que tivesse re­ morte, ou cansada do tumulto no seu interior, ou suspei­ ferência ao seu pai enquanto viveu, e os seus filhos, pos­ tando de que este fosse um mau presságio, parece que teriormente. Pois Isaque não parece ter sido um homem ela estava pronta a desejar que não estivesse grávida, de ação, nem um homem muito tentado, mas parece ter ou que pudesse morrer imediatamente, sem dar pros­ passado os seus dias em quietude e silêncio. A respeito seguimento àquela geração tão combativa: “Se assim é, de Esaú e Jacó, aqui lemos: por que sou eu assim?” Antes, a falta de filhos era um problema para ela. Agora, a luta dos filhos não é muito T Que eles foram pedidos em oração. Seus pais, depois diferente. Observe que: (1) Os consolos que mais dese­ X de terem ficado sem filhos por muito tempo, os recebe­ jamos às vezes revelam trazer com eles mais causa de ram por meio de orações, w. 20,21. Isaque tinha quarenta problemas e desconforto do que tínhamos pensado. Es­ anos de idade quando se casou. Embora fosse filho único e tando a vaidade escrita sobre todas as coisas debaixo do a pessoa de quem deveria vir a semente prometida, ainda sol, Deus nos ensina, assim, a lê-la. (2) Nós somos muito assim ele não teve pressa em casar-se. Ele tinha sessen­ capazes de ficar insatisfeitos com os nossos confortos, ta anos de idade quando seus filhos nasceram (v. 26), de por causa da intranqüilidade que os acompanha. Nós não modo que, depois de casar-se, não teve filhos durante vin­ sabemos quando estamos satisfeitos. Não sabemos como te anos. Observe que embora o cumprimento da promessa sentir falta, nem como ter abundância, Esta luta entre de Deus seja sempre garantido, freqüentemente é lento Jacó e Esaú, no útero, representa a luta que se mantém e parece ser contradito pela Providência, para que a fé entre o reino de Deus e o reino de Satanás: [1] No mun­ dos crentes possa ser testada, a sua paciência exercitada do. A semente da mulher e a semente da serpente têm e as graças esperadas durante muito tempo possam ser estado brigando desde que surgiu a inimizade entre elas mais bem vindas quando chegarem. Enquanto esta graça (cap. 3.15), e isto tem ocasionado uma constante intran­ tardava, Isaque não se aproximou do leito de uma serva, qüilidade entre os homens. O próprio Cristo veio para como tinha feito Abraão, e como fez Jacó posteriormente. lançar fogo na terra, e esta dissensão, Lucas 12.49,51. Pois ele amava Rebeca, cap. 24.67. Mas: 1. Ele orou: Ele Mas isto não deve ser ofensa para nós. Uma guerra san­ “orou instantemente ao Senhor” por sua mulher. Embora ta é melhor do que a paz do palácio do diabo. [2] Nos Deus tivesse prometido multiplicar a sua família, ele ro­ corações dos crentes. Tão logo Cristo é formado na alma, gou por isto. Pois as promessas de Deus não devem substi­ imediatamente tem início ali um conflito entre a carne e tuir, mas incentivar, as nossas orações, e serem aproveita­ o espírito, Gálatas 5.17. Não se reverte a tendência sem n w. 29-34 GÊNESIS 25 134 3. Eles eram muito diferentes nos seus temperamen­ uma luta poderosa, o que não deve nos desencorajar. É melhor ter um conflito com o pecado do que mansamente tos, e na maneira de viver que escolheram, v. 27. Logo demonstraram ter disposições muito diferentes. (1) Esaú submeter-se a ele. 2. O caminho que ela tomou, para buscar o seu alívio: era um homem adequado a este mundo. Ele era um ho­ “Foi-se a perguntar ao Senhor”. Alguns pensam que Mel- mem interessado na sua diversão, pois era um caçador. quisedeque era agora consultado como um oráculo, ou tal­ E um homem que sabia como viver segundo a sua habi­ vez algum Urim ou Terafim fosse usado agora para per­ lidade, pois era um caçador perito. A diversão era o seu guntar a Deus, como posteriormente, no peitoral do juízo. interesse. Ele estudou a sua arte, e passava todo o seu Observe que a palavra e a oração, por meio das quais nós tempo fazendo isto. Ele nunca gostou de um livro, nem se agora perguntamos ao Senhor, dão grande alívio àqueles preocupou em ficar dentro de casa. Mas era um homem do que por alguma razão estão confusos. E um grande alívio campo, como Ninrode e Ismael. Todo o seu interesse esta­ à mente expor o nosso caso diante do Senhor, e pedir o va voltado ao jogo, e somente estava bem quando estava conselho da sua boca. Entre no santuário, Salmos 73.17. buscando isto: em resumo, ele estava entoe um cavalheiro 3. A informação dada a ela, em resposta à sua pergunta e um soldado. (2) Jacó era um homem voltado às coisas do foi uma informação que explicou o mistério: “Duas nações outro mundo. Ele não tinha talento para ser um estadis­ há no teu ventre”, v. 23. Ela estava grávida, não somente ta, nem pretendia parecer grandioso, mas era um varão de dois filhos, mas de duas nações, que não deveriam, nas simples, habitando em tendas, e um homem honesto que suas maneiras e disposições, ser muito diferentes entre sempre queria o bem, e agia com justiça, que preferia as si, mas nos seus interesses colidiriam e brigariam entre delícias da solidão e do isolamento a todo o falso prazer si. E o resultado da briga seria que o maior serviria ao dos esportes ruidosos. Ele habitava em tendas: [1] Como menor, o que se cumpriu na submissão dos edomitas, por um pastor. Ele se interessava por aquela atividade segura muitas gerações, à casa de Davi, até que se revoltaram, e silenciosa de guardar as ovelhas, para a qual ele também 2 Crônicas 21.8. Observe aqui que: (1) Deus é um agente educou seus filhos, cap. 46.34. Ou: [2] Como um aluno. Ele livre na dispensação da sua graça; é sua prerrogativa criar freqüentava as tendas de Melquisedeque, ou Éber, segun­ uma diferença entre aqueles que ainda não fizeram, por si do a interpretação de alguns, para que o ensinassem as mesmos, nem bem nem mal. Foi isto que o apóstolo con­ coisas divinas. E este foi aquele filho de Isaque a quem foi cluiu, Romanos 9.12. (2) Na luta que ocorre na alma, entre transmitido o concerto. 4. Seu interesse pelos afetos dos seus pais era, da a graça e a corrupção, a graça, que parece ser a menor, mesma maneira, diferente. Eles tiveram somente estes certamente prevalecerá no final. dois filhos e, aparentemente, um era o preferido do pai, T T T Que quando eles nasceram, eram muito di- e o outro era o favorito da mãe, v. 28. (1) Isaque, embora l i l ferentes, o que serviu para confirmar o que não fosse um homem ativo (pois quando ia aos campos, era tinha sido predito (v. 23) - serviu como presságio para com a finalidade de meditar e orar, não caçar), amava ter o seu cumprimento, e serviu enormemente para exem­ seu filho ativo. Esaú sabia como agradá-lo, e mostrava um grande respeito por ele, presenteando-o freqüentemente plificar o tipo. 1. Havia uma grande diferença entre os seus corpos, com carne de caça, o que ganhava o afeto do bom velho, e v. 25. Esaú, ao nascer, era bruto e cabeludo, como se já 0 conquistava mais do que se podia imaginar. (2) Rebeca fosse um adulto, motivo pelo qual seu nome foi Esaú, fei­ tinha em mente o oráculo de Deus, que tinha dado a pre­ to, já criado. Isto indicava uma constituição muito forte, ferência a Jacó, e por isto ela o preferia, no seu amor. Se e dava motivos para suspeitar que ele seria um homem é lícito que os pais façam uma diferença entre seus filhos, muito robusto, ousado e ativo. Mas Jacó era suave e ter­ por qualquer motivo, sem dúvida Rebeca estava certa, no, como as outras crianças. Observe que: (1) A diferen­ pois ela amava aquele a quem Deus amava. ça entre as capacidades dos homens, e, conseqüentemen­ te, entre as suas condições no mundo, surge, em grande parte, na diferença da sua constituição natural. Alguns Esaú Vende o seu Direito de Primogenitura w. 29-34 são claramente designados, pela natureza, à atividade e à honra, e outros são claramente marcados para a obs­ Aqui temos a barganha feita entre Jacó e Esaú, sobre curidade. Este exemplo da soberania divina no reino da providência pode, talvez, nos ajudar a conciliar-nos com a primogenitura, que pertencia a Esaú, pela providência, a doutrina da soberania divina no reino da graça. (2) É o mas a Jacó, pela promessa. Era um privilégio espiritual, método usual de Deus escolher as coisas fracas do mun­ que incluía a excelência da dignidade e a excelência do do, e desconsiderar as poderosas, 1 Coríntios 1.26,27. poder, assim como a porção dobrada, cap. 49.3. Parecia 2. Houve uma disputa evidente nos seus nascimen­ ser uma primogenitura que tinha, então, a bênção anexa tos. Esaú, o mais forte, nasceu em primeiro lugar. Mas a ela, e a transmissão da promessa. Veja: Jacó segurou o seu calcanhar, v. 26. Isto significava: (1) A busca de Jacó da primogenitura e da bênção. Desde T O desejo piedoso de Jacó de ter a primogenitura, o início, ele procurou tomá-las e, se possível, evitar que 1 que, no entanto, ele procurou obter por caminhos seu irmão as tomasse. (2) A sua vitória no final, pois, indiretos, que não estavam de acordo com o seu cará­ no decorrer do tempo, ele conseguiu minar seu irmão, ter como um homem simples. Não era por orgulho nem e alcançar o seu intento. Esta passagem é mencionada ambição que ele cobiçava a primogenitura, mas visando (Os 12.8) e conseqüentemente ele ganhou o seu nome, as bênçãos espirituais, com as quais ele tinha se fami­ liarizado nas suas tendas, ao passo que Esaú tinha deiJacó, suplantador. 135 GÉNESIS 25 w. 29-34 xado de senti-las, no campo. Ele deve ser elogiado por vaidade, Habacuque 2.13. Eles podem realizar os traba­ cobiçai’ fervorosamente as melhores dádivas. Mas, ainda lhos mais necessários, e obter as maiores vantagens, com assim, ele não pode ser justificado, por ter se aprovei­ metade do esforço e correndo metade dos perigos, para tado da necessidade do seu irmão para propor-lhe uma buscar seus prazeres tolos. (2) Aqueles que trabalham barganha muito dura (v. 31): “Vende-me, hoje, a tua pri- em silêncio são providos mais constantemente e confor­ mogenitura”. Provavelmente já teria havido alguma con­ tavelmente do que aqueles que caçam com estardalhaço: versa anterior entre eles, a este respeito, e por isto não o pão não é sempre para os sábios, mas aqueles que con­ foi uma surpresa tão grande a Esaú como aqui parece fiam no Senhor e fazem o bem, em verdade serão ali­ ter sido. E, pode ser que Esaú tivesse, algumas vezes, mentados, alimentados com pão diário. Não como Esaú, menosprezado a sua primogenitura, e os seus direitos, o às vezes banqueteando-se, e às vezes desmaiando. (3) A que incentivou Jacó a fazer-lhe esta proposta. E, se fos­ satisfação do apetite sensual é o que destrói milhares de se este o caso, Jacó é, até certo ponto, desculpável pelo almas preciosas: certamente, se Esaú estava faminto e que fez para conseguir o seu intento. Observe que os ho­ fraco, poderia ter conseguido uma refeição mais barata mens simples, que vivem com simplicidade e santa sin­ do que às custas da sua primogenitura. Mas ele estava ceridade, e sem a sabedoria do mundo, freqüentemente inexplicavelmente atraído pela cor deste guisado, e não revelam ser mais sábios do que todos, principalmente no conseguiu negar-se a satisfação de tê-lo em uma refei­ que diz respeito às suas almas e à eternidade. São ver­ ção, não importando o que isto lhe custasse. Nada bom dadeiramente sábios aqueles que são sábios em relação pode resultar, quando os corações dos homens seguem à eternidade. A sabedoria de Jacó fica evidenciada em seus olhos (Jó 31.7), e quando eles obedecem aos seus dois aspectos: 1. Ele escolheu o momento mais adequa­ próprios estômagos: Portanto, não olhes para o vinho do, aproveitou a oportunidade quando ela se ofereceu, e ou, como Esaú, para o guisado - quando se mostra ver­ não a deixou escapar. 2. Tendo feito a barganha, Jacó a melho, quando resplandece no copo, o que é mais con­ garantiu, confirmando-a pelo juramento de Esaú: “Jura- vidativo, Provérbios 23.31. Se nos acostumarmos a não me hoje”, v. 33. Ele surpreendeu Esaú quando este ainda satisfazermos a nós mesmos, romperemos as forças da estava pensando nisto, e não lhe deu o poder de revo­ maioria das tentações. gação. Em um caso desta natureza, é bom ter a certeza 2. Seu argumento foi muito fraco (v. 32): “Eis que daquilo que se está fazendo. estou a ponto de morrer”. E, se estivesse, nada poderia mantê-lo vivo, a não ser este guisado? Se houvesse, nes­ O desprezo profano de Esaú pela primogenitura, ta ocasião, fome sobre a terra (cap. 26.1), como o Dr. Lie como ele a vendeu tolamente. Ele é chamado de ghtfoot conjetura, não podemos supor que Isaque fosse profano, por causa disto (Hb 12.16), por ter vendidotãoa pobre, ou Rebeca fosse uma dona de casa tão inefi­ sua primogenitura por um bocado de comida, um bocado ciente, mas que ele pudesse ter tido alimento conveniente, tão querido como jamais houve desde o fruto proibido.deEoutras maneiras, e pudesse ter salvado a sua primo­ Esaú viveu para se arrepender disto, mas já era tarde genitura: mas o apetite tem o domínio sobre ele. Ele está demais. Nunca houve barganha tão tola como esta que em uma situação de desejo, nada o satisfará, exceto este Esaú fez agora. E ele se valorizava pela sua política, e vermelho, este guisado vermelho, e, para apaziguar este tinha a reputação de um homem astuto, e talvez tivesse desejo, ele finge que está a ponto de morrer. Se fosse as­ sempre zombado de seu irmão Jacó por ser um homem sim, não teria sido melhor para ele morrer com honra do simples e aparentemente fraco. Observe que há aqueles que viver em desgraça, morrer debaixo de uma bênção que são inteligentes em coisas tolas, e tolos em coisas do que viver debaixo de uma maldição? A primogenitura importantes. Caçadores peritos que podem ser mais es­ era típica de privilégios espirituais, os da igreja dos pri­ pertos que os outros e armar-lhes ciladas, e ainda assim mogênitos. Esaú agora era testado quanto ao valor que são subjugados pelas manobras de Satanás e ficam sujei­ atribuía a esta bênção, e só se mostra sensível às dificulda­ tos à sua vontade. Outra vez, Deus freqüentemente esco­ des atuais. Se ele puder conseguir apenas o alívio de tais lhe as coisas loucas do mundo para confundir as sábias. dificuldades, não se preocupará com a sua primogenitura. O simples Jacó fez do astuto Esaú um tolo. Observe os Nabote tinha melhores princípios, pois preferiu perder a exemplos da tolice de Esaú. sua vida a vendê-la, porque a sua parte na Canaã terrena 1. Seu apetite era muito forte, w. 29,30. O pobrerepresentava a sua parte na Canaã celestial, 1 Reis 21.3. Jacó tinha um pouco de pão e um guisado (v. 29) para seu (1) Se considerarmos a primogenitura de Esaú como so­ jantar, e estava sentado satisfeito com isto, sem carne mente uma vantagem temporal, aquilo que ele dizia tinha de cervo, quando chegou Esaú da sua caçada, faminto alguma verdade, especificamente, que os nossos prazeres e cansado, e talvez não tivesse caçado nada. E agora o terrenos, até mesmo aqueles que nos são mais queridos, guisado de Jacó era mais agradável aos olhos de Esaú do não nos servirão na hora da morte (SI 49.6-8). Eles não que as suas caças jamais tinham sido. Dê-me (diz ele) um afastarão o golpe da morte, nem diminuirão as dores, nem pouco desta coisa vermelha, “desse guisado vermelho” - removerão o aguilhão: ainda assim, Esaú, que parecia ser este vermelho, como está no original, combinava com a um cavalheiro, deveria ter tido um espírito melhor e mais sua própria cor (v. 25), e, como censura por causa disto, nobre para não vender tal honra a um preço tão baixo - na ele foi, a partir de então, chamado de Edom, vermelho. realidade, jamais devemos vender as bênçãos que recebe­ Ou melhor, aparentemente, ele estava tão fraco que não mos do Senhor. (2) Mas, sendo de uma natureza espiritual, podia alimentar-se, nem tinha um servo à mão para aju- o fato de que ele a subestimasse, era a maior profanação dá-lo, mas pede que seu irmão o alimente. Observe que: imaginável. Observe que é uma tolice flagrante trocar (1) Aqueles que se acostumam ao esporte se cansam pela o nosso interesse em Deus, e em Cristo, e no céu, pelas n GÊNESIS 26 136 w. 1-5 riquezas, honras e prazeres deste mundo, uma barganha Observe que o valor intrínseco das promessas de Deus tão ruim como a daquele que vendeu a sua piimogemtura não pode ser diminuído, aos olhos de um crente, por ne­ nhuma providência que o contradiga. por um prato de guisado. •3. O arrependimento estava oculto dos seus olhos Deus o orientou nesta tentação, pela sua palavra. (v. 34): “Ele comeu e bebeu”, satisfez o seu paladar, sa­ Isaque se encontra em dificuldades, pela escassez tisfez os seus desejos, parabenizou-se pela boa refeição que tinha tido, e então, descuidadamente, levantou-se de provisões. Ele deve ir a algum lugar, para conseguir e seguiu o seu caminho, sem nenhuma reflexão séria alimento. Aparentemente, ele saiu rumo ao Egito, para sobre o mau negócio que tinha feito, sem nenhuma onde seu pai tinha ido ao enfrentar uma dificuldade se­ demonstração de arrependimento. “Assim, desprezou melhante. Mas no caminho estava Gerar, e ele estava, Esaú a sua primogenitura”. Ele não usou de nenhum sem dúvida, cheio de pensamentos sobre qual rumo de­ meio para conseguir revogar a troca, não fez nenhum veria tomar, até que Deus graciosamente lhe apareceu apelo ao seu pai, a este respeito, nem propôs a seu ir­ e lhe orientou, para sua abundante satisfação. 1. Deus mão que acertasse a questão: mas a barganha, que a lhe ordenou que ficasse onde estava, e não descesse ao sua necessidade tinha causado (supondo que assim fos­ Egito: “Peregrina nesta terra”, w. 2,3. Houve uma fome se), a sua profanação confirmou, ex post facto - depois nos dias de Jacó, e Deus lhe ordenou que descesse ao de feita. E pela sua negligência e pelo seu desprezo pos­ Egito (cap. 46.3,4). Uma fome nos dias de Isaque, e Deus teriores, ele, por assim dizer, reconheceu a penalidade, lhe ordenou que não descesse. Uma fome nos dias de e justificando-se no que tinha feito, deixou a barganha Abraão, e Deus o deixou livre, não lhe indicando nenhum incontestável. Observe que as pessoas se arrumam, não caminho. Esta diversidade nos procedimentos divinos tanto por fazerem o que é errado, mas por fazê-lo e não (considerando que o Egito sempre era um lugar de ten­ se arrependerem de tê-lo feito. Ou seja, por fazê-lo e tação e exercícios para o povo de Deus) baseia-se, se­ gundo alguns, nas diferentes características destes três manterem o seu ponto de vista. patriarcas. Abraão era um homem de muitos e grandes talentos, e íntima comunhão com Deus. E, para ele, to­ dos os lugares e condições eram semelhantes. Isaque era C a pít u l o 2 6 um homem muito bom, mas não estava preparado para enfrentar as dificuldades. Por isto foi proibido de ir ao Egito. Jacó estava acostumado às dificuldades, era forte Neste capítulo, temos: I. Isaque, na adversidade, e paciente. Por isto ele deve descer ao Egito, para que a devido a uma fome na terra, que, 1. Obrigou-o a prova da sua fé possa ser para louvor, e honra, e glória. mudar seu local de residência, v. 1. Mas, 2. Deus Assim Deus se mostra absolutamente fiel, só permitindo o visita, com orientação e consolo, w. 2-5. 3. To­ as tentações que o seu povo possa suportar. 2. Deus pro­ lamente, ele nega que Rebeca é sua esposa, por meteu estar com ele, e abençoá-lo, v. 3. Da mesma manei­ estar em perigo, e é repreendido por isto por Abira como podemos ir a qualquer lugar com consolo, quan­ meleque, w. 6-11. II. Isaque em prosperidade, do a bênção de Deus vai conosco, também podemos ficar pela bênção de Deus, w. 12-14. E, 1. Os filisteus o em qualquer lugar, satisfeitos, se esta bênção permane­ invejavam, w. 14-17. 2. Ele continuava habilidoso cer sobre nós. 3. O Senhor renovou o concerto com ele, em seu trabalho, w. 18-23. 3. Deus manifestou-se o que tinha tão freqüentemente feito com Abraão, repe­ a ele, e o incentivou, e devotamente ele reconhe­ tindo e ratificando as promessas da terra de Canaã, uma ceu a Deus, w. 24,25.4. Os filisteus, por fim, o pro­ prole numerosa, e o Messias, w. 3,4. Observe que aque­ curam e fazem um concerto com ele, w. 26-33.5.0 les que devem viver pela fé têm necessidade freqüente casamento do seu filho Esaú, contra a vontade de de rever e repetir para si mesmos, as promessas pelas seus pais, se misturou com o consolo da sua pros­ quais devem viver, especialmente quando são chamados peridade, w. 34,35. a alguma situação de sofrimento ou de auto-negação. 4. Deus lhe recomendou o bom exemplo da obediência do A Ida de Isaque a Gerar seu pai, como aquilo que tinha preservado a transmis­ w. 1--5 são do concerto na sua família (v. 5): “Abraão obedeceu à minha voz”. Faça isto você também, e a promessa lhe Aqui: estará garantida. A obediência de Abraão aqui é celebra­ da, para sua honra. Pois graças a ela, ele obteve um bom T Deus provou Isaque pela sua providência. Ele havia conceito, junto a Deus e também junto aos homens. Uma .IL sido treinado em uma santa dependência da conces­ grande variedade de palavras é usada aqui para expres­ são divina da terra de Canaã, tanto a ele como aos seus sar a vontade divina, à qual Abraão tinha sido obediente herdeiros. Mas agora há “fome na terra”, v. 1.0 que pen­ (minha voz, meu mandado, meus preceitos, meus estatu­ sará ele da promessa, quando a terra prometida não lhe tos e minhas leis), o que pode indicar que a obediência de der pão? Será esta concessão merecedora de aceitação, Abraão era universal. Ele obedeceu as leis naturais da em tais termos, e depois de tanto tempo? Sim, Isaque natureza, as leis reveladas de adoração divina, particu­ ainda se apega ao concerto. E quanto menos valiosa pa­ larmente a da circuncisão, e todos os preceitos extraor­ rece ser Canaã propriamente dita, melhor ele é ensina­ dinários que Deus lhe tinha dado, como aquele de deixar do a valorizá-la: 1. Como um sinal da eterna bondade de a sua terra, e (que alguns pensam que tem referência Deus a ele. E: 2. Como um tipo da bênçáo eterna do céu. especial aqui) o de oferecer o seu filho, que o próprio Isa- n GÊNESIS 26 137 w. 6-11 que tinha razões suficientes para lembrar. Observe que que professam a fé os envergonham diante daqueles que somente terão o benefício e os consolos do concerto de são de fora. 4. Deus pode fazer com que aqueles que se Deus com seus santos pais aqueles que trilham os passos incitam contra o seu povo, embora possa haver alguma da obediência deles. causa para isto, saibam que correm riscos se lhes fize­ rem algum mal. Veja Salmos 105.14,15. Isaque Nega que Sara E sua Esposa A Mudança de Isaque para Berseba w. 6-11 w. 12-25 Agora Isaque tinha abandonado todos os pensa­ mentos de ir ao Egito, e, em obediência à visão celestial, Aqui, temos: estabelece-se em Gerar, região na qual ele tinha nascido (v. 6). Mas ainda assim ele cai em tentação, na mesma Os sinais da boa vontade de Deus para com Isaque. tentação que tinha surpreendido e vencido o seu bom Ele o abençoou, e o fez prosperar, e fez com que pai, especificamente a de negar a sua esposa, e de dar a tudo o que era dele prosperasse sob as suas mãos. 1. entender que ela era sua irmã. Observe: Seu grão multiplicou-se estranhamente, v. 12. Ele não tinha terra de sua propriedade, mas tomou uma terra 1" Como ele pecou, v. 7. Pelo fato de sua esposa ser for- dos filisteus, e semeou nela. E (deve-se observar, para JL mosa, ele imaginou que os filisteus iriam encontrar o incentivo dos pobres arrendatários, que ocupam as um meio de eliminá-lo, para que um deles pudesse casar- terras de outras pessoas, e são honestos e empenhados) se com ela. E por isto ela deve passar-se por sua irmã. É Deus o abençoou com um grande aumento. Ele colheu algo inexplicável que estes dois grandes e bons homens cem medidas. E aqui parece haver ênfase sobre a épo­ tenham sido culpados de tão estranha dissimulação, pela ca: foi naquele mesmo ano em que havia fome na terra. qual eles expuseram a sua reputação, como também a de Enquanto outros colhiam escassamente, ele colheu com suas esposas. Mas nós vemos: 1. Que homens muito bons abundância. Veja Isaías 65.13: “Eis que os meus servos às vezes são culpados de crimes e tolices muito grandes. comerão, mas vós padecereis”; Salmos 37.19: “Nos dias Portanto, aqueles que estão em pé, devem tomar cuidado de fome se fartarão”. 2. Seu gado também aumentou, v. para não cair, e aqueles que caíram, não devem perder as 14. E então: 3. Ele tinha grande quantidade de servos, esperanças de serem auxiliados a erguer-se outra vez. 2. a quem empregava e sustentava. Observe que “onde a Que existe uma aptidão em nós para imitar até mesmo as fazenda se multiplica, aí se multiplicam também os que fraquezas e defeitos daqueles a quem apreciamos. Por­ a comem”, Eclesiastes 5.11. tanto, devemos observar nossos pés, para que, enquanto tentamos trilhar os passos dos homens bons, não trilhe­ T T Os sinais da má vontade dos filisteus para com mos às vezes os seus desvios. jL JL ele. Eles o invejavam, v. 14. Isto é um exemplo: 1. Da futilidade do mundo - quanto mais os homens pos­ T T Como o seu erro foi detectado, e o engano deseo- suem dele, mais são invejados, e expostos à censura e X X berto, pelo próprio rei. Abimeleque (não o mes­ ofensas. “Quem parará perante a inveja?”, Provérbios mo dos tempos de Abraão, cap. 20, pois isto acontecia 27.4. Veja Eclesiastes 4.4. 2. Da corrupção da natureza aproximadamente cem anos depois daquele evento, mas - é realmente um mau princípio o que faz que os homens este era o nome comum dos reis filisteus, assim como lamentem o bem dos outros, como se fosse necessário César para os imperadores romanos) viu Isaque mais fa­ que as coisas estivessem mal comigo porque estão bem miliarizado e satisfeito com Rebeca do que ele sabia que com o meu vizinho. (1) Eles já lhe tinham demonstrado Isaque estaria com a sua irmã (v. 8): ele o viu brincando a sua má vontade para com a sua família, entulhando os com ela, ou rindo. A palavra usada aqui é a mesma de poços que o seu pai tinha cavado, v. 15. Isto foi feito como que se origina o nome de Isaque. Ele se alegrava com a vingança. Por não terem seus próprios rebanhos aos mulher da sua mocidade, Provérbios 5.18. Convém que quais pudessem dar de beber nestes poços, eles não os aqueles que têm este relacionamento sejam agradáveis, deixariam para o uso de outros. A iniqüidade é assim tão uns aos outros, como aqueles que se comprazem uns nos absurda. E isto foi perversamente feito, contrariando o outros. Em nenhuma situação um homem pode permitir- concerto de amizade que tinham feito com Abraão, cap. se ser mais inocentemente feliz do que com a sua própria 21.31,32. Nenhum laço será capaz de deter a índole má. esposa e filhos. Abimeleque acusou-o do engano (v. 9), (2)Eles o expulsaram da sua terra, w. 16,17. O rei de mostrou-lhe quão frívola era a sua desculpa, e quais po­ Gerar começou a ter inveja dele. A casa de Isaque era deriam ter sido as más conseqüências de seu ato (v. 10). como uma corte, e as suas riquezas e os seus seguido­ E então, para convencê-lo de que o seu temor era infun­ res eclipsavam os de Abimeleque. E por isto ele devia dado e injusto, tomou-o, como também a sua família, sob partir. Eles estavam cansados de tê-lo na vizinhança, a sua proteção particular, proibindo que qualquer mal porque viam que o Senhor o abençoava. Embora, por fosse feito a ele ou à sua esposa, sob pena de morte, v. 11. esta mesma razão, devessem ter insistido na sua perma­ Observe que: 1. Uma língua mentirosa só se mantém por nência, para que também pudessem ser abençoados, por alguns momentos. A verdade é a filha do tempo. E, com causa dele. Isaque não insiste no negócio que tinha feito o tempo, esta virá à tona. 2. Um único pecado freqüen­ com eles, pelas terras que estava ocupando, nem na sua temente é a entrada para muitos, e por isto os inícios ocupação e melhoria delas, nem se oferece para disputáde pecado devem ser evitados. 3. Os pecados daqueles las com eles pela força, embora tivesse se tornado muito I w. 26-33 GÊNESIS 26 138 grandioso, mas ele parte, de maneira muito pacífica, da seu irmão Ismael, que, certo ou errado, conservaria o que cidade real, e talvez dirigindo-se a uma região menos tinha, contra todo o mundo, cap. 16.12. E nós desejamos produtiva. Observe que devemos negar a nós mesmos os ser encontrados seguindo a qual deles? Este poço eles nossos direitos e as nossas conveniências, em vez de dis­ chamaram de Reobote, alargamento, espaço suficiente. cutir. Um homem bom e sábio se retirará à obscuridade, Nos dois poços anteriores, podemos ver o que é a terra, como Isaque aqui se retirou a um vale, em vez de perma­ dificuldades e lutas. Os homens não podem prosperar necer para ser motivo de inveja e má vontade. por causa do aglomerado dos seus vizinhos. Este poço nos mostra bem o que é o céu; é alargamento e paz, ali há T T T A sua constância e perseverança nas suas espaço suficiente, pois há muitas moradas. i l l atividades. 2. Ele permaneceu firme na sua fé, e conservou a sua 1. Ele prosseguiu com a sua agricultura, e continuoucomunhão com Deus. (1) Deus graciosamente manifestouhabilidoso para encontrar poços de água, e para adequá- se a ele, v. 24. Quando os filisteus o expulsaram, forçaramlos ao seu uso, v. 18ss. Embora ele tivesse enriquecido no a mudar de um lugar a outro, e o perturbaram con­ muito, ainda assim continuava tão atento como sempre à tinuamente, então Deus o visitou, e deu-lhe renovadas condição dos seus rebanhos, e ainda cuidava bem deles. garantias do seu favor. Observe que quando os homens se Quando os homens se engrandecem, devem tomar cuida­ revelam falsos e cruéis, nós podemos nos consolar porque do para não se julgarem grandes e elevados demais para Deus é fiel e gracioso. E o seu momento para manifestaro seu negócio. Embora ele fosse expulso das conveniên­ se é quando nós estamos mais desapontados nas nossas cias que tinha tido, e não pudesse prosseguir com a sua expectativas dos homens. Quando chegou a Berseba (v. agricultura com a mesma facilidade e com os mesmos 23), é provável que Isaque se perturbasse ao pensar na benefícios de antes, ainda assim ele se dispôs a aprovei­ sua condição itinerante, e no fato de que não lhe era per­ tar, da melhor maneira possível, a região em que tinha mitido permanecer em um lugar por muito tempo. E, em entrado. Esta é uma atitude prudente que todo homem meio à multidão de pensamentos semelhantes dentro dele, deve demonstrar. Observe que: naquela mesma noite em que chegou, cansado e intran(1) Ele abriu os poços que o seu pai tinha cavado qüilo a Berseba, Deus lhe trouxe os seus consolos, para (v. 18), e por respeito a seu pai chamou-os pelos nomes alegrar a sua alma. Provavelmente ele estava apreensi­ que seu pai os chamara. Observe que nas nossas buscas vo, pensando que os filisteus não o deixariam descansar pela verdade - esta fonte de água viva - é bom fazermos ali: “Não temas, porque eu sou contigo, e abençoar-te-ei”. uso das descobertas de gerações anteriores que foram Aqueles que têm certeza da presença de Deus consigo cobertas pela corrupção de épocas posteriores. Procure podem se mudar com consolo, onde quer que estejam, e o caminho antigo, os poços que os nossos pais cavaram, para onde quer que vão. (2) Ele não deixou de cumprir o e que os adversários da verdade taparam: pergunta aos seu dever com Deus: pois “edificou ali um altar, e invocou teus anciãos, e eles to dirão. o nome do Senhor”, v. 25. Observe que: [1] Não importa (2) Seus servos cavaram novos poços, v. 19. Observe para onde vamos, devemos levar a nossa religião conosco. que embora devamos usar a luz das gerações anterio­ Provavelmente os altares de Isaque, e a sua adoração reli­ res, isto não significa que devemos nos limitar a ela, e giosa ofendiam os filisteus, e os provocavam, para que lhe não progredir. Nós ainda devemos edificar sobre a sua causassem ainda mais problemas. Ainda assim ele pros­ fundação, correndo de uma parte para outra, para que a seguiu com o seu dever, não se importando com qualquer ciência se multiplique, Daniel 12.4. má vontade a que pudesse estar exposto, por causa da sua (3) Ao cavar os seus poços, ele encontrou muita opo­ fé. [2] Os consolos e incentivos que Deus nos dá, pela sua sição, w. 20,21. Aqueles que abrem as fontes da verdade palavra, devem nos incitar e estimular a praticar todos os devem esperar contradição. Os dois primeiros poços que exercícios devocionais pelos quais Deus possa ser honra­ cavaram foram chamados de Eseque e Sitna, contenda do, e a nossa relação com o céu possa ser mantida. e inimizade. Veja aqui: [1] Qual é a natureza das coisas mundanas. Elas são grandes instigadoras e provocadoras de brigas. [2] Qual é, freqüentemente, a sorte dos homens A Aliança de Isaque com Abimeleque mais quietos e pacíficos deste mundo. Aqueles que evitam w. 26-33 as lutas não podem evitar ser combatidos, Salmos 120.7. Neste sentido, Jeremias era um homem de contenda (Jr Aqui temos as contendas que haviam ocorrido entre 15.10), e o próprio Cristo também, embora Ele seja o Isaque e os filisteus, resultando em uma paz feliz, e em Príncipe da paz. [3] A graça que é ter abundância de água, uma reconciliação. tê-la sem lutar por ela. Quanto mais comum for esta gra­ ça, mais razões teremos para ser agradecidos por ela. Abimeleque faz uma visita amistosa a Isaque, como (4) Depois de muito tempo, ele retirou-se a um lu­ sinal do respeito que tinha por ele, v. 26. Observe que gar tranqüilo, conservando o seu princípio pacífico, sendo os caminhos do homem agradáveis ao Senhor, até preferindo fugir a lutar, e sem disposição para habitar a seus inimigos faz que tenham paz com ele, Provérbios junto àqueles que detestavam a paz, Salmos 120.6. Ele 16.7. Os corações dos reis estão nas mãos de Deus, e preferiu a quietude à vitória. Ele “cavou outro poço. E quando Ele assim o desejar, pode voltá-los para favore­ não porfiaram sobre ele”, v. 22. Observe que aqueles que cer ao seu povo. procuram a paz, mais cedo ou mais tarde, encontrarão a paz. Aqueles que procuram estar tranqüilos raramente Isaque prudentemente e cautelosamente ques­ deixam de conseguir isto. Quão diferente era Isaque do tiona a sinceridade de Abimeleque nesta visita, v. n GÊNESIS 27 w. 34,35 27. Observe que no estabelecimento de amizades e cor­ de água que tinham encontrado, w. 32,33. Ele não insis­ respondências, é necessário ter a prudência da serpente, tiu na restituição dos poços que os filisteus lhe tinham além da inocência da pomba. Não representa nenhuma tirado injustamente, para que isto não rompesse o trata­ transgressão da lei da mansidão e do amor dar a enten­ do, mas calou-se quanto à ofensa. E, para recompensá-lo der claramente a nossa forte percepção de danos recebi­ por isto, ele é imediatamente enriquecido com um novo dos, e permanecer em guarda ao lidar com aqueles que poço, que, por adequar-se tão bem aos acontecimentos agiram de modo injusto para conosco. do dia, Isaque chamou por um nome antigo, Berseba, o poço do juramento. Abimeleque professa a sua sinceridade, ao dirigir-se a Isaque, e fervorosamente solicita a sua amizade, w. 28,29. Alguns sugerem que Abimeleque insis­ O Tolo Casamento de Esaú tiu nesta aliança porque temia que Isaque, enriquecendo, w. 34,35 em uma ou outra ocasião, se vingasse dele pelas ofensas que tinha recebido. No entanto, ele professa o desejo de Aqui temos: 1. O tolo casamento de Esaú - tolo, se­ celebrar esta aliança com base em um princípio de amor. gundo alguns, por tomar duas esposas simultaneamente, 1. Ele apresenta o bom comportamento dos seus com re­ e talvez por este motivo ele seja chamado de fornicador lação a Isaque. Isaque se queixou de que o tinham odiado (Hb 12.16), ou talvez por ter se casado com cananéias, e o tinham mandado embora. Não, diz Abimeleque, “te que eram estranhas à bênção de Abraão, e sujeitas à deixamos ir em paz”. Eles o mandaram embora da sua maldição de Noé, motivo pelo qual ele é chamado de terra, que ele ocupava. Mas permitiram que levasse consi­ profano. Pois com isto ele evidenciou que não desejava a go seus rebanhos, e todos os seus bens. Observe que a di­ bênção de Deus, nem temia a sua maldição. 2. A tristeza minuição e até mesmo a retirada das ofensas é necessária e as dificuldades que isto causou aos seus queridos pais. para a preservação da amizade. Pois agravá-las exaspera (1) Entristeceu-os que ele se casasse sem pedir, ou pelo e amplia as diferenças. A grosseria feita contra alguém menos sem receber o seu conselho e seu consentimen­ pode piorar as situações. 2. Ele reconhece o sinal do favor to: veja os passos que dão os filhos para desprezar ou de Deus a Isaque, e faz disto a base do seu desejo de es­ contradizer a disposição que seus pais fazem deles. (2) tar aliado a ele: “O Senhor é contigo”, e “tu és o bendito Entristeceu-os que Esaú se casasse com as filhas dos hedo Senhor”. Como se ele tivesse dito: “Permita-me per­ teus, que não tinham a mesma religião deles. Pois Isaque suadi-lo a esquecer as ofensas que lhe foram feitas. Pois se lembrou do cuidado que o seu pai teve a respeito dele, Deus abundantemente compensou-lhe os danos que você para que de modo algum se casasse com uma mulher recebeu”. Observe que aqueles a quem Deus abençoa e cananéia. (3) Aparentemente, as esposas que ele tomou favorece têm razões suficientes para perdoar aqueles que provocavam Isaque e Rebeca. Os filhos que fazem aquilo os odeiam, uma vez que o pior inimigo que possuem não que é uma amargura de espírito para seus bons pais têm pode lhes causar nenhum dano real. Ou: “Uma vez que poucos motivos para esperar a bênção de Deus. Deus é contigo, desejamos a tua amizade”. Observe que é bom estar em concerto e comunhão com aqueles que estão em concerto e comunhão com Deus, 1 João 1.3. Es­ Ca pítu lo 27 tas palavras dirigidas a Isaque eram o resultado de uma deliberação madura: “Haja, agora, juramento entre nós”. Mesmo que alguns dos seus súditos invejosos e irados pu­ Neste capítulo, retornamos à história típica da luta dessem ter um desejo contrário a isto, ele e seus ministros entre Esaú e Jacó. Esaú tinha vendido de modo profano a primogenitura a Jacó. Mas Esaú espe­ de estado, que ele tinha trazido consigo, não desejavam ra não ficar mais pobre, nem Jacó mais rico por nada mais que uma amizade cordial. Talvez Abimeleque esta barganha, enquanto preservarem o afeto do tivesse recebido, por tradição, o aviso que Deus fez ao seu predecessor de não ferir Abraão (cap. 20.7), e isto o fez ter seu pai, garantindo desta maneira a bênção. Aqui, este respeito por Isaque, que parecia ser tão favorito do portanto, nós vemos como ele foi apropriadamen­ céu quanto Abraão. te punido pelo seu desprezo à primogenitura (da qual ele se privou tolamente) com a perda da bên­ Isaque o recepciona, e ao seu grupo, e inicia ção, da qual Jacó, de modo fraudulento, o priva. um concerto de amizade com ele, w. 30,31. Veja Assim esta história é explicada, Hebreus 12.16,17: quão generoso era o bom homem: 1. Em dar: Ele “lhes Por ter vendido o seu direito de primogenitura, fez um banquete”, e lhes deu as boas vindas. 2. Em per­ querendo ele ainda depois herdar a bênção, foi doar. Ele não insiste na descortesia que lhe tinham feito, rejeitado. Pois aqueles que desprezam o nome da mas inicia livremente o concerto de amizade com eles, e religião e a profissão de fé, e se desfazem delas se compromete a nunca fazer-lhes nenhum mal. Observe por uma ninharia, perdem, desta maneira, os seus que a religião nos ensina a ser amistosos com os vizinhos, poderes e privilégios. Aqui temos: I. O propósito e, em tudo o que depender de nós, devemos viver pacifi­ de Isaque de transferir a bênção a Esaú, w. 1-5. camente com todos os homens. II. O plano de Rebeca de consegui-la para Jacó, w. 6-17. III. A condução bem sucedida do plano, A providência sorriu ao que Isaque fez. Pois no por Jacó, e a sua obtenção da bênção, w. 18-29. IV mesmo dia em que ele fez este concerto com Abi­ O ressentimento de Esaú por causa disto, em que meleque, seus servos lhe trouxeram a notícia de um poço vemos, 1. A sua grande insistência com seu pai, 139 V GÊNESIS 27 w. 1-5 para obter uma bênção, w. 30-40. 2. A sua grande inimizade pelo seu irmão, por tê-lo privado da pri­ meira bênção, v. 41ss. O Plano de Rebeca w. 1-5 Aqui temos: desejo de Isaque de fazer o seu testamento, e decla­ Ie daOrarterra Esaú como seu herdeiro. A promessa do Messias de Canaã era um grande depósito, confiado 140 qual seu pai comerá, e então o abençoará. Com isto ele tinha em mente, não tanto revigorar o seu próprio espí­ rito, para que pudesse dar a bênção de uma maneira ví­ vida, como se interpreta normalmente, mas receber uma nova demonstração do dever filial do seu filho, e do seu afeto, antes de conceder a ele este favor. Talvez Esaú, desde que tinha se casado, tivesse trazido a sua caça às suas esposas, e raramente ao seu pai, como antigamente (cap. 25.28), e por isto Isaque, antes de abençoá-lo, de­ sejava que ele lhe mostrasse este respeito. Observe que é adequado, se o menor for abençoado pelo maior, que o maior seja servido e honrado pelo menor. Ele diz: “Para que minha alma te abençoe, antes que morra”. Observe que: (1) A oração é uma obra da alma, e não somente dos lábios. Assim como a alma deve ocupar-se em ben­ dizer a Deus (SI 103.1), também assim deve ocupar-se, para abençoar a nós mesmos, e a outros: a bênção não chegará ao coração, se não vier do coração. (2) A obra da vida deve ser realizada antes de morrermos, pois não pode ser realizada depois (Ec 9.10). E é muito desejável, quando viermos a morrer, não termos nada mais a fazer, a não ser morrer. Isaque ainda viveu aproximadamente quarenta anos depois disto. Que ninguém, portanto, pen­ se que morrerá mais cedo por fazer seus testamentos e preparar-se para a morte. primeiramente a Abraão, incluindo bênçãos espirituais e eternas. Isto, por orientação divina, ele tinha transmiti­ do a Isaque. Isaque, estando já velho, e não conhecendo, ou não compreendendo, ou não compreendendo devida­ mente, o oráculo divino a respeito de seus dois filhos, de que o maior serviria ao menor, decide transmitir toda a honra e o poder que havia na promessa a Esaú, seu filho mais velho. Nesta questão, ele foi governado mais pelo afeto natural, e o método comum de acertar estas coisas, do que deveiia ter sido, se tivesse conhecido (como é pro­ vável que conhecesse) as indicações que Deus tinha dado da sua vontade nesta questão. Observe que nós somos muito capazes de tomar nossas próprias medidas, com base no nosso próprio entendimento e não na revelação divina, e por isto freqüentemente nos desviamos do nos­ w. 6-17 so caminho. Nós pensamos que os sábios e instruídos, os poderosos e nobres, devem herdar a promessa. Mas Aqui Rebeca contribui para obter para Jacó a bên­ Deus não vê como vê o homem. Veja 1 Samuel 16.6,7. ção que estava designada a Esaú. E aqui, n I As instruções que ele deu a Esaú, dando pros­ A finalidade era boa, pois ela era orientada, nesta seguimento a este desígnio. Ele o chamou, v. 1. intenção, pelo oráculo de Deus, pelo qual ela tinha Pois Esaú, embora casado, ainda não tinha se mudado. sido governada ao repartir o seu afeto. Deus tinha dito E, embora tivesse amargurado enormemente osque seusassim deveria ser, que o maior serviria ao menor. pais pelo seu casamento, ainda assim eles não o tinham Por isto Rebeca decide que assim será, e não consegue expulsado, mas pareciam bem reconciliados com ele, ten­ suportar ver o seu marido desejoso de distorcer o plano tando tornar a situação a melhor possível. Observe que de Deus. Mas: os pais que são ofendidos pelos seus filhos não devem ser implacáveis com relação a eles. Os meios não eram bons, e de nenhuma maneira podiam ser justificáveis. Se não era um mal para 1. Ele lhe fala quais foram as considerações que o le­ varam a decidir fazer isto agora (v. 2): “Eis que já agora Esaú privá-lo da bênção (ele mesmo tinha perdido o d estou velho - portanto devo morrer em breve - “e não reito a ela, ao vender o direito da primogenitura), ain sei o dia da minha morte” - nem quando devo morrer. da assim era um mal a Isaque, aproveitando-se da su Portanto, devo fazer agora o que deve ser feito algum fraqueza, enganá-lo assim. Era também um mal a Jacó, dia. Observe que: (1) Os velhos devem ser lembrados, a quem ela ensinou a enganar, colocando uma mentira pelas crescentes fraquezas da idade, e fazer logo, e com na sua boca, ou pelo menos colocando uma na sua mão toda a pouca força que têm, o que as suas mãos encon­ direita. Além disto, isto o exporia a infindáveis escrúpu­ trarem para fazer. Veja Josué 13.1. (2) A consideração da los sobre a bênção, ao obtê-la desta maneira fraudulenta, incerteza sobre o momento da nossa partida deste mun­ se ela o sustentaria, ou aos seus, em qualquer situação, do (sobre a qual Deus, sabiamente, nos deixa às escuras), especialmente se o seu pai a revogasse, ao descobrir a deve nos estimulai- a fazer o trabalho do dia no mesmo trapaça, e alegasse, como poderia, que a anulava por um dia. O coração e a casa devem estar ambos estabelecidos, error personae - um erro da pessoa. Ele mesmo esta­ e guardados, em ordem, porque em um momento em que va ciente do perigo (v. 12), não desejando, se perdesse a não pensamos nisto, o Filho do homem pode vir. Por não bênção, o que provavelmente aconteceria, trazer sobre si conhecermos o dia da nossa morte, devemos nos preocu­ a maldição do seu pai, o que ele temia acima de qualquer par com os assuntos da vida. outra coisa. Além disto, ele se abria àquela maldição di­ 2. Ele lhe pede que arrume as coisas para a soleni­ vina que é proferida sobre aqueles que fazem com que os dade da execução da sua última vontade e do seu tes­ cegos errem o caminho, Deuteronômio 27.18. Se Rebeca, tamento, pelo qual ele deseja torná-lo seu herdeiro, w. ao ouvir Isaque prometendo a bênção a Esaú, tivesse ido 3,4. Esaú deve sair para caçar, e trazer alguma caça, da falar com Isaque - e, com humildade e seriedade fizesse n GÊNESIS 27 w. 18-29 com que ele se lembrasse daquilo que Deus tinha dito so­ A Fraude de Jacó bre os seus filhos, se ela tivesse lhe mostrado como Esaú w. 18-29 tinha perdido a bênção, tanto por vender o seu direito de Observe aqui: primogenitura quanto por se casar com estrangeiras - é provável que Isaque tivesse sido convencido a conceder a bênção a -Jacó, intencionalmente e conscientemente, e A arte e a segurança com que Jacó conduziu esta tra­ não fosse necessário enganá-lo. Isto teria sido honroso ma. Quem teria imaginado que este homem simples teria interpretado tão bem o seu papel em um desígnio e louvável, e teria sido bom para a história. Mas Deus permitiu que ela tomasse este caminho indireto, para desta natureza? Tendo sido instruído e incentivado pela que Ele pudesse ter a glória de fazer o mal produzir o sua mãe para realizar esta trama, habilmente ele em­ bem, e para servir aos seus próprios objetivos pelos pe­ pregou estes métodos aos quais não estava acostumado, cados e tolices dos homens. Assim, nós podemos ter a mas sempre tinha detestado. Observe que a mentira se satisfação de saber que, embora haja tanta iniqüidade aprende logo. O salmista fala daqueles que, tão logo nas­ e tanto engano no mundo, Deus governa de acordo com ceram, dizem mentiras, Salmos 58.3; Jeremias 9.5. Eu a sua vontade, para o seu próprio louvor. Veja Jó 12.16: me pergunto como o honesto Jacó conseguiu, tão rapi­ “Com ele está a força e a sabedoria. Seu é o que erra e o damente, fazer que sua língua dissesse (v. 19): “Eu sou que faz errar”. Isaque tinha perdido o sentido da visão. Esaú, teu primogênito”. Eu não vejo como o esforço de E nem mesmo neste caso ele poderia ser enganado, pois alguns comentaristas, de isentá-lo deste equívoco, com a Providência organizou tão admiravelmente a diferen­ “Eu sou feito teu primogênito, nomeado pela compra”, ça de características, que não há dois rostos exatamen­ lhe tem alguma utilidade. Pois quando o seu pai lhe te iguais. A convivência e o comércio mal poderiam ser perguntou (v. 24): “És tu meu filho Esaú mesmo?”, ele mantidos se não houvesse tal variedade. Por isto Rebeca respondeu: “Eu sou”. Como pôde ele dizer: “Tenho feito se esforça para enganar: 1. Seu paladar, temperando al­ como me disseste”, quando não tinha recebido nenhuma guns pedaços de carne de cabrito, condimentando-os, e ordem do seu pai, mas fez como a sua mãe lhe tinha dito? servindo-os de modo a fazer Isaque crer que eram carne Como pôde ele dizer: “Come da minha caça”, quando ele de caça: isto não era algo difícil de fazer. Veja a tolice sabia que não tinha vindo do campo, mas do rebanho? daqueles que são detalhistas e curiosos no seu apetite, e Mas eu me pergunto especialmente como ele conseguiu têm orgulho de satisfazê-lo. É fácil enganá-los com aquilo garantir as suas palavras ao pai usando o nome de Deus que dizem desprezar e não apreciar, por diferir tão pouco na sua trapaça (v. 20): “O Senhor, teu Deus, a mandou ao daquilo que eles decididamente preferem. Salomão nos meu encontro”. Este é Jacó? Este é realmente Israel, diz que os manjares gostosos são pão de mentiras. Pois sem trapaça? Certamente isto está escrito, não para nos­ é possível que sejamos enganados por eles de mais de sa imitação, mas para nossa admoestação. “Aquele, pois, uma maneira, Provérbios 23.32. 2. Seu sentido do olfato. que cuida estar em pé, olhe que não caia”. Os bons ho­ Ela vestiu as roupas de Esaú em Jacó, as suas melhores mens às vezes falham no exercício daquelas graças pelas roupas, que, pode-se supor, Esaú iria vestir, como sinal quais teriam se tornado os mais eminentes. de alegria e respeito por seu pai, quando fosse receber a bênção. Isaque sabia que estas roupas, pelo tecido, O sucesso desta busca. Jacó, com alguma dificulda­ de, conseguiu o seu objetivo, e obteve a bênção. forma e cheiro, eram de Esaú. Se desejamos obter uma bênção do nosso Pai celestial, devemos nos apresentar 1. Isaque, a princípio, ficou insatisfeito, e teria desco­ nas roupas no nosso irmão mais velho, vestidos com a berto a fraude se tivesse confiado em seus ouvidos. Pois sua justiça, a justiça daquele que é o primogênito entre a voz era “a voz de Jacó”, v. 22. A Providência ordenou muitos irmãos. Para que a brandura e suavidade das uma estranha variedade de vozes, assim como de rostos, mãos e do pescoço de Isaque não o traíssem, ela os co­ o que também é útil para evitar que sejamos enganados. briu, e também provavelmente parte do seu rosto, com E a voz é uma coisa não tão fácil de disfarçar ou dissimu­ as peles dos cabritos que tinham sido mortos, v. 16. Esaú lar. Isto pode ser uma alusão para exemplificar o caráter era realmente rude, e nada menos que estas coisas ser­ de um hipócrita. “A voz é a voz de Jacó, porém as mãos viriam para tornar Jacó parecido com ele. Aqueles que são as mãos de Esaú”. Ele usa a linguagem de um santo, pretendem parecer grosseiros e rudes na sua apresen­ mas faz as obras de um pecador. Mas o julgamento será, tação colocam o animal acima do homem, e realmente como aqui, pelas mãos. 2. Por fim, Isaque se rende ao poder da trapaça, por­ se envergonham disfarçando-se desta maneira. E, final­ mente, foi uma palavra muito áspera a que Rebeca pro­ que as mãos estavam cabeludas (v. 23), sem considerar nunciou, quando Jacó objetou quanto ao perigo de uma como era fácil simular esta circunstância. E agora Jacó maldição: “Meu filho, sobre mim seja a tua maldição”, prossegue habilmente, coloca a sua caça diante do seu v. 13. Cristo, que tem o poder de salvar, porque tem o pai, e o serve muito oficiosamente, até que a refeição poder de tolerar, realmente disse: “Sobre mim seja a tua esteja terminada, e a bênção é pronunciada no encer­ maldição. Somente obedece à minha voz”. Ele suportou ramento deste banquete solene. Aquilo que, até certo o peso da cruz, a maldição da lei, por todos aqueles que ponto, atenua o crime de Rebeca e Jacó é o fato de que estiverem dispostos a assumir o jugo do mandamento, a fraude se destinava, não tanto a apressar o cumpri­ o mandamento do Evangelho. Mas é muito ousado que mento, mas a evitar a anulação, do oráculo de Deus: a qualquer criatura diga: “Sobre mim seja a tua maldição”, bênção estava prestes a ser concedida à cabeça errada, e a menos que seja uma maldição sem causa que nós temos eles pensaram que era o momento de apressar-se. Veja­ a certeza de que não virá, Provérbios 26.2. mos como Isaque deu a sua bênção a Jacó, w. 26-29. (1) 141 I n 142 GÉNESIS 27 w. 30-40 Ele o abraçou, como sinal de um afeto especial por ele. a esperar, v. 31. Quando compreendeu que Jacó a tinha Aqueles que são abençoados por Deus são beijados com obtido de uma foram sub-reptícia, “bradou com grande e os beijos da sua boca, e eles realmente, por amor e leal­ mui amargo brado”, v. 34. Ninguém poderia ter expres­ dade, beijam ao Filho, Salmos 2.12. (2) Ele o louvou. Ele sado mais sinceramente o desapontamento do que ele. sentiu o cheiro das suas vestes e disse: “Eis que o cheiro Ele fez a tenda do seu pai encher-se com a sua dor, e, do meu filho é como o cheiro do campo, que o Senhor outra vez (v. 38) levantou a sua voz e chorou. Observe abençoou”, isto é, como aquele das mais perfumadas flo­ que se aproxima o dia em que aqueles que agora menos­ res e especiarias. Parecia que Deus o tinha abençoado, prezam as bênçãos do concerto, e vendem o seu direito e por isto Isaque o abençoaria. (3) Ele orou por ele, e a elas por algo insignificante, tentarão importunar ao profetizou a respeito dele. É dever dos pais orar pelos Senhor para obtê-las, porém isto será em vão. Aqueles seus filhos, e abençoá-los em nome do Senhor. E desta que não desejam perguntar e procurar agora, baterão maneira, assim como pelo batismo, fazer tudo o que pu­ à porta, e clamarão: Senhor, Senhor. Aqueles que hoje derem para preservar e perpetuar a transmissão do con­ desprezam a Cristo, naquele dia o cortejarão humilde­ certo nas suas famílias. Mas esta foi uma bênção extra­ mente. 2. Como ele foi rejeitado. Isaque, quando perce­ ordinária. E a Providência assim ordenou que Isaque a beu o engano que havia ocorrido, estremeceu “de um es­ concedesse sobre Jacó, inadvertidamente e por engano, tremecimento muito grande”, v. 33. Aqueles que seguem para que pudesse parecer que ele estava em dívida com a escolha dos seus próprios afetos, em vez dos ditados Deus, e não com Isaque. Aqui Jacó é abençoado com três da vontade divina, se envolvem em perplexidades como coisas: [1] Abundância (v. 28), o céu e a terra contribuin­ estas. Mas ele logo se recupera, e ratifica a bênção que do para enriquecê-lo. [2] Poder (v. 29), particularmente o tinha dado a Jacó: “Abençoei-o. Também será bendito”. domínio sobre os seus irmãos, especificamente, Esaú e Ele poderia, com razões muito plausíveis, ter cancelado seus descendentes. [3] Acesso à presença de Deus, e um a bênção, mas agora, finalmente, ele percebe que estava grande interesse no céu: “Malditos sejam os que te amal­ errado quando a designou a Esaú. Seja lembrando-se do diçoarem, e benditos sejam os que te abençoarem”. Que oráculo divino, ou tendo percebido que estava mais cheio Deus seja um amigo de todos os teus amigos, e um ini­ do Espírito Santo do que normalmente costumava estar, migo de todos os teus inimigos. Há mais coisas contidas quando deu a bênção a Jacó, Isaque deu-se conta de que nesta bênção do que aparecem prima fade - à primeira Deus, por assim dizer, disse Amém a isto. Bem: (1) Jacó vista. Ela deve significar uma transmissão da promessa foi, conseqüentemente, confirmado na posse da bênção, do Messias, e da igreja. Isto era, no dialeto patriarcal, a e abundantemente satisfeito com a sua validação, embo­ bênção. Alguma coisa espiritual, sem dúvida, está incluí­ ra a obtivesse de modo fraudulento. Conseqüentemente, da nela. Em primeiro lugar, que dele viria o Messias, que também, tinha razão para esperar que Deus graciosa­ teria o domínio soberano sobre a terra. Era a este ramo mente ignorasse e perdoasse o seu mau comportamento. da sua família que os povos deveriam servir e as nações (2) Isaque, portanto, concordou com a vontade de Deus, deveriam curvar-se. Veja Números 24.19: Dominará um embora ela contradissesse as suas próprias expectativas de Jacó, aquele que terá a estrela e o cetro, Números e afeições. Ele tinha intenção de dar a bênção a Esaú, 24.17. O domínio de Jacó sobre Esaú seria somente uma mas quando percebeu que era outra a vontade de Deus, tipificação disto, cap. 49.10. Em segundo lugar, que dele submeteu-se a ela. E isto ele fez pela fé (Hb 11.20), assim viria a igreja, o que seria particularmente reconhecido e como Abraão antes dele, quando rogou por Ismael. Deus favorecido pelo céu. Isto era parte da bênção de Abraão, não poderá, então, fazer o que desejar, com os seus? (3) quando foi chamado para ser o pai dos fiéis (cap. 12.3): Esaú, conseqüentemente, foi arrancado da expectativa “Abençoarei os que te abençoarem”. Portanto, quando daquela bênção especial que ele pensava ter preservado Isaque confirmou a bênção a Jacó, ele a chamou de bên­ para si mesmo quando vendeu seu direito de primogeni­ ção de Abraão, cap. 28.4. Balaão também explica isto. tura. Nós, com este exemplo, somos ensinados: [1] Que Números 24.9. Observe que é a melhor e mais desejável “isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de bênção permanecer em um relacionamento correto com Deus, que se compadece”, Romanos 9.16. O apóstolo pa­ Cristo e com a sua igreja, e interessar-se pelo poder de rece aludir a esta história. Esaú tinha boa vontade para obter a bênção, e correu para recebê-la. Mas Deus que Cristo e pelos favores da igreja. se compadece, designou-a a Jacó, para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, Romanos 9.11. A Bênção É Pronunciada sobre Jacó e Esaú Os judeus, como Esaú, caçaram pela lei da justiça (v. 31), mas perderam a bênção da justiça, porque a buscaram w. 30-40 através das obras da lei (v. 32). Ao passo que os gentios, que, como Jacó, a buscaram pela fé no oráculo de Deus, Aqui temos: a obtiveram pela força, por aquela violência que o reino T A bênção do concerto, negada a Esaú. Aquele que do céu permite. Veja Mateus 11.12. [2] Que aqueles que jL menosprezou o direito de primogenitura, queren­ subestimam o seu direito de primogenitura espiritual, e do ainda depois herdar a bênção, foi rejeitado, porque que podem permitir-se vendê-lo por um pouco de comi­ não achou lugar de arrependimento, ainda que, com da, perdem as bênçãos espirituais e é justo que Deus lhes lágrimas, o buscou, Hebreus 12.17. Observe: 1. Quão negue aqueles favores com os quais não se preocuparam. cuidadosamente ele a buscou. Ele preparou a refeição Aqueles que se separam da sua sabedoria e da sua graça, temperada, como seu pai lhe tinha instruído, e então da sua fé e de uma boa consciência, para ter as honras, a implorou a bênção que o seu pai lhe tinha incentivado riqueza ou os prazeres deste mundo, ainda que possam 143 GÊNESIS 27 w. 41-46 ter pretensões de zelar pela bênção, já se provaram in­ Se Jacó deve governar (v. 29), então Esaú deve servir. dignos dela, e tal será o seu destino. [3] Que aqueles que Mas ele tem este consolo: “Pela tua espada viverás”. levantam as mãos com ira as levantam em vão. Esaú, em Ele servirá, mas não passará fome. E, depois de muito vez de arrepender-se da sua própria loucura, criticou seu tempo, depois de muito lutar, ele sacudirá o seu jugo da irmão, acusando-o injustamente de tomar o direito de servidão, e usará marcas de liberdade. Isto se cumpriu primogenitura que ele lhe tinha vendido (v. 36), e plane­ (2 Rs 8.20,22) quando os edomitas se rebelaram. jou maldades contra ele, por causa do que tinha acabado (2) Mas isto ainda estava muito longe da bênção de de acontecer, v. 41. Provavelmente não serão bem suce­ Jacó. Pois a ele. Deus tinha reservado coisas melhores. didos na oração aqueles que voltam sobre seus irmãos [1] Na bênção de Jacó, o orvalho dos céus é colocado em aqueles ressentimentos que devem voltar sobre si mes­ primeiro lugar, como aquilo que ele mais valorizasse, de­ mos, e colocam a culpa dos seus insucessos em outros, sejasse, e de que dependesse. Na de Esaú, a gordura da quando deveriam se envergonhar. [4] Que aqueles que terra é colocada em primeiro lugar, pois era isto que ele não buscam até que seja tarde demais, serão rejeitados. mais valorizava. [2] Esaú tem estas coisas, mas Jacó as Esta foi a ruína de Esaú, ele não veio a tempo. Assim tem concedidas pela mão de Deus: “Assim, pois, te dê como existe um tempo aceitável, um tempo em que Deus Deus do orvalho dos céus”, v. 28. Era suficiente para será encontrado, também existe um tempo quando Ele Esaú ter a posse. Mas Jacó desejava isto pela promessa, não responderá àqueles que o invocam, porque negligen­ e desejava ter estas coisas pelo amor do concerto. [3] Jacó ciaram a época oportuna. Veja Provérbios 1.28. O tempo terá domínio sobre os seus irmãos: por isto os israelitas da paciência de Deus e da nossa experiência não durará freqüentemente governavam os edomitas. Esaú terá o para sempre. O dia da graça chegará ao fim, e a porta domínio, isto é, conseguirá algum poder e interesse, mas será fechada. Então muitos que agora desprezam a bên­ nunca terá o domínio sobre o seu irmão: não lemos que ção a procurarão cuidadosamente. Pois então saberão os judeus tivessem sido vendidos às mãos dos edomitas, como valorizá-la, e verão a sua destruição, para sempre, ou que fossem oprimidos por eles. Mas a grande diferen­ sem ela, mas não sem propósito, Lucas 13.25,27. Oh, que ça é que não existe nada, na bênção de Esaú, que aponte possamos, então, neste nosso dia, conhecer as coisas que para Cristo, nada que o traga, ou aos seus, à igreja e ao pertencem à nossa paz! concerto de Deus, sem os quais a gordura da terra, e os despojos do campo, não lhe dariam boa posição. Desta Aqui está uma bênção comum, concedida sobre maneira Isaque, pela fé, abençoou a ambos, em confor­ Esaú. midade aos seus destinos. Alguns observam que Jacó foi 1. Isto ele desejava: “Abençoa-me também a mim, abençoado com um beijo (v. 27), e Esaú, não. meu pai”, v. 34. “Não reservaste, pois, para mim bênção alguma?”, v. 36. Observe que: (1) O pior dos homens não sabe como esperar o bem para si mesmo. E mesmo Esaú Ameaça a Vida de Jacó aqueles que vendem profanamente o seu direito de pri­ w. 41-46 mogenitura parecem, piedosamente, desejar a bênção. Fracos desejos de felicidade, sem uma escolha correta Aqui temos: do objetivo e o uso correto dos meios, levam a muitos à sua própria ruína. Multidões vão para o inferno com A má intenção que Esaú nutriu por Jacó por causa suas bocas cheias de bons desejos. O desejo do pregui­ da bênção que ele tinha obtido, v. 41. Desta maneira çoso e do incrédulo os mata. Muitos procurarão entrar, ele seguiu o caminho de Caim, que assassinou seu irmão como Esaú, e não poderão, porque não se dedicam a porque ele tinha obtido aquela aceitação de Deus, da lutar, Lucas 13.24. (2) A loucura da maioria dos homens qual Caim tinha se mostrado indigno. O ódio de Esaú é o fato de estarem muito dispostos a contentar-se com por Jacó era: 1. Um ódio infundado. Ele o odiava, por um qualquer bem (SI 4.6), como Esaú, aqui, que desejava único motivo: o seu pai o abençoou, e Deus o amava. Ob­ somente uma bênção de segunda classe, uma bênção se­ serve que a felicidade dos santos é a inveja dos pecado­ parada do direito de primogenitura. Os corações profa­ res. Aquele a quem o céu abençoa, o inferno amaldiçoa. 2. nos pensam que qualquer bênção é tão boa quanto a do Era um ódio cruel, desprovido de uma causa justa. Nada oráculo de Deus: “Não reservaste... bênção alguma?” o satisfaria, exceto assassinar ao seu irmão. É do sangue Como se tivesse dito: “Eu me contentarei com qualquer dos santos que os perseguidores têm sede: “Matarei a uma: ainda que eu não tenha a bênção da igreja, deixe- Jacó, meu irmão”. Como ele podia dizer estas palavras me ter alguma bênção”. sem horror? Como ele podia chamá-lo de irmão, e ainda 2. Isto ele tinha: e que a aproveitasse ao máximo, assim jurar a sua morte? Observe que o ódio dos per­ w. 39,40. seguidores não se deterá por nenhum laço, não, nem o (1) Era uma coisa boa, e melhor do que ele merecia.mais forte e mais sagrado. 3. Era um ódio político. Esaú Foi-lhe prometido: [1] Que teria o sustento necessário - esperava que o seu pai morresse logo, e então os títulos embora não estivesse próximo das gorduras da terra e seriam examinados e seriam contestados os interesses do orvalho dos céus. Observe que aqueles que não con­ entre os irmãos, o que lhe daria uma boa oportunidade seguem as bênçãos do concerto ainda podem conseguir para vingança. Ele não julga suficiente viver pela sua es­ uma boa quantidade de bênçãos externas. O bondoso pada (v. 40), a menos que o seu irmão morra por ela. Ele Deus dá boa terra e bom clima a muitos que rejeitam o reluta em amargurar a seu pai, enquanto este viver, e seu concerto, e que não têm nenhuma participação nele. por isto adia o assassinato intencional para depois da sua [2] Que, gradualmente, ele recuperaria a sua liberdade. morte, sem se importar com o quanto isto amarguraria n I 144 GÊNESIS 28 a sua mãe. Observe que: (1) São maus filhos aqueles que co calorosa demais sobre o assunto, quando disse: “Se são um peso para seus bons pais, e que, por qualquer Jacó tomar mulher das filhas de Hete, como estas são motivo, desejam os dias de luto por eles. (2) Os homens das filhas desta terra, para que me será a vida?” Graças maus são impedidos por muito tempo, por restrições ex­ a Deus, todo o nosso consolo não se concentra somente ternas, de fazer o mal que desejariam fazer, e assim os em uma mão. Nós podemos fazer o trabalho da vida, e seus propósitos malignos resultam em nada. (3) Aqueles desfrutar dos consolos da vida, embora nem tudo acon­ que pensam em derrotar os propósitos de Deus, sem dú­ teça de acordo com a nossa vontade, e embora os nossos vida ficarão desapontados. Esaú planejava impedir que parentes possam não nos ser agradáveis em todos os Jacó, ou a sua semente, tivesse o domínio, tirando a sua aspectos. Talvez Rebeca falasse com esta preocupação vida antes que ele se casasse: mas quem pode anular porque ela via que era necessário, para motivar Isaque, aquilo que Deus decretou? Os homens podem se irritar dar ordens urgentes neste sentido. Observe que embora o próprio -Jacó fosse muito promissor, e estivesse bem com os conselhos de Deus, mas não podem alterá-los. estabelecido na sua religião, ainda assim ele tinha a ne­ cessidade de ser removido do caminho da tentação. Ele O método que Rebec-a usou para evitar o dano. até mesmo corria o risco de seguir o mau exemplo do seu 1. Ela avisou Jacó sobre este perigo, e aconse­ lhou-o a se afastar por algum tempo, mudar-se para a irmão, e de ser atraído para uma cilada, devido a esta sua própria segurança. Ela lhe conta o que ouviu sobre atitude. Ao pressupor sobre a sabedoria e a determina­ os desígnios de Esaú - que ele se consolava com a espe­ ção, nós não devemos ir longe demais, nem mesmo em rança de uma oportunidade de matar a seu irmão, v. 42. se tratando daqueles filhos que são mais promissores, Alguém poderia imaginar que um pensamento bárbaro daqueles em quem temos as maiores esperanças. Deve­ como este pudesse ser um consolo para um homem? Se mos tomar todos os cuidados possíveis para mantê-los Esaú tivesse conseguido guardar consigo este desígnio, afastados do mal. sua mãe não teria suspeitado. Mas o atrevimento dos homens no pecado freqüentemente é sua ilusão. E eles não conseguem realizar suas iniqüidades porque a sua C a p ít u l o 2 8 ira é violenta demais para ser ocultada, e um pássaro do ar a transmite. Observe aqui: (1) O que Rebec-a temia Aqui temos: I. Jacó separando-se dos seus pais, ser privada de ambos num mesmo dia (v. 45), privada, para ir a Padã-Arã. A incumbência que seu pai lhe não somente do assassinado, mas também do assassi­ deu (w. 1,2), a bênção com que seu pai o enviou no, que fosse pelo magistrado ou pela mão imediata de (w. 3,4), a sua obediência às ordens que lhe foram Deus seria sacrificado à justiça, com o que ela mesma dadas (w. 5,10), e a influência disto sobre Esaú, deveria concordar, e não obstruir. Ou ainda, se isto não w. 6-9. II. O encontro de Jacó com Deus, e a sua acontecesse, a partir daquele momento ela seria privada comunhão com Ele pelo caminho. E ali, 1. A sua vi­ de toda alegria e de todo consolo que tinha. Aqueles que são da escada, w. 11,12.2. As graciosas promessas estão perdidos para a virtude estão, de certa maneira, que Deus fez a ele, w. 13-15. 3. A impressão que perdidos para todos os seus amigos. Com que prazer al­ isto teve sobre ele, w. 16-19.4. O voto que ele fez a guém poderia olhar para um filho que não pode ser con­ Deus, nesta ocasião, v. 20ss. siderado de outro modo senão como um filho do diabo? (2) O que Rebeca esperava - que, se Jacó se mantivesse sem ser visto por algum tempo, a afronta da qual seu Jacó É Enviado com uma Bênção irmão se ressentia tão violentamente iria, gradualmente, w. 1-5 deixar a sua mente. A força das paixões é enfraquecida e diminuída pelas distâncias, tanto de tempo como de lu­ Tão logo Jacó obteve a bênção, imediatamente foi for­ gar. Ela se prometeu que a ira de Esaú seria desviada. Observe que ceder pacifica grandes ofensas. E mesmo çado a fugir da sua região. E, como se não bastasse o fato aqueles que têm uma boa causa, e têm Deus do seu lado, de que ali ele era um estrangeiro e peregrino, ele devia ainda assim devem usar isto com outros expedientes sê-lo ainda mais, e em um exílio, em outra região. Agora, “Jacó fugiu para o campo da Síria”, Oséias 12.12. Ele ti­ prudentes, para a sua própria preservação. 2. Ela inculcou em Isaque uma apreensão da neces­nha sido abençoado com abundância de trigo e de mosto, sidade da ida de Jacó para junto dos seus parentes, com mas ainda assim foi embora pobre. Tinha sido abençoado outra explicação, que era a de tomar uma esposa, v. 46. com governo, e ainda assim, saiu para servir, um serviço Ela não desejava contar-lhe sobre os maus desígnios de árduo. Isto aconteceu: 1. Talvez para puni-lo e corrigi-lo Esaú contra a vida de Jacó, para não perturbá-lo. Mas pelo seu comportamento fraudulento com seu pai. A bên­ prudentemente tomou outro caminho para conseguir o ção será confirmada a ele, mas assim ele deve sofrer pelo seu intento. Isaque estava tão descontente quanto ela curso indireto que tomou para obtê-la. Se existir algum com o fato de Esaú prencler-se a um jugo desigual com pecado nos nossos deveres, devemos esperar que haja heteus. E por isto, com muito bom pretexto, ela se em­ problemas nos nossos consolos. No entanto: 2. Para nos penha para ver Jacó casado com alguém com melhores ensinar que aqueles que são herdeiros da bênção devem princípios. Observe que um insucesso deve servir como esperar perseguição. Aqueles que têm a paz em Cristo aviso, para evitar outro. São verdadeiramente descuida­ terão aflições no mundo, João 16.33. Sabendo disto de dos aqueles que tropeçam duas vezes na mesma pedra. antemão, não devemos achar nada estranho, e, tendo Mas Rebeca parece ter se expressado de forma um pou­ certeza de uma recompensa futura, não devemos consi­ w. 1-5 145 GÊNESIS 28 w. 6-9 derar nada difícil demais. Da mesma maneira, podemos 2. A promessa de uma herança a estes herdeiros: observar que as providências de Deus freqüentemente “Para que em herança possuas a terra de tuas peregri­ parecem contradizer as Suas promessas, e interceptá- nações", v. 4. Canaã foi transmitida, então, à semente de las. E ainda assim, quando o mistério de Deus estiver ■Jacó, excluindo a semente de Esaú. Isaque agora envia­ concluído, veremos que tudo foi para o melhor, e que as va Jacó a um lugar distante, para assentar-se ali durante providências contrárias apenas tornaram as promessas algum tempo. E, para que com isto não parecesse que e o seu cumprimento ainda mais gloriosos. Jacó aqui é o estava deserdando, aqui ele confirma a herança a ele, enviado pelo seu pai, para que ele pudesse estar seguro de que a descontinuidade da sua posse não prejudicaria o seu direito. Obser­ Com uma incumbência solene: Isaque “abençoou-o, ve que aqui ele ouve que ele iria herdar a terra na qual e ordenou-lhe”, w. 1,2. Observe que aqueles que têm peregrinava. Aqueles que são peregrinos agora serão a bênção devem guardar a incumbência anexa a ela, e herdeiros para sempre: e, mesmo agora, devem herdar não pensar em separar o que Deus uniu. A incumbência a terra (embora não herdem a maior parte dela) aqueles é igual àquela de 2 Coríntios 6.14: “Não vos prendais a que são principalmente peregrinos nela. Têm o melhor um jugo desigual com os infiéis”. E todos os que her­ benefício das coisas atuais aqueles que menos se apegam dam as promessas da remissão dos pecados, e o dom do a elas. Esta promessa visa tão alto como o céu, do qual Espírito Santo, devem guardar esta incumbência, que Canaã era um tipo. Esta era a terra melhor, em que Jacó, acompanha estas promessas: “Salvai-vos desta geração com os outros patriarcas, tinha os olhos, quando se con­ perversa”, Atos 2.38-40. Aqueles que têm direito a fa­ fessou um estrangeiro e peregrino nela, Hebreus 11.13. vores peculiares devem ser um povo peculiar. Se Jacó é Jacó, tendo se despedido de seu pai, saiu apressa­ um herdeiro da promessa, ele não deve tomar por esposa damente, para que seu irmão não encontrasse oportu­ uma das filhas de Canaã. Aqueles que professam a fé não nidade de fazer-lhe mal, e foi para Padã-Arã, v. 5. Como devem se casar com aqueles que não se preocupam com o foi diferente a sua busca de uma esposa, da do seu pai! dever de servir ao Senhor. Isaque tinha servos e camelos enviados para obter a es­ posa; Jacó devia ir pessoalmente, sozinho e a pé, para Com uma bênção solene, w. 3,4. Ele já o tinha obtê-la: Ele deve também sair assustado da casa do seu abençoado antes, inadvertidamente. Agora ele o pai, sem saber quando poderá retornar. Observe que se faz intencionalmente, para maior encorajamento de Jacó Deus, na sua providência, nos priva de algo, devemos fi­ naquela melancólica condição na qual agora ele entrava. car satisfeitos, ainda que não possamos manter a pompa A bênção é mais expressa e plena do que a anterior; é uma e a grandeza dos nossos ancestrais. Nós devemos nos transmissão da bênção de Abraão, aquela bênção que foi preocupar mais em conservar a piedade deles do que derramada sobre a cabeça de Abraão, como o azeite da manter a dignidade deles, e em sermos tão bons quan­ unção, e conseqüentemente para ser passada para a sua to eles eram, em vez de procurarmos ser tão grandes semente escolhida, como as orlas das suas vestes. E uma quanto eles. Rebeca aqui é chamada de mãe de Jacó e bênção do Evangelho, a bênção dos privilégios da igreja, Esaú. Jacó é mencionado em primeiro lugar, não somen­ que é a bênção de Abraão, que aos gentios chegou pela te porque sempre tinha sido o predileto da sua mãe, mas fé, Gálatas 3.14. E uma bênção do Deus Todo-poderoso, porque agora tinha sido feito herdeiro de seu pai, e Esaú, nome pelo qual Deus aparecia aos patriarcas, Êxodo neste sentido, tinha sido deixado de lado. Observe que 6.3. São verdadeiramente abençoados aqueles a quem o chegará o momento em que a piedade terá a prioridade, Deus Todo-poderoso abençoa. Pois Ele ordena e efetiva não importando como ela está agora. a bênção. Abraão foi abençoado com duas grandes pro­ messas, e Isaque aqui transmite ambas a Jacó. 1. A promessa de herdeiros: “Deus Todo-poderoso w. 6-9 te abençoe, e te faça frutificar, e te multiplique”, v. 3. (1) Através dos seus lombos deveria descender de Abraão Esta passagem a respeito de Esaú surge no meio da aquele povo que seria numeroso como as estrelas do história de Jacó, ou: 1. Para mostrar a influência de um céu, como a areia que está na praia do mar, e que deve­ bom exemplo. Esaú, embora fosse o mais velho, agora ria crescer mais do que o resto das nações. Deste modo, começa a considerar Jacó o melhor homem, e não desde­ este povo seria uma assembléia de pessoas, como diz nha tomá-lo como exemplo neste caso particular do ca­ a anotação à margem de algumas versões da Bíblia samento com uma filha de Abraão. Os filhos mais velhos Sagrada. E nunca houve, em época alguma, um ajun­ devem dar aos mais jovens um exemplo de afabilidade tamento tão grande como este: uma grande multidão e obediência. Não será bom, se não o fizerem. Mas se de pessoas tão freqüentemente congregada em uma eles tomarem o exemplo dos mais jovens, como Esaú assembléia - este ajuntamento eram as tribos de Israel aqui tomou o exemplo de Jacó, isto será um alívio. Ou: no deserto. (2) Através dos seus lombos deveria descen­ 2. Para mostrar a tolice de uma percepção tardia. Esaú der de Abraão aquela Pessoa em quem todas as famílias agiu bem, mas o fez quando já era tarde demais. Ele viu da terra seriam abençoadas, e aquele que deveria ser o “que as filhas de Canaã eram más aos olhos de Isaque, motivo desta congregação de pessoas. Jacó realmente seu pai”, e poderia ter visto isto há muito tempo, se ti­ tinha em si uma multidão de povos, pois todas as coisas vesse se preocupado com o julgamento de seu pai, tanto do céu e da terra se congregam em Cristo (Ef 1.10), quanto se preocupava com o seu paladar. E como agora todas se centram nele, aquele grão de trigo que, caindo ele repara a situação? Ora, na verdade, de modo a tornána terra, dá muito fruto, João 12.24. la pior. (1) Ele casou-se com uma filha de Ismael, o filho I n w. 10-15 GÊNESIS da serva, que foi expulso, e não herdaria eom Isaque e a sua semente, unindo-se, desta forma, com uma família à qual Deus tinha rejeitado, e procurando fortalecer as suas próprias pretensões com a ajuda de outro preten­ dente. (2) Ele tomou uma terceira esposa, enquanto, ao que parece, as suas outras esposas não tinham morrido, nem tinha se divorciado delas. (3) Ele somente fez isto para agradar ao seu pai, não para agradar a Deus. Agora que Jacó havia sido enviado a um lugar distante, Esaú fi­ caria completamente tranqüilo, e esperava agradar a seu pai de modo a persuadi-lo a fazer um novo testamento, e transmitir a promessa a ele, revogando a transmissão recentemente feita a Jacó. Assim: [1] Ele foi prudente quando já era tarde demais, como Israel que desejou aventurar-se quando o mandado já tinha sido decretado contra eles (Nm 14.40), e as virgens loucas, Mateus 25.11. [2] Ele se acomodou em uma transformação parcial, e pensava que, agradando aos seus pais em um aspecto, poderia compensar todos os seus outros enganos. Não está escrito que, quando viu o quão obediente era Jacó, e o quanto se dispunha a agradar aos seus pais, Esaú tenha se arrependido do seu desígnio maligno contra ele. Não. Posteriormente leremos que ele persistia com esta idéia, e conservava a sua maldade. Observe que os corações carnais são capazes de julgar que são tão bons quanto deveriam ser, porque talvez, em algum instante particular, não tenham sido tão maus como poderiam ter sido. Assim Mica conserva seus ídolos, mas se considera feliz por ter um levita como seu sacerdote, Juizes 17.13. A Visão de Jacó em Betei w. 10-15 Aqui temos Jacó na sua jornada a caminho da Síria, em uma condição completamente desolada, como alguém que era enviado para buscar a sua sorte. Mas descobri­ mos que, embora estivesse só, ainda assim não estava só, pois o Pai estava eom ele, João 16.32. Entendendo o que está registrado aqui como tendo aparentemente aconte­ cido na primeira noite, ele tinha feito uma longa viagem de um dia, de Berseba a Betei, de aproximadamente 40 milhas (ou 64 quilômetros). A Providência o trouxe a um local conveniente, provavelmente sombreado com árvo­ res, para descansar naquela noite. E aqui: Ele teve um alojamento rústico (v. 11), tendo pedras Icortinas. como seus travesseiros, e os céus como cobertura e De acordo com o costume da época, talvez isto não fosse tão ruim como nos parece hoje. Mas podemos pensar que: 1. Ele passou muito frio, tendo o chão frio como cama, e, o que supostamente teria piorado as coi­ sas, uma pedra dura como travesseiro, e estava exposto ao ar frio. 2. Ele teve um repouso muito desconfortável. Se os seus ossos estivessem doloridos devido à jornada deste dia, o seu descanso noturno somente os faria ainda mais doloridos. 3. Ele ficou muito exposto. Ele se esque­ ceu de que estava fugindo para preservar a sua própria vida. Se o seu irmão, na sua fúria, o tivesse perseguido, ou tivesse enviado um assassino para segui-lo, aqui ele estava pronto para ser sacrificado, e privado de abrigo e defesa. Não devemos pensar que foi por causa da sua 28 146 pobreza que ele ficou tão mal acomodado, mas: (1) Isto se devia à simplicidade daqueles tempos, quando os ho­ mens não tinham muita pompa, nem se preocupavam tanto com o seu conforto, como o fazem nestes tempos de suavidade e efeminação. (2) Jacó estava particularmente acostumado às dificuldades, sendo um homem simples que habitava em tendas. E, designado agora a ir para servir, ele estava mais disposto a acostumar-se a elas. E, como foi provado, isto foi bom, cap. 31.40. (3) Seu consolo na bênção divina, e a sua confiança na proteção divina, fizeram com que ele se sentisse confortável, mesmo es­ tando assim exposto. Tendo a certeza de que o seu Deus determinou que ele habitasse em segurança, ele pôde se deitar e dormir sobre uma pedra. Neste alojamento tão rústico ele teve um sonho X x agradável. Qualquer israelita estaria, na verda­ de, disposto a contentar-se com o travesseiro de Jacó, desde que apenas pudesse ter o sonho de Jacó. Naquela ocasião, e naquele local, ele ouviu as palavras de Deus, e teve as visões do Todo-poderoso. Foi a melhor noite de sono que ele teve na sua vida. Observe que o momento de Deus visitar o seu povo com os seus consolos é quando eles estão mais destituídos dos demais consolos, e outros confortadores. Quando, podemos dizer, abundam as afli­ ções no caminho do dever, então os consolos abundarão ainda mais. Observe aqui: 1. A visão encorajadora que Jacó teve, v. 12. Ele viu uma escada, que subia da terra ao céu, e os anjos de Deus subiam e desciam por ela, e o próprio Deus em cima dela. Isto representa as duas coisas que são muito eonsoladoras a todas as boas pessoas, em todos os tempos, e em todas as condições: (1) A providência de Deus, pela qual existe uma correspondência constante, entre o céu e a terra. Os conselhos do céu são executados na terra, e os atos e assuntos desta terra, todos conhecidos no céu, são realizados na terra, e os atos e assuntos desta terra são todos conhecidos no céu e ali são julgados. A providência faz o seu trabalho gradualmente, e passo a passo. Os an­ jos são empregados como espíritos ministradores, para servir a todos os propósitos e desígnios da Providência, e a sabedoria de Deus está na extremidade superior da igreja, orientando todas as causas secundárias em direção à glória da Causa principal. Os anjos são espí­ ritos ativos, continuamente subindo ou descendo. Eles não descansam, noite e dia, do serviço, de acordo com as posições a eles designadas. Eles sobem, para prestar contas do que fizeram, e para receber ordens. E então descem, para executar as ordens que receberam. Assim devemos ser sempre abundantes na obra do Senhor, para que possamos realizá-la como os anjos a realizam, Salmos 103.20,21. Esta visão trouxe um consolo muito oportuno a Jacó, dando-lhe a entender que ele tinha um bom guia e também um bom guardião, na sua saída e entrada - isto é, embora ele fosse forçado a peregrinar saindo da casa do seu pai, ainda estava sob os cuidados da benigna Providência, e a cargo dos santos anjos. Isto é consolo suficiente, e jamais devemos aceitar a inter­ pretação de alguns, de que os “anjos tutelares” de Canaã estivessem subindo, tendo protegido Jacó na saída da sua terra, e os anjos da Síria descendo, para tomá-lo sob a sua custódia. Jacó agora tipificava e representava toda 147 GÊXESIS 28 w. 16-22 se dirigia a um exílio em um lugar muito distante, mas Deus promete trazê-lo de volta à sua terra outra vez. Observe que aquele que preserva a saída do seu povo, também preservará a sua entrada, Salmos 121.8. [5] Ele parecia ter sido abandonado por todos os seus amigos, mas Deus aqui lhe dá esta garantia: “Te não deixarei”. Observe que aqueles a quem Deus ama, Ele nunca aban­ dona. Esta promessa está garantida a toda a semente, Hebreus 13.5. [6] A providência parecia contradizer as promessas. Por isto ele recebe a certeza do cumprimento delas, na ocasião oportuna: “Até que te haja feito o que te tenho dito”. Observe que dizer e fazer não são duas coisas diferentes com Deus, independentemente do que são para nós. a igreja, e os anjos estavam encarregados de protegêlo. (2) A mediação de Cristo. Ele é esta escada, o pé na terra, na sua natureza humana, e o topo no céu, na sua natureza divina: ou, na primeira, na sua humilhação, e na última, na sua exaltação. Todo o relacionamento entre o céu e a terra, desde a queda, é feito por esta escada. Cristo é o caminho. Todos os favores de Deus vêm a nós, e todos os nossos serviços vão até Ele, por Cristo. Se Deus habita conosco, e nós com Ele, é por intermédio de Cristo. Nós não temos outro caminho para chegai' ao céu, exceto por esta escada. Se subirmos por outra parte, seremos ladrões e salteadores. A esta visão alude o nosso Salvador quando fala sobre os anjos de Deus, subindo e descendo sobre o Filho do homem (Jo 1.51). Pois os bons serviços que os anjos nos fazem, e os benefícios que re­ cebemos pelo seu ministério, são todos devidos a Cristo, que reconciliou as coisas na terra e as coisas no céu (Cl O Voto de Jacó 1.20), e as congregou em si mesmo, Efésios 1.10. w. 16-22 2. As palavras encorajadoras que Jacó ouviu. Ago­ ra Deus o levava ao deserto, e falava com ele de modo Deus manifestou tanto a si mesmo como o seu favor consolador, falava do topo da escada: pois todas as boas a Jacó, quando ele estava dormindo e completamente notícias que nós recebemos do céu, nos vêm por meio de passivo. Pois o espírito, como o vento, sopra onde - e Jesus Cristo. quando - quer, e a graça de Deus, como o orvalho, não (1) As promessas anteriores, feitas ao seu pai, foram “aguarda filhos de homens”, Miquéias 5.7. Mas Jacó, de­ repetidas e ratificadas a ele, w. 13,14. De modo geral, pois de despertar, dedicou-se a aproveitar a visita que Deus indicou a Jacó que seria, para ele, o mesmo Deus Deus lhe tinha feito. E podemos crer que ele despertou, que tinha sido para Abraão e para Isaque. Aqueles que como o profeta (Jr 31.26), e olhou, e o seu sono foi doce trilham os passos dos seus santos pais têm interesse no para ele. Podemos ver vários detalhes da devoção de seu concerto, e têm direito aos seus privilégios. Particu­ Jacó nesta ocasião. larmente: [1] A terra de Canaã é concedida a ele: “Esta terra em que estás deitado”. Como se por deitar-se tão Ele expressou uma grande surpresa com os sinais satisfeito sobre o chão duro ele tivesse tomado posse cle que teve da presença especial de Deus com ele, na­ toda a terra. [2] E prometido a ele que a sua posteridade quele lugar: “O Senhor está neste lugar, e eu não o sabia”, se multiplicaria enormemente, como o pó da terra - que, v. 16. Observe que: 1. As manifestações de Deus ao seu embora ele parecesse agora ter sido arrancado, como povo trazem a sua própria evidência consigo. Deus pode um galho seco, ainda assim ele se tornaria uma árvore dar inegáveis demonstrações da sua presença, e também florescente, que estenderia seus ramos até o mar. Estas dar abundante satisfação às almas dos fiéis de que está foram as bênçãos com as quais seu pai o tinha abençoa­ com eles realmente, uma satisfação que não pode ser do (w. 3,4), e aqui Deus diz Amém a elas, para que ele transmitida a outros, mas que os convence. 2. As vezes pudesse ser mais fortemente consolado. [3] Aqui é acres­ nos encontramos com Deus quando menos pensávamos centado que o Messias deveria vir dos seus lombos, em em nos encontrarmos com Ele. Ele está onde não pen­ quem serão benditas todas as famílias da terra. Cristo é samos que Ele tivesse estado, e é encontrado quando a grande bênção do mundo. Todos os que são abençoados, não o buscamos. Nenhum lugar exclui as visitas divinas qualquer que seja a sua família, são abençoados nele. E (cap. 16.13, e também aqui). Onde quer que estejamos, ninguém, de nenhuma família, está excluído da bênção na cidade ou no deserto, na casa ou no campo, na loja ou nele, exceto aqueles que se excluem a si mesmos. na rua, podemos conservar o nosso relacionamento com (2) Novas promessas lhe foram feitas, adaptadas o céu, que só será interrompido por nossa própria culpa. à sua condição atual, v. 15. [1] Jacó estava apreensivo quanto ao perigo do seu irmão Esaú. Mas Deus promete T A visão lhe provocou temor (v. 17): “Temeu”. Tão protegê-lo. Observe que aqueles a quem Deus protege X longe estava ele de orgulhar-se e sentir exaltado estão a salvo, não importando quem os persiga, [2] Agora além da medida, com a abundância das revelações (2 Co ele tinha uma longa viagem à sua frente, tinha que via­ 12.7), que temeu. Observe que quanto mais vemos de jar sozinho, em um caminho desconhecido, a uma terra Deus, mais causas temos para sentir um santo temor e desconhecida. Mas, “eis que estou contigo”, diz Deus. corarmos diante dele. Aqueles a quem Deus se compraz Observe que onde quer que estejamos, estaremos a sal­ em manifestar-se, portanto, são apresentados, e manti­ vo, e podemos ficar tranqüilos, se tivermos a presença dos, muito humildes, aos seus próprios olhos, e vêm cau­ favorável de Deus conosco. [3] Ele não conhecia, mas sa para temor até mesmo ao Senhor e à sua bondade, Deus sabia das dificuldades que iria encontrar a serviço Oséias 3.5. Ele disse: “Quão terrível é este lugar!” Isto do seu tio. E, portanto, havia promessas de preservá-lo é: “A aparição de Deus neste lugar nunca seria imagi­ em todos os lugares. Observe que Deus sabe como dar nada, exceto com um respeito e uma reverência santos. graça e consolos ao seu povo, adaptados aos eventos fu­ Eu terei um respeito por este lugar, e o recordarei por turos e também aos eventos do presente. [4] Agora ele este sinal, enquanto eu viver”, não que ele julgasse aque­ I I GÊNESIS 28 148 le lugar mais próximo das visões divinas do que outros messa) proverá confortavelmente para mim - e uma vez lugares. Mas o que ele viu ali, nesta ocasião, foi, de certa que Ele prometeu trazer-me de volta a esta terra, isto é, forma, a casa de Deus, a residência da Majestade divina, à casa do meu pai, a quem espero encontrar vivo quando e a porta do céu, isto é, a reunião geral dos habitantes do retornar em paz (.Jacó era tão diferente de Esaú, que mundo superior, assim como as reuniões de uma cidade ansiava pelos dias de luto do seu pai), eu confio nisto”. eram feitas às suas portas. Ou os anjos subindo e des­ Observe que as promessas de Deus devem ser o guia e a cendo eram como viajantes passando e voltando a passar medida dos nossos desejos e expectativas. 2. A modéstia pelas portas de uma cidade. Observe que: 1. Deus está, de Jacó, e a sua grande moderação nos seus desejos. Ele de uma maneira especial, presente onde a sua graça é re­ se contentará, alegremente, tendo pão para comer, e ves­ velada - e onde os seus concertos são divulgados e sela­ tes para vestir. E, embora a promessa de Deus o tivesse dos, assim como antigamente, pelo ministério dos anjos, feito herdeiro de uma grande propriedade, ainda assim também agora por ordenanças instituídas, Mateus 28.20. ele não deseja roupas macias e alimentos delicados. Este 2. Onde Deus nos encontra com a sua presença especial, é o desejo de Agur: “Mantém-me do pão da minha por­ nós devemos encontrá-lo com a mais humilde reverência, ção acostumada”, Provérbios 30.8. Veja 1 Timóteo 6.8. recordando a sua justiça e santidade, e a nossa própria A natureza se contenta com pouco. E a graça, com me­ sordidez e vilania. nos ainda. Aqueles que mais têm, na verdade, não têm mais do que alimento e vestes. O excesso, eles somente Ele tomou cuidado para preservar o memorial guardam ou dão, mas não aproveitam. Se Deus nos der da visão de duas maneiras: 1. Ele tomou a pe­ mais, nós devemos ser agradecidos, e usá-lo para Ele. dra e a pôs por coluna (v. 18). Não como se pensasse que Se Ele nos der somente o necessário, nós devemos ficai’ as visões da sua cabeça se devessem, de alguma maneira, satisfeitos, e desfrutar alegremente a presença dele em à pedra sobre a qual tinha pousado a cabeça, mas desta tudo o que tivermos. 3. A piedade de Jacó, e a sua con­ maneira ele desejava assinalar o lugar até a sua volta, sideração por Deus, que aparece aqui: (1) Naquilo que e erigir um monumento duradouro ao favor de Deus a ele desejava - que Deus estivesse com ele, e o guardas­ ele, e porque agora não tinha tempo de edificar ali um se. Observe que para ficarmos tranqüilos e felizes onde altar, como fazia Abraão nos lugares onde Deus aparecia quer que estivermos, não precisamos desejar nada além a ele, cap. 12.7. Por isto ele derramou azeite sobre esta de ter a presença de Deus conosco, e estar sob a sua pro­ pedra, o que provavelmente era a cerimônia então usada teção. É consolador, em uma jornada, ter um guia por na dedicação dos seus altares, como um penhor da sua um caminho desconhecido, um guarda em um caminho edificação de um altar quando tivesse conveniência para perigoso, para sermos bem conduzidos, bem providos, e isto, como posteriormente o fez, em gratidão a Deus por ter boa companhia em qualquer caminho. E aqueles que esta visão, cap. 35.7. Observe que as concessões de mise­ têm a Deus consigo têm tudo isto, da melhor maneira. ricórdia pedem retribuições de dever, e a doce comunhão (2) Naquilo que decidiu. A sua resolução é: [1] De ma­ que temos com Deus deve ser sempre lembrada. 2. Ele neira geral, apegar-se ao Senhor, como o seu Deus, com deu um novo nome ao lugar, v. 19. Ele se chamava Luz, quem ele está em um concerto: então “o Senhor será o que significa amendoeira. Mas ele deseja que, a partir meu Deus”. Não como se ele o desonrasse e expulsasse, desta ocasião, ele fosse chamado Betei, a casa de Deus. se lhe faltasse alimento e vestes. Não, embora Ele nos Esta graciosa aparição que Deus fez a ele honrou muito destrua, nós devemos apegar-nos a Ele. Devemos dizer: o lugar, e o tornou mais notável, do que todas as amendo­ Então, eu exultarei nele, como meu Deus. Então eu me eiras que floresciam ali. Esta é aquela Betei onde, muito decidirei, mais intensamente, a habitar com Ele. Obser­ tempo depois, está escrito que Deus achou a Jacó, e ali ve que cada misericórdia que recebemos de Deus deve (no que disse a ele) falou conosco, Oséias 12.4. Com o ser aproveitada como uma obrigação adicional sobre nós, passar do tempo, esta Betei, a casa de Deus, tornou-se de andarmos intimamente com Ele, como nosso Deus. Bete-Aven, um lugar de futilidade e iniqüidade, quando [2] Em particular, que ele realizaria alguns atos especiais de devoção, como sinal da sua gratidão. Em primeiro lu­ Jeroboão ali instalou um dos seus bezerros. gar: “Esta pedra, que tenho posto por coluna” - até que Ele fez um voto solene nesta ocasião, w. 20-22. eu retorne, em paz, tomará posse desta terra, e então Através dos votos religiosos, nós damos glória a - “será Casa de Deus”. Isto é: “Um altar será erigido Deus, reconhecemos a nossa dependência dele, e estabe­ aqui, para a honra de Deus”. Em segundo lugar: ‘A Casa lecemos uma obrigação às nossas almas para envolver e de Deus não será mobiliada, nem o seu altar ficará sem motivar a nossa obediência a Ele. Jacó agora estava com um sacrifício: “De tudo quanto me deres, certamente te medo e em aflição. E é oportuno fazer votos em tempos darei o dízimo” - para ser gasto nos altares de Deus, ou de aflição, ou quando buscamos alguma graça especial, para ser distribuído para os seus pobres”, pois ambos Jonas 1.16; Salmos 66.13,14; 1 Samuel 1.11; Números são os destinatários de Suas bênçãos neste mundo. Pro­ 21.1-3. Agora Jacó tinha tido uma graciosa visita do céu. vavelmente era de acordo com alguma instrução geral, Deus tinha renovado o seu concerto com ele, e o concerto recebida do céu, que Abraão e Jacó ofereciam a Deus é mútuo. Quando Deus ratifica as suas promessas a nós, a décima parte dos seus rendimentos. Observe que: 1. é adequado que nós repitamos as nossas promessas a Deus deve ser honrado com os nossos bens, e deve rece­ Ele. Neste voto, observe: 1. A fé de Jacó. Deus tinha dito ber os seus direitos sobre eles. Quando recebemos mais (v. 15): “Eis que estou contigo, e te guardarei”. Jacó se do que a misericórdia normal de Deus, devemos nos em­ apega a isto, e deduz: “Uma vez que Deus estará comigo, penhar para dar alguns exemplos de gratidão a Ele. 2. O e me guardará, como disse, e (o que está implícito na pro­ dízimo é uma proporção muito adequada a ser dedicada w. 16-22 m W GÊNESIS 29 w. 1-8 a Deus, e empregada nos interesses dele. O montante favoreceu. Nossos caminhos serão caminhos de confor­ que entregamos ao Senhor certamente varia conforme a to se nós reconhecermos, continuamente, a presença de prosperidade que recebemos dele, porém sempre entre­ Deus neles. (2) Aqueles que têm rebanhos devem cuidar gamos a décima parte acrescida de ofertas voluntárias, 1 bem deles, e ser diligentes em conhecer o seu estado, Coríntios 16.2; 2 Coríntios 9.7. Provérbios 27.23. Aquilo que está escrito aqui, sobre o cuidado constante dos pastores para com as suas ovelhas (w. 2,3,7,8) pode servir para exemplificar a terna preo­ cupação que o nosso Senhor Jesus, o Grande Pastor das Ca pítu lo 29 ovelhas, tem pelo seu rebanho, a igreja. Pois Ele é o bom Pastor, que conhece as Suas ovelhas, e delas é conhecido, João 10.14. A pedra na boca do poço, que é tão freqüen­ Este capítulo nos apresenta um relato das provi­ temente mencionada aqui, tinha a função de proteger a dências de Deus a respeito de Jacó, de acordo com sua propriedade (pois a água era escassa, não era usus as promessas feitas a este no capítulo anterior. I. communis aquarum-paru o uso de todos), ou para pro­ Como ele foi trazido em segurança ao final da sua teger o poço de danos causados pelo calor do sol, ou de jornada, e levado aos seus parentes que lhe deram alguma mão perversa, ou para evitar que os cordeiros do as boas vindas, w. 1-14. II. Como ele se deu con­ rebanho se afogassem nele. (3) Interesses separados não fortavelmente em casamento, w. 15-30. III. Como devem impedir que nos ajudemos mutuamente. Quan­ a sua família foi edificada, com o nascimento de do todos os pastores vinham juntos com seus rebanhos, quatro filhos, w. 31-35. Os assuntos dos príncipes então, como vizinhos afetuosos, na hora da água, davam e poderosas nações que havia então não estão re­ de beber juntos aos seus rebanhos. (4) Convém que fale­ gistrados no livro de Deus, mas são deixados para mos com cortesia e respeito com os estranhos. Embora serem enterrados no esquecimento. Ao passo que Jacó não fosse um cortesão, mas um homem simples, que estas pequenas preocupações domésticas do santo habitava em tendas, e um estranho aos cumprimentos, Jacó são detalhadamente registradas nas suas mí­ ainda assim ele se dirige de maneira muito cortês às pes­ nimas circunstâncias, para que possam permane­ soas que encontra, e as chama de seus irmãos, v. 4. A cer em eterna lembrança. Pois “bem-aventurada é a lembrança do justo”. lei da beneficência na língua tem poder de mandamento, Provérbios 31.26. Alguns pensam que ele os chama de irmãos porque tinham todos a mesma profissão. Eram A Chegada de Jacó a Padã-Arã pastores, como ele. Embora ele tivesse sido agora pro­ movido, não se envergonhava da sua profissão. (5) Aque­ w. 1-8 les que demonstram respeito, normalmente também Todas as etapas da marcha de Israel a Canaã são re­ são respeitados. Assim como Jacó foi cortês com estes gistradas distintamente, mas nenhum registro especial estranhos, também descobriu que eram corteses com é mantido da viagem de Jacó depois de Betei. Não, ele ele. Quando ele começou a ensiná-los como conduzir as não teve mais uma noite feliz como a que teve em Be­ suas atividades (v. 7), eles não lhe pediram que cuidasse tei, não teve mais visões do Todo-poderoso. Tudo aquilo da sua própria vida, e os deixasse em paz. Mas, embora era como um banquete. Ele não deve esperar que seja o fosse estrangeiro, eles lhe explicaram o motivo da sua seu pão de cada dia. Mas: 1. Aqui lemos com que alegria demora, v. 8. Aqueles que forem amistosos e prestativos ele prosseguiu na sua jornada, depois da doce comunhão terão um tratamento amistoso e prestativo. que teve com Deus, em Betei: Então Jacó ergueu seus pés. Segundo a anotação de margem de algumas tradu­ A Humildade e Dedicação de Raquel ções da Bíblia Sagrada, v. 1. Então ele prosseguiu, com w. 9-14 alegria e vivacidade, sem sobrecarregar-se com suas preocupações, nem limitado pelos seus temores, tendo a certeza da graciosa presença de Deus consigo. Observe Aqui temos: 1. A humildade e dedicação de Raquel: que depois das visões que tivemos de Deus, e dos votos Ela cuidava das ovelhas do seu pai (v. 9), isto é, ela toma­ que fizemos a Ele, em solenes ordenanças, devemos va conta delas, tendo servos, subordinados a ela, que se correr, com paciência, a carreira que nos está proposta, ocupavam das ovelhas. O nome Raquel significa ovelha. Hebreus 12.1.2. Com que felicidade ele chegou ao fim da Observe que o trabalho honesto e útil é aquele de que sua jornada. A Providência o levou ao mesmo lugar onde ninguém precisa se envergonhar, e tampouco deve ser os rebanhos do seu tio deviam beber água, e ali ele se um obstáculo à honra de alguém. 2. A ternura e o afeto encontrou com Raquel, que viria a ser a sua esposa. Ob­ de Jacó. Quando compreendeu que esta era sua parenta serve: (1) A Providência divina deve ser reconhecida em (provavelmente já tinha ouvido antes o seu nome), sa­ todas as pequenas circunstâncias que contribuem para bendo qual era a sua missão nesta região, podemos su­ tornar uma jornada, ou qualquer outra empreitada, con­ por que imediatamente passou pela sua mente que esta fortável e bem sucedida. Se, quando estivermos confu­ deveria ser a sua esposa. Tendo já ficado impressionado sos, tivermos encontros oportunos com aqueles que po­ pelo seu rosto ingênuo e belo (embora provavelmente es­ dem nos orientar - se nos depararmos com um desastre, tivesse queimado de sol, e ela usasse um vestido caseiro e aqueles que estão à mão nos ajudarem - não devemos de uma pastora), ele fica assombrosamente obsequioso, dizer que foi por acaso, nem que a sorte nos favoreceu, e ansioso por servi-la (v. 10), e se dirige a ela, com lá­ mas que foi pela Providência, e que Deus, com isto, nos grimas de alegria e beijos de amor, v. 11. Ela corre com 149 w. 15-30 GÊNESIS 29 150 toda pressa para contar ao seu pai. Pois de maneira ne­ que, no final cios sete anos, este lhe concedesse Raquel nhuma ela tencionava receber as atenções deste parente como esposa. Alguns entendem que, pelos cálculos, pare­ sem o conhecimento e a aprovação do seu pai, v. 12. Este ce que Jacó tinha setenta e sete anos de idade quando se respeito mútuo, no seu primeiro encontro, era um bom propôs a servir por amor a uma mulher, e por uma mu­ presságio de que seriam um casal feliz. 3. A Providência lher guardou o gado. Oséias 12.12. Seus descendentes são tinha feito aquilo que parecia casual e fortuito para dar lembrados disto muito tempo depois, como um exemplo uma satisfação imediata à mente de Jacó, tão logo che­ da humildade da sua origem: provavelmente Raquel fosse gou ao lugar ao qual se destinava. O servo de Abraão, jovem, e dificilmente se casaria, quando Jacó apareceu, o quando chegou em uma missão semelhante, encontrou que o tornou mais desejoso de permanecer, por ela, até um encorajamento semelhante. Assim Deus guia o seu que terminassem os seus sete anos de serviço. povo com os seus olhos, Salmos 32.8. É uma idéia infun­ O cumprimento honesto de Jacó da sua parte do dada que alguns dos autores judeus têm, de que Jacó, ao acordo, v. 20. Assim, serviu .Jacó sete anos por Ra­ beijar Raquel, chorou porque tinha sido atacado, na sua viagem, por Elifaz, o filho mais velho de Esaú, por ordem quel. Se Raquel ainda continuasse a guardar o rebanho do seu pai, que lhe tinha roubado todo o seu dinheiro e as cio seu pai (como realmente fazia, v. 9), a sua convivência suas jóias, que sua mãe lhe tinha dado quando o enviou inocente e religiosa com ela, enquanto guardavam os re­ nesta jornada. Está claro que foi a sua paixão por Raquel, banhos, não podia evitar que a sua familiaridade e o seu e a surpresa deste feliz encontro que fizeram brotar estas afeto mútuo crescessem (o cântico de amor de Salomão lágrimas de seus olhos. 4. Labão, embora não fosse dos é uma pastoral). Se ela agora deixasse de fazê-lo, o alívio homens mais bem humorados, recebeu-o bem, satisfeito que ele lhe daria desta preocupação seria muito graticom a descrição que fez de si mesmo, e a explicação da ra­ ficante. Jacó serviu honestamente durante sete anos, e zão da sua vinda em circunstâncias tão pobres. Enquanto não negligenciou seu contrato, embora já fosse velho. evitamos o extremo, por um lado, de sermos tolamente Ele serviu alegremente, pois estes sete anos foram aos crédulos, devemos tomar cuidado para não cair no outro seus olhos como poucos dias, pelo amor que sentia por extremo, tornando-nos ciumentos e suspeitosos, sem cari­ ela, como se o seu desejo fosse mais consegui-la do que dade. Labão o reconheceu como seu parente: Verdadeira­ tê-la. Observe que o amor torna curtos e fáceis os servi­ mente és tu o meu osso e a minha carne, v. 14. Observe que ços longos e difíceis. Por isto, lemos sobre o trabalho cla são realmente insensíveis aqueles que não são gentis com caridade, Hebreus 6.10. Se soubermos como valorizar a seus parentes, e que se escondem daqueles que são da sua felicidade do céu, os sofrimentos deste tempo presente não serão nada para nós, em comparação com aquela fe­ própria carne, Isaías 58.7. licidade tão grande. Para aqueles que amarem a Deus e aguardarem ansiosamente a volta de Cristo, um século de trabalho será como apenas alguns poucos dias. O Casamento de Jacó w. 15-30 A vil trapaça que Labão lhe fez, quando con­ cluiu o seu tempo: ele colocou Léia nos seus Aqui temos: braços, em vez de Raquel, v. 23. Este foi o pecado de La­ O justo contrato celebrado entre Labão e Jacó, du­ bão. Ele prejudicou tanto Jacó quanto Raquel, cujos afe­ rante o mês que Jacó ali passou, como hóspede, v. 14. tos, sem dúvida, estavam comprometidos mutuamente. Parece que ele não ficou ocioso, nem passou seu tempo E se (como dizem alguns), com isto, Léia não se tornou divertindo-se. Mas como um homem de negócios, embora nada além de uma adúltera, o dano para ela também não não possuísse um rebanho, dedicou-se a servir ao seu tio, foi pequeno. Mas este foi um sofrimento para Jacó, um como tinha começado a fazer (v. 10), quando deu de beber desalento para a alegria do casamento, quando, pela ma­ ao rebanho dele. Observe que onde quer que estejamos, nhã, viu que era Léia, v. 25. É fácil observar aqui como é bom que nos dediquemos a alguma atividade útil, que Jacó foi pago na sua própria moeda. Ele tinha enganado fará com que os outros formem uma boa opinião a nosso o seu próprio pai, quando fingiu ser Esaú, e agora o seu respeito. Aparentemente Labão apreciava tanto a inge­ sogro o enganava. Com isto, embora Labão fosse injusto, nuidade e a dedicação de Jacó, com seus rebanhos, que o Senhor era justo. Como em Juizes 1.7. Até mesmo os desejava que ele pudesse permanecer com ele, e assim justos, se derem um passo em falso, poderão ser assim argumenta, muito apropriadamente: Porque tu és meu ir­ recompensados na terra. Muitos que não ficam, como mão, hás de servir-me de graça?, v. 15. Não, e veja a razão Jacó, desapontados com as atitudes de alguma pessoa, para isto - Se Jacó era tão respeitoso com seu tio, a ponto logo percebem, para sua grande tristeza, que se sentem de prestar-lhe serviços sem exigir nenhuma compensa­ desapontados com o seu caráter. A escolha deste relacio­ ção, ainda assim Labão não seria tão injusto com seu so­ namento, portanto, por ambas as partes, deve ser feito brinho, para aproveitar-se, quer da sua necessidade, quer com bom conselho e consideração, para que, se houver da sua boa índole. Observe que os parentes inferiores não um desapontamento, ele não seja agravado pela consci­ devem ser coagidos. Se o seu dever é nos servil', o nosso ência de uma má administração. dever é recompensá-los. Agora Jacó tinha uma boa opor­ A desculpa e a reparação que Labão ofereceu tunidade para informar Labão sobre o afeto que sentia pelo engano. 1. A desculpa foi frívola: Não se faz pela sua filha, Raquel. E, não tendo nenhum bem material em sua mão com o qual pudesse comprar o seu dote, ele assim no nosso lugar, v. 26. Temos razões para pensar promete a Labão sete anos de serviço, com a condição de que não houvesse tal costume na sua terra, como ele ale­ GÊNESIS 29 151 ga. Porém ele somente frustra Jacó com isto. e ri, do seu engano. Observe que aqueles que agem de forma ímpia, e pensam que podem disfarçar isto com uma brincadeira, mesmo que possam enganar a si mesmos e aos outros, no final descobrirão que Deus não achou nada divertido. Mas se houvesse tal costume, e Labão tivesse decidido observá-lo, ele deveria tê-lo dito a Jacó quando este deci­ diu servi-lo pela sua filha mais jovem. Observe o que diz o provérbio dos antigos: Dos ímpios procede a impiedade, 1 Samuel 24.13. Aqueles que lidam com homens ímpios e traiçoeiros devem esperar ser tratados com impiedade e traição. 2. A compensação da questão só piorou aquilo que já estava mal: nós te daremos também a outra, v. 27. Aqui ele atraiu Jacó ao pecado, à cilada, e à inquietação de multiplicar as suas esposas, o que é uma mancha na sua reputação, que permanecerá até o fim do mundo. O honesto Jacó não desejava isto, mas só queria ser tão fiel a Raquel quanto seu pai tinha sido a Rebeca. Aquele que tinha vivido sem uma esposa até a idade de oitenta e qua­ tro anos, poderia, então, ter ficado satisfeito com uma. Mas Labão, para entregar as suas duas filhas, sem dotes, e para conseguir mais sete anos de serviço de Jacó, o coage desta maneira, e o leva a pensar, através de sua fraude (não tendo sido ainda decidida a questão, como foi posteriormente pela lei divina, Levítico 18.IS, e de ma­ neira mais completa, pelo nosso Salvador, Mateus 19.5), que ele tinha algumas razões plausíveis para se casar com ambas. Ele não podia recusar Raquel, pois a tinha pedido. Mas também não podia recusar Léia, pois tinha se casado com ela. Portanto, Jacó deve ficar satisfeito, e tomar dois talentos, 2 Reis 5.23. Observe que um pecado normalmente é o início de outro. Aqueles que entram por uma porta de iniqüidade dificilmente encontram a saída, mas entram em outra transgressão. A poligamia dos pa­ triarcas era, até certo ponto, desculpável a eles, porque, embora houvesse uma razão contra isto, tão antiga como o casamento de Adão (Ml 2.15), ainda assim não havia nenhum mandamento expresso contra tal prática. Era um pecado cometido por ignorância. Não era o produto de alguma luxúria pecaminosa, mas destinava-se à edifi­ cação da igreja, o que foi o bem que a Providência obteve disto. Mas isto jamais poderia justificar alguma prática semelhante hoje em dia, quando a vontade de Deus é cla­ ramente conhecida, de que um homem e uma mulher se unam, 1 Coríntios 7.2. O casamento com muitas esposas combina bem com o espírito carnal e sensual da impostu­ ra maometana, que o permite. Mas nós não aprendemos isto de Cristo. O Dr. Lightfoot opina que Léia e Raquel são símbolos das duas igrejas, a dos judeus, sob a lei, e a dos gentios, sob o Evangelho. A jovem, mais bela, e mais presente nos pensamentos de Cristo, quando Ele veio, sob a forma de servo. Mas a outra, como Léia, é acei­ ta em primeiro lugar. Porém há um detalhe importante em que a alegoria não se sustenta: pois os gentios, sendo mais jovens, foram mais férteis, Gálatas 4.27. O Aumento da Família de Jacó w. 31-35 Aqui temos o nascimento de quatro dos filhos de Jacó, todos gerados por Léia. Observe: 1. Que Léia, que w. 31-35 era menos amada, foi abençoada com filhos, ao passo que a Raquel esta benção foi negada, v. 31. Veja como a Providência, ao repartir as suas dádivas, observa uma proporção, para manter o equilíbrio, distribuindo cruzes e consolos, um contra o outro, para que ninguém possa ser muito elevado, nem muito diminuído. Raquel deseja filhos, mas é abençoada com o amor do seu esposo. Léia não tem este amor, mas é fértil, A mesma coisa aconte­ ceu com as duas esposas de Elcana (1 Sm 1.5). Pois o Senhor é sábio e justo. Quando o Senhor viu que Léia era aborrecida, isto é, menos amada do que Raquel, no sentido que se exige que amemos menos nosso pai e nos­ sa mãe, em comparação com Cristo (Lc 14.26), então o Senhor concedeu-lhe um filho. Este fato foi uma repre­ ensão a .Jacó, por criar uma diferença tão grande entre aquelas com as quais tinha um relacionamento igual uma repreensão a Raquel, que talvez insultasse sua irmã por causa disto - e um consolo para Léia, para que não se deixasse dominar pelo desprezo que lhe era dirigido: assim Deus dá muito mais honra ao que tem falta dela, 1 Coríntios 12.24. 2. Os nomes que ela dá aos seus filhos expressavam a sua respeitosa consideração, tanto por Deus quanto pelo seu marido. (1) Ela parece ambicio­ nar muito o amor do seu marido: ela admite que a falta dele é a sua aflição (v. 32). Ela não está censurando-o com isto, como se fosse culpa dele, nem repreendendo-o por isto, tornando-se incómoda para ele, mas guardando isto como sua tristeza, embora ela tivesse mais razões para suportar isto, com mais paciência, porque ela mesma ti­ nha consentido na fraude pela qual tornou-se sua esposa. Além disto, podemos e devemos suportar com paciência aquele problema que causamos a nós mesmos, pelo nos­ so próprio pecado e tolice. Léia prometeu a si mesma que os filhos que ela desse a Jacó lhe trariam o interesse e o afeto que ela desejava. Ela chamou o seu primogênito de Rúben (Vejam, Um Filho), com este agradável pensa­ mento: Por isso, agora me amará o meu marido. E com a chegada do seu terceiro filho, Levi (Unido), ela tinha esta expectativa: Agora, esta vez se ajuntará meu mari­ do comigo, v. 34. O afeto mútuo é o dever e o consolo des­ te relacionamento. E os companheiros de jugo devem se empenhar para agradar um ao outro, 1 Coríntios 7.33,34. (2)Léia reconhece, com gratidão, a gentil providência de Deus neste caso: O Senhor atendeu à minha aflição, v. 32. “O Senhor ouviu, isto é, percebeu, que eu era abor­ recida (pois as nossas aflições, assim como estão diante dos olhos de Deus, também levam um clamor aos seus ouvidos), por isto Ele me deu este filho”. Observe que Deus deve ser reconhecido em tudo aquilo que contribuir para o nosso suporte e consolo em meio às nossas afli­ ções, ou para o nosso alívio delas. Devemos reconhecer especialmente a sua piedade e a sua terna misericórdia. Ao quarto filho ela chamou de Judá (Louvor), dizendo: Esta vez louvarei ao Senhor, v. 35. E este foi aquele de quem, segundo a carne, veio Cristo. Observe: [1] Qual­ quer que seja o motivo da nossa alegria, este deve ser o motivo da nossa gratidão. Os novos favores devem nos estimular a louvar a Deus pelos antigos. “Esta vez louva­ rei ao Senhor”, mais e melhor do que tenho feito. [2] To­ dos os nossos louvores devem estar centrados em Cristo. O Senhor Jesus Cristo deve ser tanto a causa como o Mediador deles. Ele descendeu daquele cujo nome era w. 1-13 GÊNESIS 30 152 louvor, pois Ele é o nosso louvor. Cristo está formado no aqui. (1) Um filho não a deixaria satisfeita. Mas, como meu coração? Agora louvarei ao Senhor. Léia tem mais de um, ela pensava que deveria ter mais, também. E assim Raquel disse: Dá-me filhos. (2) Seu co­ ração estava desregradamente preocupado com isto, e, se não tivesse o que desejava ter, ela tiraria a própria C a p ít u l o 3 0 vida, e todos os seus consolos. “Dá-me filhos, senão mor­ ro”, isto é: “Eu me entristecerei até morrer. A falta desta Neste capítulo, temos uma narrativa do aumento: satisfação irá encurtar os meus dias”. Alguns entendem I. Da família de Jacó. Encontramos outros oito que ela estava ameaçando Jacó, e que faria algum tipo de violência a si mesma, se não pudesse obter esta graça. filhos registrados neste capítulo. Dã e Naftali, ge­ rados por Bila, serva de Raquel, w. 1-8. Gade e (3) Ela não se dirigiu a Deus em oração, mas somente Asei-, gerados por Zilpa, serva de Léia, w. 9-1-3. a Jacó, esquecendo-se de que os filhos são herança do Issacar, Zebulom e Diná, gerados por Léia, w. 14Senhor, Salmos 127.3. Nós fazemos mal a Deus e a nós 21. E, o último, José, gerado por Raquel, w. 22-24. mesmos quando o nosso olho se dirige mais aos homens, II. Dos bens de Jacó. Ele faz um novo acordo com os instrumentos das nossas cruzes e confortos, do que a Labão, w. 25-34. E nos seis anos de serviço adi­ Deus, que foi quem os permitiu. Observe uma diferença, cional que ele prestou a Labão, Deus o abençoou entre o pedido de Raquel por esta graça, e o de Ana, 1 maravilhosamente, de modo que o seu rebanho Samuel l.lOss. Raquel invejava. Ana chorava. Raquel tornou-se muito considerável, w. 35-43. Aqui se exigiu ter filhos, e morreu ao ter o segundo. Ana chorou cumpria a benção com a qual Isaque se despe­ por um filho, e teve quatro além dele. Raquel é impor­ diu dele (cap. 28.3): “Deus te faça frutificar, e te tuna e peremptória, Ana é submissa e devota, Se à tua multiplique”. Mesmo estes pequenos detalhes, a serva deres um filho varão, ao Senhor o darei por todos respeito da casa e do campo de Jacó, embora pare­ os dias da sua vida. Que Ana seja imitada, e não Raquel. çam secundários, podem melhorar o nosso apren­ E que os nossos desejos estejam sempre sob a direção e dizado. Pois as Escrituras foram redigidas, não o controle da razão e da religião. para os príncipes e estadistas, para educá-los em 2. Jacó a repreende, e com muita razão. Ele ama­ política. Mas para todas as pessoas, até mesmo as va Raquel, e por isto a reprovaria no que ela fizesse de mais humildes, para orientá-las, nas suas famílias errado, v. 2. Observe que as reprovações fiéis são pro­ e vocações: mas algumas coisas aqui estão regis­ dutos e exemplos de um afeto verdadeiro, Salmos 141.5; tradas a respeito de Jacó, não para imitação, mas Provérbios 27.5,6. Jó reprovou a sua esposa quando ela para advertência. falou como uma tola, Jó 2.10. Veja 1 Coríntios 7.16. Ele se zangou não com a pessoa, mas com o pecado. Ele se expressou de modo a mostrar o seu desagrado. Observe O Aumento da Família de Jacó que às vezes é necessário que uma repreensão seja aca­ w. 1-13 lorada, como uma poção medicinal. Não quente demais, para não queimar o paciente. Mas não fria, para não se Aqui temos as más conseqüências daquele estranho mostrar ineficiente. Foi uma resposta muito grave e te­ casamento que Jacó fez com as duas irmãs. Podemos ob­ mente a que Jacó deu à ordem irada de Raquel: Estou servar: eu no lugar de Deus? Os caldeus parafraseiam bem: “A mim você pede filhos? Você não deveria pedi-los diante T Uma desavença infeliz entre ele e Raquel (w. 1,2), do Senhor?” O texto árabe apresenta: “Estou eu acima X ocasionada não tanto pela sua própria esterilidade de Deus?”; “Posso eu dar-lhe aquilo que Deus lhe nega?” como pela fertilidade da sua irmã. Rebeca, a única espo­ Isto foi dito na condição de um simples homem. Obser­ sa de Isaque, durante muito tempo foi estéril, mas ain­ ve: (1) Jacó reconhece a mão de Deus na aflição que ele da assim não vemos desavenças entre ela e Isaque. Mas compartilhava com a sua esposa: Ele te impediu o fruto aqui, pelo fato de